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O PRINCÍPIO DE TUDO: A POESIA

O primeiro momento da existência! Perguntaram-me: “Do que tenho medo?”. Pensei em responder, de pronto: “Não tenho medo de nada!”. Mentira! Estaria mentindo, sendo falso, dizendo que não tenho medo de nada. Confesso: tenho medo de muitas coisas! Palestrava sobre “Livros e a Arte de Escrever”, para um pequeno grupo de alunos de uma faculdade de Letras do interior do estado de São Paulo. Poderia, na época, ter dado uma resposta teatral, clássica: “Tenho medo da natureza humana!”, algo assim. Refleti. Estaria sendo covarde. Olhei para a aluna – moça miúda, negra, de óculos – sentada sozinha no canto da sala. Repeti – em voz alta – a sua poderosa pergunta: “Do que eu tenho medo?”. Na manhã daquele dia – coincidências não existem –, lendo sobre a Escola Jônica e a vida do filósofo e matemático Anaximandro (610 a.C. – 546 a.C.), discípulo de Tales, havia anotado, no bloco de notas do celular, a verdadeira e sincera resposta. Premonição? Talvez. Foi lendo sobre a Escola Jônica – que buscavam o Arché, conceito central que designa o princípio, origem, substância primordial de todas as coisas –, que construí, ali, na hora, a minha resposta. Derradeira? Talvez. Depois de tantos anos escrevendo, publicando e comercializando livros, guardei no coração muitos medos: medo de fracassar, de não ser lido, medo do ridículo, medo da insignificância literária, medo disso e daquilo e mais: medo de ser esquecido no tempo. Disse-lhe, então: “Tenho medo de ser esquecido!”. Silêncio. Olhei para o relógio. Hora, então, de encerrar a palestra. Resfoleguei: “Mais alguma pergunta?”. Silêncio. Agradeci e me sentei, exausto e com sede. Bebi água e respirei fundo, surpreso com a minha inesperada e íntima resposta: "Medo de ser esquecido!". A aluna – Flávia, talvez – se aproximou e me cumprimentou. Disse-me, com o coração saindo pela boca: “Tenho medo de mostrar as minhas poesias!”. Deu meia volta e foi embora, veloz. Carregava nos braços um caderno espiral, de capa azul. Suas poesias? Pensei. Voltei, então, ao princípio do meu incerto tempo: até o momento primeiro da minha existência de poeta e nada mais. Aconteceu assim: tornei-me editor de livros para que pudesse então publicar os meus versos, os meus textos, os meus rabiscos; depois, tornei-me gráfico, com a missão imortal de imprimi-los; e, por fim, um livreiro, para poder, então, vendê-los, no vasto mundo. Escrever sempre foi a causa primária, a razão de tudo. Quando me tornei editor e gráfico, em 1982 e 1986, respectivamente, o empresário engoliu de vez o poeta. Foi dolorido, na época. Esqueceram da minha poesia! Durante muitos anos tentei – inutilmente – separar o poeta do editor, o gráfico do poeta e o editor do livreiro, sem sucesso. Repetia, sempre: “Serei uma roupa para cada ocasião!”. Enganei-me. Num convite para uma palestra na Academia de Letras de Jacareí, interior de São Paulo – isso no início do ano de 2015 – encontrei, impresso, a resposta, a solução do engodo. Escreveram, no convite: João Scortecci: escritor, editor, gráfico e livreiro. E assim ficou, sequência lógica das coisas. Anaximandro, o filósofo e matemático, escreveu: “O mundo é constituído de contrários, que se autoexcluem o tempo todo. O tempo é o juiz que permite que ora exista um, ora outro. O mundo surge de duas grandes injustiças: primeiro, da cisão dos opostos que ‘fere’ a unidade do princípio; segundo, da luta entre os princípios onde sempre um deles quer tomar o lugar do outro para poder existir.” Na sua singular existência uma trágica nota de rodapé: Relatos doxográficos nos dão conta de que Anaximandro escreveu um livro intitulado "Sobre a Natureza"; contudo, essa obra, infelizmente, perdeu-se no tempo. Pergunto-me, onde sempre um deles quer tomar o lugar do outro para poder existir: “Do que eu tenho medo?". Resposta: da cisão dos opostos que fere a unidade do princípio. Qual deles? O de continuar escrevendo, apenas isso.

João Scortecci

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BI SHENG, GUTENBERG E A INVENÇÃO DOS TIPOS MÓVEIS

O artesão chinês Bi Sheng (990 – 1051 d.C.) era um sujeito estranho. Solitário e de pouca ou nenhuma conversa. Vivia enfronhado no porão do palácio de Sung Tai Tsu, imperador da dinastia Sung, que governou a China de 960 a 1279. Bi Sheng vivia sob a graça e a proteção do imperador. Viajando no tempo, estivemos juntos – três vezes – naquela vida, na China. Na primeira vez, eu era um aprendiz gráfico – com 16 anos de idade –; ele, o importante alquimista do imperador, na época, com pouco mais de 50 anos de idade. Perguntei-lhe: “O que o Mestre está fazendo?”. Bi Sheng não respondeu. Deixei, então, a encomenda – papel, tinta e argila – no chão de pedra da oficina e fui embora. O nosso segundo encontro não foi muito diferente do primeiro. “Bom dia, Mestre!” Bi Sheng levantou a cabeça e me olhou, por alguns segundos, nada mais que isso. Deixei, então, a encomenda no chão de pedra da oficina e fui embora. Nada mais. Pensei: sujeito estranho! No terceiro e último encontro, levei argila e madeira seca para alimentar o forno. Insisti, teimoso que sou: “O que o Mestre está fazendo?”. Bi Sheng – disperso e pensativo – sussurrou: “Ideogramas!”. Doido mesmo. Recolhi o lixo da oficina, arrumei sua cama de dormir, alimentei o forno com lenha nova e – de passagem – dei uma espiada no seu misterioso trabalho. Bi Sheng assava no forno, no dorso de uma pedra incandescente, pequenos blocos de argila. Na história das artes gráficas Bi Sheng foi o inventor da tecnologia de tipos móveis, uma das quatro grandes invenções da antiga China. Eu estava lá. Vi e não vi. Entre 1041 e 1048, Bi Sheng moldou ideogramas – símbolos gráficos – em pequenos blocos de argila úmida, desenhou na superfície de cada um deles um ideograma chinês e os levou ao forno para endurecê-los. Montou sinais, símbolos, palavras, cobriu-os com tinta fresca e, depois, forjou-os no branco do papel. Pura maluquice! A invenção de Bi Sheng – base da prensa de tipos móveis – avançou no tempo e viajou pelos caminhos do destino, até Johannes Gutenberg. Despedimo-nos, naquele mesmo dia, no melhor da criação. “Adeus!”. Bi Sheng não respondeu. Recolheu-se. Reencontramo-nos 400 anos depois, em Mogúncia, na Alemanha, no ano da graça de 1450. “Bi Sheng, é você?”, perguntei. Ele riu. “Sim e não. Eu agora me chamo Johannes Gutenberg”. “E o que o Mestre faz aqui?”, quis saber, curioso. Bi Sheng, ou melhor, Johannes Gutenberg, respondeu-me: “Eu vim concluir a minha engenhoca e, de gosto, imprimir, talvez, a Bíblia”. Olhou-me surpreso: “E você, continua aprendiz?”. Respondi: “Sim. No melhor das impressões!”. Risos. Ele riu. Coloquei a encomenda no chão da oficina e fui embora, dessa vez, para sempre, viajante na imensidão do tempo.

João Scortecci

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O PRINCÍPIO DE TUDO: ALÉM DA POESIA

O primeiro momento da existência! Perguntaram-me: “Do que tenho medo?”. Pensei em responder, de pronto: “Não tenho medo de nada!”. Mentira! Estaria mentindo, sendo falso, dizer que não tenho medo de nada. Confesso: Tenho medo de muitas coisas! Palestrava sobre “Livros e a Arte de Escrever”, para um pequeno grupo de alunos de uma faculdade de letras do interior de São Paulo. Poderia, na época, ter dado uma resposta teatral, clássica: “Tenho medo da Natureza Humana!”, algo assim. Refleti. Estaria sendo covarde. Olhei para a aluna - moça miúda, negra, de óculos - sentada sozinha, no canto da sala. Repeti, então - em voz alta - a sua poderosa pergunta: “Do que eu tenho medo?”. Na manhã daquele dia, coincidências não existem, lendo sobre a Escola Jônica e a vida do filósofo e matemático Anaximandro (610 a.C. – 546 a.C.), discípulo de Tales, havia anotado no bloco de notas do celular, a verdadeira e sincera resposta. Premonição? Talvez. Lendo sobre a Escola Jônica - que buscavam o Arché, conceito central que designa o princípio, origem, substância primordial de todas as coisas -, construí, ali, na hora, a minha resposta. Derradeira? Talvez. Depois de tantos anos escrevendo, publicando e comercializando livros, guardei no coração muitos medos: medo de fracassar, de não ser lido, medo do ridículo, medo da insignificância literária, medo disso e daquilo e mais: medo de ser esquecido no tempo. Disse-lhe, então: “Tenho medo de ser esquecido!” Silêncio. Olhei as horas no relógio. Hora, então, de encerrar a palestra. Resfoleguei: “Mais alguma pergunta?” Silêncio. Agradeci e sentei-me, exausto e com sede. Bebi água e respirei fundo, surpreso com a minha inesperada e íntima resposta: "Medo de ser esquecido!" A aluna - Flávia, talvez - aproximou-se e cumprimentou-me. Disse-me, com o coração saindo pela boca: “Tenho medo de mostrar as minhas poesias!”. Deu meia volta e foi embora, veloz. Carregava nos braços um caderno espiral, de capa azul. Suas poesias? Pensei. Voltei, então, ao princípio do meu incerto tempo: até o momento primeiro da minha existência de poeta e nada mais. Aconteceu, assim: Tornei-me editor de livros para que pudesse então publicar os meus versos, os meus textos, os meus rabiscos, depois, tornei-me gráfico, com a missão imortal de imprimi-los e por fim, um livreiro, para poder, então, vendê-los, no vasto mundo. Escrever, sempre foi, a causa primária, a razão de tudo. Quando tornei-me editor e gráfico, em 1982 e 1986, respectivamente, o empresário engoliu de vez o poeta. Foi dolorido, na época. Esqueceram da minha poesia! Durante muitos anos tentei - inutilmente - separar o poeta do editor, o gráfico do poeta e o editor do livreiro, sem sucesso. Repetia, sempre: “Serei uma roupa para cada ocasião!”. Enganei-me. Num convite para uma palestra na Academia de Letras de Jacareí, interior de São Paulo – isso no início do ano de 2015 – encontrei, impresso, a resposta, a solução do engodo. Escreveram, no convite: João Scortecci: Escritor, editor, gráfico e livreiro. E assim ficou, sequência lógica das coisas. Anaximandro, o filósofo e matemático, escreveu: “O mundo é constituído de contrários, que se auto excluem o tempo todo. O tempo é o juiz que permite que ora exista um, ora outro. O mundo surge de duas grandes injustiças: primeiro, da cisão dos opostos que "fere" a unidade do princípio; segundo, da luta entre os princípios onde sempre um deles quer tomar o lugar do outro para poder existir.” Na sua singular existência uma trágica nota de rodapé: Relatos doxográficos nos dão conta de que Anaximandro escreveu um livro intitulado Sobre a Natureza; contudo, essa obra perdeu-se no tempo. Pergunto-me, onde sempre um deles quer tomar o lugar do outro para poder existir: “Do que eu tenho medo?" Resposta: Da cisão dos opostos que "fere" a unidade do princípio. Qual? Continuar escrevendo, apenas isso.

João Scortecci


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ÓSTRACOS DE TELHA DE BARRO E AS BALADEIRAS NO RIACHO PAJEÚ

Quebrar telhas! Quando criança - isso no Ceará dos anos 1960 - quebrávamos telhas de barro e dos cacos fazíamos “óstracos” para caçar calangos, tijubinas, ratos do mato, sabiás e rolinhas de papo gordo, no vale do riacho Pajeú. Lembro-me que, nos cacos, desenhávamos números da sorte, estrelas do céu com cinco pontas, letras com as iniciais do nome e flechas agudas, com as inquietudes, dores e pecados do coração. Tempestades? Talvez. Éramos caçadores, predadores da morte! Pendurávamos no pescoço um pente de óstracos. Munição para as baladeiras — os estilingues — feitas de forquilhas de goiabeira, câmaras de pneu, cortadas na grossura de um dedo, amarradas e presas, num pequeno retângulo de couro cru, que abraçavam os projéteis do dia. Os óstracos com cinco pontas eram balas de prata. Eu - mesmo míope e afobado - era caçador bom de pontaria! A caça do dia ia direto para o bornal de pano, feito de saco de farinha. No final da tarde, antes do banho de bacia, contávamos - numa roda de feitos - o melhor da safra. Mentíamos muito: do preá que fugiu ligeiro, da rolinha que escapou, do calango que, mesmo alvejado, escapuliu pelo buraco do muro. Na Grécia Antiga, em Atenas, os óstracos eram usados como cédulas de votação para determinar se uma pessoa deveria ou não ser punida com o ostracismo, o desterro social e político. As “Cartas de Laquis” que compreendem 21 óstracos, encontradas no sítio de Tel Duveir, na Palestina, entre 1932 e 1938, são peças que datam do fim do período de ocupação judaíta, em Laquis — cidade do Antigo Oriente Próximo, agora um sítio arqueológico e um parque nacional israelense — antes de sua destruição, em 586 a.C., pelas mãos de Nabucodonosor II, o Grande, rei do Império Neobabilônico. Os “Óstracos de Samaria”, conjunto de 64 fragmentos de cerâmica, com inscrições em caracteres hebreus, encontrados na sala do tesouro do palácio de Acabe, em Samaria — região montanhosa do Oriente Médio, constituída pelo antigo reino de Israel, entre os territórios da Cisjordânia e de Israel — registram carregamentos de óleo e vinho levados de vários lugares vizinhos para Samaria. Na época da escrita dos óstracos, os israelitas associavam a adoração de Jeová com a do deus cananeu, Baal. Alguns nomes de pessoas encontrados nos óstracos de Samaria significam “Baal é meu pai”, “Baal canta”, “Baal é forte”, “Baal se lembra”. E eu me lembro, ainda, de — no tempo em que enterrávamos tesouros no quintal de casa — ter guardado na lancheira do Zorro um caco de telha no formato da cabeça de leão. Não me recordo de tê-lo resgatado, nem a lancheira. Nesse pote do tesouro, além do óstraco cabeça de leão, guardei, também, um pente de osso, um anel de bambu, um lápis de carpinteiro, um engodo de barbante, uma tampinha de refrigerante Grapette, um anzol de pescar mussum preto e um carretel de linha 24 — com cerol — para lancear arraia no vale do riacho Pajeú. “Pajeu é meu lar”, “Pajeu canta”, “Pajeu é forte”, “Pajeu se lembra”. Sempre que a dor da cólera aperta a alma: quebro telhas, pinto o corpo com sangue de guerra, costuro na pele novo bornal de saco de farinha e, feroz, quebro-me inteiro: óstracos do barro, retratos de Samaria, balas de prata no coração do tempo. Tempestades? Talvez. 

João Scortecci


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FOBIAS E O AMOR EMBURRECIDO DA GRÉCIA ANTIGA

Acordei com “alguém” no rádio falando sobre ansiedade, depressão e tecnofobia. Tecnofobia? Isso mesmo. Não conhecia a expressão. Levantei e fui saber do assunto: medo, resistência, aversão à tecnologia. Minha mãe Nilce, professora e advogada brilhante, leitora voraz, odiava “botões”. Não escondia de ninguém o seu “transtorno”. Dizia sempre: “Gostaria de ter nascido num mundo sem botões!”. Tecnofobia por computadores, sistemas autônomos, celulares, aplicativos, são espinhos que assustam muita gente. “Tudo invenção do diabo!”, segundo alguns. A escrita – a mais importante de todas as invenções humanas, sem a qual nossas “ciências” seriam apenas uma “lamparina” na escuridão do conhecimento – foi recebida com desconfiança por ninguém menos do que Platão (428/‎427 a.C. – 348/‎347 a.C.), filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, discípulo de Sócrates (c.470 a.C. – 399 a.C.) e fundador da Academia em Atenas. No diálogo “Fedro”, Platão sugere que a disseminação da escrita mataria a memória, pois ninguém mais se preocuparia em exercitar a capacidade de guardar informações. Lembro-me de ter escutado algo parecido quando surgiram as primeiras calculadoras eletrônicas de bolso. Algo assim: “O mundo vai emburrecer!”. No ano de 1971, meu pai Luiz Gonzaga recebeu um convite especial. Um convite tecnológico! Evento de lançamento da primeira calculadora eletrônica de bolso da Sharp. O evento – chique e memorável – aconteceu no saguão do Cine São Luiz (Luiz Severiano Ribeiro), na Praça do Ferreira, no coração da cidade de Fortaleza. Quando papai Luiz morreu, fiz questão de ficar com a coleção de filmes 8 e Super 8 mm, o seu canivete suíço, os jogos de tabuleiros – gamão e outros – e duas calculadoras, uma Sharp, de cristal líquido e uma Curta, calculadora mecânica inventada por Curt Herzstark em 1948. Raridades! O livro “Fedro”, escrito por Platão em torno do ano 370 a.C. – que li no ano de 1974, no volume I, da coleção “Os Pensadores” (Editora Abril Cultural) – é um diálogo entre Platão, Sócrates e Fedro, ateniense jovem e rico, filho de Phythoclès. A obra versa, predominantemente, sobre o amor, abordando temas diversos como a alma, a escrita e a retórica, a metempsicose, a tradição grega da reencarnação; “ero”, o amor erótico; e “philia”, a amizade. Os gregos antigos tinham mais de uma palavra para definir a natureza do amor: “eros”, “philia” e “ágape”, amor por todos os seres, conexão com a natureza, a humanidade e o universo. Pesquisando na Internet sobre fobias, encontrei mais de 150 tipos. Curiosidade mata! Listei, a gosto, cinco fobias: “Ablepsifobia” (medo de ficar cego), “Agrizoofobia” (medo de animais selvagens), “Amnesifobia” (medo de perder a memória), “Toxofobia” (medo de morrer envenenado) e “Aracnofobia” (medo de aranhas). Cinco fobias que habitam os meus medos. Estranho – muito estranho mesmo – foi encontrar na lista das 150 fobias a “Metrofobia”, medo de poesia. Medo de poesia? Morrendo e aprendendo. Encontrei, também, outras fobias estranhas: Corofobia (medo de dança), Xantofobia (medo da cor amarela), Hipopotomonstrosesquipedaliofobia (medo de palavras grandes) e Alectorofobia (medo de galinhas). Platão tinha razão: “O mundo emburreceu!”. Tudo invenção do diabo!

João Scortecci

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MARIA JOSÉ DE CARVALHO, FEDERICO GARCIA LORCA E O CABARÉ DO GATO

Conheci o Cabaré do Gato, na Rua Silva Bueno, n.1533, no bairro Ipiranga, capital paulista, nos anos 1980. Quem me levou – pela primeira vez – para uma apresentação lítero-musical, foi a poeta, dramaturga, professora universitária e tradutora Renata Pallottini (1931 – 2021). No endereço, morava a poeta, atriz, cantora, tradutora, pianista, diretora e crítica teatral e professora de dicção Maria José de Carvalho (1919 – 1995), figura marcante na cultura paulistana entre os anos 1940 e 1970. Estudou canto, piano e violino no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Foi casada com o maestro Diogo Pacheco (Diogo de Assis Pacheco, 1921 – 2022). Em 1986, Maria José de Carvalho traduziu e publicou, pela Scortecci Editora, o livro “Poema do Cante Jondo” (1921), do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca (1898 – 1936), nascido na província de Granada, comunidade autónoma de Andaluzia, Espanha. Lorca integrou a “Geração de 27”, grupo de artistas e literatos espanhóis que explorava formas vanguardistas nas artes e na poesia. Foi um dos maiores representantes do teatro poético e o poeta de maior influência e popularidade da literatura espanhola do século XX. Conviveu com artistas como o pintor Salvador Dalí e o cineasta Luis Buñuel. Seu estilo é marcado por simbologias e referências à cultura tradicional e popular espanhola. Aos 38 anos de idade, Lorca foi assassinado por fuzilamento, por ordem da ditadura do General Francisco Franco. Foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola (1936 a 1939), que matou mais de 1 milhão de pessoas. Os motivos do seu assassinato são incertos e controversos. Acredita-se que tenha sido fuzilado às 4h45 da madrugada do dia 18 de agosto de 1936 e enterrado em vala comum, nas proximidades da cidade de Alfacar, na província de Granada. Em sua curta existência, Lorca escreveu importantes obras-primas da literatura, várias delas publicadas postumamente. Uma de suas mais elogiadas criações poéticas é “Romancero Gitano” (“Romanceiro Cigano”), de 1928, com poemas sobre a vida e a cultura dos ciganos de Andaluzia. Eis um trecho do poema “Preciosa e o ar”: “Sua lua de pergaminho/ Preciosa tocando vem,/ por um anfíbio sendeiro/ de cristais e louros./ O silêncio sem estrelas,/ fugindo do sonsonete,/ cai onde o mar bate e canta/ sua noite cheia de peixes (...)”. Quando adentrei no casarão da Rua Silva Bueno, no Ipiranga, templo da poeta e atriz Maria José Carvalho, de pronto descobri a razão do nome “Cabaré do Gato”: gatos, centenas deles, ilhados e entrincheirados, miados, domesticados, selvagens, cobrindo todo o cio da noite de lua cheia. O casarão construído em 1927 atualmente abriga a Casa de Teatro “Maria José de Carvalho”.

João Scortecci

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SÃO PAULO: INESPERADA E MEMORIALISTA

Quem pedala – não importa o lugar – sempre tromba com algo inesperado e interessante. Moro na cidade de São Paulo desde 1972 e durante muitos anos frequentei a região do Theatro Municipal de São Paulo, Avenida São João, Avenida Ipiranga, Praça da República e Largo do Paissandu. Desci num pedal leve do pátio do Teatro até o Vale do Anhangabaú, contornei o prédio dos Correios, subi dois quarteirões da Avenida São João e parei – para água e descanso – no Largo do Paissandu, em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Do nada, avistei uma pequenina rua, estreita, saindo do Largo do Paissandu, de nome Abelardo Pinto, ao lado do antigo Hotel Piolin. Aproximei-me e estacionei a bike. Junto à denominação da rua, uma placa. Adoro placas! Rua Abelardo Pinto (Abelardo Pinto, 1887 – 1973), conhecido por seu nome artístico, Palhaço Piolin. O dia de seu nascimento – 27 de março – foi escolhido para a data comemorativa do Dia do Circo no Brasil. Não sabia. Fotografei a placa, para não esquecer: “Meu sonho era ser engenheiro. Queria construir pontes, estradas, castelos. Construí apenas castelos de sonhos para muita gente. Sou, de qualquer maneira, um engenheiro! E estou feliz com isso!” E pensar que tudo que Piolin construiu – alegria, amor e infância – continua firme e forte nos corações de muitos. Piolin é um termo espanhol para “barbante” ou “fio”, e lhe foi dado pela sua magreza e pernas compridas. Abelardo Pinto “Piolin” morreu no dia 4 de setembro de 1973. Subi na bike e parti, veloz. São Paulo, inesperada e memorialista!

João Scortecci


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SCENÁRIOS DA VIDA - O CÉGO E O ATEU E A TURMA DA MÔNICA

 Conheci o ilustrador e criador da Turma da Mônica, Mauricio de Sousa, em setembro de 1989. Quem nos apresentou foi sua irmã, Yara Maura Silva, quando da publicação pela Scortecci Editora do livro de sonetos “Scenarios da vida – O cégo e o ateu”, do poeta, compositor e pintor Antonio Maurício de Sousa, seu pai. A obra – de 1938 e com a grafia da época – fez parte das comemorações de inauguração da Praça Antonio Maurício de Sousa, com o busto de bronze do autor, na cidade de Santa Isabel, Região Metropolitana de São Paulo. A arte da capa foi criação de José Miguel Silva Lara, profissional dos Estúdios Maurício de Sousa. Antonio nasceu poeta, mas também foi desenhista, pintor, compositor – teve várias músicas e canções gravadas –, radialista – atuou nas rádios Piratininga, Cruzeiro do Sul e Marabá –, palhaço de circo, barbeiro, impressor de linotipo e sonhador! Durante muito tempo, quando trabalhava como barbeiro, imprimiu numa impressora de tipos –instalada nos fundos da barbearia – um jornalzinho de nome “A Caveira”, com assuntos diversos, que ele mesmo escrevia, editava e imprimia. Era distribuído de mão em mão e vez por outra criticava – ardidamente – políticos, poderosos e religiosos da cidade de Mogi das Cruzes/SP, onde a família morava na época. O meu primeiro encontro com o criador da “Turma da Mônica” aconteceu nos Estúdios da Mauricio de Sousa, na capital paulista. Maurício foi gentil e atencioso. Palpitou sobre a publicação do livro do pai, a arte final da capa, o texto das orelhas – biografia do autor – e pediu – de pronto – que seu “staff” providenciasse e incluísse, nas revistinhas da Turma da Mônica, matéria de destaque sobre a obra e a inauguração da praça em homenagem a seu pai. “Você tem filhos?”, perguntou-me. “Tenho”. E, aproveitando a deixa, acrescentei: “Chama-se Alexandre e no próximo dia 2 de outubro completa 3 anos de idade”. Maurício, então, pegou papel e caneta de desenho, cor preta, desenhou a Mônica em um cartão e escreveu: “Parabéns, Alexandre!”. O cartão – guardado a sete chaves – virou matriz de convite para a sua festa de aniversário. Quando o ilustrador Maurício nasceu – primogênito de Antonio Maurício de Sousa –, o poeta escreveu o soneto intitulado “Nosso Filho”, obra incluída no livro “Scenarios da vida - O cégo e o ateu”. Segue: “És o fructo de um grande e santo amôr.../ És a fascinação, és esperança!/ A fúlgida ventura que o Senhor,/ Enviara para nós como lembrança./ Que não tenhas na vida um dissabôr.../ Que o teu futuro seja só bonança.../ Que ames Deus e teus paes, com tal fulgor,/ Como te amamos já, desde creança./ Transbordante de amôr o nosso ninho,/ E os desejos que temos, tem um brilho/ Que é para iluminar o teu caminho./ Já que segues comnosco o mesmo trilho,/ Esperamos que Deus, com seu carinho/ Faça de ti um bom e nobre filho!”. E, no soneto “Confissão”, expressa o seu amor pela poeta Petronilha de Sousa, esposa e mãe: “Á quem a minha vida já pertence; o encanto que embriaga e que fascina.”. Na apresentação do livro “Scenarios da vida – O cego e o ateu”, seus filhos –Maurício, Mariza, Maura e Márcio – escreveram: “Na sua obra o poeta se perpetua e segue existindo”. O poeta Antonio Maurício de Sousa faleceu na cidade de São Vicente, litoral paulista, no dia 28 de agosto de 1977.

João Scortecci

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STEFAN ZWEIG: O MUNDO QUE EU VI

Na casa onde morávamos – na Avenida D. Manoel, 1086, centro, na cidade de Fortaleza/CE dos anos 1960 – havia uma biblioteca belíssima, de tirar o fôlego. Um santuário! Papai Luiz e mamãe Nilce cuidavam dela com carinho e amor aos livros. Vez por outra, recebíamos novidades. Livros vindos de São Paulo! Lembro-me da festa que era abrir caixas abarrotadas de livros e do fascínio de arrumá-los nas estantes de jacarandá. A biblioteca ficava na entrada da casa, com acesso pela sala principal, a chamada “sala de visitas”. No centro, uma pequena mesa com cadeira de palhinha, luminária, porta-canetas, furador de papel, grampeador e um risque-rabisque. Nas estantes, a coleção do Prêmio Nobel de Literatura, enciclopédias Tesouro da Juventude, Barsa, Larousse, coleção Memórias de Carlos Lacerda, Monteiro Lobato e dos “queridos” da minha mãe Nilce: Agatha Christie, Júlio Verne e Stefan Zweig. O poeta, romancista, dramaturgo, jornalista e biógrafo judeu-austríaco Stefan Zweig (1881 – 1942), dos anos 1920 até a sua morte, foi um dos escritores mais famosos do mundo. Em 1934, fugindo do nazismo, deixou a Áustria, passou a viver na Inglaterra e se naturalizou cidadão britânico. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e o avanço das tropas de Hitler na Europa Ocidental, em 1940 se estabeleceu em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Entre 1940 e 1941, Zweig e Lotte (Charlotte Elizabeth Altmann), sua secretária e segunda esposa, estiveram três vezes no Brasil. É dessa época o ensaio “Brasil, país do futuro”, cujo título se converteu em “epíteto nacional” – nas palavras de seu biógrafo Alberto Dines (1932 – 2018) e, com o tempo, tornou-se um “carma”, motivo de piada, como se o Brasil fosse um “eterno país do futuro”. Em 1942, Zweig e Charlotte se estabeleceram na cidade de Petrópolis, na região serrana do estado Rio de Janeiro, onde ele finalizou a autobiografia “O mundo que eu vi”, escreveu a novela “Schachnovelle: conto de xadrez” e deu início à obra “O mundo de ontem”, um trabalho autobiográfico, com uma descrição da Europa em período anterior a 1914. Em 22 de fevereiro de 1942, deprimido com o crescimento da intolerância, da perseguição aos judeus, do nazismo e do autoritarismo na Europa e sem esperanças no futuro da humanidade, Zweig escreveu uma carta de despedida e, com uma dose fatal de barbitúricos, ele e a esposa cometeram suicídio. Zweig escreveu: “Cada dia eu aprendi a amar mais este país e não gostaria de ter que reconstruir minha vida em outro lugar depois que o mundo da minha própria língua se afundou e se perdeu para mim e minha pátria espiritual, a Europa, destruiu a si própria. Mas, para começar tudo de novo, um homem de 60 anos precisa de poderes especiais e meu próprio poder desgastou-se após anos vagando sem um assento. Por isso, prefiro terminar a minha vida no momento certo, como um homem cuja obra cultural foi sempre a mais pura de suas alegrias e, também, a sua liberdade pessoal – a mais preciosa fruição neste mundo. Deixo saudações a todos os meus amigos: talvez vivam para ver o nascer do sol depois desta longa noite. Eu, mais impaciente, vou embora antes deles. – Stefan Zweig, 1942.” A versão de suicídio do casal é contestada até hoje. Existe farta documentação apontando para assassinatos. Creio que o mistério ficará para sempre. A casa em Petrópolis, onde o casal viveu por alguns meses e morreu, é hoje um centro cultural dedicado à vida e à obra de Zweig. Quando lembro da minha mãe Nilce na biblioteca lendo um livro, pergunto-lhe: “Stefan Zweig?”. Ela sorri. “Sim!”, responde, sem tirar os olhos do livro. Mamãe Nilce e sua voz inconfundível: “João, aqui é mamãe!” Foi o que ficou no coração, além do amor e da eterna saudade.

João Scortecci

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"OUROBOROS" E A NATUREZA CÍCLICA DA VIDA

A vida é cíclica: começo, meio e fim. Essência de sua natureza! Infinita – por definição, conceito ou fé – e geometricamente representada pelo número oito, deitado ou em pé. Tanto faz. Sua inclinação para a direita, esquerda ou centro – igual à vida de idas e vindas – é cenário mágico do que somos: passado, presente e futuro. Cíclica e imprecisa – a vida – “acontece” nos limites e no espaço dimensional do universo: o da existência! Nada fora do universo respira, pensa, nega, aceita, sobrevive e ama. Na posse do Presidente do Estados Unidos da América Joe Biden para o mandato de 20/01/2021 a 20/01/2025, a jovem poeta negra norte-americana Amanda Gorman leu seu poema “A colina que subimos” e disse: “O que eu realmente desejo com o poema é ser capaz de usar minhas palavras de uma forma em que nosso país ainda possa se unir e se curar...” Estamos doentes! A vida é cíclica – por sigma ou sinal – de natureza divina e espiritual. Espelho que nos olha: mastro, velas e ventos. Essência que resfolega conceitos, sabedorias e fé. E mais: esperança! A colina que subimos – do oito em movimento – não representa inércia, castigo, vazio da besta ou destino da sorte. Significa herança, linhagem e equilíbrio. É a serpente Ouroboros da mitologia grega, devorando a sua própria cauda. Difícil definir começo e fim. Ouroboros representa a eternidade, o ciclo infinito de renovação, a autodestruição e recriação e a união do começo com o fim. Ouroboros “se-devora-se”, poderosa, arrogante, insaciável e cruel. Até quando? Não sabemos. Estamos – ainda – subindo a colina das incertezas e da natureza humana.

João Scortecci

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POEMA APALAVRADO

Apalavrar e pactuar! Depois, então, abraçávamo-nos! Eu e você – crianças do tempo de ontem – lado a lado, no lambe-lambe da praça da matriz. Éramos raízes: trilhas da foto preto e branco! até então: o apalavrado nos bastava. Fio de bigode, cumplicidade, crenças. Valia o olho! Valia o dedo agudo na boca do vento! Valia o sangue do pacto eterno! Eu segurando um poema-cartaz e você - desavisado de tudo - um pote de cola. Olhamo-nos. Perguntei-lhe, então: você me empresta a cola? Surpreendeu-me: “Com uma condição!” Disse-me. Quis, então, saber. Resfolegou-se: “Quero colar o cartaz-poema no lambe-lambe!”. Silêncios. Alinhei o cartaz-poema no lambe-lambe da praça da matriz e você – com uma brocha – molhou de cola e água os versos do papel. Parecia feliz. Depois, deu dois passos para trás e leu, em voz alta, o poema. Algo assim: Apalavrar e pactuar! Depois, então, despedimo-nos de vez. Adeus. Perdemo-nos no tempo: um do outro. Mil anos, talvez. Hoje, acordei com a visão do lambe-lambe no coração. Inteiro e iluminado. Vivíssimo, em preto e branco: praça da matriz, infância, lembranças. Abraçávamo-nos! O cartaz-poema estava lá: pactuado, apalavrado, nas raízes do tempo. Na valia do olho!    

João Scortecci


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PALIATIVOS E AS FRAQUEZAS SÓRDIDAS DA ALMA

"Paliativo” é a palavra da moda. Nos últimos dias, duas pessoas – assuntos e lugares diferentes – pronunciaram-na num papo-cabeça. Notei que os dois amigos a usaram com sapiência. Encontrei-a, também, em textos da Internet e num artigo sobre economia circular, em um jornal paulistano de grande circulação. “Paliativo” significa: “que tem a qualidade de acalmar, de abrandar temporariamente um mal” ou “que serve para atenuar um mal ou protelar uma crise”. Fico com a segunda acepção, que, acho, diz mais sobre o que quero dizer. Eu diria, ainda: definição oportuna! Outro dia – não faz muito tempo – “resiliência” era a bola da vez. Uma febre! “Resiliência” significa “a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas”. Lembro-me de que, na época, vivíamos “flatulências” por dias melhores. Nada mudou, creio. Adaptar-se e superar obstáculos! Agora, no auge dos “paliativos”, no engodo que vive o País e o mundo, estamos sendo enforcados com fio de prata. Tentei – inutilmente, creio – juntá-las, estrategicamente: “paliativo” e “resiliência”, sem sucesso. Algo do tipo: “elo perdido” ou “em algum lugar do passado”. Conclusão do imbróglio: elas não “se conversam”! Estamos – no pior da hora – por atenuar o mal e tentar protelar a crise das almas. As palavras e expressões – da moda – entram e saem da cabeça das pessoas na velocidade da desrazão. E do tempo, claro. A lista de palavras que vão e voltam é grande: “relativo”, “evidentemente”, “óbvio”, “com certeza”, “imexível”, “feedback”, “sinergia”, “networking”, “cancelamento”, “fake news”, “agregar valor”, “se conversar”, “cashback”, “empoderamento”, “resiliência”. Devo ter esquecido uma penca delas. Perdão! A ideia não era listá-las. A ideia era, apenas, registrar o momento ambíguo do hoje. Uma conclusão ruim: “paliativo” combina com “cuidado”. Assim, talvez: cuidados paliativos! É o que nos resta, ainda. Fraquezas sórdidas da alma, em algum lugar perdido da natureza humana.

João Scortecci
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NO DIVERSO DE NÓS

Eu estava lá, você também e outros. Contei a minha versão do que havia visto: detalhadamente! Todos riram de mim. Você, então, contou a sua versão. A mesma história: só que do seu jeito: leve e doce. Todos – incrédulos – gargalharam de nós. Outros tentaram – em vão – explicar do mesmo, do que haviam visto, sem sucesso. Não houve consenso e nem certeza alguma sobre nada. Silêncios. Eu estava lá, você também e outros. Calamo-nos, então, no diverso, na singularidades do vazio. Cada alma com o seu jeito de ser! Nós, poetas, sentamo-nos, então, no chão do silêncio, no caminho do tempo. E lá ficamos: perdidos, ausentes, distantes. Versamos e cantamos - juntos - palavras de amor, de morte, de dor, do nada sobre o nada. Depois, acendemos fogueiras e algumas luas. Assamos batatas, castanhas e milho verde. Bebemos mel e sangue. Já tarde da noite, despedimo-nos, uns dos outros, com gosto de fim. Antes do último gozo, queimamos no fogo versos do poema incompleto. Selamos, ali, então, nossos destinos. Nossos pecados, nossas danações nas águas do rio, dos gritos - amordaçados - no avesso de nós. Apagamos, ainda, do caminho da volta pés, trilhas, segredos e mapas. Nada ficou. Nenhuma travessia, sem rastros. Nenhum cheiro no ar. Partimos, então. E os versos, então, gargalharam de nós. Juventude transviada! James Dean? quem lembra? Era o moço rebelde da seção da tarde, do topete, dos rachas, das pelejas. Era - de longe - a melhor versão da época. Era o visto. E a sorte rindo de nós.


João Scortecci

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PALESTRA ITALIA E A MANIA DE “DAR COTOCO”

“Uma coisa puxa a outra” era o lema das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo (IRFM). Em seu auge – isso nos anos 1940 –, o grupo chegou a controlar mais de 350 empresas, atuando em diversos setores da economia: alimentos, tecidos, bancos, portos, ferrovias e agricultura. A IRFM foi fundada pelo empresário e banqueiro ítalo-brasileiro, Francesco Matarazzo (Francesco Antonio Maria Matarazzo, 1854 – 1937), nascido em Castellabate, comuna costeira da província de Salerno, então parte do Reino das Duas Sicílias. Francesco Matarazzo veio para o Brasil em 1881, aos 27 anos de idade, com a esposa, Filomena Sansivieri, e filhos, atraídos pela propaganda do governo brasileiro, que buscava mão de obra europeia, para substituir o trabalho escravo, recém-abolido. No dia 26 de agosto de 1914, uma quarta-feira, funcionários das Indústrias Matarazzo, resolveram criar um time de futebol, o Palestra Itália, entusiasmados pela excursão, ao Brasil, dos times de futebol italianos Torino-ITA e Pro-Vercelli-ITA. Os principais nomes da fundação do Palestra foram: Luigi Cervo e Luigi Marzo, funcionários das Indústrias Matarazzo, mais o jornalista Vincenzo Ragognetti, do semanário “Fanfulla”, órgão de imprensa fundado em 1893, voltado à colônia italiana, e Ezequiel Simone, na época membro de várias entidades de cultura italiana em São Paulo. Um detalhe importante: a ata de fundação do Palestra Itália foi redigida em italiano. “Palestra” é uma palavra grega que quer dizer “local onde se pratica exercício”. Em 1916, no dia 13 de maio, o time estreou no Campeonato Paulista, empatando com o placar de 1 x 1, com o Mackenzie, na época vice-campeão estadual. Em 14 de setembro de 1942, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, o Palestra Itália foi obrigado a mudar de nome para Palmeiras, adotando, então, as cores verde e branco. A escolha do nome Palmeiras foi cuidadosamente pensada para manter as iniciais “P” e “I”, em homenagem ao Palestra Itália, e ao mesmo tempo demonstrar lealdade ao Brasil. O nome Palmeiras foi inspirado na árvore-símbolo do Brasil, a palmeira, representando a força, a resistência e a adaptação do clube à nova realidade. Reclamar da arbitragem não é de hoje. Em 1918, o Palestra abandonou a APEA – Associação Paulista de Esportes Atléticos, em protesto à perseguição que sofria dos constantes e frequentes erros de arbitragem. Detalhe: o que acontece até hoje! Explicação histórica: “Os italianos falam com as mãos!”. E isso irritava profundamente os árbitros e dirigentes da APEA. O que pesquisei sobre a mania de os italianos falarem com as mãos: “Italianos falam com as mãos por razões históricas e culturais, como uma linguagem secundária para se comunicar em um país com muitos dialetos e para se fazer entender durante o período de unificação, além de ser uma herança dos grandes oradores romanos e uma forma de expressar emoções de forma mais vívida e teatral, com mais de 250 gestos específicos que adicionam significado à fala.” Justo. E a mania italiana de adorar “dar cotoco”? É um gesto obsceno do dedo médio, que representa um pênis ereto, sendo considerado um insulto fálico, com origens na Grécia e na Roma Antigas. Nada mais justo, útil e forte que um “cotoco” bem dado no calor de uma peleja, de uma discussão acalorada. Nós, italianos e seus descendentes, somos seres alucinógenos, marcados pela paixão, com gestos e voz alta e um forte apreço pela boa comida e pelo prazer de “la dolce vita”. Já o ato de “dar cotoco” é apenas uma pausa de silêncio, um simples gesto de respiro, um resfolegar divino, um passe no ardor da partida, antes de gritar: “Gol! Gol do Palestra!”.

João Scortecci



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BODONI E O PRESUNTO PARMERA!

Não conheço a cidade medieval de Parma, na região da Emilia-Romagna, no norte da Itália. Pena. Precisaria de mil anos para conhecer a Itália e suas histórias. Minha família materna é de Arezzo, na Toscana. Meu bisavô Esaú Scortecci, natural da comuna de Laterina – distante 8 km de Arezzo – imigrou para o Brasil no vapor “Sírio”, no ano da graça de 1889. A comuna de Arezzo fica distante 75 km de Firenze e 195 km de Parma. Essa cidade é famosa mundialmente pelo seu queijo parmigiano reggiano, o popular parmesão, além do famoso presunto de Parma. Lendo sobre a assinatura do Acordo de Associação Mercosul – União Europeia, fiquei sabendo que o presunto “tipo Parma” produzido no Brasil terá que mudar de nome devido ao acordo de livre comércio. O acordo protege nomes de produtos que são originários de regiões específicas na Europa. O termo “Parma” é uma denominação de origem protegida italiana. Vários produtos fabricados no Brasil terão que mudar de nome: queijo parmesão, gorgonzola, presunto de Parma, queijo Feta e a mortadela Bolonha. Tenho algumas sugestões: a mortadela poderia assumir, de vez, o nome popular: “Mortandela”. Explico: quando criança, não conseguia pronunciar “mortadela”. “Mãe, quero comer pão com mortandela!” Ficou, até hoje. Para o gorgonzola, dos arredores de Milão, na Itália, tenho, também, uma sugestão: queijo fungi. Para o queijo Feta, salgado, branco, picante, de origem grega, feito com leite de ovelha ou cabra, sugiro queijo capra e, por fim, para o presunto de Parma, a sugestão é presunto Parmera, em homenagem à Sociedade Esportiva Palmeiras. É justo dizer que Parma não combina com gambá, bambi, peixe, galo, urubu, raposa, leão e outros. Parmera – presunto cru italiano de alta qualidade, feito com pernil suíno e sal marinho – combina com Parma! Aceito outras sugestões, claro. Enviei o texto com as minhas sugestões para o tipógrafo e impressor Giambattista Bodoni (1740 – 1813), que viveu e morreu em Parma, autor do “Manuale Tipográfico” e criador da fonte Bodoni, um dos tipos de letra mais importantes de história da tipografia. Giambattista me respondeu, de pronto, na tinta, no melhor dos versos da noite. Disse-me: “Scortecci, gostei das sugestões. De todas, menos da troca do nome de Presunto de Parma para Presunto Parmera”. Desligou-se. Pensei: Bodoni, gosto é gosto! Já disse: não conheço a cidade de Parma, mas não abro mão do Presunto Parmera. Bodoni, você é um chato!

João Scortecci


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ARROZ COM COLORAU E AS HISTÓRIAS DO BREU DA NOITE

Nunca vi na vida um urucuzeiro, muito menos sua semente, cujo pó, industrializado, vira colorau e corantes. Lá em casa - isso no Ceará dos anos 1960 - mamãe Nilce não usava colorau na comida. Não sei a razão. Também nunca perguntei. Foi numa paneladinha, com primos e amigos da rua, que conheci o tal pó mágico, vermelho, gostoso com arroz empapado. Prova! Foi o que fiz. Comi e repeti. Colorau lembra infância, barraca de lona no quintal, panela de barro, colher de pau, prato de alumínio e ki-suco, sabor uva. De sobremesa, frutas no pé: goiaba, seriguela, sapoti, graviola, cajá, romã ou figo. Na Vila Santa Teresinha, tinha de tudo: até fantasmas! Depois da morte do sol, noite escura, acendíamos, então, fogueiras, estrelas no céu, sonhos, medos, tudo no pavio do breu da noite. Noites de roda, risos, histórias do capeta, mulas sem cabeça, lobisomens, serpentes de duas cabeças, almas, bruxas voadoras, gritos e vozes do além. Sair para fazer xixi, nem pensar! Ninguém arredava o pé. Éramos sombras, abduzidas pelo desejo alucinógeno do colorau. Já tarde da noite, alguém gritava: “Das Dores, caga a luz! “. E do nada, o espírito da Das Dores, respondia: “já caguei”. Mistério. Na hora de dormir, fechávamos a porta da barraca de lona, com pregadores de roupa do varal. Resmungos miúdos: “Estou vendo um gato preto no muro!”. Silêncio. “Cala a boca e dorme!”. “João, você comeu muito arroz com colorau?” Comi. “Vai, então, para o fundo da barraca e vê se não fica peidando!”. Dormia e não dormia. No meio da noite, abria a porta da barraca, colocava o travesseiro debaixo do braço e saia na escuridão do mundo. Fiz isso dezenas de vezes. Abria o portão do quintal e sumia na cidade. Meu irmão Luiz – algumas vezes - me pegava na esquina da rua de cima ou no caminho do colégio. “João, onde você vai?”. Respondia, dormindo: “Vou para o colégio!” “João, acorda, você está sonambulando, de pijama, descalço, com o travesseiro debaixo do braço!”. Foi assim - quase - toda a minha infância: culpa do colorau, do selvagem pó vermelho da semente de urucuzeiro. 

João Scortecci


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FREI CANECA: ESCRITOR DE PAPÉIS INCENDIÁRIOS!

O semanário “Typhis Pernambucano” foi fundado e editado pelo escritor, jornalista, clérigo católico e político Frei Caneca (Joaquim da Silva Rabelo, 1779 - 1825). O semanário - impresso no formato 21 x 30 centímetros - circulou em 25 de dezembro de 1823 até 12 de agosto de 1824, num total de 29 edições. Tendo por inspiração Tífis, discípulo da deusa Atena, timoneiro da embarcação Argo, construída com a ajuda da deusa Atena, para que Jasão e os argonautas navegassem de Iolcos até Cólquida, para recuperar, o Velo de Ouro, a lã de ouro do carneiro alado Crisómalo. O semanário Typhis trazia, como epígrafe, versos de “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões: "Uma nuvem que os ares escurece sobre nossas cabeças aparece!". Frei Caneca, erudito, de origem humilde, conhecido como “Caneca” por ter sido vendedor de canecas quando garoto, no Recife, foi educado no Seminário de Olinda. Dirigindo o jornal Typhis Pernambucano, Frei Caneca, fazia sua pregação republicana, denunciando o autoritarismo imperial e conclamando a população à luta. Em seu primeiro número, lançado em 25 de dezembro de 1823, Typhis anunciava que o país parecia "uma nau destroçada pela fúria oceânica, ameaçando soçobro, carecendo da ajuda decidida e abnegada de todos os seus filhos". Frei Caneca participou da chamada Revolução Pernambucana (1817), que proclamou uma República e organizou o primeiro governo independente na região. Com a derrota do movimento, foi preso e enviado para Salvador, na Bahia, onde permaneceu quatro anos, quando, dedicou-se à redação de uma gramática da língua portuguesa. Libertado em 1821, voltou a Pernambuco e retomou as atividades políticas.  Em 2 de julho de 1824, em Pernambuco, eclodiu a “Confederação do Equador”, movimento revolucionário de caráter republicano e separatista, alastrando-se para outras províncias do Nordeste do Brasil. O movimento, no entanto, não obteve sucesso e acabou derrotado. Frei Caneca foi preso, acusação do crime de sedição e rebelião contra as imperiais ordens de sua Majestade e condenado à morte, por enforcamento. Nos autos do processo, Frei Caneca foi indiciado como um dos chefes da rebelião, "escritor de papéis incendiários". Armado o espetáculo do enforcamento, em 13 de janeiro de 1825, diante dos muros do Forte das Cinco Pontas, três dos carrascos se recusaram a enforcá-lo. A Comissão Militar ordenou, então, o seu fuzilamento, atado a uma das hastes da forca. Seu corpo foi colocado num caixão de pinho e deixado no centro do Recife, em frente ao Convento das Carmelitas. Seu corpo foi recolhido pelos padres Carmelitas e enterrado em um local até hoje não identificado. Frei Caneca é Herói Nacional e seu nome foi incluído , em 2007, no Livro de aço dos Heróis e Heroínas da Pátria, abrigado no Panteão da Pátria, na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

João Scortecci


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LIVRO GUARDADO: TESOURO DE PAPEL

Uma história de livro “guardado”. Durante o 1º Salão Internacional do Livro de São Paulo, em 1999, no dia 23 de abril, Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, no estande do MinC – Ministério da Cultura, no Expo Center Norte, na capital paulista, o Ministro da Cultura Francisco Weffort (Francisco Correia Weffort, 1937 – 2021) e o escritor amazonense Márcio Souza (Márcio Gonçalves Bentes de Souza, 1946 – 2024), na época, Presidente da Funarte – Fundação Nacional de Artes, autografaram a obra “Um Olhar sobre a Cultura Brasileira”, publicada pela Funarte e MinC. Livro belíssimo, capa dura, formato 21 x 28 cm, 472 páginas, papel couché, impresso na Lis Gráfica e Editora. O Presidente do Brasil, na época, era Fernando Henrique Cardoso. No time do MinC, estavam José Álvaro Moisés, Secretário de Apoio à Cultura, Ottaviano De Fiore, Secretário de Política Cultural do MinC, Eduardo Portella, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional, entre outros. Na época, eu estava no meu segundo mandato na CNIC - Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, Lei Rouanet, responsável pelas Áreas de Humanidades e Integradas. O primeiro autógrafo foi para o Ministro da Educação Paulo Renato (Paulo Renato Costa Souza, 1945 – 2011). Ele agradeceu pelos autógrafos, posou para fotos e me entregou o exemplar, para guardá-lo. Foi o que fiz. Não percebi – estava desatento, provavelmente – quando o Ministro Paulo Renato deixou o estande do MinC e foi embora da feira. Guardei o livro. Encontrei o ministro algumas vezes depois, em Brasília, mas o livro autografado acabou ficando “esquecido” em São Paulo, para um futuro encontro, que acabou nunca acontecendo. O segundo mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso terminou em 2003, e o Ministro Paulo Renato infelizmente faleceu em 25 de junho de 2011. Guardo o exemplar autografado com o maior carinho e respeito, na certeza de que um dia fará parte do “Memorial Ministro Paulo Renato” ou, quem sabe, do “Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves”, em Brasília. Tesouro de papel. Deus quis assim.


João Scortecci
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MARCA D’ÁGUA EM IA? CURIOSIDADE MATA!

Pulei o muro do quintal do vizinho, de olho gordo na goiaba madura do pé. Antes que pudesse agir, senti no suor da nuca um cano frio de espingarda. Ferrei-me! Tinha 11 anos de idade, talvez 12. Segredo para quem for pego surrupiando: dizer, sempre, a verdade! Resfoleguei: “Vim comer uma goiaba!”. O homem – idoso e magro – baixou a espingarda e me disse, calmamente: “Sobe lá, pega uma goiaba e depois some do mapa!”. Foi o que fiz. Na saída, aconselhou-me: “Você sabia que curiosidade mata?”. Silêncio. Subi no muro e pulei de volta, carregando no bolso a goiaba madura. Lavei a presa na torneira de água do quintal e ali mesmo, no sol quente da tarde, matei o leão. Confesso: o cano frio do ferrolho, até hoje, dói e incomoda as rugas do couro. Marca de nascença? Talvez. E mais, o alerta de que “curiosidade mata!” me contaminou o sangue, sem cura. Isso, talvez, explique o eu: uma danação exagerada! Escrevendo sobre papel imune, linha d’água ou marca d’água, registrei no texto: “O termo marca d’água refere-se a uma característica intrínseca do papel, não a uma marca comercial. A técnica de incorporar uma linha d’água no papel é antiga, mas, no contexto editorial brasileiro, ganhou destaque em 1926, quando foi adotada como um requisito para o papel de imprensa importado, visando garantir que ele fosse usado exclusivamente para jornais e periódicos e não desviado para outros fins, devido a um regime especial de tributação.”. Continuando: “A Marca d’água em papel é um padrão em relevo, incorporado durante a fabricação, que confere autenticidade e exclusividade a documentos e papéis especiais, visível contra a luz e sem uso de tinta.”. Foi no ano de 1978, no início da Scortecci Editora, conversando com o gerente comercial da KSR - Distribuidora de Papéis, na época pertencente ao Grupo Papel Simão, que pude, pela primeira vez, observar numa folha de papel a tal marca d’água. Ele me mostrou, apontando com o dedo: “Olha o papel contra a luz!”. Foi o que fiz. Hoje, o controle do papel editorial se chama “papel imune”, uso legalmente isento de IPI, PIS, Cofins e ICMS, pelo artigo 150, inciso VI, alínea “d” da Constituição Federal do Brasil. Agora a novidade que desconhecia: marca d’água em IA – Inteligência Artificial? Escutei no rádio. É uma técnica para inserir sinais invisíveis – em texto, imagem, áudio – criados por IA, permitindo que computadores detectem sua origem, combatendo desinformação e “deepfakes”, como a tecnologia SynthID do Google, que adiciona marcas digitais aos dados sintéticos, mantendo a qualidade do conteúdo e robustez contra modificações. Funciona assim: com padrões sutis ou desvios linguísticos, que humanos não percebem, mas detectores de IA identificam. Objetivos: identificar a origem de conteúdo gerado por IA, lutar contra “fake news” e “deepfakes”, validar a veracidade de informações e proteger direitos autorais. Curiosidade mata! Abri os olhos, desliguei o radinho, bebi água, lavei uma banana madura – ali mesmo, na torneira da pia – e matei, então, outro leão. Escutei, então: “Não se matam mais leões!”. Verdade. Politicamente incorreto. Perguntei, então, aos céus: “Mata-se, diariamente, o quê?”. Resposta do além: “Neurônios!”. Sobre IA não sei nada. Nada mesmo. Ontem recebi de um amigo gráfico um link sobre uma pesquisa realizada pelo Instituto Stanford de Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano – Stanford University, com números sobre IA. Interessante. Desconfio que ando matando – além da conta – os meus derradeiros neurônios. Os últimos! Marca de nascença, castigo dos muitos leões que matei na vida. Perdão: curiosidade mata!

João Scortecci

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CHICO ASTROLÁBIO: OLHA-SE POUCO PARA O CÉU!

Astrolábio – antigo instrumento astronômico e de navegação usado para medir a altura dos astros em relação ao horizonte – e seus estigmas. Marcas, sinais, exclusões: assim tropeça a humanidade. Chico Astrolábio já faleceu. Morreu jovem, menos de 50 anos de idade. Não lembro o ano. Uma certeza: antes da virada do século. Tropeçou num buraco na rua – uma cratera – e caiu de boca no chão. Piada da época: culpa do astrolábio! Risos. Na verdade, Chico andava com a cabeça nas nuvens, distante, perdido, com a razão acima do horizonte. Tudo – tudo mesmo – que Chico observava – um prédio, uma montanha, um poste, uma roda gigante, um monumento, um trapézio – conferia, sempre, com o seu astrolábio de bolso, presente do seu avô. Dizia: “Tudo que está acima dos olhos pode ser medido!”. Perguntávamos, curiosos: “E abaixo dos olhos?”. Chico Astrolábio, ríspido e agressivo, respondia, de pronto: “Não interessa!”. É dessa época o poema que escrevi: “Olha-se pouco para o céu!”. Época, também, da passagem do Cometa Hale-Bopp, da compra de uma luneta e do interesse pelas constelações de Leão e Escorpião. O GPS – Global Positioning System (Sistema de Posicionamento Global) – foi desenvolvido para uso militar, na década de 1960, tornando-se operacional a partir de 1995 e liberado para uso civil em 1983. Veio e ficou. Tenho um amigo editor e gráfico, fã cativo de Freud, que, mesmo sabendo o caminho do destino, entra no carro e liga o GPS. Perguntei-lhe, então: “Qual a razão?”. Confidenciou-me: “Quando casei, vivia errando o caminho de casa. Quando dava conta, estava entrando com o carro na garagem da casa da minha mamãe! Contei o acontecido para a minha mulher e ela não gostou nada da história. Até hoje, quando brigamos, ela me espeta o ego: ’Vai fugir para a casa da mamãe?’”. Hoje reencontrei um texto antigo, dos anos 1990, que escrevi na época das estrelas no céu. Segue o texto, com alguns ajustes: “Dos estigmas. Das cicatrizes. Dos traços e das marcas no corpo. Tatuagens ou mapas? Nós, engordados e flácidos; nós, envelhecidos e antigos; nós, adoentados disso, daquilo e sempre, agora marginalizados, agora desaprovados, cancelados, negados! É o que “estamos”. O navio dos clãs – aquele que na existência leva e traz filhos, netos, bisnetos – está à deriva nas águas, ilhado no mar revolto das tormentas, incerto nas direções do Norte, perdido de bússolas, perdido dos astrolábios e das estrelas do céu. Estigmas das sombras? Talvez. Lembro-me dos rabiscos do menino mercador e explorador veneziano Marco Polo (c.1254 – 1324) e das linhas – de leitura – da palma da mão. Vovó Chiquinha sabia das coisas. Ela dizia, na leitura da sorte: ’Cuide das mãos’. Quiromancia? Algo assim. Adiante, ainda falando das cicatrizes, da razão e suas provações, uma mensagem de Chico Xavier: “Isso também passa. Todas as coisas na Terra passam. Os dias de dificuldades passarão. Passarão também os dias de amargura e solidão. As dores e as lágrimas passarão...”. Saber esperar – pacientemente – é virtude. Eu sei, eu sinto, eu quero. Guardo, então, no segredo das memórias antigas, o astrolábio do Chico. Suas asas de voar, sua mania ímpar de olhar – sempre – acima dos olhos, além do horizonte, mesmo correndo o perigo mortal de tropeçar e cair nas crateras da vida e morrer de boca no chão. Destino: tudo muito além da sorte!” O texto acima tem mais de 30 anos. Saudade espacial do Chico Astrolábio, das mãos sábias de vovó Chiquinha e do momento mágico que foi avistar no céu azul de estrelas o cometa Hale-Bopp, amor infinito, nas águas escuras do mar, no dorso veloz da constelação de Leão e seus estigmas: de luz e paixão. Assim tropeça a humanidade. Já disse: olha-se pouco para o céu!

João Scortecci

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