O primeiro momento da existência! Perguntaram-me: “Do que tenho medo?”. Pensei em responder, de pronto: “Não tenho medo de nada!”. Mentira! Estaria mentindo, sendo falso, dizendo que não tenho medo de nada. Confesso: tenho medo de muitas coisas! Palestrava sobre “Livros e a Arte de Escrever”, para um pequeno grupo de alunos de uma faculdade de Letras do interior do estado de São Paulo. Poderia, na época, ter dado uma resposta teatral, clássica: “Tenho medo da natureza humana!”, algo assim. Refleti. Estaria sendo covarde. Olhei para a aluna – moça miúda, negra, de óculos – sentada sozinha no canto da sala. Repeti – em voz alta – a sua poderosa pergunta: “Do que eu tenho medo?”. Na manhã daquele dia – coincidências não existem –, lendo sobre a Escola Jônica e a vida do filósofo e matemático Anaximandro (610 a.C. – 546 a.C.), discípulo de Tales, havia anotado, no bloco de notas do celular, a verdadeira e sincera resposta. Premonição? Talvez. Foi lendo sobre a Escola Jônica – que buscavam o Arché, conceito central que designa o princípio, origem, substância primordial de todas as coisas –, que construí, ali, na hora, a minha resposta. Derradeira? Talvez. Depois de tantos anos escrevendo, publicando e comercializando livros, guardei no coração muitos medos: medo de fracassar, de não ser lido, medo do ridículo, medo da insignificância literária, medo disso e daquilo e mais: medo de ser esquecido no tempo. Disse-lhe, então: “Tenho medo de ser esquecido!”. Silêncio. Olhei para o relógio. Hora, então, de encerrar a palestra. Resfoleguei: “Mais alguma pergunta?”. Silêncio. Agradeci e me sentei, exausto e com sede. Bebi água e respirei fundo, surpreso com a minha inesperada e íntima resposta: "Medo de ser esquecido!". A aluna – Flávia, talvez – se aproximou e me cumprimentou. Disse-me, com o coração saindo pela boca: “Tenho medo de mostrar as minhas poesias!”. Deu meia volta e foi embora, veloz. Carregava nos braços um caderno espiral, de capa azul. Suas poesias? Pensei. Voltei, então, ao princípio do meu incerto tempo: até o momento primeiro da minha existência de poeta e nada mais. Aconteceu assim: tornei-me editor de livros para que pudesse então publicar os meus versos, os meus textos, os meus rabiscos; depois, tornei-me gráfico, com a missão imortal de imprimi-los; e, por fim, um livreiro, para poder, então, vendê-los, no vasto mundo. Escrever sempre foi a causa primária, a razão de tudo. Quando me tornei editor e gráfico, em 1982 e 1986, respectivamente, o empresário engoliu de vez o poeta. Foi dolorido, na época. Esqueceram da minha poesia! Durante muitos anos tentei – inutilmente – separar o poeta do editor, o gráfico do poeta e o editor do livreiro, sem sucesso. Repetia, sempre: “Serei uma roupa para cada ocasião!”. Enganei-me. Num convite para uma palestra na Academia de Letras de Jacareí, interior de São Paulo – isso no início do ano de 2015 – encontrei, impresso, a resposta, a solução do engodo. Escreveram, no convite: João Scortecci: escritor, editor, gráfico e livreiro. E assim ficou, sequência lógica das coisas. Anaximandro, o filósofo e matemático, escreveu: “O mundo é constituído de contrários, que se autoexcluem o tempo todo. O tempo é o juiz que permite que ora exista um, ora outro. O mundo surge de duas grandes injustiças: primeiro, da cisão dos opostos que ‘fere’ a unidade do princípio; segundo, da luta entre os princípios onde sempre um deles quer tomar o lugar do outro para poder existir.” Na sua singular existência uma trágica nota de rodapé: Relatos doxográficos nos dão conta de que Anaximandro escreveu um livro intitulado "Sobre a Natureza"; contudo, essa obra, infelizmente, perdeu-se no tempo. Pergunto-me, onde sempre um deles quer tomar o lugar do outro para poder existir: “Do que eu tenho medo?". Resposta: da cisão dos opostos que fere a unidade do princípio. Qual deles? O de continuar escrevendo, apenas isso.
João Scortecci