Bolinha de papel no concreto do chão. Esquina das ruas Teodoro Sampaio com Pedroso de Morais, em Pinheiros, São Paulo. Chutei a bolinha de canhota. Não chuto uma bolinha de papel, deve fazer pelo menos uns 30 anos. Talvez mais! A bolinha estava no jeito, pedindo: chuta-me, chuta-me, chuta-me! Chutei. Chutei e errei feio. Pegou de lado. Acontece. Outro dia bati um pênalti no Allianz Parque, Estádio do Palmeiras, e marquei um golaço. Goleiro para um lado, bola no outro. Fiz que ia chutar com a direita e na hora troquei de lado. Bati com a esquerda. Golaço! Curvei-me – envergonhado, apoiado num poste da rua – e catei a bolinha do chão. Não resisti: abri a bolinha de papel - um folheto no formato A-4, impresso dos dois lados - e li o que estava escrito. “Autorresponsabilidade: acontecimentos de nossas vidas, sendo eles positivos ou negativos!” No verso do folheto: “As 6 Leis da Autorresponsabilidade”. Interessante! São elas: “1) Se é para criticar (os outros), cale-se; 2) Se é para reclamar, dê sugestões; 3) Se é para buscar culpados, busque soluções; 4) Se é para se fazer de vítima, faça-se de vencedor; 5) Se é para justificar seus erros, aprenda com eles; 6) Se é para julgar as pessoas, julgue as suas atitudes. Fim. Que merda, pensei. Não gostei da Lei de número 6.” Fraca! Sugiro criar a 7ª lei. 7 é um número perfeito e representa o lado oculto e místico da vida. Quem é “influenciado” pelo número 7, tem a sua trajetória guiada pelo desejo de entender o mundo na amplidão da espiritualidade. Gosto do número 7. E, também, dos números: 13, 24, 33 e 56. Amassei a bolinha de papel - nunca fica igual - e a joguei na lixeira da esquina. Estranho: a lixeira estava vazia! Na inconformidade, resfoleguei aos céus um verso pobre, inesperado, ruim de tudo: “Ao chutar a bolinha de papel acertei o gol.” Teria "eu" criado - inesperadamente - a 7ª Lei? Ou feito – apenas – um verso torto de fome? No relógio das horas: 11h55. Fome. Se é para buscar culpados, busque soluções! Garçom, por favor: "Quero uma lasanha à romanesca!". Se é para criticar os outros e a vida: cala-te! Depois do almoço, cheio de culpa, voltei e recolhi da lixeira pública a bolinha de papel. Ela ainda estava lá, me esperando: poética e frágil.
João Scortecci
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BOLINHA DE PAPEL À ROMANESCA
MÃES E OS AUSENTES DO DIA
Das mesas e dos pratos do dia de mãe. Pernil assado e macarronada com molho à Bolonhesa. Sobremesa: pudim de leite e manjar branco. Toalhas, copos e garrafas. Risos! Tudo igual como sempre foi. Coisas de mãe. Tudo igual na cabeça, no fogão, nas panelas, no coração, nos cheiros de infância. Ninhos, apertos, arrepios e abraços no cangote. Mamãe Nilce tinha cheiro gostoso! Um doce de “fadas” e lavanda. No batente da mesa da cozinha o seu, o nosso, o livro de receitas da vovó. Apenas ele. Livro surrado, rasgado, com páginas soltas e amareladas. Ele ficou! Vieram outros livros – brilhantes, coloridos – que hoje enfeitam a estante da sala de visitas. Mesa posta - acolhedora e completa -, cadeiras, azeites, queijos, pães de forno, azeitonas, vinhos e desejos. Roupas novas, sapatos, vestidos, bolsas, anéis, colares, relógios e dedos de espera. Cadê o povo? Estou faminto! Já estou com nó nas tripas! Até outro dia - todos - chegavam. Papai, mamãe, irmãos e amigos. Chegavam de um jeito ou de outro: atrasados, famintos, incertos. Chegavam para o almoço de mãe. Mamãe partiu. Papai partiu, irmão partiu. E, desde então, ausências e tristeza. Vazio profundo. Nada do agora me alegra. Até tento: nada responde. Nada do hoje acontece. Abandonamos o pernil assado, a macarronada com molho à Bolonhesa, os risos. Hoje vai ter feijoada, farofa, couve e torresmo. Confesso: inveja de quem ainda tem mãe viva com cheiro de lavanda e abraço de pudim de leite. Tudo igual na cabeça, no fogão, nas panelas, no coração, nos cheiros de infância. Tudo igual. O que ficou? O livro de receitas da vovó, as fotos do coração e o arrepio no cangote do tempo: incansável, dolorido e eterno.
João Scortecci
TODO POETA É IMORTAL
Das inferências da palavra. Quando o “significado” diz tudo. Ou nada! Na poética: conclusões e ilações do verbo. Deduções, evidências. A lógica aristotélica (Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.) tem como objetivo estudar a relação do pensamento com a verdade. Qual delas? Não sabemos. No livro “Organum” que significa “instrumento” encontramos as ferramentas para analisar se os argumentos utilizados nas “premissas” levam a uma conclusão coerente. Palavras aladas! Define ainda - nas inferências - que a razão implícita do verbo é proposição das emoções do coração. Na poética - aquilo que se propõe - é silogismo: raciocínio dedutivo estruturado em três proposições interligadas: duas premissas (maior e menor) que levam, necessariamente, a uma conclusão. Os juízos (des)encadeados da dor são conexões de proposições: indutivas e dedutivas. “Todo gato é mortal. Todo cão é mortal. Todo pássaro é mortal. Todo peixe é mortal. Logo, todo poeta é imortal.” Hoje o encontrei morto atropelado na esquina da Rua do Coração. Estava desfigurado. A polícia veio e o cobriu com uma manta térmica. Ilações do verbo.
João Scortecci
UVAS E CEBOLAS: DAS INOCÊNCIAS DE MENINO
Uva era “raridade” na infância no Ceará dos anos 1960. Um dia – inevitavelmente – tive que provar do fruto da videira. Confesso: provei e não gostei. Continuo não gostando. Uva é fruta que não faz o meu gosto. Gosto de banana! Acontece. Papai Luiz – eufórico - chegou em casa e avisou: “Ganhamos uma caixa de uva!” “Cadê?” Quis saber. Subimos na Rural Willys - eu e meus irmãos - e fomos até o Pinto Martins, aeroporto de Fortaleza, retirar a encomenda especial vinda de avião de São Paulo. A preciosidade chegou de Caravelle, pela companhia Cruzeiro do Sul. Mamãe Nilce abriu a caixa, cheirou as uvas e as lavou. Guardou na geladeira para serem comidas de sobremesa, depois do almoço. Catei uma e coloquei na boca: “Menino, cuidado, tem caroço!” Provei. Gosto ruim. Cuspi longe. Alguém resfolegou: “Uva é iguaria de reis e rainhas e custa o olho da cara!” Registrei a dica. Recolhi os caroços dos pratos e os guardei num guardanapo de pano. Ninguém viu. Coloquei as sementes para secar no sol e depois plantei, caroço por caroço, no quintal do latifúndio da Vila de Santa Teresinha. Dia sim, dia não, aguava e cutucava a terra com um pedaço de pau. Nada de brotar pé de uva! No silêncio da espera, arranquei tiriricas e acossei saúvas, formigas da bunda grande. Desesperado, então, procurei o meu pai e lhe contei sobre o meu projeto de cultivar uvas. “Papai plantei uva no quintal?” Ele me olhou e sorriu. Respondeu, fazendo cara de surpresa: “Quando nascer você me avisa!” A ideia de menino-empresário era cultivar uvas e ganhar - muito - dinheiro. Ficar rico! Papai - brincalhão que só ele – todos os dias, dava corda, mexendo com a inocência do seu filho caçula. “Filho, já nasceu pé de uva?” Insistia. Inconformado, procurei, então, a minha mãe Nilce: “Mamãe, o vovô José Scortecci, na fazenda de Dois Córregos, em São Paulo, cultivava uva?”. “Não. Café e avicultura!”. “Por quê?” Quis saber. Contei-lhe, então, sobre o meu projeto. “Filho! Pé de uva não nasce do caroço!”. “Você precisa de mudas ou de um tipo especial de semente”, explicou. “Nasce sim!” Protestei. “Papai vai comprar toda a produção de uva do ano!” Argumentei. Mamãe, com dó de seu filho caçula, contou-me a dura verdade: “Teu pai está zoando com você!”. “É mentira!” Gritei. “Vou ser agricultor e ficar rico, comercializando uvas no Ceará!”. Foi quando Papai "percebeu" que a brincadeira havia ido longe demais. “Filho pé de uva não nasce do caroço”. Confessou. “Quer um conselho?”. “Não”, respondi. Meu sonho de ser agricultor e de ficar rico, morreu ali, naquele dia. Tinha, também, planos de cultivar cebolas. Havia lido no jornal que no Sul do país a safra, naquele ano, estava comprometida devido ao excesso de chuvas. Na época, no Ceará, vivíamos um período de secas. Nada mais justo que explorar a oportunidade, pensava. Desisti de vez quando vi na enciclopédia Barsa a foto de um pé de cebola. Foi frustrante. Na minha inocência de menino empreendedor, jurava que as cebolas no pé davam em cachos, tranças, em réstias, iguais as cebolas que ficavam penduradas no prego atrás da porta da dispensa. Papai tinha razão: eu ia mesmo morrer de fome!
João Scortecci
DAS CAPITALIZAÇÕES DOS RÉIS E DAS TRAGÉDIAS DO TEMPO
Minha mãe Nilce Scortecci guardava de tudo. Justo! Abria pastas, envelopes, caixas e arquivos. Hoje faço o mesmo. Mania sanguínea, algo assim. Meu contador - antigo e eficiente - repete, sempre: depois de 5 anos você pode jogar fora! Não faço. E mais: parei de perguntar-lhe sobre o que fazer com documentos antigos. Calamo-nos! Melhor assim. Quando da morte do meu avô materno o editor e gráfico José Scortecci (1988, aos 86 anos de idade), mamãe Nilce entregou-me um envelope pardo caindo aos pedados com vários documentos. Dentro encontrei raridades – algumas até viraram crônicas - na coleção de 5 volumes de "Menino tipográfico e outras histórias" – e no meio dos amarelados, uma apólice de seguro em réis, algumas ações de empresas que não mais existiam e uma caderneta da Caixa de Aposentadorias e Pensões. Mamãe Nilce perguntou-me: tem como resgatar o dinheiro? Eram CAPs que operavam na época em regime de capitalização. A “Caixa”, como era chamada, criada em 1923, através da Lei Eloy Chaves (Político e advogado, Eloy de Miranda Chaves (1875 – 1964), Decreto nº 4.682/1923, marco inicial da Previdência Social no Brasil. A biografia de Eloy de Miranda Chaves merece ser lida. Recomendo. Nasceu em Pindamonhangaba/SP. Diplomou-se em Direito em 1896 pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e, aos 20 anos, tornou-se Promotor Público na cidade de São Roque. Viveu em Jundiaí/SP, onde elegeu-se vereador. Foi deputado federal, entre 1913 a 1918, Secretário de Estado dos Negócios da Justiça e Segurança Pública, nos governos de Rodrigues Alves e de Altino Arantes. As CAPs são a base da previdência social brasileira. Até virar o que é hoje o “Instituto Nacional de Seguridade Social” percorreu um longo e “tenebroso” caminho. De lá pra cá foram criados e extintos diversos “institutos”. Em 1930, Getúlio Vargas suspendeu as CAPs, consideradas frágeis por possuírem um número pequeno de contribuintes e seguirem hipóteses demográficas de parâmetros duvidosos e apresentarem um elevado número de fraudes na concessão de benefícios. De lá pra cá: nada mudou! Ninho de fraudes, corrupção, desvios e mal gestão. Getúlio Vargas criou, então, os IAPs, Institutos de Aposentadorias e Pensões, que eram autarquias de nível nacional centralizadas no governo federal. Lembro-me do prédio do IAPs, no centro da cidade de Fortaleza, na época apelidado de “IAPC - Isso ainda pode cair!”. E caiu! Em 1966 aconteceu a fusão dos IAPs, no Instituto Nacional da Previdência Social. Em 1977 (Lei 6439/77) com a fusão do INPS com o Dataprev - fusão de três outros institutos - que, então, chegamos ao INSS de hoje. Tudo isso para dizer que “capitalização” no sistema previdenciário brasileiro não é novidade e nunca funcionou. Não sou do tempo dos Réis, unidade monetária oficial do Brasil até 1942, substituída pelo Cruzeiro, em 5 de outubro de 1942, pelo Decreto-Lei 4.791. Nasci no ano de 1956. Como gosto de dizer: Sou fruto dos anos dourados do pós-guerra! Ou, ainda: Sou da metade do século passado! Devolvi, então, a caderneta da "Caixa" para mamãe Nilce. Ela perguntou-me, frustrada: O que faço com isso? Disse-lhe: guarda! Ela Guardou. Quando mamãe Nilce faleceu, em 2003, aos 76 anos de idade, fiquei com a caderneta e alguns documentos. Já disse: Mania de guardar papel de tudo! Mania sanguínea, algo assim.
João Scortecci
UM COSEDOR DE PALAVRAS E OS VÍCIOS VICIANTES DO VÍCIO
Eu e a – propensa – liberdade. A que ainda resta! Lendo sobre o “vício viciante do vício” e as ambiguidades da vida: perenes, incertas e doloridas. Reflexões! Nasci passarinho silvestre: voador, cabeça com cabelos e sangue de caçador do mato. Fui criança e jovem, também. Depois adulto e agora: idoso. Estou na boca dos 70 anos. Consigo, ainda, voar distâncias, navegar com a cabeça sem cabelos e olhar o sol. Veloz? Não mais. Dizem, com ironia: é a idade! Sim. A mortalidade existe! Continuo um corpo agitado, inquieto e exagerado. Tenho – sempre tive – um coração mole e selvagem. Coisas de leão! Iridescente de palavras e secretado, com o néctar da terra. Joana – minha babá de banho e açúcar no Ceará dos anos 1960 – sabe de tudo da história. Ensinou-me o que sabia, depois desapareceu. Partiu. Nunca mais voltou. Ficaram as suas lições. Joana está florida no tempo nas páginas do livro “Na linha do cerol – Reminiscências poéticas”, já na sua terceira versão. E os meus incomuns? Todos, ainda, incertos. Deixo-os para o destino. Meu coração bate febril, nas agitações da pele. Vejo rugas, algumas manchas e ressecamentos. Procurei saber dos fatos: diminuição de colágeno, sol e secura natural. Corpo de abelha! Li no “Guia das Abelhas” que elas morrem fora da colmeia por exaustão ou – quase sempre – para não sobrecarregarem a logística funcional da colônia. Interessante. Alguns animais fazem isso: afastam-se no melhor da hora. Sabedoria! Despedem-se polinizados de mel e cera de carnaúba nas veias, para o derradeiro voo. Zangão, ainda. Conhecido por ser maior, ter olhos grandes e não ter ferrão. Mesmo assim: sensíveis e inquietos. Marujos do farol do Mucuripe: olhos do mar! Biruta de agulhas, mapas, rotas e bússolas. Um cosedor de palavras. Existe isso? Sei não. Meu voo é de borboleta 13, nas manhãs do primeiro sol. Sou ovo, larva, coice e abraço. Ventania abrasadora: queimo e incendeio fácil. Sou cabresto de arraia – pipa, papagaio – que envia telegramas e bilhetes através da linha do cerol. Grito aos deuses: “Avisos da terra! Infância de pitombas, cajás, goiabas, seriguelas, graviolas e atas”. Foi assim na adolescência das danações do corpo e da alma. Acabei sobrevivendo, acontece. Foi assim no adulto das coisas, das manias, dos trejeitos e no doloroso das fatalidades. Hoje: papel escrito, impresso, páginas, encadernações, lombadas, orelhas e sonhos. Muitos! Nas madrugadas escuto o canto do sabiá que mora no abacateiro da minha janela. Eu acordo e ele canta. Ou, talvez: ele canta e eu acordo junto. Um morcego silvestre. Um pica-pau teimoso. Um bicho vaga-lume de papo amarelo. Um pirilampo no relógio adormecido na noite dos lobos. Aprendi a uivar: som agudo, longo e lamentoso. Dudu, meu Terrier brasileiro, aprendeu junto, o mesmo grito poético. Um cosedor de palavras, um assobio selvagem, uma canção com a dor do mundo e dos vícios viciantes do vício. Eu e a – propensa – liberdade. A que resta, ainda!
João Scortecci
MANABU MABE: SAQUÊ, SUSHI E TENUGU
O pintor, desenhista e tapeceiro japonês, naturalizado brasileiro, Manabu Mabe (1924 – 1997), teve 53 de suas obras, avaliadas em mais de 1,2 milhão de dólares, perdidas no mar, no dia 30 de janeiro de 1979, quando o Boeing 707-323, cargueiro da companhia aérea brasileira Varig, desapareceu sobre o oceano cerca de 30 minutos após a decolagem do aeroporto de Narita, em Tóquio, com destino ao Rio de Janeiro. O acidente é conhecido por ser o maior mistério da história da aviação até os dias de hoje. Manabu nasceu em 1924, em Kumamoto, no Japão. Chegou ao Brasil em 1934, com a família a bordo do navio La Plata Maru, para trabalhar nas lavouras de café de Lins, no interior de São Paulo. Conheci Manabu Mabe no ano de 1978, um ano antes do misterioso acidente aéreo. Na época, eu trabalhava no Comercial da FK Equipamentos para Escritório, empresa de Yujiro Furusho, no bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo. Eu tinha 22 anos de idade e sonhava em ser escritor, tornar-me editor de livros e abrir minha gráfica de impressão de livros, sob demanda e em pequenas tiragens. Não sabia quem era Manabu Mabe e o quanto era famoso, respeitadíssimo, principalmente na comunidade japonesa. Yujiro Furusho – filho de japoneses que nasceu na China – procurou-me no final do expediente e fez o convite: “Você já comeu sushi?”. “Não”, respondi. Entramos num táxi e fomos até um restaurante japonês, no bairro da Liberdade. Eu era o único “estrangeiro” na casa. Um senhor oriental, cinquenta e poucos anos, nos aguardava numa mesa de canto, bebendo saquê, bebida alcoólica fermentada tradicional do Japão. Provei e gostei. Disse-me: beba devagar! Foi o que fiz. O garçom trouxe tenugu – toalha de mão de algodão – pegando fogo. Desconfiado, aguardei a vez. Yujiro e Mabe esfregaram a toalha no rosto, no pescoço e nas mãos. Educadamente esperaram por mim. Exagerado que sou, esfreguei a tenugu no rosto, no pescoço e nos braços. Sensação maravilhosa. Banho completo! Do nada, começaram a chegar pequenos pratos, com três porções cada. Foi a minha primeira vez num restaurante japonês. Gostei da brincadeira. Até hoje - uma vez por semana – almoço sushi. Yujiro e Mabe misturavam na fala, português e japonês. O que eu não entendia passava batido. Coisas do saquê. Já tarde da noite, bêbados, Mabe perguntou-me o que eu queria fazer da vida. Disse-lhe: “Quero escrever e publicar livros”. Manabu Mabe, então, começou a falar da paixão pelo seu trabalho de pintor, desenhista e tapeceiro. Abriu o coração. Seus pequenos olhos brilhavam. Um Iluminado! No dia seguinte fui procurar saber quem era Manabu Mabe. Levei um susto. Quase morri do coração! “Patrão, o cara é famoso!” Yujiro, então, me disse: “Eu sabia que você ia gostar dele”. Manabu Mabe morreu em 22 de setembro de 1997, em São Paulo, aos 73 anos de idade. Manabu significa "aprender" ou "estudar" em japonês, termo comum em contextos acadêmicos, profissionais e filosóficos, indicando um aprendizado ativo. Vez por outra, lembro-me do Mestre Manabu Mabe, do porre de saquê, das toalhas de tenugu e dos seus olhos pequenos e iluminados, aconselhando-me: beba devagar! Desconfiado, aguardo a minha vez.
João Scortecci
NENÊ ROMANO: A CORTESÃ FLOR DE RUA E LAMA
“O Combate” foi um jornal anarquista - ideologia política que se opõe a todo tipo de hierarquia e dominação - e operário, da cidade de São Paulo, de propriedade do jornalista Nereu Rangel Pestana, que circulou de 1915 até meados de 1929. Lendo matéria a "Paixão Fatal. O Dr. Moacyr Piza”, de 26 de outubro de 1923, sobre o assassinato da prostituta Nenê Romano (Romilda Machiaverni, 1898 - 1923) e o suicídio do escritor e advogado de família ilustre paulistana Moacyr Piza (Moacyr de Toledo Piza, 1891 – 1923), uma palavra chamou-me atenção, além da tragédia: mulíebre. Não conhecia a palavra. No dicionário: Mulíebre significa relativo a mulher ou próprio de mulher. Segue texto do Jornal o Combate: “Dr. Piza, num momento irrefletido, assassina a tiros de revólver - três tiros, nas proximidades da Rua Sergipe com a Praça Buenos Aires, em Higienópolis - a conhecida mundana Nenê Romano e suicida-se em seguida. Matou-se Moacyr Piza, o brilhante, o audaz, o valoroso escritor que todo São Paulo admirava. Matou-se depois de ter matado Nenê Romano, a mulher fatal, que tinha um rosto de anjo e uma alma perversa. Nenê Romano, flor de rua e da lama, mulher do povo e contra o povo, que possuía o sorriso que acendia os mais perigosos fogos da paixão torturante e louca; o mais completo símbolo da leviandade e da perversidade mulíebre conseguiu, com a sugestão da mulher que faz sofrer e ri, armar o braço de Moacyr Piza e desafiar a morte." Que doideira! Sobre o texto do Jornal O Combate, que se opõe a todo tipo de hierarquia e dominação, uma cena que jamais vou esquecer: “com a sugestão da mulher que faz sofrer e ri, armar o braço de Moacyr Piza e desafiar a morte." Romilda Machiaverni nasceu no ano de 1898, filha de imigrantes italianos, residentes no bairro operário do Brás, que na época, concentrava parte da comunidade italiana. Belíssima, em pouco tempo tornou-se a prostituta principal do Tabaris Dancing, no centro da cidade - imóvel hoje incorporado como parte do Shopping Light -, o cabaré mais luxuoso da cidade. Entre seus clientes ilustres, estavam empresários, fazendeiros, intelectuais e políticos renomados: o senador Rodrigues Alves, o deputado Rodolfo Miranda e Washington Luís, futuro presidente do Brasil. O início da tragédia: No corso do carnaval de 1918, na Avenida Paulista, Nenê Romano foi cortejada por um jovem pretendente de “Sinhazinha Junqueira” (Maria Eugenia Junqueira), filha de Luiz Antônio da Cunha Junqueira e Iria Alves Ferreira Junqueira, poderosa baronesa do café. Maria Eugenia, enfurecida, resolveu, deliberadamente, vingar-se de Nenê, contratando capangas que retalharam com uma navalha o seu rosto, deixando uma grande cicatriz. Nenê buscou, então, indenização na justiça. Os capangas foram presos, confessaram o crime, alegaram que agiram a mando de Maria Eugenia. Mesmo com todas as provas e confissões o processo não andou, devido o enorme poder político da família Junqueira. Decidida a buscar justiça, Nenê Romano contratou Moacyr de Toledo Piza, escritor e um dos advogados mais renomados da cidade. Nenê e Moacyr Piza se tornaram próximos e iniciaram um namoro. O relacionamento, entretanto, logo se desgastou e chegou ao fim. Moacyr, ciumento, controlador e agressivo, não aceitou o fim do relacionamento. Em 25 de outubro de 1923, Nenê – na esquina da Rua Sergipe com a Praça Buenos Aires, em Higienópolis - foi abordada por Moacyr que a matou com três tiros e em seguida suicidou-se com um tiro no peito. O crime chocou a cidade. A imprensa manipulada e machista culpou Nenê Romano como a única responsável pela tragédia: “Mulher mundana que conduziu Moacyr à insanidade e o levou a cometer tal crime.” Moacyr de Toledo Piza – antes do crime, publicou o livro "Roupa Suja", onde atacava Washington Luís, principal cliente de Nenê e motivo dos ciúmes doentio. Na obra, Moacyr expõe abertamente as relações extraconjugais de Washington Luís, na época, governador de São Paulo, referindo-se a Nenê Romano (Romilda Machiaverni), como a “dama alegre”. O livro Roupa Suja - Polêmica Alegre, do escritor e advogado Moacyr Piza, editora Chão, com posfácio de Boris Fausto, está no mercado com a seguinte nota: “Onde se faz o panegírico - apologia, elogio - de alguns homens honrados da política republicana! No livro nada sobre “Mulíebre” – característico de mulheres, próprio ao sexo, programadas para causar confusão. A navalha da violência contra as mulheres continua afiada e voraz, mutilando almas e as flores do tempo.
João Scortecci
MANJAR BRANCO: FEITO COM AMOR NA FORMA EM FORMATO DE PEIXE
"Manjar branco" é uma sobremesa preparada com leite de coco, açúcar e ameixas. Existem variações: todas maravilhosas! O manjar branco da mamãe Nilce era delicioso, coisa do outro mundo! Melhor que o seu manjar - estou aqui sendo injusto – era o seu pudim de leite: cremoso e cheio de furinhos! Perguntei-lhe: “Mamãe qual o segredo do pudim com furinhos?”. Ela poderia, com propriedade, ter respondido: “feito com amor” ou “é o jeito de bater a mistura” ou, ainda, é o “tempo de descanso da mistura antes de assar”. Coisas assim. Mamãe Nilce, então, respondeu-me: “É a forma!”, apontando para uma forma velha, amassada, do tempo do seu enxoval. Eu, ingenuamente, algumas vezes, até havia pensado em comprar-lhe uma forma nova. Desisti. Nós, filhos adultos e órfãos, somos sobreviventes e crias estranhas: amamos nossas mães pelo pudim de leite, pelo macarrão com pernil, pelo peru desfiado do Natal, pela torta de frango com legumes e, mais do que tudo, pelo manjar branco com calda de ameixas. Outro dia, meu irmão José Henrique enviou-me fotos de uma forma antiga, no formato de peixe - não sei de que ano – para moldar manjar branco, peça exposta no acervo do Museu de Artes e Ofícios, de Belo Horizonte, Minas Gerais. Quem me conhece sabe que sou: sugestionável, influenciável e persuadível. Quando gosto, gosto! Derreto-me, sempre. Desconheço os segredos do manjar branco da mamãe Nilce. Seria também a forma em formato de peixe? Talvez. Mamãe Nilce e seus segredos. Dizia, sempre: “Quando me casei não sabia cozinhar!” “E pensar que, quando cheguei ao Ceará – isso no ano de 1955 –, fui ao mercado central comprar um vaso de barro para plantar uma muda de espada-de-são-jorge, e o moço do mercado, trouxe-me, contrariado, um penico de barro!”. Risos. Mamãe Nilce gostava de contar essa história. Coisas do Ceará, de filhos que amam suas mães e, mais do que tudo, amam seus segredos culinários. Nilce morreu jovem, em 2003, aos 76 anos de idade.
João Scortecci
A SIMPLICIDADE DO FUTEBOL: "HAJA O QUE HAJAR!"
Gosto do “segredo” milenar – que funciona, sempre – de pensar com simplicidade, diante de problemas complexos, crônicos, insolúveis e sem solução. Existem mil ditados, recolhidos ao longo da vida. Todos de aceitação e cabeça fria! Não é fácil perdoar uma mágoa, uma traição, uma injustiça, um ato de covardia e ainda – pasmem – manter a cabeça fria. Impossível. Um provérbio chinês: “Se o problema tem solução, não esquente a cabeça; se não tem solução, não esquente a cabeça”. A ideia central é que, diante do inevitável, a preocupação é inútil e a resignação - aceitação passiva ou conformada de uma situação difícil – é a melhor saída. Existe um ensinamento – uma dica interessante – que aprendi num curso sobre técnicas de memorização, isso nos anos 1980. Num dos exercícios práticos, era obrigado a resumir um assunto completo, uma problemática, usando no máximo cinco palavras. Vale o exercício! Lembro-me, até hoje, da resposta vencedora, aplaudida por todos na sala de aula. Uma moça jovem, vinte e poucos anos, sentenciou: “O amor é cego!”. Chavão, claro, mas indestrutível. Simples e compreensível. Ponto-chave da questão: “sem explicação” ou, ainda, “ausência de uma explicação lógica”, mas aceita e reconhecida por todos. O físico e teórico alemão Albert Einstein (1879 – 1955), gênio que desenvolveu a teoria da relatividade geral, dizia, sempre: “Se você não consegue explicar algo de forma simples, é porque ainda não entendeu bem o suficiente.” A simplicidade é sinal de compreensão verdadeira. Na filosofia do conhecimento, essa ideia está ligada ao princípio de que a clareza é um sinal de domínio intelectual. Hoje, às quatro e pouco da manhã, no radinho de bateria recarregável, ouvindo um programa sobre futebol, o repórter esportivo, declarou: “Futebol é coisa simples!”. Dei um pulo, até desequilibrei os meus cristais do labirinto, rindo do moço, um profundo desconhecedor da arte da bola. Não há nada nesse mundo mais problemático e incerto que o futebol. Na hora, deu vontade de enviar uma mensagem protestando. Desisti. Sorte que, logo em seguida, o jornalista e amigo Marcelo Duarte, editor e autor da coleção de livros “O Guia dos Curiosos”, entrou no ar e começou a falar sobre álbuns de figurinhas das copas do mundo de futebol. Delícia escutá-lo! Lembrei-me, com o coração nostálgico, do meu primeiro álbum de figurinhas: Copa do Mundo de Futebol, México, ano de 1970, Brasil tricampeão Mundial. Guardo-o com paixão, na mesma caixa de pandora, junto com o meu incrível time de futebol de botão. O amor é cego! Quando adolescente, isso no Ceará do final dos anos 1960, era torcedor do time do Botafogo do Rio, pelo Mané Garrincha (1933 – 1983), pela estrela solitária – belíssima – cravada no coração da pelota. Com o tempo – mudança de ares, São Paulo, em 1972 – tornei-me palmeirense. Paixão avassaladora! Culpa do César Maluco, centroavante goleador do Palmeiras, que me convidou para assistir a um jogo de futebol no Palestra Itália. E eu fui! Ausência de uma explicação lógica: não se discute política, religião e muito menos futebol. Melhor assim! Quanto ao resto das problemáticas do mundo – total falta de lógica e domínio intelectual –, sobra o mundo cruel e desleal de Zeus: doenças, discórdia, guerras e fome. Segundo Vicente Matheus – um corintiano polêmico, que admirava: “Quem sai na chuva é para se queimar”. Não há no mundo do futebol explicação maior sobre a arte do futebol. “Haja o que hajar!”
João Scortecci
O SOL DAS LUTAS SEM FIM
Das lutas. Lutas que nascem – das águas da dor – lutas primárias, raízes, da linha do sol do dia, no deserto do memorial. Lutas que brotam do nada e na brevidade do vazio absoluto, morrem no gozo do poema, com os segredos da noite. Lutas de abismos e morte! Não sei o que pesa tanto no selvagem coração do poeta: o cansaço dos dias de luta, as lutas em si – delas por elas – ou, ainda, as lutas primárias, singulares, do cruel destino do tempo. Não sei. Lutas sem fim, incertas, feridas, ilhadas, no desenho do voo astral. Vozes? Talvez. Neoplasias de leão. Loucura, demência, caduquice. Lutas e lutas: no cio do espírito. Elas – as lutas – surgem no gatilho do espelho, no mirante do alvo. Desafios! Lutas que brotam da alma: inquietas, voláteis e teimosas. Lutas de voar e voar. Eu, amanhã, outra vez, no Cosmo: bater asas e voar! Pássaro silvestre ou abutre: tanto faz! Não importa. Aceito o desejo – e a vontade maior – do poema maldito. Ele me guia: sabe o caminho das palavras, do gozo e da imortalidade.
João Scortecci
EU SOU UM LIVRO
Eu sou um livro. Um exemplar raro do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, do escritor Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis, 1839 – 1908), considerado pela crítica literária o maior escritor da literatura brasileira. Fui impresso no ano de 1881, nas Oficinas da Typographia Nacional, na cidade do Rio de Janeiro. Tenho pouco mais de 142 anos de vida, capa ainda em bom estado, páginas amareladas – efeito do tempo – e corpo revestido de muitas histórias. Uma raridade – em primeira edição – com dedicatória do autor e algumas anotações, que lembram tatuagens. Estou catalogado e ocupo lugar de destaque no acervo da biblioteca de um importante bibliófilo paulistano. Tive sorte! Não sei se vocês sabem: nós, os livros, é que escolhemos nossos amigos, protetores e leitores. Um livro impresso em papel – novo ou antigo – precisa de amor, carinho, atenção e cuidados especiais! Antes de ganhar notoriedade de obra rara, passei um longo tempo morando em um sebo “fuleiro”, jogado, literalmente, aos ratos e às traças. Já sobrevivi a um incêndio, escapei de um vazamento de água na cabeça da lombada, sofri ameaça de descarte e de ser – mortalmente – reciclado. Minha morte – anunciada – seria uma tragédia literária! Um crime! Felizmente escapei do pior. Fui resgatado. Nós, os livros, sofremos ataques e destruição por fanatismo religioso e político, vandalismo, maus tratos, contaminação por fungos e bactérias e por ignorância. Minhas páginas estão amareladas e ásperas: o tempo é cruel. É o desgaste natural causado pelos excessos de exposição a luz, umidade, temperatura inadequada e inimigos predadores, como os homens pobres de espírito, cupins, traças e roedores. Nós, os livros, gostamos de ficar em prateleiras limpas, afastados do contato com as paredes e seguros. Ventilação e limpeza são indispensáveis para a nossa sobrevivência. Não gostamos de calor. Com 22 °C está perfeito! Temperatura excessiva – acima de 23 °C – faz com que as fibras de celulose percam as suas propriedades essenciais: elasticidade, flexibilidade e resistência. A umidade relativa do ar não deve ultrapassar 60 %. Iluminação ambiental de 50 watts é a correta. A luz artificial mais utilizada é a fluorescente. Nunca se deve utilizar luz ultravioleta. Ela nos mata! Nosso “dia mundial” é 23 de abril. É a data escolhida pela Unesco para celebrar o livro, incentivar a leitura, homenagear autores e refletir sobre seus direitos legais. Foi escolhida em tributo aos escritores Miguel de Cervantes, Inca Garcilaso de la Vega e William Shakespeare, que morreram em 23 de abril de 1616. Nosso “dia nacional” é 29 de outubro. Foi escolhido por ser o dia do aniversário da Biblioteca Nacional do Brasil fundada em 29 de outubro de 1810, por D. João VI. É a maior da América Latina e uma das 10 maiores do mundo. Datas a serem celebradas todos os dias e por todos nós! Não se ama um livro vez por outra e muito menos com lapsos de memória. Nossas almas são eternas e, quando tocadas, contam histórias, fazem versos, ensinam conhecimento e propagam sabedoria através dos tempos. Eu sou um livro: resiliente, renitente e imortal.
João Scortecci
VOVÓ SARAH E AS TRIPAS DA RAZÃO E DO CORAÇÃO
Eu já desconfiava! Na verdade: sabia e não sabia. Vovó Sarah – isso nos anos 1960 – dizia e repetia, mais de mil vezes. Eu - infelizmente - não a escutava. Pensava: Vovó Sarah está caduca! Resfolegava: “Quando você está enfezado – não importa com o quê – vá ao banheiro e resolva o seu problema!” Risos. E “imaginar” que tem gente que fica três ou mais dias entupido das tripas. Não gosto nem de pensar! Vovó Sarah era uma mulher incrível: doce e espiritualizada. Nasceu no interior do Ceará, em Quixadá, cidade misteriosa, devido às suas formações rochosas exóticas e milenares, como a famosa Pedra da Galinha Choca, no ano de 1894. Dizia que na adolescência esteve com a Princesa Isabel e o Conde d'Eu, em Baturité. Quando? Onde? Não sei. Lendo matéria na “Folha de S. Paulo”, no blog Ciência Fundamental, do mestre e doutor em bioquímica, Eduardo Zimmer, pude, finalmente, dar ouvidos, as pertinências de Sarah: “O intestino pode ser seu segundo cérebro!”. Zimmer começa o seu artigo mencionando o filósofo e polímata da Grécia Antiga, Aristóteles (384 a. C. – 322 a. C.), que afirmava que o “coração” era o órgão responsável pela consciência e que o cérebro era uma espécie de radiador que servia para resfriar o coração. Que doideira! Hoje, as neurociências afirmam outra coisa: “o cérebro é quem coordena funções cognitivas e automáticas, como os batimentos do coração e a respiração”. Zimmer, diz, ainda, com propriedade, que novos estudos têm posto em dúvida a condição “única e egoísta” do cérebro (Eu já desconfiava!), como regente absoluto e primário do universo do corpo humano. Aqui cabe uma piadinha antiga: “Quem é mais importante no corpo humano: o cérebro, o coração ou o ânus?” Cérebro e coração protestaram: “Somos nós!”. E ainda, de passagem, humilharam o pobre do ânus, por ser porta dos fundos e feio. Enfezado, o ânus, travou e parou de funcionar. Crueldade com os seus irmãos de sangue. O que aconteceu, então, a neurociência explica: o cérebro pirou, queimou neurônio, transpirou, e o coração desapaixonou-se de tudo, perdeu o compasso, acelerou-se e saiu, literalmente, pela boca. No sétimo dia, então, o ânus descansou, feliz, no trono dos justos. Pura vingança! O intestino, depois de estudos científicos, tem sido chamado de “o segundo cérebro”, devido à abundância de células nervosas vivendo em suas tripas. Os neurônios intestinais mantêm uma ligação direta com o cérebro, causando profundo impacto no nosso comportamento. Cérebro e intestino trabalham juntos e ditam nossos pensamentos e ações. Existem, ainda, evidências científicas de que as bactérias intestinais – perto de 100 trilhões de microrganismos vivos – comandariam o sistema nervoso e central do nosso ecossistema. Para concluir, segundo Zimmer: “As bactérias intestinais – talvez – atuem como o indivíduo oculto que, por meio de cordéis, manipula as marionetes ou fantoches – nós, no caso.” Vovó Sarah, era mulher sabe tudo. Tento - com amor e aos poucos – lembrar-me de todos os seus sábios ensinamentos. Outro dia, lembrei-me de um outro: “João, não tenha medo dos mortos, tenha medo dos vivos”. Pai, livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a Vossa paz.
João Scortecci
REVISTA “SELEÇÕES” E A COMPANHIA LITHOGRAPHICA YPIRANGA
Meu pai, Luiz Gonzaga – isso nos anos 1960 – era assinante da revista “Seleções”. Lia e relia a brochura de cabo a rabo! Papai era vidrado na seção “Piadas de caserna”, que ilustrava as duas últimas páginas da revista, impressa no formato pato, 13,4 cm x 18,4 cm, carinhosamente, no Brasil, apelidado de “formatinho”. “Seleções” é a denominação da versão brasileira da “Reader’s Digest”, criada em Pleasantville, Nova York, no ano de 1918, quando o editor DeWitt Wallace (1889 – 1981) e sua esposa, Lila Bell Wallace (1889 – 1984), tiveram a ideia de lançar uma revista que reunisse os melhores e mais úteis artigos já publicados, usando uma linguagem condensada, mas sem interferir no conteúdo e no “sabor” do texto. Meu pai dizia: “Gosto da sua objetividade!”. Guardei o comentário! O primeiro número da “Reader’s Digest” chegou às bancas dos Estados Unidos em 1922 e, por muitos anos, foi a revista mais vendida naquele país. “Seleções” chegou ao Brasil 20 anos depois, em 1942, trazida por Robert Lund, fundador do Grupo Lund Editoras Associadas. Os números refletem a trajetória de sucesso da revista. A primeira edição brasileira, com 100 mil exemplares, esgotou-se rapidamente, e, no início dos anos 1970, a tiragem atingiu a casa dos 500 mil exemplares. A Companhia Lithographica Ypiranga (1901 – 2014) foi a primeira gráfica da América Latina a imprimir em cores. Em 1950, após a aquisição de um moderníssimo equipamento gráfico, iniciou no Brasil a impressão da revista “Seleções”. O setor gráfico chegou – oficialmente – ao Brasil, por decreto régio, no ano de 1808, data oficial da implantação da tipografia no País. Coube à gráfica carioca Companhia Lithographica Ferreira Pinto, no ano de 1922, a compra da primeira máquina de offset do Brasil. Em 1924, o offset chegou a São Paulo pela Graphica Editora Monteiro Lobato (1918 a 1925), que, mais tarde, passou o equipamento à São Paulo Editora. No mesmo período, chegaram também máquinas offset na Companhia Lithographica Ypiranga e na Litografia Artística. Em 1923, foi fundada a Associação dos Industriais e Comerciantes Gráficos de São Paulo, hoje Sindigraf – Sindicato das Indústrias Gráficas de São Paulo, que, em 1944, foi reconhecido oficialmente, por lei, como representante paulista dos empresários gráficos. A Companhia Lithographica Ypiranga – que durante 113 anos contribuiu para a história de sucesso da indústria gráfica brasileira – está registrada, no SIndigraf, como sócio-fundador de número 3. Guardo no memorial da Scortecci um exemplar da revista “Seleções”. Ela, até hoje, me olha com objetividade. Meu pai Luiz era assim: prático, inteligente, bem-humorado e adorava uma boa piada.
João Scortecci
CORDEL: RAIMUNDO, O CHUPA-CABRA SILVESTRE
Da imortalidade! Já disse e repito: gosto de palavras novas, até então: desconhecidas do meu vocabulário. Encontrei uma palavra nova: “decrepitude”, que significa estado ou condição do que é ou está decrépito, estado de adiantada velhice. Caducidade! Anotei no bloco de notas e morri, no sofá da sala. Acordei – coincidência? – escutando no rádio um jurista com sotaque nordestino falando sobre caducidade: estado daquilo que se anulou ou que perdeu valia. Algo assim. Liguei, então, o PC e abri minha caixa de e-mails. Uma chuva de spans. Faz parte! Soube, então, do lançamento do cordel “Raimundo, o chupa-cabra” que conta a história de um vate do baixo Jaguaribe, nascido no sertão do Ceará, já idoso, na casa dos 70 anos, doente dos chifres e alérgico, a sangue humano. Tragédia! Na nota de divulgação da obra a seguinte observação: “Raimundo havia provado sangue humano - uma única vez na vida - e quase havia morrido de nó nas tripas”. História triste! Raimundo, até então, vivia de sangue de cabras, galinhas, ratos e morcegos silvestres. História infantil? É o que dizia o release. O desejo de Raimundo – lendo a sinopse sobre a obra – era tornar-se um verdadeiro vampiro de sangue humano. Frustrado e abandonado pela mulher Das Dores – amor de infância – havia se mudado para Brasília, Capital Federal, em busca de cura, sorte e quem sabe, um novo amor. Fiquei curioso. Pedi, então, respondendo o e-mail, que me enviassem um exemplar do cordel, para análise e possível publicação de nota no blog Amigos do Livro. Decrépito, aguardo, a chegada do cordel vampiresco. Estou febril. O corpo dói. Deve ser efeito da vacina de hoje cedo, contra a gripe influenza. Picada de beija-flor, com caducidade feroz de um chupa-cabra do Jaguaribe. Deu nó nas tripas. História infantil? É o que dizia o release. Vale o entre aspas da nota do e-mail: “Para ler antes de dormir!”
João Scortecci
QUEM QUER FALAR COM LYGIA FAGUNDES TELLES?
Tudo – ou quase tudo – já foi dito sobre a incrível e maravilhosa escritora, Dama da Literatura Brasileira, Lygia Fagundes Telles. Lygia nasceu no dia 19 de abril de 1923. Foi o que ela me disse, pessoalmente, uma única vez. Recentemente, quando da sua morte, no dia 3 de abril de 2022, encontraram documentos – registro de nascimento, de batismo e certidão de casamento –, atestando que ela nasceu em 1918. Vale o escrito! Conheci Lygia com seus 60 anos de idade, no ano de 1978, na sede da UBE – União Brasileira de Escritores, na capital paulista. Uma mulher belíssima, elegante e gentil. Sou testemunha de que nunca recuou frente a um desafio em favor dos escritores e da liberdade plena, em todos os sentidos. Aproximamo-nos no ano de 1982, quando me tornei editor de livros e diretor da UBE. Lygia foi quem, em 1982, levou Menotti Del Picchia à Scortecci Editora, compareceu a dois lançamentos de livros de minha autoria (A morte e o corpo e Água e sal – Fragmentos de tempo algum), foi presença constante nas reuniões, aos sábados, na casa do escritor e crítico literário Fábio Lucas e foi à minha casa – quando eu morava na Rua Cândido Espinheira, no bairro Santa Cecília, na festa de meu aniversário de 28 anos. Vez por outra, falávamos ao telefone. Não existiam celular, e-mail, WhatsApp, e a internet era ainda uma precária novidade. Quando me passou o número do seu telefone, disse: “Guarde-o a sete chaves.” Lembro que, ao ligar pela primeira vez, senti um frio na barriga e uma tremedeira nas pernas. “Quem quer falar com ela?” “João Scortecci”, respondi. Minutos depois, Lygia atendeu à ligação, com sua voz inconfundível. A mesma cena se repetiu duas ou três vezes: “Quem quer falar com ela?” Desde a primeira ligação achei a voz da atendente estranha e seca, mas muito parecida com a de Lygia. Com o tempo – e mais liberdade, claro – descobri que se tratava de Lygia, num disfarce, um filtro, uma salvaguarda de privacidade. Na primeira oportunidade que tive, quebrei o protocolo: “Lygia, sou eu, o Scortecci.” Ela gargalhou. Momento raro. Um dia, na sede UBE, justificou-se, educadamente: “Faço isso para afastar os chatos!” Em mais de 40 anos de vida literária, nunca vi Lygia sair do sério ou perder a calma, mesmo nos momentos tensos dos “anos de chumbo”. Guardo lembranças maravilhosas do privilégio que tive com sua amizade literária. De todas as lembranças – foram muitas – a melhor de todas foi vê-la entrar na Galeria Pinheiros, na Rua Teodoro Sampaio, 1704 – onde, durante 10 anos, funcionou a Scortecci Editora –, de braço dado com o Príncipe dos Poetas, Menotti Del Picchia. Inesquecível. Menotti foi amigo do meu avô José Scortecci, editor e gráfico fundador do semanário PAN. O semanário, que circulou entre os anos de 1935 e 1945, publicou o texto de estreia, "Triunfo", de Clarice Lispector, em maio de 1940, além de contar com colaboradores como Monteiro Lobato e Silveira Bueno.
João Scortecci
A MULHER DE BRANCO COM ALGODÃO NA BOCA
No ano de 1976, servi como soldado motorista (SD 1148) na CCS-PT, do 2º Batalhão de Guardas (BG), no Parque Pedro II, em São Paulo – Batalhão de Elite do II Exército. Meu primeiro “trampo” foi no P4, guarita que ficava no pátio do Pelotão de Transportes. Depois fui escalado – algumas vezes – para o P5, portão de entrada e saída das viaturas militares do BG. Duas ou três vezes, puxei serviço na 3ª CIA, na Rua da Independência, no bairro do Cambuci, onde também funcionava o Hospital Militar. Meses depois, virei “peixe” (soldado protegido) do Sargento Leandro, responsável pela escala de serviço, que passou, então, a me escalar para QG do II Exército, no Parque do Ibirapuera. A história do fantasma da mulher de branco com algodão na boca aconteceu na 3ª CIA, numa noite escura, fria e misteriosa. Alguém deu o alerta: “Cuidado com o fantasma da mulher de branco com algodão na boca!”. Risos. Eram 2h30 da madrugada, quando a mulher apareceu. Susto! Meu coração quase saiu pela boca. Veio do morro do Cambuci – não andava, flutuava –, passou pelo portão da guarda, parou na calçada em frente, espiou o vazio da Rua da Independência, e me encarou. Gelei. Cabelos longos, loiros, pálida, camisola branca, descalça, com uma mecha de algodão na boca. Engatilhei o FAL – Fuzil Automático Leve – e mirei na cabeça. “O que foi, soldado?” Era o oficial da guarda fazendo a ronda da noite. Disse-lhe: “A mulher do algodão!” Apontei. Nada. Ela havia sumido. O oficial, calmamente, explicou-me: “Já vi uma vez. Fica calmo. Ela é do bem. Filha de um Coronel da reserva que morreu no hospital militar!”. Virou-se foi embora. Mantive o FAL engatilhado, até ser rendido, às 4h, pontualmente. Puxei serviço na 3ª CIA do BG mais duas ou três vezes. Numa delas levei para a cadeia um soldado armeiro, que havia roubado uma pistola do Exército. Segundo soube, desmontou a pistola e a levou, peça por peça. Um dia descobriram e, antes de ser expulso, pegou “cana” de alguns meses. Cumpriu sua pena na cadeia da 3ª CIA, no Cambuci. A cadeia – num porão escuro, sem janelas – tinha a altura de 1,20 m. Um buraco, literalmente. O preso não podia ficar de pé. Era obrigado a ficar de cócoras ou deitado no chão frio. A cena, até hoje, 50 anos depois, ainda, às vezes, mexe com meus miolos. Quanto ao fantasma da mulher de branco com algodão na boca, descobri que não fui o único a vê-la. A moça era popular no quartel. Sua presença volátil, nos anos de chumbo, ajudou-me a escrever o incrível ano de 1976, o ano que não terminou.
João Scortecci
TUDO EM FAMÍLIA: TRAGÉDIA GREGA NO MONTE OLIMPO
Tragédia Grega no Monte Olimpo. Aconteceu mais ou menos assim: Cronos, deus do tempo e o mais forte dos titãs, era um comunista de carteirinha, das antigas. Devorador de criancinhas! É o que dizem. Comeu seus próprios filhos! Escapou da gula antropofágica apenas o seu primogênito, Zeus. Zeus, o deus dos deuses, foi salvo por Gaia, a mãe terra, a pedido de Reia, sua mãe. Gaia - esperta que só a natureza - elaborou um plano diabólico e salvou Zeus, poupando-o da fúria de Cronos. Zeus - um galo incansável - casou-se com Métis, deusa da prudência, que lhe deu a filha Atena, deusa da sabedoria, da guerra e da beleza eterna. Zeus - mulherengo e danado, imprudente com as coisas do coração - logo trocou Métis por Têmis, deusa da justiça, com quem teve as filhas Moiras e Horas. O casamento dos dois durou pouco. Dizem – não sei se é verdade - que Zeus ainda se casou mais cinco vezes. Zeus nunca superou o trauma de ter um pai antropofágico e comunista. Já velho e doente, casou-se ainda mais uma vez, com Mnemósine, deusa da memória que - sabiamente - o fez esquecer de tudo: das farras, das orgias e dos babados do Monte Olimpo. Do seu casamento - o mais cultural de todos - nasceram Clio, musa protetora e inspiradora da história, Euterpe, da música, Talia, da comédia e poesia e Urânia, da astronomia. Detalhe mitológico: Zeus - adormecido na demência, vez por outra, ainda – conta histórias de amor, escuta músicas do coração, faz poesias e namora estrelas do céu maior, lá no alto do Monte Olimpo. Moral da história: o culpado da tragédia grega foi Cronos, o antropófago do reino dos titãs, comunista e comedor de criancinhas.
João Scortecci
SPLASHDOWN E O PENTAGRAMA DA ESTRELA
Splashdown no Pacífico! Órion caiu docemente nas águas do mar. Eu e Akasha - deusa protetora contra os demônios do inferno - assistimos tudo. Akasha, estrela da noite, guardiã da boca do buraco de minhoca, rezava e sorria de emoção. Órion, finalmente, pousou: sã e salva. Abraçamo-nos de alegria. Dormimos no limbo. Sonhei com a castidade da lua e suas sombras. Artemis - éter de fluidos cósmicos – no céu do pentagrama da vida! Hausto divino. A cápsula de barro, onde dentro guarda-se o graal da humanidade, descansou. Cálice dos primórdios – quando tudo ainda era nada – até, então, o derradeiro banho de magmas, do princípio e do fim. Perguntei-lhe, então: Akasha, quem somos? Akasha, de onde viemos? Akasha, para onde vamos? Silêncios. Mais adiante, respondeu-me com os dedos do destino apontando para o pentagrama posto na boca do buraco de minhoca. Acordei. Na sala do coração uma agitação medonha. As três Marias - Mintaka, Anilam e Alnitak - tagarelavam. Perguntei-lhes: O que vocês estão fazendo? Mintaka respondeu-me: Um splashdown de ovos mexido, com bacon, tomatinho, queijo ralado, azeite de oliva e sal, a gosto. Você quer? Perguntaram. Quero! Respondi. Vocês viram Akasha? Alnitak, a estrela caçula, resfolegou aos deuses do céu: Acorda homem: sai da boca do buraco da minhoca e vem comer! Foi o que fiz. Akasha, sã e salva, dos pesadelos da noite. Até quando? Não sei.
João Scortecci
“ALMOÇO EM CASA” COM O POETA ARTUR DE AZEVEDO
Na mesma época que me tornei editor de livros, no ano de 1982, abri um dos primeiros restaurantes “self-service” da cidade de São Paulo. Chamava-se “Almoço em Casa”. Ficava na Rua Artur de Azevedo, nº 1129, no bairro de Pinheiros, e funcionou durante dois anos. A casa foi importante no início da vida de empresário. Pagava as contas e garantia o jantar do dia! Lembro-me de que, na época, o nome da rua – em homenagem ao dramaturgo, poeta, contista, prosador, comediógrafo e jornalista Artur de Azevedo (1855 - 1908) – foi um sinal “cultural” na hora da escolha do local. “Almoço em Casa” ficava a três quarteirões da editora, na época no endereço da Rua Teodoro Sampaio, nº 1704, loja 13. Artur de Azevedo, com seu irmão, o escritor Aluísio Azevedo (1857 - 1913), foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Era um apaixonado pelo teatro – um comediógrafo –, tendo encenado mais de cem peças no Brasil e em Portugal. Artur foi um dos apoiadores da criação do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na Cinelândia, centro da cidade do Rio de Janeiro, inaugurado em 1909, poucos meses depois de sua morte. Outro dia, sussurrou-me, os versos: “Ai, quem me dera, em verso aprimorado, saber reproduzir tão lindas cenas!” Voltei, então, no tempo... No melhor das minhas lembranças do ano de 1982, pude – liberto – reviver cenas de mim mesmo. Eu com 26 anos de idade. Havia largado o emprego, para viver – literalmente – de livros. Eu, 5 horas da manhã, no CEAGESP, comprando verduras e legumes para o restaurante, depois escolhendo feijão, lavando arroz, cortando cebolas, descascando batatas e pepinos, moendo carne e olhando, pelos olhos do tempo, o relógio das horas. “Ai, quem me dera” a releitura do sonho! Faria tudo igual, novamente. Quem me dera “reproduzir tão lindas cenas”, do eu de mim. Depois, largava tudo, e voava, veloz - liberto - para a editora. Em 2024 as casinhas da Rua Artur de Azevedo, em Pinheiros, foram demolidas, para a construção de mais um prédio. Descobri o que já sabia sobre o tempo: Ai, quem me dera, em verso aprimorado, reencontrar o eu de mim. Faria tudo igual, novamente. Quem me dera!
João Scortecci