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MACACO COM SACO VERDE-FLUORESCENTE

Quimera, na mitologia grega, é uma fera com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente, que cuspe fogo. Figura mística, caracterizada por uma aparência híbrida de dois ou mais animais. O termo, descreve, também, na ciência, um organismo com células de diferentes origens genéticas. Lendo sobre quimeras tecnológicas, soube que cientistas chineses desenvolveram em laboratório “macacos quiméricos”, primatas que possuem dois ou mais tipos de DNA no seu corpo, resultado da combinação de células-tronco de embriões geneticamente distintos de macacos da mesma espécie. O que os cientistas dizem: "As quimeras poderão, num futuro próximo, ser usadas como modelos em pesquisas sobre doenças neurológicas". Algo assim. Em outra frente, poderão, ainda, ser usadas em estudos para desenvolver novas terapias a partir das células estaminais - células mãe -, que têm a capacidade de se auto renovar. Da experiência chinesa, nasceu um macaco quimérico, macho, com partes do corpo verde-fluorescente. O macaco psicodélico - que produz efeitos alucinógenos - nasceu com cérebro, coração, rim, fígado, trato gastrointestinal e testículos, com traços que provam, de fato, ser uma quimera. Por sorte o monstrinho chinês não solta fogo pelas narinas! O macaco - macho - tem saco e unhas verdes fluorescentes: verdadeiro sucesso! 

João Scortecci


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OS PARDAIS DE MAO TSÉ-TUNG

Um amigo me confessou: "Os pardais da cidade estão sumindo!". "Qual a razão?" Perguntou-me. "Não sei". Respondi. Fui, então, procurar saber na Internet. O que descobri sobre o desaparecimento dos pardais: “Os pardais estão sumindo das cidades em várias partes do mundo, incluindo o Brasil, devido à urbanização intensa, menor oferta de alimentos e poluição, que afetam sua alimentação e reprodução.” Liguei, então, para o amigo e confirmei a informação: "É verdade!" Disse-lhe. Não satisfeito, continuei, então, pesquisando sobre o sumiço dos pardais. Encontrei algo interessante: “Aves nativas estão ocupando o lugar dos pardais!” Aves nativas? Sim. Sabiás, bem-te-vis e periquitos estão ocupando o espaço dos pardais. Nos anos 1970, quando cheguei em São Paulo, os pardais eram praga! Lendo sobre a campanha de caça as “Quatro Pragas” lançada pelo líder comunista e revolucionário chinês Mao Tsé-Tung (1893 – 1976), em 1958, além dos ratos, moscas e mosquitos, encontrei, também, caça aos terríveis pardais. O extermínio em massa dos pardais na China de Mao Tsé-Tung modificou o equilíbrio ecológico e permitiu a proliferação de insetos que acabaram destruindo as colheitas, sendo uma das causas da Grande Fome Chinesa. Explicação: Os pardais foram incluídos na lista de inimigos porque comiam sementes de grãos, roubando do povo os frutos do seu trabalho, em sua concepção, considerando que “Os pássaros são animais públicos do capitalismo”. Pardais capitalistas? Águias? Talvez. Insisti na pergunta: “O pardal é símbolo ou aparece em alguma bandeira de país?” Resposta: “Não, o pardal especificamente, não aparece em nenhuma bandeira nacional de países soberanos. Muitas bandeiras apresentam aves, mas nenhuma delas é um pardal.” Praga mesmo! Lendo, ainda, sobre as “Quatro pragas” descobri que a China durante a o período de Mao Tsé-Tung não teve sucesso com a caça aos ratos e nem aos mosquitos, somente contra os pardais. No Brasil, durante a Revolta da Vacina (1904), o governo do Rio de Janeiro passou a pagar uma recompensa por rato entregue para combater a peste bubônica. Para lucrar com a medida, parte da população passou a criar ratos em casa para vendê-los às autoridades sanitárias. O plano foi cancelado após a descoberta da fraude, que acabou aumentando a população de roedores na cidade. Aqui com os meus pardais: Seriam os ratos animais públicos do comunismo? Brincadeira, claro. Uma única certeza: estou feliz com os sabiás, os bem-te-vis e os periquitos que, quase que diariamente, cantam - alegremente - nas minhas janelas paulistanas.  

João Scortecci


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T. S. ELIOT E O LAGO LÉMAN: SENTEI-ME E CHOREI!

O poeta, tradutor e jornalista mineiro, Paulo Mendes Campos (1922 - 1991), traduziu livros dos escritores: Júlio Verne, Oscar Wilde, Jane Austen, William Shakespeare, Charles Dickens, Gustave Flaubert, Pablo Neruda, Emily Dickinson, James Joyce, Jorge Luis Borges, T. S. Eliot, entre Outros. Paulo Mendes Campos, em 1956, traduziu para a Editora Civilização Brasileira, do editor Ênio Silveira (1925 - 1996), um dos poemas mais influentes do século XX: “The waste land” (“A terra inútil”), de T. S. Eliot (Thomas Stearns Eliot, 1888 - 1965), de 1922. T. S. Eliot foi professor, bancário no Lloyds Banking Group e editor na casa publicadora britânica Faber and Faber, uma das maiores do mundo e conhecida principalmente por ter publicado vários livros de poesia. A Faber and Faber foi fundada em 1926 e, na sua lista de autores premiados, estão 13 ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura e seis ganhadores do Prêmio Man Booker, um dos mais importantes do Reino Unido. Eliot concluiu “The waste land” em Lausanne, cidade suíça, situada às margens do Lago Léman, localizada 62 km a nordeste de Genebra, durante um período de isolamento, para tratamento médico e psicológico, devido a trabalho excessivo e preocupações familiares, que afetavam sua saúde. Escreveu: “O rio não carrega papéis de embrulho, garrafas vazias,/ lenços de seda, caixas de papelão, pontas de cigarro/ ou qualquer outro testemunho das noites de verão. As ninfas se foram. / Seus amigos, os ociosos herdeiros dos potentados da cidade,/ também se foram, sem deixar endereço. / Junto às águas do Léman, sentei-me e chorei.” T. S. Eliot - Nobel de Literatura de 1948 - nasceu em Saint Louis, no Missouri, EUA, no dia 26 de setembro de 1888 e faleceu em Londres, Inglaterra, no dia 4 de janeiro de 1965, aos 77 anos de idade.

João Scortecci


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DIA 7 DE JANEIRO: DIA DO LEITOR E DO JORNAL “O POVO”

História comprida, mas vale a pena ser contada e lida e relida. Principalmente para quem gosta de ler e quer saber sobre o Dia do Leitor. Meu pai, Luiz Gonzaga do Carmo Paula, era filho de João Batista de Paula, o Batista da Light, e de Sarah do Carmo Paula, primos legítimos da cidade de Quixadá, interior do Ceará. Sarah era filha de Joaquim do Carmo Filho e de Izabel Figueiredo Leopoldina do Carmo e irmã de José Nereu, Godofredo, Maria Augusta, Letícia e Creusa. Creusa (Creusa do Carmo Rocha, 1915 – 1943) se casou com o poeta, jornalista e acadêmico cearense Demócrito Rocha (1888 – 1943) e tiveram duas filhas: Maria Albanisa Rocha e Maria Lúcia Rocha, a Tia Lucinha. Demócrito Rocha e o jornalista, poeta, deputado federal, senador da República e governador do estado do Ceará Paulo Sarasate (Paulo Sarasate Ferreira Lopes, 1908 – 1968) fundaram, em 7 de janeiro de 1928, o jornal cearense “O Povo”. Paulo Sarasate, vinte anos mais jovem que Demócrito Rocha, casou-se com Maria Albanisa, filha de Demócrito Rocha e não tiveram filhos. Demócrito Rocha iniciou a atividade jornalística em 1924, fundando o jornal “Ceará Ilustrado”. Foi também redator e diretor literário do jornal “O Ceará”. Fundou, em 1928, o jornal diário “O Povo” e, no ano seguinte, a revista literária “Maracajá”, que propagava o modernismo no Nordeste do Brasil. Com a morte de Demócrito Rocha, em 1943, e de Paulo Sarasate, em 1968, Maria Albanisa Rocha Sarasate assumiu a direção do jornal até 1985, quando veio a falecer, transferindo-se a direção do jornal para o sobrinho Demócrito Dummar, filho mais velho de sua irmã, Maria Lúcia Rocha Dummar, a Tia Lucinha. Demócrito Dummar foi um primo querido. Era afilhado do meu pai, Luiz Gonzaga, e, sempre que possível, conversávamos sobre o mercado editorial. Tinha planos de abrir uma filial da Gráfica Scortecci em Fortaleza. Demócrito faleceu em 25 de abril de 2008. Hoje, “O Povo” é o mais antigo jornal em circulação no Ceará, tendo como presidente do grupo a bisneta de Demócrito Rocha, filha mais velha do primo Demócrito Dummar, a jornalista Luciana Dummar. O Dia do Leitor, comemorado no Brasil no dia 7 de janeiro, é uma homenagem às pessoas apaixonadas pela literatura e que amam os livros! Foi criado em homenagem à fundação, pelo poeta e acadêmico Demócrito Rocha, do jornal cearense “O Povo”, de 7 de janeiro de 1928, que ficou conhecido por combater a corrupção e divulgar fatos políticos com isenção e coragem, e também pela criação, em 1929, do suplemento literário “Maracajá”, folha modernista do Ceará, espaço de divulgação do movimento modernista literário cearense na época.

João Scortecci

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O MONSTRO DO AÇUDE BOTIJA DA FAZENDA ÁGUA VERDE NO CEARÁ

Em 1966, eu tinha pouco mais de 10 anos de idade e morava em Fortaleza/CE, quando soube da história do Monstro da Fazenda Água Verde, na região da cidade de Palmácia, distante 72 km da capital, no Circuito Turístico da Serra de Guaramiranga, no maciço de Baturité. O bicho virou manchete nos jornais e na TV, depois dos misteriosos “avistamentos” de uma estranha criatura – rasgando o vento – nas águas do Açude Botija. Testemunhas oculares descreviam a presença do monstro de várias formas: uma tartaruga com chifres, um dinossauro, uma cobra gigante e até um ser medonho, mistura de boi e lagarto gigante, com chifres, pele escura, coberta de pelos pretos, um olho só e sem orelhas. O Açude Botija – desconhecido, até então – passou a ser um grande perigo, e ninguém de boa-fé arriscava frequentá-lo. Tornou-se local de visitação pública, e pessoas chegavam de todos os cantos do Ceará. Uma atração turística! Moradores da região montavam barracas ao redor do açude e vendiam de tudo: cafezinho, tapioca, laranja, cigarro e lembranças, com a estampa do monstro. Até uma cachaça – na época – foi batizada com o nome de “Bicho da Água Verde”. Mas o medonho sempre escapava dos tiros de quem o avistava e da lente das câmeras, de quem tentava – em vão – fotografá-lo. O então prefeito da cidade de Palmácia, Francisco Damasceno Filho, chegou a oferecer um prêmio de 10 mil cruzeiros a quem conseguisse matar a fera. Encomendou – é o que diziam na época – um barril de álcool para preservar o bicho, quando a fera fosse abatida. Muita doideira! A captura do animal se deu – finalmente – no mês de setembro daquele mesmo ano. O DNOCS – Departamento Nacional de Obras Contra as Secas do Ceará se apropriou do direito de caçar a fera, convocando o biologista Raymundo Adhemar Braga (1924 – 1974), exímio exterminador de piranhas, com o objetivo de capturar o “perigoso e fantasmagórico animal”. Foi criada, então, a Força Expedicionária do DNOCS, equipada de material bélico, solicitado ao Exército, como fuzis, barracas, lança-chamas, granadas e holofotes, segundo consta no livro “Nossas Histórias”, de Jarbas Gurgel. Raymundo Adhemar Braga, o caçador de piranhas, rumou para o lugar das aparições, liderando um agrupamento de dez homens, armados e equipados. Do alto de uma árvore próxima ao acampamento, munido de binóculo e um rifle, montou um posto avançado. Era noite enluarada, quando a vegetação aquática – perto da margem do açude – agitou-se, fortemente. Era o monstro! Dada a ordem, mais de 20 tiros foram disparados. Uma semana depois, foi encontrado morto, boiando, nas margens do Açude Botija, um jacaré pesando 32 quilos e 1,6 metros de comprimento. O jacaré ficou exposto à visitação pública como um meio de acalmar a população. Foi, então, enviado para a Universidade Estadual do Ceará, onde foi empalhado e, posteriormente, levado para o Museu do DNOCS. Em 2002, o historiador Parcélio Campos descobriu o paradeiro do animal – esquecido, num canto – e o levou de volta para a cidade de Palmácia. Hoje, o Monstro da Fazenda Água Verde se encontra exposto na biblioteca municipal da cidade. A explicação dada, na época, sobre o medonho é que teria acontecido, provavelmente, a coincidência de o jacaré ter abocanhado um bode inteiro, daqueles de chifres grandes, que ficaram expostos, por um longo tempo, até caírem. Na minha próxima viagem ao Ceará – não sei quando – pretendo visitar a cidade de Palmácia, no maciço de Baturité, e a Biblioteca Municipal, para fotografar o Monstro da Fazenda Água Verde. E, quem sabe, beber – no tempo – uma cachaça, da boa.

João Scortecci
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CASTELINHO DA RUA APA: MAL-ASSOMBRADO E CHEIO DE MISTÉRIOS

Mal-assombrado e cheio de mistérios! É o que dizem do “Castelinho da Rua Apa” - palco de assassinatos e muitas histórias, mesmo depois de muitos anos.  O que aconteceu: Mãe e dois filhos – adultos – foram encontrados mortos a tiros, em 12 de maio de 1937. O crime - até hoje - intriga e assusta os paulistanos, principalmente depois que o “castelinho” ganhou fama de mal-assombrado. A história: Uma família importante e influente da época, donos do Cine Broadway – que encerrou suas atividades em 1967 e o prédio foi demolido nos anos 1970 - de propriedade de Maria Cândida (Maria Cândida Guimarães dos Reis), uma socialite, muito religiosa, viúva do médico César Reis (Virgílio César dos Reis) e seus dois filhos homens, todos personagens da tragédia. Na época, Maria Cândida tinha 73 anos de idade. Seu filho mais velho, Álvaro, 45 anos, advogado, exímio patinador - chegou a ser recordista mundial nesse esporte - gostava de festas, mulheres e viagens e o filho caçula, Armando, 43 anos, também advogado, reservado e caseiro, muito diferente do irmão mais velho. O que teria acontecido: Um desentendimento entre eles, foi o gatilho para os crimes. Álvaro queria fechar o cine Broadway, estava cheio de dívidas e no local, instalar, então, um rinque de patinação. Armando, responsável pelas finanças da família, recusava-se, veementemente, alegando que o rinque de patinação não seria uma garantia de retorno financeiro como era, até então, o Cine Broadway. A gota d’água veio em 12 de maio de 1937. Os dois irmãos teriam discutido, os ânimos se exaltaram, e eles apontaram armas um para o outro. De acordo com a versão oficial, Álvaro foi o culpado: baleou fatalmente a mãe e o irmão e depois, cometeu suicídio, com dois tiros no peito. Na cena do crime foi encontrado a arma de Alvaro, uma pistola automática Parabellum calibre 9, fato determinante para conclusão da versão oficial. Há controvérsias e dúvidas sobre a versão oficial. Leda de Castro Kiehl, sobrinha-neta de Maria Cândida, autora do livro “O Crime do Castelinho: Mitos e Verdades” (Equilíbrio, 2015), discorda da versão oficial. Para Leda foi o irmão mais novo – o Armando – quem teria sido o autor dos crimes. Há, ainda, outra hipótese: segundo os médicos, Maria Cândida teria sido assassinada com quatro tiros, não três, como consta no laudo policial. Duas das balas seriam de uma arma de calibre diferente da pistola de Álvaro, o que indicaria a presença de uma quarta pessoa no local, e que tornaria o crime uma chacina encomendada. A polícia descobriu, também, papéis assinados pelo filho mais velho que demonstravam que sua situação financeira era delicada, mas seus credores, que poderiam estar por trás da tragédia, nunca foram localizados. O Castelinho da Rua Apa, esquina com a Avenida São João, passou por um imbróglio judicial e, abandonado, acabou passando para as mãos do Estado. A deterioração só contribuiu para reforçar as lendas sobre o lugar. Hoje, o “Castelinho” -, é administrado pela ONG Clube das Mães do Brasil - Instituição Filantrópica, sem fins lucrativos, voltada às pessoas em situação de rua e em vulnerabilidade social - e foi restaurado no período de 2015 a 2017. Mesmo assim, a lenda de mal-assombrado e misterioso permanece na boca do povo. Pessoas que frequentam o “Castelinho” dizem ouvir passos, choros e lamúrias dos espíritos dos mortos no lugar. Ficou a sina de mal-assombrado e cheio de mistérios!

João Scortecci

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ROD SERLING, ZAMIÁTIN, ORWELL E O GRANDE IRMÃO

O roteirista norte-americano Rod Serling (Rodman Edward “Rod” Serling, 1924 – 1975), criador da série “Além da Imaginação” (“The Twilight Zone”, de 1959 até 1964), quando lhe perguntaram qual a diferença entre fantasia e ficção científica, respondeu: “Fantasia é o impossível tornado provável. Ficção científica é o improvável tornado possível.”. Lendo a biografia de Rod Serling, lembrei-me do “influenciador literário” e escritor russo Eugene Zamiátin (Evgéni Ivánovitch Zamiátin, 1884 – 1937), autor do romance distópico “Nós”. Zamiatin influenciou gênios da ficção científica, como Aldous Huxley, George Orwell e Ayn Rand. Três ícones da ficção! Tenho minha lista pessoal, forjada – lentamente – desde os anos 1970: Isaac Asimov (“Eu, Robô”), Arthur C. Clarke (“2001: uma odisseia no espaço”), Ray Bradbury (“Fahrenheit 451”), Edmund Cooper (“A Humanidade Artificial”), Aldous Huxley (”Admirável Mundo Novo”) e George Orwell ("1984"). Orwell (Eric Arthur Blair, 1903 – 1950), autor do romance distópico “Nineteen Eighty-Four” (“1984”), escrito em 1949, narra a vida “sufocante” de indivíduos “aprisionados” num sistema de autoritarismo e opressão — pelo líder supremo do Partido, intitulado de o “Grande Irmão” —, com vigilância tecnológica da “teletela”, uma espécie de TV que espia os cidadãos, devassando a privacidade de todos, alegando se tratar de uma questão de segurança. E pensando em segurança, com ajuda de um adesivo, cobri a câmera do Laptop e desliguei o som. Desconfio que o “Grande Irmão” anda me espionando, acomunado com o meu celular, outro intruso, opressor distópico de “Nós” e influenciador, que tudo vê e tudo escuta. Rod diria, talvez: “Improvável tornado possível e nada mais!”. Dizem – não duvido – que agora estão também invadindo o nosso sono, os nossos sonhos, os nossos pesadelos. “Nós” está ferrado!

João Scortecci

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BOTICÁRIO FERREIRA E O MORRO DOS PECADOS

Tudo virou pó em segundos! Eu tinha pouco mais de sete meses de idade quando o teto da igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Fortaleza, desabou. Era uma sexta-feira, dia 15 de março, por volta das 13h15, do ano de 1957. Morávamos a menos de três quarteirões da igreja, no centro da cidade, na Avenida D. Manoel, 1086, quase esquina com a Av. Duque de Caxias. Mamãe Nilce, naquela época, estava grávida da Ana Cândida, irmã caçula. Estávamos de malas prontas - de mudança – para Dois Córregos, interior de São Paulo. A mudança não estava nos planos da família. Meus avós maternos - José Scortecci e Maria Aparecida - haviam sofrido um grave acidente de carro, e minha avó, precisava de cuidados especiais. Meus irmãos mais velhos, Luiz Gonzaga e José Henrique, com 7 e 6 anos de idade, respectivamente, na hora do desabamento da igreja estavam no grupo escolar, que ficava do outro lado da praça, distante 15 metros da igreja do Sagrado Coração de Jesus. O estrondo foi de tremer o chão, assustando a cidade. Minutos depois, o telefone tocou - era do grupo escolar - e papai foi buscá-los de Jeep. A exemplo de Roma, Fortaleza é uma cidade construída sobre seis colinas, assentada numa planície que varia de 15 a 20 metros acima do nível do mar. A igreja que desabou ficava na colina Alto da Pimenta - conhecida, popularmente, como Morro do Pecado -, onde antes, no mesmo lugar, existia uma capela, construída pelo Boticário Ferreira, dedicada a Nossa Senhora das Dores. A igreja que caiu havia sido construída por José Francisco da Silva Albano, o Barão de Aratanha, a pedido da baronesa, Liberalina Angélica da Silva Albano, para seu filho o Frei Xisto Albano, um frade da ordem dos capuchinhos, que, mais tarde, tornou-se bispo de Fortaleza. Nos anos 1950, para abrigar um conjunto de sinos novos, a torre-agulha da igreja foi demolida, e, no seu lugar, foi construída outra torre, dessa vez, maior e quadrada. As bases da torre não resistiram, e tudo veio abaixo. A notícia do desabamento se espalhou, e logo uma grande multidão ocupou a praça. Até o Governador Paulo Sarasate e a primeira-dama, Albanisa Rocha Sarasate, irmã da minha avó Sarah, por parte de pai, compareceram à Praça do Sagrado Coração de Jesus, solidarizando-se com o povo de Fortaleza. Meus irmãos, Luiz Gonzaga e José Henrique, lembram da tragédia, do estrondo e a poeira que cobriu o céu. Ninguém, por sorte, ficou ferido. A igreja foi reconstruída e, por coincidência ou não, foi reinaugurada em 26 de novembro de 1961, na semana em que havíamos “reocupado” a casa da Av. D. Manoel 1086, reformada, depois de quase três anos morando em Dois Córregos. Muito se fala sobre o Morro do Pecado e de o lugar ser assombrado. Já escutei de tudo: morte de padres, acidentes de carro, santas desaparecidas... Verdade ou mentira, dizem que o espírito do Boticário Ferreira (Antônio Rodrigues Ferreira de Macedo, 1800 - 1859) ainda peca por lá e que não abre mão dos prazeres do Morro do Pecado. Ferreira foi político, farmacêutico e militar. Foi prefeito da cidade de Fortaleza por dois mandatos. Em sua homenagem foi renomeada a Praça Municipal - no centro e principal praça da cidade - para Praça do Ferreira. Quando vou a Fortaleza, visito o Morro dos Pecados, a Colina do Alto da Pimenta e os mistérios do Boticário Ferreira. 

João Scortecci


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REPOLHO COZIDO: RECEITA DA MINHA FALECIDA MÃE

O repolho é um vegetal crucífero, como o brócolis, a couve-flor e a rúcula. São ricos em vitaminas, fibras e antioxidantes. Gosto deles! Um repolho inteiro, cozido com carne de panela ou lombo de bacalhau, é um prato delicioso. Ouvi dizer que o moço – refiro-me ao repolho –será a bola da vez neste ano. Dizem – não param de falar dele – que está na lista das “tendências” do ano: o repolho, a cor laranja, a franja no rosto das mulheres, as sandálias havaianas, o tênis social e uma imensa lista com mais de 80 itens. Fazia tempo –alguns anos – que não escutava alguém pronunciar a palavra “sulforafano”, composto natural encontrado nos vegetais crucíferos. Escutei no rádio e, no mesmo instante, voltei no tempo, final dos anos 1970, até o Raimundo Sulforafano, um experiente vendedor de máquinas para escritório. O Sulforafano – apelido que pegou – levava, diariamente, na sua marmita de alumínio, repolho cozido e feijão preto, temperado com cebola e alho. No final do dia, depois das 17h, quando o time de vendas se reunia no salão do departamento comercial, Raimundo, o Sulforafano, começava, então, deliberadamente, a soltar gases. Algo fora do comum! Fazia barulho e tinha um cheiro mortal. Alguém do time, inconformado, reclamou para o gerente geral, que, indignado, conversou com o Raimundo Sulforafano. Eu, na época, era chefe do comercial da empresa e fui convocado para a reunião. Raimundo escutou a reclamação e, calmamente, justificou-se: “Feijão é ferro. Bom para a saúde. E repolho fortalece o sistema imunológico, tem ação antioxidante e anti-inflamatória, protege o coração e ajuda na regulação do açúcar no sangue!”. Silêncio. Não satisfeito, resfolegou, ainda: “Eu gosto de repolho cozido. E mais: é receita da minha falecida mãe!”. Levantou-se e saiu. Quando deixei aquele emprego no ano de 1982, Sulforafano ainda estava por lá. Mudei, então, de estação. Escutei de pronto, uma médica gastroenterologista falando: “Soltar gases é sinal de que o intestino está funcionando! A eliminação de gases é um sinal normal e saudável de que seu intestino está funcionando e digerindo os alimentos. Gases é um subproduto comum da decomposição bacteriana de alimentos no cólon.” Fiquei de ladinho e pratiquei uma flatulência singular. Sou sugestivo! Grande Raimundo! Hoje o almoço em família vai ser bacalhau com repolho cozido. Coincidência? Talvez. Sou influenciável, já disse, e estou de olho nas tendências do ano. Na minha conta sobraram, apenas, o repolho cozido e o par de havaianas do Palmeiras, presente do meu filho. Não gosto da cor laranja – ruim aos olhos de um daltônico –, não tenho cabelos para uma franja e acho feio terno com tênis social, sem meias. Fiquei de ladinho – mais uma vez – e pratiquei outra flatulência. Desta vez: sonora! Tudo funcionando: pronto para as tendências do ano de 2026!

João Scortecci

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DITADOS PORTUGUESES, QUIXADÁ E OS ÍNDIOS CARIRIS

Ditado de sabedoria milenar: “Foi para Portugal, perdeu o lugar!”. Significado: se algo é abandonado, alguém irá tomar posse, com certeza. O ditado teve origem nas primeiras décadas do século XX, quando muitos portugueses emigraram para o Brasil em busca de trabalho. Hoje a história se inverteu. É grande o número de brasileiros que foram para Portugal, em busca de trabalho, segurança financeira e qualidade de vida. Com o tempo, surgiram novas variações daquele ditado: “Foi namorar, perdeu o lugar”, “Cochilou, o carimbo caiu”. Coleciono – aleatoriamente – ditados populares, em especial os portugueses, que, na sua origem, contam histórias, algumas engraçadas. Uma expressão portuguesa que julgo interessante é “meia-tigela”, da época da monarquia portuguesa. Ao povo da Corte – criados, pajens, oficiais – que não morava no palácio, servia-se comida, observando as rações previstas no “Livro da Cozinha del Rei”. O manual estipulava a porção de cada um, de acordo com a importância do serviço que prestava. Assim, alguns ganhavam tigela inteira; outros, meia tigela. Levantei a biografia do meu tataravô português – por parte de pai – chamado Monteiro, nascido em Avelar, freguesia portuguesa do Concelho de Ansião, distrito de Leiria, que veio para o Brasil depois do grande terremoto que destruiu Lisboa, no ano de 1755. Monteiro embarcou para a Capitania do Ceará, fugindo das perseguições religiosas do ministro português Marquês de Pombal, durante o reinado de D. José I (1750 – 1777), conhecido na história como “Período Pombalino”. Monteiro, cristão-novo, fixou residência no lote compreendido da foz do Rio Jaguaribe à foz do Rio Mundaú, região habitada pelos índios Cariris. Tornou-se amigo da tribo, recebendo de presente do cacique uma esposa índia. A jovem – uma menina de 13 anos – não queria se casar. Tentou fugir. Foi, então, laçada e amarrada no lombo de uma montaria e levada por Monteiro para a região onde hoje está localizada a cidade de Quixadá, no coração do Ceará. Monteiro e a índia Cariri – não consegui descobrir o seu nome – tiveram uma única filha, de nome Maria Monteiro, apelidada de “Vovó Coração”. Maria Monteiro se casou com José do Carmo Ferreira Chaves, comerciante. Tiveram cinco filhos: Maria Carminda, Maria do Carmo, José do Carmo, Enéas do Carmo e Arthur do Carmo. Maria Carminda, a filha mais velha do casal, casou-se com José Ferreira de Paula Filho, e tiveram seis filhos. O mais novo da prole, João Batista de Paula (o “Batista da Light”), meu avô paterno, nasceu na cidade de Quixadá, no dia 26 de março de 1895, e faleceu aos 71 anos de idade, em 1966, em Fortaleza/CE. Batista – era assim que gostava de ser chamado – foi o meu avô amado. Vovó Coração, filha da índia da tribo dos Cariris, é o elo que alimenta nossas almas de guerreiros. Ela sempre volta – de tempos em tempos – e o seu espírito de luz guia a família Paula através dos tempos.

João Scortecci

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O JORNALISTA OTTONI FERNANDES E OS ANOS DE CHUMBO

O jornalista jauense Ottoni Fernandes (Ottoni Guimarães Fernandes Júnior, 1946 – 2012) morreu no dia 30 de dezembro de 2012, aos 66 anos de idade. Foi vítima de um infarto em El Chaltén, na Patagônia, Argentina. Ottoni, na época, era diretor internacional da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Antes de assumir a diretoria internacional da empresa, foi diretor de Comunicação do Instituto Lula, secretário executivo da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, entre 2007 e 2010, na gestão do ex-ministro Franklin Martins, e diretor de redação da revista “Desafios do Desenvolvimento”, do Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Trabalhou por 21 anos na “Gazeta Mercantil”, onde atuou de repórter a diretor-geral. Também foi redator-chefe da revista “Isto É” e editor da revista “Exame”. Ex-guerrilheiro, Ottoni militou na ALN – Ação Libertadora Nacional durante os primeiros anos da ditadura militar, até ser preso em 1970. Em 2004, lançou o livro “O Baú do Guerrilheiro – Memórias da Luta Armada”, com memórias dos anos de prisão. Trabalhamos juntos na CBL – Câmara Brasileira do Livro, quando eu era vice-presidente da entidade, na gestão do presidente Raul Wassermann. Ficamos amigos. Quando conversávamos sobre os “anos de chumbo”, a brincadeira era sempre a mesma. Pergunta: “Ottoni, como você conseguia dirigir o fusquinha em fuga com os seus mais de 1,90 de altura?”. Risos. Certa vez, até tentou explicar, sem sucesso. Aprendi muito com ele. Uma certeza: uma moeda tem mais de duas faces! No ano de 1976, quando foi libertado da prisão, eu estava no 2º Batalhão de Guardas, Parque Pedro II, na capital paulista, prestando o Serviço Militar Obrigatório e, vez por outra, de serviço no QG do II Exército. “Ottoni, sorte que não tive que usar a minha Beretta M12 em você!”. “Sorte mesmo!”, repetia. A última vez que nos encontramos foi em Lisboa, Portugal, no restaurante Solar do Presunto, na Rua das Portas de Santo Antão, 150. Gritei: “Olá, jornalista guerrilheiro!” O restaurante inteiro nos olhou. Ottoni, timidamente, nos seus mais de 1,90 de altura, respondeu: “Poeta, você não existe!”. E assim foi: inesquecível.

João Scortecci

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BERTOLT BRECHT: O CINZA ME FAZ MAL!

O poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht, 1898 - 1956), morreu alguns dias depois do meu nascimento. Eu no Ceará e ele em Berlim. Fim das coincidências. Brecht poeta tem lá os seus encantos literários. Merece ser lido! Em mãos o livro “Bertolt Brecht: Poesia: 60” - edição bilíngue, ano 2019, editora Perspectiva, 584 páginas. Para Brecht a poesia expressa tudo que está vivo, limpo ou sujo. Ele canta até a latrina, para ele um lugar plácido em que a gente se recosta tendo em cima estrelas e debaixo merda. Muita merda! Bertolt Brecht não admite meio termo: o sujeito deve ser frio ou quente. Morno? Nem a pau! Branco ou preto. Para Bertolt Brecht “O cinza me faz mal.” Lendo Brecht lembrei-me da expressão comumente usada no meio literário: “Não li e não gostei”. Dizem que a expressão “não li e não gostei” foi pronunciada pela primeira vez por Oswald de Andrade (1890 – 1954), quando, então, perguntado sobre o livro “Riacho doce” (1939) do romancista e jornalista paraibano José Lins do Rego (1901 – 1957). Outro dia um autor “maçante” publicou numa antologia da Scortecci uma poesia em homenagem as “latrinas” e as “merdas” do mundo. Texto ruim. Fedorento. Alguém do editorial alertou-me: “Scortecci, olha isso! Vamos publicar?”. Respondi: “Sim”. Coloca os acentos, passa o revisor ortográfico e envia o material para a produção. Nunca - desde os anos 1980, do início da editora - recusei publicar um texto, um livro ou um autor. O cinza me faz bem! Diferente de Bertolt Brecht, gosto dos meios-tons, das ilusões, dos sonhos e das sombras da poesia. Sobre o canto da latrina do alemão Bertolt Brecht já vivi algo parecido, num camping selvagem, no final dos anos 1970: “um lugar plácido em que a gente se recosta tendo em cima estrelas e debaixo merda. Muita merda!” Depois da antologia pronta, o autor, no dia do lançamento, no estande da editora, na Bienal do Livro de São Paulo, procurou-me e confessou: “Pensei que você fosse cancelar minha inscrição na antologia!” Disse-lhe: Nem a pau! Ele – surpreso – fez cara de bunda. Já disse e repito: O cinza me faz bem!

João Scortecci


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PANTHÉON DE PARIS, VICTOR HUGO E A SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

Conheci o “Panthéon de Paris” no ano de 2010. Monumento estilo neoclássico localizado no monte de Santa Genoveva, no 5.º arrondissement de Paris. Os arrondissements de Paris correspondem a uma divisão administrativa que decompõe a comuna de Paris em vinte arrondissements municipais, em pleno Quartier Latin. Desejos parisienses: visitar o túmulo do poeta, Victor Hugo (Victor-Marie Hugo, 1802 - 1885), autor de “Les Misérables”, conhecer a catedral de “Notre-Dame", a Biblioteca de Santa Genoveva - com sua arquitetura interna com arcos em ferro aparente - e, por fim, conhece a “Sorbonne Université”. Impossível: tudo num mesmo dia! Optei, então: pela Sorbonne Université e a cripta de Victor Hugo, no “Panthéon de Paris". Foi o que fiz. O romancista, poeta e dramaturgo francês Victor Hugo passou a infância entre Paris, Nápoles e Madrid. Considerado um menino precoce, tendo sido, em 1817, aos 15 anos de idade, premiado pela Academia Francesa, por um de seus poemas. Em 1821 publicou seu primeiro livro de poesias, “Odes et poésies diverses” (Odes e Poesias Diversas), com o qual ganhou uma pensão, concedida por Luís XVIII - Luís, o Desejado, e em 1822, publicou o seu primeiro romance, "Han d'Islande" ("Hans da Islândia"). Em 1825, aos 23 anos, recebeu o título de “Cavaleiro da Legião de Honra” e, junto com outros escritores, ajudou a criar um “Cenáculo” literário. “Cenáculo” - que significa sala de refeições - é o termo usado para o local onde ocorreu, de acordo com os cristãos, a “Última Ceia” e onde hoje se encontra um grande templo, no Monte Sião, em Jerusalém. Um “cenáculo” de escritores! A ideia - iluminada - levou-me, então, de “corpo e alma” até o filme “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), do gênero drama, dirigido por Peter Weir, escrito por Tom Schulman e estrelado por Robin Williams. Uma sociedade secreta! Victor Hugo morreu em 22 de maio de 1885, aos 83 anos de idade. De acordo com seu último desejo, seu corpo foi enterrado no mausoléu do “Panthéon de Paris”, ao lado de Voltaire, Rousseau, Marie Curie, René Descartes e Alexandre Dumas. Visitá-los foi memorável. Na tarde daquele mesmo dia, no por do sol de Paris, sente-me defronte do Panthéon e lá fiquei, entregue, até a vida escurecer de vez e me levar, perdido.    

João Scortecci

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JANE FONDA E O JEEP BARBARELLA

O filme franco-italiano de ficção científica “Barbarella” estreou nos cinemas do mundo no ano de 1968. O filme, uma comédia erótica, dirigido por Roger Vadim (1928 – 2000), baseado nas histórias em quadrinhos do escritor, roteirista e ilustrador francês Jean-Claude Forest (1930 – 1998), estrelado pela atriz, escritora e ativista Jane Fonda (Jane Seymour Fonda, 1937 - ), marcou época. Sucesso de público e bilheteria. Naquele ano, a cidade de Fortaleza ganhou bares, boates e lojas, com o nome de “Barbarella”, em homenagem ao filme e a Jane Fonda, musa sexual dos anos 1960. O filme – abertura disponível no Youtube – começa assim: Jane Fonda despe-se da roupa de astronauta, na gravidade zero e nua, dá piruetas pela cápsula espacial. É o que ficou na lembrança: a nudez de Jane Fonda. Meu pai Luiz era apaixonado por ela. Deve ter assistido ao filme uma dezena de vezes. Imagino. Quando comentava as “piruetas” de Barbarella, na gravidade zero, seus olhos brilhavam. Na época não pude assistir: tinha, apenas, 12 anos de idade. Mas a imagem ficou e reapareceu num Jeep. Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América e Aliados estabeleceram bases navais e aéreas no Nordeste brasileiro, incluindo a capital do estado do Ceará. Com o fim da guerra, as bases foram desativadas e incorporadas aos aeroportos e instalações locais. A presença militar dos EUA no Ceará foi desativada em 30 de junho de 1945. Parte do saldo de guerra – o material excedente deixado pelos militares – foi vendido ao Exército Brasileiro, outra parte, para civis e colecionadores e outro tanto foi banhado no óleo cru e enterrado no litoral do Ceará. Em 1947, jangadeiros e curiosos começaram a desenterrar o material descartado. Foi encontrado de tudo: inclusive dezenas de Jeeps, caçambas, geladeiras, fogões e roupas. No caso dos Jeeps, o óleo cru conservou os veículos contra a corrosão e a maresia. Algumas peças foram desenterradas em ótimo estado de conservação. Em 1970, papai Luiz e meu irmão José compraram o Jeep que batizamos de “Barbarella”. O veículo militar norte-americano – todo original – foi reformado: motor e pintura. Virou sucesso nas ruas e praias de Fortaleza. Aprendi a dirigir no Barbarella, câmbio de três marchas, tanque de gasolina embaixo do banco do motorista e bancos duros de doer. O Jeep Barbarella ficou na família até o final dos anos 1970, quando foi vendido. Nossos planos: morar na cidade de São Paulo. Foi o que aconteceu. Luiz, irmão mais velho, veio em 1969; José Henrique, em 1970; eu em 1972; Ana Cândida, em 1979; e papai e mamãe, em 1984, depois de morarem por um tempo em Pouso Alegre/MG. Perder Barbarella foi doloroso. Aconteceu. Imagens eternas, inesquecíveis: Barbarella, na gravidade zero, navegando nas praias do mar do Mucuripe.

João Scortecci


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VERDADES E VERSÕES DOS LIVROS

Não estávamos lá! A História contada nos livros: farsa ou verdade? Estudos afirmam que parte dela – quanto? – não corresponde aos fatos reais, de verdade absoluta, nem de farsa completa. Exemplo: a história do Brasil. Era criança – isso no Ceará dos anos 1960 –, quando o professor de história nos contou a versão não oficial da Independência do Brasil. Arregalei os olhos. Será? Levei a “versão não oficial” para o meu pai Luiz, na hora do almoço. Papai escutou. Parecia distante, pensativo. Terminou o almoço, comeu a sobremesa – duas rodelas de abacaxi – uma xícara de café preto, um gole de Drambuie e, por fim, acendeu um imenso charuto cubano. Esperei, pacientemente. Olhou-me e perguntou: “Filho, o que garante que o seu professor de História está dizendo a verdade? Ele estava lá, por acaso? Certeza que não!”. Deitou-se, então, na rede da varanda e dormiu. Na aula seguinte de História, leve a dúvida para o professor: “Professor, como o Senhor sabe que a sua história sobre a Independência do Brasil é a verdadeira?”. Silêncio. O professor fez cara feia. Surpreso? Talvez. Um amigo da classe me cutucou e resmungou no meu ouvido: “Cala a boca!”. Foi o que fiz. Passei de ano escolar com nota 5, o suficiente para escapar da recuperação. Desde criança – confesso – sou apaixonado por História. Juro: deveria ter estudado História! Tenho amigos historiadores, muitos, e adoro escutar sobre suas descobertas, suas versões, suas meias verdades. Um detalhe: nós escritores também somos assim, meio mentirosos, adoramos inventar narrativas. Acessei a IA – Inteligência Artificial e fiz a pergunta em aberto, aquela, de 55 anos atrás, que ficou sem resposta. A IA, de pronto, respondeu-me: “A história contada nos livros não é uma verdade absoluta ou uma mentira. É uma interpretação dos fatos baseada em evidências. A História é uma ciência social, não exata, e o conhecimento histórico está em constante processo de revisão e reinterpretação à luz de novas fontes e perspectivas. Os livros buscam a verdade por meio da análise de fontes históricas, mas a narrativa final é influenciada pela subjetividade do historiador e pelo contexto em que o livro foi escrito.” Papai Luiz tinha razão. Hoje, relendo o meu diário, o caderno número 3, encontrei o dia do acontecido, da pergunta feita para o professor de História, sobre a Independência do Brasil. Refiz, então, a pergunta, desta vez para a IA. Ela, desconfiada, respondeu-me: “A IA não sabe se uma história ou um livro é verdadeiro ou falso, pois ela não entende a verdade da mesma forma que os humanos. A Inteligência Artificial é uma ferramenta que gera respostas com base em padrões estatísticos e dados em que foi treinada, e não em uma compreensão empírica ou consciência da realidade.”. Entendi, acho. Aqui com os meus Dragões da Independência, Cavalaria Imperial de Dom Pedro I: “Gostava mais da versão antiga, romantizada, contada nos livros da minha infância!”. Era assim: Pedro no seu cavalo, às margens do riacho do Ipiranga, erguendo sua espada e gritando: “Independência ou morte!”. Ponto. Quando conheci, no Museu do Ipiranga, o quadro pintado por Pedro Américo (1843 – 1905), sobre o “Grito do Ipiranga”, lembrei-me da história contada pelo professor de História: “Nem verdade absoluta, nem farsa completa!”. Perguntei-lhe: “Você estava lá?”. Silêncio. Um desconhecido me cutucou e resmungou: “Cala a boca!”. E acrescentou: "Você sabia que Pedro Américo, o pintor, quando da Independência do Brasil, ainda não havia nascido?". Continuou, irado: "Sabia que a obra foi uma encomenda de Pedro II, pai de Pedro I, e que ela só ficou pronta em 1888?" E completou: "Ele não estava lá!". Naquela tarde – de reminiscências – fiquei ali parado, perdido, olhando durante horas o belíssimo quadro de Pedro Américo, analisando as fragilidades da história: apaixonante e cruel. Feita de verdades e mentiras. Desconfio que a IA não sabe do que falo. Não estava lá, nunca esteve, nunca vai estar em lugar algum. Calei-me, então.

João Scortecci

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O EDITOR E TIPÓGRAFO ALDO MANUZIO E O LIVRO DE BOLSO

"Encheiridion" (do grego "enkheiridion" / "em-mão") significa livro portátil, livro de bolso: aceito, interessante, mas incompreendido por muitos. Encontrei o termo "encheiridion" lendo a biografia do editor e tipógrafo italiano Aldo Manuzio (Aldo Pio Manucio, 1449 – 1515), a quem se atribui a “invenção” do livro de bolso, sendo, portanto, considerado o precursor do livro de bolso moderno. A definição de livro de bolso – nos dicionários e na Internet – é genérica, vaga, valendo-se, determinantemente, quanto ao formato e ponto. Formatos mais usados: 10,5x14,8cm, 11x18cm e 12x18cm. Na coleção Primeiros Passos, sucesso editorial da Editora Brasiliense, dos anos 1980, foi usado o formato 11,5x16cm. No Brasil, hoje, as editoras e gráficas usam, quase sempre, o formato 12x 18cm, com mancha de 9,8cm, o dobro das medidas de uma coluna padrão de jornal. Confesso: tenho visto de tudo. As características técnicas de um livro de bolso – capa flexível, papel comum, preço popular – deixaram, praticamente, de existir. Hoje, o mercado publica livros de bolso com encadernação de luxo, capa dura, papel de qualidade, reserva de verniz e relevo. No século XIX, na Europa, já existiam edições baratas, como as da editora alemã Tauchnitz e a inglesa Routledge’s Railway Library, com publicações voltadas para viajantes, mas o "boom" veio depois, em 1931, com a editora alemã Albatross Books, em 1935, com a editora britânica Penguin Books, e, em 1939, com a americana Pocket Books. Durante a Segunda Guerra Mundial, estima-se que a Alemanha tenha queimado mais de cem milhões de livros. As forças aliadas, por sua vez, apostaram no poder de entretenimento dos livros, para que seus soldados suportassem melhor a guerra, e decidiram, então, enviar-lhes companheiros literários. Foi assim que o livro de bolso, na época batizado de “Edições para as Forças Armadas” ganhou escala, com tamanho e peso reduzidos, para que os soldados pudessem guardá-los nos bolsos dos uniformes ou em suas mochilas. Os livros de bolso – até hoje – sofrem preconceito por parte de muitos: autores, editores, livreiros e leitores. As razões? Muitas. Listá-las, algo impossível. Já escutei de tudo. Na minha opinião nada conclusivo, que justifique a aversão. O tipógrafo Aldo Manuzio imprimiu cerca de 150 títulos. Inovou suas edições com o uso da letra cursiva, estilo de escrita manual. Desenvolveu o conceito de coleções temáticas, de identidade e coesão visual para livros. Contribuiu para a padronização do uso da pontuação, incluindo a vírgula e o ponto e vírgula e, criou, ainda, um Conselho Editorial, responsável pelas diretrizes básicas de suas publicações. Em 1494, em Veneza, junto com o tipógrafo e editor italiano Andrea Torresano (1451 – 1528), fundou a Aldina Press (Prensa Aldina), onde foram publicadas as célebres edições aldinas dos clássicos. A Prensa Aldina é famosa na história da tipografia, entre outras coisas, pela introdução do itálico. Aldo Manucio dedicou a parte final de sua vida à publicação e disseminação de textos raros e à preservação de manuscritos gregos. Acreditava que obras de autores como o filósofo Aristóteles e o dramaturgo Aristófanes, em sua forma original em grego, eram mais puras e fiéis, sem as interferências de traduções. Tudo isso lhe rendeu respeitabilidade como editor e tipógrafo e um lugar de destaque na história do livro.

João Scortecci





João Scortecci

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ANTÔNIO HOUAISS E O "ENTERRO DOS OSSOS"

Ricos e pobres – cada um na sua – costumam, depois das festas de final de ano, celebrar, em data única, o enterro dos ossos! Sempre sobra alguma coisa. Verdade. No Ceará dos anos 1960, a carcaça do peru desfiado na véspera, enriquecia a canja das almas, e as sobras, a farofa de ovo. Farofa vitaminada, dizíamos. Na virada do Ano Novo, era a vez dos ossos do pernil de porco. Farra gastronômica! Todo ano a mesma promessa: muita comida! Desperdício. E as sobremesas: Pudim de leite, pavê, manjar branco com calda de ameixa, doce de leite com queijo e sorvete de chocolate. “Enterro dos ossos”, no Dicionário Houaiss significa “banquete, aproveitando o que sobrou”. O amigo Antônio Houaiss era um “crânio” brilhante. Gostava de contar causos gastronômicos e, quando o fazia, usava toda a maestria de um filólogo gourmet. No final dos anos 1980, eu, Houaiss e o escritor e artista plástico Enio Squeff, depois de uma reunião na UBE, fomos comer uma "pasta" no restaurante Gigetto. O Mestre Houaiss adorava pratos exóticos, impróprios, explosivos, diferentes. Perguntei-lhe: “Qual de todos lhe foi mais difícil comer?”. Houaiss, na lata, respondeu: “Cérebro de macaquinho vivo!”. Depois, sem pressa, fatiou-nos com sabedoria e inteligência sua cerebral aventura, num pequeno país do leste europeu. O estômago virou, confesso. O povo do restaurante, vizinhos de mesa e até os garçons fecharam o cerco para saborear a sua preciosa contação. Privilégio escutá-lo. Desisti da "pasta". Houaiss, não. Comeu com gosto. Raspou o prato. Tarde da noite, o restaurante se esvaziou e tivemos – infelizmente – que ir embora. “Sobremesa?” “Não”, respondi. Talvez tenha sido a única vez na vida  confesso - em que recusei um pudim de leite, um Petit gateau ou um Romeu e Julieta. Lá fora – na pauliceia desvairada – acontecia uma prévia alvorada. Mestre Houaiss nunca mais se repetiu na minha vida. Houaiss faleceu no dia 7 de março de 1999, aos 83 anos de idade. Lembro-me de um assunto daquela noite: Disse-nos: “Quero viver para o enterro dos ossos da virada do século!” Não deu tempo. Bateu na trave. Bateu saudade. Bateu no tempo dos ossos e ainda dói. 

João Scortecci


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BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS: "A LEITURA PARA QUEM AINDA NÃO APRENDEU A LER

Morre o líder, morre a ideia! Triste isso. Sina? Talvez. Lendo sobre o trabalho do escritor e professor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós (1944 – 2012), deparei com o manifesto escrito por ele, “Movimento por um Brasil Literário" ( MBL), do ano de 2009. Encontrei o manifesto completo na página de uma associação que, na época, apoiou o movimento. Encontrei, também, o endereço do movimento na Internet, mas fora do ar. No endereço (brasilliterario.org.br) localizei algo sobre como funciona o Sisu, o processo de seleção para a universidade e uma explicação de como participar do processo de Inscrição do Sisu. Nada sobre o MBL, infelizmente. O que consegui apurar: "O Movimento por um Brasil Literário (MBL) encerrou formalmente suas atividades devido à falta de recursos financeiros para manter suas ações. Com um manifesto escrito por Bartolomeu Campos de Queirós, em 2009, o movimento buscava transformar o Brasil em uma sociedade leitora, defendendo a literatura como um direito fundamental". E nada mais. Bartolomeu Campos de Queirós, faleceu três anos depois do manifesto, no dia 16 de janeiro de 2012, com 67 anos de idade, devido a complicações de uma insuficiência renal crônica. Tudo, então, saiu do ar, perdeu o ânimo, morreu junto. Não conheci Bartolomeu Campos de Queirós, pessoalmente. Uma pena. Dói saber que o perdi. Publicou mais de 40 livros, formou-se em Educação e Artes, cursou o Instituto de Pedagogia em Paris e participou de importantes projetos de leitura no Brasil, como o ProLer – Programa Nacional de Incentivo à Leitura, iniciativa criada em 1992, vinculada à Fundação Biblioteca Nacional, que visa promover o acesso e o hábito da leitura, formando mediadores e fortalecendo a cultura de leitura em todo o País. O ProLer – foi o que descobri na Internet – ainda existe, mas anda sumido do meio, perdeu força, infelizmente. Lembro do lançamento do ProLer. Na época estava na diretoria executiva da Câmara Brasileira do Livro. Bartolomeu recebeu os prêmios: Grande Prêmio da Crítica em Literatura Infantil/Juvenil pela APCA, Jabuti, FNLIJ e Academia Brasileira de Letras. Em 2008, foi entrevistado pelo Museu da Pessoa, como parte do projeto “Memórias da Literatura Infantil e Juvenil”, e expôs sua relação com as palavras: “A minha contínua busca por novas palavras foi o meu exercício de infância”. Confesso: seu depoimento mexeu comigo. Sou, desde a adolescência, um apaixonado pela descoberta de novas palavras. Tenho paixão por dicionários e os coleciono aos montes. Alguns, até repetidos. Sou exagerado! Pesquisando sobre formação de leitores e hábito de leitura, encontrei na Internet um pequeno texto do humanista Bartolomeu Campos de Queirós: “Ler é inteirar-se de outras proposições, é confrontar-se com outros destinos, é transformar-se a partir da experiência, vivenciada pelo outro e referendada pelo fruidor. Existe, pois, ação educativa maior do que esta de formar leitores?”. Texto incrível, diz tudo! Abri o bloco de notas e guardei a palavra "fruidor": quem ou o que frui de algo. Tem origem na palavra "fruir", mais o sufixo "dor". Dói saber que o perdi. Eu e as proposições do dia. Segue o manifesto do MBL, na integra: “O Movimento por um Brasil Literário manifesta sua intenção de concorrer para fazer do País uma sociedade leitora. Reconhecemos como princípio o direito de todos de participarem da produção também literária. No mundo atual, considera-se a alfabetização como um bem e um direito. Isto se deve ao fato de que com a industrialização as profissões exigem que o trabalhador saiba ler. No passado, os ofícios e ocupações eram transmitidos de pai para filho, sem interferência da escola. Alfabetizar-se, saber ler e escrever tornaram-se hoje condições imprescindíveis à profissionalização e ao emprego. A escola é um espaço necessário para instrumentalizar o sujeito e facilitar seu ingresso no trabalho. Mas pelo avanço das ciências humanas compreende-se como inerente aos homens e mulheres a necessidade de manifestar e dar corpo às suas capacidades inventivas. Por outro lado, existe um uso não tão pragmático de escrita e leitura. Numa época em que a oralidade perdeu, em parte, sua força, já não nos postamos diante de narrativas que falavam através da ficção de conteúdos sapienciais, éticos, imaginativos. É no mundo possível da ficção que o homem se encontra realmente livre para pensar, configurar alternativas, deixar agir a fantasia. Na literatura que, liberto do agir prático e da necessidade, o sujeito viaja por outro mundo possível. Sem preconceitos em sua construção, daí sua possibilidade intrínseca de inclusão, a literatura nos acolhe sem ignorar nossa incompletude. É o que a literatura oferece e abre a todo aquele que deseja entregar-se à fantasia. Democratiza-se assim o poder de criar, imaginar, recriar, romper o limite do provável. Sua fundação reflexiva possibilita ao leitor dobrar-se sobre si mesmo e estabelecer uma prosa entre o real e o idealizado. A leitura literária é um direito de todos e que ainda não está escrito. O sujeito anseia por conhecimentos e possui a necessidade de estender suas intuições criadoras aos espaços em que convive. Compreendendo a literatura como capaz de abrir um diálogo subjetivo entre o leitor e a obra, entre o vivido e o sonhado, entre o conhecido e o ainda por conhecer; considerando que este diálogo das diferenças, inerente à literatura, nos confirma como redes de relações; reconhecendo que a maleabilidade do pensamento concorre para a construção de novos desafios para a sociedade; afirmando que a literatura, pela sua configuração, acolhe a todos e concorre para o exercício de um pensamento crítico, ágil e inventivo; compreendendo que a metáfora literária abriga as experiências do leitor e não ignora suas singularidades. Outorgando a si mesmo o privilégio de idealizar outro cotidiano em liberdade, e movido pela intimidade maior de sua fantasia, um conhecimento mais amplo e diverso do mundo ganha corpo e se instala no desejo dos homens e mulheres promovendo os indivíduos a sujeitos e responsáveis pela sua própria humanidade. De consumidores passa-se a investidores na artesania do mundo. Por ser assim, persegue se uma sociedade em que a qualidade da existência humana é buscada como um bem inalienável. Liberdade, espontaneidade, afetividade e fantasia são elementos que fundam a infância. Tais substâncias são também pertinentes à construção literária. Daí, a literatura ser próxima da criança. Possibilitar aos mais jovens acesso ao texto literário é garantir a presença de tais elementos, que inauguram a vida, como essenciais para o seu crescimento. Nesse sentido é indispensável a presença da literatura em todos os espaços por onde circula a infância. Todas as atividades que têm a literatura como objeto central serão promovidas para fazer do País uma sociedade leitora. O apoio de todos que assim compreendem a função literária, a proposição é indispensável. Se é um projeto literário é também uma ação política por sonhar um País mais digno.” Texto lúcido, inteligente, inspirador. Tudo para dar certo e não deu, ainda. Tudo para fruir e mudar o Brasil que somos. Morre o líder, morre a ideia!? Nunca.

João Scortecci

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O PERU “ADESTRADO” DO NATAL DE 1965

Na Fortaleza dos anos 1960, todo mundo - de um jeito ou de outro - se conhecia. Cidade pequena: pouco mais de 500 mil habitantes. Meu pai Luiz, engenheiro, conhecido e respeitado, funcionário do Grupo J. Macedo, carregava ainda, no sangue, o legado do seu pai, João Batista de Paula, alcunhado de “Batista da Light”. O golpe do peru de Natal do ano de 1965, pegou a todos: ninguém escapou. Um particularidade do golpe: Um único malandro e o seu peru adestrado! A ceia de Natal, naquela época, era planejada com até dois meses de antecedência. Era tradição ganharmos de presente para a ceia, perus, capotes (galinhas da angola), leitões e cabritos, para engorda. O quintal de casa era grande - meio quarteirão - e tinha bastante espaço para o confinamento. Apenas uma recomendação do meu pai Luiz: Nada de criar laços afetivos com a bicharada! Dizia, sempre. Desde criança aprendi a sacrificar e preparar perus, capotes (galinha da angola), leitões e cabritos. Ferramentas: faca afiada ou machadinha, cachaça e frieza. O segredo era o de sempre: primeiro embebedar o animal e depois fazer o serviço. Já vivi - uma única vez - problema sério com um leitão esperto, desconfiado da sorte, que me obrigou a beber junto. Foi uma tragédia: fiquei bêbado e errei o alvo! Ele continuou sóbrio - sorridente - e eu caí duro no chão. Cachaça danada! Um vizinho - empregado do meu tio Zanzão - teve de terminar o serviço. Acontece. Vamos, então, ao golpe do peru: Eram pouco mais das 8 horas da manhã, início de mês de novembro, papai já havia saído para o trabalho, quando a campainha do portão de casa tocou. “Quem será?”. Minha mãe Nilce, ainda de penhoar, atendeu. Era um moço - simpático e educado - carregando debaixo do braço um peru vivo. “D. Nilce, o patrão mandou entregar o peru para a ceia de Natal. Onde solto o bicho?”. Minha mãe, atrapalhada e confusa, indicou o caminho do quintal e pediu que eu fosse junto, mostrando o caminho. O moço limpou os pés no carpete da entrada, pediu licença e soltou o peru no quintal. “D. Nilce, o doutor pediu para eu levar o terno dele, completo, camisa branca, abotoaduras, gravata, meias pretas e o sapato social. Disse que tem um almoço importante, com o governador, no Clube Náutico. “Sim, claro.” Em segundos, mamãe Nilce juntou tudo e entregou a encomenda para o mensageiro, que subiu num jipe e foi embora. Trinta minutos depois - não mais que isso - a campainha tocou novamente. “Quem será desta vez?”. Era novamente o mensageiro. “D. Nilce, perdão. O patrão pediu que eu levasse de volta o peru e o trouxesse já sangrado!”. “Sim, claro, é melhor.”. “João, vai lá e ajuda o moço a pegar o peru.”. Eu fui. Estranho foi ver o peru, ao avistar o moço, correr feliz para os seus braços. “Adestrado?”, perguntei. Silêncio. O moço catou o peru, subiu no jipe e foi embora, para nunca mais voltar. Escafedeu-se! O golpe do peru adestrado - foi o que o delegado explicou - foi a golpe do ano em Fortaleza. Mais de quinze vítimas! No Natal do ano de 1965 não comemos peru desfiado. Mamãe Nilce fez pernil e macarronada, com molho de tomate. Vez por outra - com o coração avoado - penso no peru adestrado. Foram, apenas, 30 minutos de presença, não mais que isso. Papai Luiz tinha razão: nada de criar laços afetivos com o bicho. É um perigo: o coração voa e o tempo não perdoa.     

João Scortecci



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FILOMENO, O MUQUIRANA DO BAIRRO DA ALDEOTA

Filomeno, o amável, era um muquirana. Um pão-duro! Papai Luiz o chamava de “Filorento”. Guardava o seu dinheiro num baú de madeira, escondido debaixo da cama. A pobre de sua mulher, D. Mariazinha, passava apuros. Recebia mesada por semana, que mal dava para as despesas da casa. Tinha um único vestido - preto - que servia para tudo: missa, casamento, batizado e velório. O casal não teve filhos, e a fortuna do sovina era grande, de dar inveja. Filomeno era proprietário de uma fábrica de vassouras no Ceará e morava perto - duas quadras - da residência dos meus avós paternos, João Batista e Sarah, na Fortaleza dos anos 1960. Meu papai Luiz contava, sempre, duas de suas muitas histórias de pão-durice. A primeira era de quem lhe pedia emprego na fábrica de vassouras. Perguntava: Qual o seu nome? Resposta: José Pinto, Senhor. Segunda e última pergunta: O José Pinto sabe varrer o chão?. Resposta: “Sei, sim.”. Fim da entrevista. Está contratado. Aqui na minha fábrica - as melhores vassouras do Nordeste - quem não sabe varrer o chão não trabalha! Começa na segunda! Pergunta: Sr. Filomeno, quanto eu vou ganhar? Filomeno, mão-de-vaca, respondia: Vai ganhar meio salário e uma vassoura nova! Uma vassoura? Filomeno, o amável, era um homem justo, porém controlado: José, você vai varrer a fábrica, todos os dias, depois do expediente. Anote: Se quebrar a ferramenta, eu desconto do seu salário. Combinado? José Pinto, jovem e esperto, perguntou-lhe: Sr. Filomeno, até quando vou ter que varrer a fábrica, depois do expediente?. Resposta: Até o Natal! Sr. Filomeno, ainda estamos no mês de março!. Protestou. Eu sei. Meu jovem, experiência é tudo na vida!. José Pinto ficou no posto de “varredor” até a véspera de Natal, conforme o combinado. Passou o serviço no dia seguinte para o seu irmão caçula, o Francisco Pinto, recém-chegado da cidade de Itapipoca, interior do Ceará. José Pinto trabalhou na fábrica de vassouras durante 25 anos e chegou por mérito ao cargo de Gerente da Expedição. Mostrava com orgulho o pingente dourado de uma “vassourinha”, símbolo da campanha de Jânio Quadros à presidência da república, em 1960, representando sua promessa de "varrer" a corrupção e a imoralidade do Brasil, presente do Sr. Filomeno, o amável. “Filorento” - vez por outra - batia na porta da casa dos meus avós e pedia um favor. Um martelo, um pedaço de arame, uma xícara de açúcar, um lápis com ponta, agulha e linha, um remédio, coisas de pouco valor. Nada mais que isso. Até que um dia, espiou de longe, pelo vão da porta, uma tela da Santa Ceia, cópia da obra de Raffaelli, que ficava na parede da sala de jantar da casa. Meu avô Batista, percebendo o olho grande do vizinho muquirana, perguntou-lhe: “Gostou? É seu. Pode levar de presente!”. O Sr. Filomeno levou o quadro, prego e martelo. Dias depois, voltou para agradecer pelo presente e convidar meus avós, João Batista e Sarah, para jantarem em sua casa. Mesmo surpresos e desconfiados, aceitaram o convite. Curiosidade mata! Foram servidos: sopa de chuchu, moela de frango com arroz branco, duas batatas cozidas e dois ovos estrelados, tudo na conta de Raffaelli. Filomeno, o amável, levantou-se, e, de pé, com o garfo, dividiu as batatas e os ovos, em quatro pedaços iguais. Beberam Ki-Suco de laranja e, de sobremesa, comeram manjar de coco, sem ameixas. Filomeno, o amável, morreu no final dos anos 1970, um ano depois do falecimento de sua esposa Mariazinha. Sua fortuna - é o que dizem - ficou com um sobrinho distante, que fechou a fábrica de vassouras e foi ser “rabo-de-burro” na cidade do Rio de Janeiro. Experiência é tudo na vida!

João Scortecci 

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