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PALESTRA ITALIA E A MANIA DE “DAR COTOCO”

“Uma coisa puxa a outra”, era o lema das Indústrias Matarazzo (IRFM). No auge - isso nos anos 1940 - o grupo chegou a controlar mais de 350 empresas, atuando em diversos setores da economia: alimentos, tecidos, bancos, portos, ferrovias e agricultura. A IRFM foi fundada pelo empresário e banqueiro ítalo-brasileiro, Francesco Matarazzo (Francesco Antonio Maria Matarazzo, 1854 – 1937), nascido em Castellabate, comuna costeira da província de Salerno, então parte do Reino das Duas Sicílias. Francesco Matarazzo veio para o Brasil em 1881, aos 27 anos de idade, com a esposa, Filomena Sansivieri e filhos, atraídos pela propaganda do governo brasileiro, que buscava mão de obra europeia, para substituir o trabalho escravo, recém-abolido. No dia 26 de agosto de 1914, uma quarta-feira, funcionários das Indústrias Matarazzo, resolveram criar um time de futebol, o Palestra Itália, entusiasmados pela excursão do Torino-ITA e do Pro-Vercelli-ITA ao Brasil. Os principais nomes da fundação do Palestra foram: Luigi Cervo e Luigi Marzo, funcionários das Indústrias Matarazzo, mais o jornalista Vincenzo Ragognetti, do semanário Fanfulla, órgão de imprensa fundado em 1893, voltado à colônia italiana e Ezequiel Simone, na época membro de várias entidades de cultura italiana em São Paulo. Um detalhe importante: A ata de fundação do Palestra Itália foi redigida em italiano. Palestra é uma palavra grega que quer dizer "local onde se pratica exercício". Em 1916, no dia 13 de maio, o time estreou no Campeonato Paulista, empatando pelo placar de 1 x 1, com o Mackenzie, na época, vice-campeão estadual. Em 14 de setembro de 1942, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, o Palestra Itália, foi obrigado a mudar de nome para Palmeiras, adotando, então, as cores: verde e branco. A escolha do nome Palmeiras foi cuidadosamente pensada para manter as iniciais “P” e “I”, em homenagem ao Palestra Itália, e ao mesmo tempo demonstrar lealdade ao Brasil. O nome Palmeiras foi inspirado na árvore-símbolo do Brasil, a palmeira, representando a força, a resistência e a adaptação do clube à nova realidade. Reclamar da arbitragem não é de hoje. Em 1918, o Palestra abandonou a APEA - Associação Paulista de Esportes Atléticos, em protesto à perseguição que sofria dos constantes e frequentes erros de arbitragem. Detalhe: o que acontece até hoje! Explicação histórica: “Os italianos falam com as mãos!” e isso, irritava, profundamente, os árbitros e dirigentes da APEA. O que eu pesquisei sobre a mania dos italianos falarem com as mãos: “Italianos falam com as mãos por razões históricas e culturais, como uma linguagem secundária para se comunicar em um país com muitos dialetos e para se fazer entender durante o período de unificação, além de ser uma herança dos grandes oradores romanos e uma forma de expressar emoções de forma mais vívida e teatral, com mais de 250 gestos específicos que adicionam significado à fala.” Justo. E a mania italiana de adorar dar cotoco? Cotoco é um gesto obsceno do dedo médio, que representa um pênis ereto, sendo considerado um insulto fálico, com origens na Grécia e na Roma Antigas. Nada mais justo, útil e forte que um cotoco bem dado no calor de uma peleja, de uma discussão acalorada. Nós italianos somos seres alucinógenos, marcados pela paixão, com gestos e voz alta e um forte apreço pela boa comida e pelo prazer de "La Dolce Vita". Já o ato de "dar cotoco", apenas uma pausa de silêncio, um simples gesto de respiro, um resfolegar divino, um passe no ardor da partida, antes de gritar: Gol. Gol do Palestra!  

João Scortecci


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BODONI E O PRESUNTO PARMERA!

Não conheço a cidade medieval de Parma, na região da Emilia-Romagna, no norte da Itália. Pena. Precisaria de mil anos para conhecer a Itália e suas histórias. Minha família materna é de Arezzo, na Toscana. Meu bisavô Esaú Scortecci, natural da comuna de Laterina – distante 8 km de Arezzo – imigrou para o Brasil no vapor “Sírio”, no ano da graça de 1889. A comuna de Arezzo fica distante 75 km de Firenze e 195 km de Parma. Essa cidade é famosa mundialmente pelo seu queijo parmigiano reggiano, o popular parmesão, além do famoso presunto de Parma. Lendo sobre a assinatura do Acordo de Associação Mercosul – União Europeia, fiquei sabendo que o presunto “tipo Parma” produzido no Brasil terá que mudar de nome devido ao acordo de livre comércio. O acordo protege nomes de produtos que são originários de regiões específicas na Europa. O termo “Parma” é uma denominação de origem protegida italiana. Vários produtos fabricados no Brasil terão que mudar de nome: queijo parmesão, gorgonzola, presunto de Parma, queijo Feta e a mortadela Bolonha. Tenho algumas sugestões: a mortadela poderia assumir, de vez, o nome popular: “Mortandela”. Explico: quando criança, não conseguia pronunciar “mortadela”. “Mãe, quero comer pão com mortandela!” Ficou, até hoje. Para o gorgonzola, dos arredores de Milão, na Itália, tenho, também, uma sugestão: queijo fungi. Para o queijo Feta, salgado, branco, picante, de origem grega, feito com leite de ovelha ou cabra, sugiro queijo capra e, por fim, para o presunto de Parma, a sugestão é presunto Parmera, em homenagem à Sociedade Esportiva Palmeiras. É justo dizer que Parma não combina com gambá, bambi, peixe, galo, urubu, raposa, leão e outros. Parmera – presunto cru italiano de alta qualidade, feito com pernil suíno e sal marinho – combina com Parma! Aceito outras sugestões, claro. Enviei o texto com as minhas sugestões para o tipógrafo e impressor Giambattista Bodoni (1740 – 1813), que viveu e morreu em Parma, autor do “Manuale Tipográfico” e criador da fonte Bodoni, um dos tipos de letra mais importantes de história da tipografia. Giambattista me respondeu, de pronto, na tinta, no melhor dos versos da noite. Disse-me: “Scortecci, gostei das sugestões. De todas, menos da troca do nome de Presunto de Parma para Presunto Parmera”. Desligou-se. Pensei: Bodoni, gosto é gosto! Já disse: não conheço a cidade de Parma, mas não abro mão do Presunto Parmera. Bodoni, você é um chato!

João Scortecci


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ARROZ COM COLORAU E AS HISTÓRIAS DO BREU DA NOITE

Nunca vi na vida um urucuzeiro, muito menos sua semente, cujo pó, industrializado, vira colorau e corantes. Lá em casa - isso no Ceará dos anos 1960 - mamãe Nilce não usava colorau na comida. Não sei a razão. Também nunca perguntei. Foi numa paneladinha, com primos e amigos da rua, que conheci o tal pó mágico, vermelho, gostoso com arroz empapado. Prova! Foi o que fiz. Comi e repeti. Colorau lembra infância, barraca de lona no quintal, panela de barro, colher de pau, prato de alumínio e ki-suco, sabor uva. De sobremesa, frutas no pé: goiaba, seriguela, sapoti, graviola, cajá, romã ou figo. Na Vila Santa Teresinha, tinha de tudo: até fantasmas! Depois da morte do sol, noite escura, acendíamos, então, fogueiras, estrelas no céu, sonhos, medos, tudo no pavio do breu da noite. Noites de roda, risos, histórias do capeta, mulas sem cabeça, lobisomens, serpentes de duas cabeças, almas, bruxas voadoras, gritos e vozes do além. Sair para fazer xixi, nem pensar! Ninguém arredava o pé. Éramos sombras, abduzidas pelo desejo alucinógeno do colorau. Já tarde da noite, alguém gritava: “Das Dores, caga a luz! “. E do nada, o espírito da Das Dores, respondia: “já caguei”. Mistério. Na hora de dormir, fechávamos a porta da barraca de lona, com pregadores de roupa do varal. Resmungos miúdos: “Estou vendo um gato preto no muro!”. Silêncio. “Cala a boca e dorme!”. “João, você comeu muito arroz com colorau?” Comi. “Vai, então, para o fundo da barraca e vê se não fica peidando!”. Dormia e não dormia. No meio da noite, abria a porta da barraca, colocava o travesseiro debaixo do braço e saia na escuridão do mundo. Fiz isso dezenas de vezes. Abria o portão do quintal e sumia na cidade. Meu irmão Luiz – algumas vezes - me pegava na esquina da rua de cima ou no caminho do colégio. “João, onde você vai?”. Respondia, dormindo: “Vou para o colégio!” “João, acorda, você está sonambulando, de pijama, descalço, com o travesseiro debaixo do braço!”. Foi assim - quase - toda a minha infância: culpa do colorau, do selvagem pó vermelho da semente de urucuzeiro. 

João Scortecci


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FREI CANECA: ESCRITOR DE PAPÉIS INCENDIÁRIOS!

O semanário “Typhis Pernambucano” foi fundado e editado pelo escritor, jornalista, clérigo católico e político Frei Caneca (Joaquim da Silva Rabelo, 1779 - 1825). O semanário - impresso no formato 21 x 30 centímetros - circulou em 25 de dezembro de 1823 até 12 de agosto de 1824, num total de 29 edições. Tendo por inspiração Tífis, discípulo da deusa Atena, timoneiro da embarcação Argo, construída com a ajuda da deusa Atena, para que Jasão e os argonautas navegassem de Iolcos até Cólquida, para recuperar, o Velo de Ouro, a lã de ouro do carneiro alado Crisómalo. O semanário Typhis trazia, como epígrafe, versos de “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões: "Uma nuvem que os ares escurece sobre nossas cabeças aparece!". Frei Caneca, erudito, de origem humilde, conhecido como “Caneca” por ter sido vendedor de canecas quando garoto, no Recife, foi educado no Seminário de Olinda. Dirigindo o jornal Typhis Pernambucano, Frei Caneca, fazia sua pregação republicana, denunciando o autoritarismo imperial e conclamando a população à luta. Em seu primeiro número, lançado em 25 de dezembro de 1823, Typhis anunciava que o país parecia "uma nau destroçada pela fúria oceânica, ameaçando soçobro, carecendo da ajuda decidida e abnegada de todos os seus filhos". Frei Caneca participou da chamada Revolução Pernambucana (1817), que proclamou uma República e organizou o primeiro governo independente na região. Com a derrota do movimento, foi preso e enviado para Salvador, na Bahia, onde permaneceu quatro anos, quando, dedicou-se à redação de uma gramática da língua portuguesa. Libertado em 1821, voltou a Pernambuco e retomou as atividades políticas.  Em 2 de julho de 1824, em Pernambuco, eclodiu a “Confederação do Equador”, movimento revolucionário de caráter republicano e separatista, alastrando-se para outras províncias do Nordeste do Brasil. O movimento, no entanto, não obteve sucesso e acabou derrotado. Frei Caneca foi preso, acusação do crime de sedição e rebelião contra as imperiais ordens de sua Majestade e condenado à morte, por enforcamento. Nos autos do processo, Frei Caneca foi indiciado como um dos chefes da rebelião, "escritor de papéis incendiários". Armado o espetáculo do enforcamento, em 13 de janeiro de 1825, diante dos muros do Forte das Cinco Pontas, três dos carrascos se recusaram a enforcá-lo. A Comissão Militar ordenou, então, o seu fuzilamento, atado a uma das hastes da forca. Seu corpo foi colocado num caixão de pinho e deixado no centro do Recife, em frente ao Convento das Carmelitas. Seu corpo foi recolhido pelos padres Carmelitas e enterrado em um local até hoje não identificado. Frei Caneca é Herói Nacional e seu nome foi incluído , em 2007, no Livro de aço dos Heróis e Heroínas da Pátria, abrigado no Panteão da Pátria, na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

João Scortecci


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LIVRO GUARDADO: TESOURO DE PAPEL

Uma história de livro “guardado”. Durante o 1º Salão Internacional do Livro de São Paulo, em 1999, no dia 23 de abril, Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, no estande do MinC – Ministério da Cultura, no Expo Center Norte, na capital paulista, o Ministro da Cultura Francisco Weffort (Francisco Correia Weffort, 1937 – 2021) e o escritor amazonense Márcio Souza (Márcio Gonçalves Bentes de Souza, 1946 – 2024), na época, Presidente da Funarte – Fundação Nacional de Artes, autografaram a obra “Um Olhar sobre a Cultura Brasileira”, publicada pela Funarte e MinC. Livro belíssimo, capa dura, formato 21 x 28 cm, 472 páginas, papel couché, impresso na Lis Gráfica e Editora. O Presidente do Brasil, na época, era Fernando Henrique Cardoso. No time do MinC, estavam José Álvaro Moisés, Secretário de Apoio à Cultura, Ottaviano De Fiore, Secretário de Política Cultural do MinC, Eduardo Portella, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional, entre outros. Na época, eu estava no meu segundo mandato na CNIC - Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, Lei Rouanet, responsável pelas Áreas de Humanidades e Integradas. O primeiro autógrafo foi para o Ministro da Educação Paulo Renato (Paulo Renato Costa Souza, 1945 – 2011). Ele agradeceu pelos autógrafos, posou para fotos e me entregou o exemplar, para guardá-lo. Foi o que fiz. Não percebi – estava desatento, provavelmente – quando o Ministro Paulo Renato deixou o estande do MinC e foi embora da feira. Guardei o livro. Encontrei o ministro algumas vezes depois, em Brasília, mas o livro autografado acabou ficando “esquecido” em São Paulo, para um futuro encontro, que acabou nunca acontecendo. O segundo mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso terminou em 2003, e o Ministro Paulo Renato infelizmente faleceu em 25 de junho de 2011. Guardo o exemplar autografado com o maior carinho e respeito, na certeza de que um dia fará parte do “Memorial Ministro Paulo Renato” ou, quem sabe, do “Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves”, em Brasília. Tesouro de papel. Deus quis assim.


João Scortecci
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MARCA D’ÁGUA EM IA? CURIOSIDADE MATA!

Pulei o muro do quintal do vizinho, de olho gordo na goiaba madura do pé. Antes que pudesse agir, senti no suor da nuca um cano frio de espingarda. Ferrei-me! Tinha 11 anos de idade, talvez 12. Segredo para quem for pego surrupiando: dizer, sempre, a verdade! Resfoleguei: “Vim comer uma goiaba!”. O homem – idoso e magro – baixou a espingarda e me disse, calmamente: “Sobe lá, pega uma goiaba e depois some do mapa!”. Foi o que fiz. Na saída, aconselhou-me: “Você sabia que curiosidade mata?”. Silêncio. Subi no muro e pulei de volta, carregando no bolso a goiaba madura. Lavei a presa na torneira de água do quintal e ali mesmo, no sol quente da tarde, matei o leão. Confesso: o cano frio do ferrolho, até hoje, dói e incomoda as rugas do couro. Marca de nascença? Talvez. E mais, o alerta de que “curiosidade mata!” me contaminou o sangue, sem cura. Isso, talvez, explique o eu: uma danação exagerada! Escrevendo sobre papel imune, linha d’água ou marca d’água, registrei no texto: “O termo marca d’água refere-se a uma característica intrínseca do papel, não a uma marca comercial. A técnica de incorporar uma linha d’água no papel é antiga, mas, no contexto editorial brasileiro, ganhou destaque em 1926, quando foi adotada como um requisito para o papel de imprensa importado, visando garantir que ele fosse usado exclusivamente para jornais e periódicos e não desviado para outros fins, devido a um regime especial de tributação.”. Continuando: “A Marca d’água em papel é um padrão em relevo, incorporado durante a fabricação, que confere autenticidade e exclusividade a documentos e papéis especiais, visível contra a luz e sem uso de tinta.”. Foi no ano de 1978, no início da Scortecci Editora, conversando com o gerente comercial da KSR - Distribuidora de Papéis, na época pertencente ao Grupo Papel Simão, que pude, pela primeira vez, observar numa folha de papel a tal marca d’água. Ele me mostrou, apontando com o dedo: “Olha o papel contra a luz!”. Foi o que fiz. Hoje, o controle do papel editorial se chama “papel imune”, uso legalmente isento de IPI, PIS, Cofins e ICMS, pelo artigo 150, inciso VI, alínea “d” da Constituição Federal do Brasil. Agora a novidade que desconhecia: marca d’água em IA – Inteligência Artificial? Escutei no rádio. É uma técnica para inserir sinais invisíveis – em texto, imagem, áudio – criados por IA, permitindo que computadores detectem sua origem, combatendo desinformação e “deepfakes”, como a tecnologia SynthID do Google, que adiciona marcas digitais aos dados sintéticos, mantendo a qualidade do conteúdo e robustez contra modificações. Funciona assim: com padrões sutis ou desvios linguísticos, que humanos não percebem, mas detectores de IA identificam. Objetivos: identificar a origem de conteúdo gerado por IA, lutar contra “fake news” e “deepfakes”, validar a veracidade de informações e proteger direitos autorais. Curiosidade mata! Abri os olhos, desliguei o radinho, bebi água, lavei uma banana madura – ali mesmo, na torneira da pia – e matei, então, outro leão. Escutei, então: “Não se matam mais leões!”. Verdade. Politicamente incorreto. Perguntei, então, aos céus: “Mata-se, diariamente, o quê?”. Resposta do além: “Neurônios!”. Sobre IA não sei nada. Nada mesmo. Ontem recebi de um amigo gráfico um link sobre uma pesquisa realizada pelo Instituto Stanford de Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano – Stanford University, com números sobre IA. Interessante. Desconfio que ando matando – além da conta – os meus derradeiros neurônios. Os últimos! Marca de nascença, castigo dos muitos leões que matei na vida. Perdão: curiosidade mata!

João Scortecci

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CHICO ASTROLÁBIO: OLHA-SE POUCO PARA O CÉU!

Astrolábio – antigo instrumento astronômico e de navegação usado para medir a altura dos astros em relação ao horizonte – e seus estigmas. Marcas, sinais, exclusões: assim tropeça a humanidade. Chico Astrolábio já faleceu. Morreu jovem, menos de 50 anos de idade. Não lembro o ano. Uma certeza: antes da virada do século. Tropeçou num buraco na rua – uma cratera – e caiu de boca no chão. Piada da época: culpa do astrolábio! Risos. Na verdade, Chico andava com a cabeça nas nuvens, distante, perdido, com a razão acima do horizonte. Tudo – tudo mesmo – que Chico observava – um prédio, uma montanha, um poste, uma roda gigante, um monumento, um trapézio – conferia, sempre, com o seu astrolábio de bolso, presente do seu avô. Dizia: “Tudo que está acima dos olhos pode ser medido!”. Perguntávamos, curiosos: “E abaixo dos olhos?”. Chico Astrolábio, ríspido e agressivo, respondia, de pronto: “Não interessa!”. É dessa época o poema que escrevi: “Olha-se pouco para o céu!”. Época, também, da passagem do Cometa Hale-Bopp, da compra de uma luneta e do interesse pelas constelações de Leão e Escorpião. O GPS – Global Positioning System (Sistema de Posicionamento Global) – foi desenvolvido para uso militar, na década de 1960, tornando-se operacional a partir de 1995 e liberado para uso civil em 1983. Veio e ficou. Tenho um amigo editor e gráfico, fã cativo de Freud, que, mesmo sabendo o caminho do destino, entra no carro e liga o GPS. Perguntei-lhe, então: “Qual a razão?”. Confidenciou-me: “Quando casei, vivia errando o caminho de casa. Quando dava conta, estava entrando com o carro na garagem da casa da minha mamãe! Contei o acontecido para a minha mulher e ela não gostou nada da história. Até hoje, quando brigamos, ela me espeta o ego: ’Vai fugir para a casa da mamãe?’”. Hoje reencontrei um texto antigo, dos anos 1990, que escrevi na época das estrelas no céu. Segue o texto, com alguns ajustes: “Dos estigmas. Das cicatrizes. Dos traços e das marcas no corpo. Tatuagens ou mapas? Nós, engordados e flácidos; nós, envelhecidos e antigos; nós, adoentados disso, daquilo e sempre, agora marginalizados, agora desaprovados, cancelados, negados! É o que “estamos”. O navio dos clãs – aquele que na existência leva e traz filhos, netos, bisnetos – está à deriva nas águas, ilhado no mar revolto das tormentas, incerto nas direções do Norte, perdido de bússolas, perdido dos astrolábios e das estrelas do céu. Estigmas das sombras? Talvez. Lembro-me dos rabiscos do menino mercador e explorador veneziano Marco Polo (c.1254 – 1324) e das linhas – de leitura – da palma da mão. Vovó Chiquinha sabia das coisas. Ela dizia, na leitura da sorte: ’Cuide das mãos’. Quiromancia? Algo assim. Adiante, ainda falando das cicatrizes, da razão e suas provações, uma mensagem de Chico Xavier: “Isso também passa. Todas as coisas na Terra passam. Os dias de dificuldades passarão. Passarão também os dias de amargura e solidão. As dores e as lágrimas passarão...”. Saber esperar – pacientemente – é virtude. Eu sei, eu sinto, eu quero. Guardo, então, no segredo das memórias antigas, o astrolábio do Chico. Suas asas de voar, sua mania ímpar de olhar – sempre – acima dos olhos, além do horizonte, mesmo correndo o perigo mortal de tropeçar e cair nas crateras da vida e morrer de boca no chão. Destino: tudo muito além da sorte!” O texto acima tem mais de 30 anos. Saudade espacial do Chico Astrolábio, das mãos sábias de vovó Chiquinha e do momento mágico que foi avistar no céu azul de estrelas o cometa Hale-Bopp, amor infinito, nas águas escuras do mar, no dorso veloz da constelação de Leão e seus estigmas: de luz e paixão. Assim tropeça a humanidade. Já disse: olha-se pouco para o céu!

João Scortecci

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MACACO COM SACO VERDE-FLUORESCENTE

Quimera, na mitologia grega, é uma fera com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente, que cuspe fogo. Figura mística, caracterizada por uma aparência híbrida de dois ou mais animais. O termo, descreve, também, na ciência, um organismo com células de diferentes origens genéticas. Lendo sobre quimeras tecnológicas, soube que cientistas chineses desenvolveram em laboratório “macacos quiméricos”, primatas que possuem dois ou mais tipos de DNA no seu corpo, resultado da combinação de células-tronco de embriões geneticamente distintos de macacos da mesma espécie. O que os cientistas dizem: "As quimeras poderão, num futuro próximo, ser usadas como modelos em pesquisas sobre doenças neurológicas". Algo assim. Em outra frente, poderão, ainda, ser usadas em estudos para desenvolver novas terapias a partir das células estaminais - células mãe -, que têm a capacidade de se auto renovar. Da experiência chinesa, nasceu um macaco quimérico, macho, com partes do corpo verde-fluorescente. O macaco psicodélico - que produz efeitos alucinógenos - nasceu com cérebro, coração, rim, fígado, trato gastrointestinal e testículos, com traços que provam, de fato, ser uma quimera. Por sorte o monstrinho chinês não solta fogo pelas narinas! O macaco - macho - tem saco e unhas verdes fluorescentes: verdadeiro sucesso! 

João Scortecci


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OS PARDAIS DE MAO TSÉ-TUNG

Um amigo me confessou: "Os pardais da cidade estão sumindo!". "Qual a razão?" Perguntou-me. "Não sei". Respondi. Fui, então, procurar saber na Internet. O que descobri sobre o desaparecimento dos pardais: “Os pardais estão sumindo das cidades em várias partes do mundo, incluindo o Brasil, devido à urbanização intensa, menor oferta de alimentos e poluição, que afetam sua alimentação e reprodução.” Liguei, então, para o amigo e confirmei a informação: "É verdade!" Disse-lhe. Não satisfeito, continuei, então, pesquisando sobre o sumiço dos pardais. Encontrei algo interessante: “Aves nativas estão ocupando o lugar dos pardais!” Aves nativas? Sim. Sabiás, bem-te-vis e periquitos estão ocupando o espaço dos pardais. Nos anos 1970, quando cheguei em São Paulo, os pardais eram praga! Lendo sobre a campanha de caça as “Quatro Pragas” lançada pelo líder comunista e revolucionário chinês Mao Tsé-Tung (1893 – 1976), em 1958, além dos ratos, moscas e mosquitos, encontrei, também, caça aos terríveis pardais. O extermínio em massa dos pardais na China de Mao Tsé-Tung modificou o equilíbrio ecológico e permitiu a proliferação de insetos que acabaram destruindo as colheitas, sendo uma das causas da Grande Fome Chinesa. Explicação: Os pardais foram incluídos na lista de inimigos porque comiam sementes de grãos, roubando do povo os frutos do seu trabalho, em sua concepção, considerando que “Os pássaros são animais públicos do capitalismo”. Pardais capitalistas? Águias? Talvez. Insisti na pergunta: “O pardal é símbolo ou aparece em alguma bandeira de país?” Resposta: “Não, o pardal especificamente, não aparece em nenhuma bandeira nacional de países soberanos. Muitas bandeiras apresentam aves, mas nenhuma delas é um pardal.” Praga mesmo! Lendo, ainda, sobre as “Quatro pragas” descobri que a China durante a o período de Mao Tsé-Tung não teve sucesso com a caça aos ratos e nem aos mosquitos, somente contra os pardais. No Brasil, durante a Revolta da Vacina (1904), o governo do Rio de Janeiro passou a pagar uma recompensa por rato entregue para combater a peste bubônica. Para lucrar com a medida, parte da população passou a criar ratos em casa para vendê-los às autoridades sanitárias. O plano foi cancelado após a descoberta da fraude, que acabou aumentando a população de roedores na cidade. Aqui com os meus pardais: Seriam os ratos animais públicos do comunismo? Brincadeira, claro. Uma única certeza: estou feliz com os sabiás, os bem-te-vis e os periquitos que, quase que diariamente, cantam - alegremente - nas minhas janelas paulistanas.  

João Scortecci


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T. S. ELIOT E O LAGO LÉMAN: SENTEI-ME E CHOREI!

O poeta, tradutor e jornalista mineiro, Paulo Mendes Campos (1922 - 1991), traduziu livros dos escritores: Júlio Verne, Oscar Wilde, Jane Austen, William Shakespeare, Charles Dickens, Gustave Flaubert, Pablo Neruda, Emily Dickinson, James Joyce, Jorge Luis Borges, T. S. Eliot, entre Outros. Paulo Mendes Campos, em 1956, traduziu para a Editora Civilização Brasileira, do editor Ênio Silveira (1925 - 1996), um dos poemas mais influentes do século XX: “The waste land” (“A terra inútil”), de T. S. Eliot (Thomas Stearns Eliot, 1888 - 1965), de 1922. T. S. Eliot foi professor, bancário no Lloyds Banking Group e editor na casa publicadora britânica Faber and Faber, uma das maiores do mundo e conhecida principalmente por ter publicado vários livros de poesia. A Faber and Faber foi fundada em 1926 e, na sua lista de autores premiados, estão 13 ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura e seis ganhadores do Prêmio Man Booker, um dos mais importantes do Reino Unido. Eliot concluiu “The waste land” em Lausanne, cidade suíça, situada às margens do Lago Léman, localizada 62 km a nordeste de Genebra, durante um período de isolamento, para tratamento médico e psicológico, devido a trabalho excessivo e preocupações familiares, que afetavam sua saúde. Escreveu: “O rio não carrega papéis de embrulho, garrafas vazias,/ lenços de seda, caixas de papelão, pontas de cigarro/ ou qualquer outro testemunho das noites de verão. As ninfas se foram. / Seus amigos, os ociosos herdeiros dos potentados da cidade,/ também se foram, sem deixar endereço. / Junto às águas do Léman, sentei-me e chorei.” T. S. Eliot - Nobel de Literatura de 1948 - nasceu em Saint Louis, no Missouri, EUA, no dia 26 de setembro de 1888 e faleceu em Londres, Inglaterra, no dia 4 de janeiro de 1965, aos 77 anos de idade.

João Scortecci


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DIA 7 DE JANEIRO: DIA DO LEITOR E DO JORNAL “O POVO”

História comprida, mas vale a pena ser contada e lida e relida. Principalmente para quem gosta de ler e quer saber sobre o Dia do Leitor. Meu pai, Luiz Gonzaga do Carmo Paula, era filho de João Batista de Paula, o Batista da Light, e de Sarah do Carmo Paula, primos legítimos da cidade de Quixadá, interior do Ceará. Sarah era filha de Joaquim do Carmo Filho e de Izabel Figueiredo Leopoldina do Carmo e irmã de José Nereu, Godofredo, Maria Augusta, Letícia e Creusa. Creusa (Creusa do Carmo Rocha, 1915 – 1943) se casou com o poeta, jornalista e acadêmico cearense Demócrito Rocha (1888 – 1943) e tiveram duas filhas: Maria Albanisa Rocha e Maria Lúcia Rocha, a Tia Lucinha. Demócrito Rocha e o jornalista, poeta, deputado federal, senador da República e governador do estado do Ceará Paulo Sarasate (Paulo Sarasate Ferreira Lopes, 1908 – 1968) fundaram, em 7 de janeiro de 1928, o jornal cearense “O Povo”. Paulo Sarasate, vinte anos mais jovem que Demócrito Rocha, casou-se com Maria Albanisa, filha de Demócrito Rocha e não tiveram filhos. Demócrito Rocha iniciou a atividade jornalística em 1924, fundando o jornal “Ceará Ilustrado”. Foi também redator e diretor literário do jornal “O Ceará”. Fundou, em 1928, o jornal diário “O Povo” e, no ano seguinte, a revista literária “Maracajá”, que propagava o modernismo no Nordeste do Brasil. Com a morte de Demócrito Rocha, em 1943, e de Paulo Sarasate, em 1968, Maria Albanisa Rocha Sarasate assumiu a direção do jornal até 1985, quando veio a falecer, transferindo-se a direção do jornal para o sobrinho Demócrito Dummar, filho mais velho de sua irmã, Maria Lúcia Rocha Dummar, a Tia Lucinha. Demócrito Dummar foi um primo querido. Era afilhado do meu pai, Luiz Gonzaga, e, sempre que possível, conversávamos sobre o mercado editorial. Tinha planos de abrir uma filial da Gráfica Scortecci em Fortaleza. Demócrito faleceu em 25 de abril de 2008. Hoje, “O Povo” é o mais antigo jornal em circulação no Ceará, tendo como presidente do grupo a bisneta de Demócrito Rocha, filha mais velha do primo Demócrito Dummar, a jornalista Luciana Dummar. O Dia do Leitor, comemorado no Brasil no dia 7 de janeiro, é uma homenagem às pessoas apaixonadas pela literatura e que amam os livros! Foi criado em homenagem à fundação, pelo poeta e acadêmico Demócrito Rocha, do jornal cearense “O Povo”, de 7 de janeiro de 1928, que ficou conhecido por combater a corrupção e divulgar fatos políticos com isenção e coragem, e também pela criação, em 1929, do suplemento literário “Maracajá”, folha modernista do Ceará, espaço de divulgação do movimento modernista literário cearense na época.

João Scortecci

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O MONSTRO DO AÇUDE BOTIJA DA FAZENDA ÁGUA VERDE NO CEARÁ

Em 1966, eu tinha pouco mais de 10 anos de idade e morava em Fortaleza/CE, quando soube da história do Monstro da Fazenda Água Verde, na região da cidade de Palmácia, distante 72 km da capital, no Circuito Turístico da Serra de Guaramiranga, no maciço de Baturité. O bicho virou manchete nos jornais e na TV, depois dos misteriosos “avistamentos” de uma estranha criatura – rasgando o vento – nas águas do Açude Botija. Testemunhas oculares descreviam a presença do monstro de várias formas: uma tartaruga com chifres, um dinossauro, uma cobra gigante e até um ser medonho, mistura de boi e lagarto gigante, com chifres, pele escura, coberta de pelos pretos, um olho só e sem orelhas. O Açude Botija – desconhecido, até então – passou a ser um grande perigo, e ninguém de boa-fé arriscava frequentá-lo. Tornou-se local de visitação pública, e pessoas chegavam de todos os cantos do Ceará. Uma atração turística! Moradores da região montavam barracas ao redor do açude e vendiam de tudo: cafezinho, tapioca, laranja, cigarro e lembranças, com a estampa do monstro. Até uma cachaça – na época – foi batizada com o nome de “Bicho da Água Verde”. Mas o medonho sempre escapava dos tiros de quem o avistava e da lente das câmeras, de quem tentava – em vão – fotografá-lo. O então prefeito da cidade de Palmácia, Francisco Damasceno Filho, chegou a oferecer um prêmio de 10 mil cruzeiros a quem conseguisse matar a fera. Encomendou – é o que diziam na época – um barril de álcool para preservar o bicho, quando a fera fosse abatida. Muita doideira! A captura do animal se deu – finalmente – no mês de setembro daquele mesmo ano. O DNOCS – Departamento Nacional de Obras Contra as Secas do Ceará se apropriou do direito de caçar a fera, convocando o biologista Raymundo Adhemar Braga (1924 – 1974), exímio exterminador de piranhas, com o objetivo de capturar o “perigoso e fantasmagórico animal”. Foi criada, então, a Força Expedicionária do DNOCS, equipada de material bélico, solicitado ao Exército, como fuzis, barracas, lança-chamas, granadas e holofotes, segundo consta no livro “Nossas Histórias”, de Jarbas Gurgel. Raymundo Adhemar Braga, o caçador de piranhas, rumou para o lugar das aparições, liderando um agrupamento de dez homens, armados e equipados. Do alto de uma árvore próxima ao acampamento, munido de binóculo e um rifle, montou um posto avançado. Era noite enluarada, quando a vegetação aquática – perto da margem do açude – agitou-se, fortemente. Era o monstro! Dada a ordem, mais de 20 tiros foram disparados. Uma semana depois, foi encontrado morto, boiando, nas margens do Açude Botija, um jacaré pesando 32 quilos e 1,6 metros de comprimento. O jacaré ficou exposto à visitação pública como um meio de acalmar a população. Foi, então, enviado para a Universidade Estadual do Ceará, onde foi empalhado e, posteriormente, levado para o Museu do DNOCS. Em 2002, o historiador Parcélio Campos descobriu o paradeiro do animal – esquecido, num canto – e o levou de volta para a cidade de Palmácia. Hoje, o Monstro da Fazenda Água Verde se encontra exposto na biblioteca municipal da cidade. A explicação dada, na época, sobre o medonho é que teria acontecido, provavelmente, a coincidência de o jacaré ter abocanhado um bode inteiro, daqueles de chifres grandes, que ficaram expostos, por um longo tempo, até caírem. Na minha próxima viagem ao Ceará – não sei quando – pretendo visitar a cidade de Palmácia, no maciço de Baturité, e a Biblioteca Municipal, para fotografar o Monstro da Fazenda Água Verde. E, quem sabe, beber – no tempo – uma cachaça, da boa.

João Scortecci
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CASTELINHO DA RUA APA: MAL-ASSOMBRADO E CHEIO DE MISTÉRIOS

Mal-assombrado e cheio de mistérios! É o que dizem do “Castelinho da Rua Apa” - palco de assassinatos e muitas histórias, mesmo depois de muitos anos.  O que aconteceu: Mãe e dois filhos – adultos – foram encontrados mortos a tiros, em 12 de maio de 1937. O crime - até hoje - intriga e assusta os paulistanos, principalmente depois que o “castelinho” ganhou fama de mal-assombrado. A história: Uma família importante e influente da época, donos do Cine Broadway – que encerrou suas atividades em 1967 e o prédio foi demolido nos anos 1970 - de propriedade de Maria Cândida (Maria Cândida Guimarães dos Reis), uma socialite, muito religiosa, viúva do médico César Reis (Virgílio César dos Reis) e seus dois filhos homens, todos personagens da tragédia. Na época, Maria Cândida tinha 73 anos de idade. Seu filho mais velho, Álvaro, 45 anos, advogado, exímio patinador - chegou a ser recordista mundial nesse esporte - gostava de festas, mulheres e viagens e o filho caçula, Armando, 43 anos, também advogado, reservado e caseiro, muito diferente do irmão mais velho. O que teria acontecido: Um desentendimento entre eles, foi o gatilho para os crimes. Álvaro queria fechar o cine Broadway, estava cheio de dívidas e no local, instalar, então, um rinque de patinação. Armando, responsável pelas finanças da família, recusava-se, veementemente, alegando que o rinque de patinação não seria uma garantia de retorno financeiro como era, até então, o Cine Broadway. A gota d’água veio em 12 de maio de 1937. Os dois irmãos teriam discutido, os ânimos se exaltaram, e eles apontaram armas um para o outro. De acordo com a versão oficial, Álvaro foi o culpado: baleou fatalmente a mãe e o irmão e depois, cometeu suicídio, com dois tiros no peito. Na cena do crime foi encontrado a arma de Alvaro, uma pistola automática Parabellum calibre 9, fato determinante para conclusão da versão oficial. Há controvérsias e dúvidas sobre a versão oficial. Leda de Castro Kiehl, sobrinha-neta de Maria Cândida, autora do livro “O Crime do Castelinho: Mitos e Verdades” (Equilíbrio, 2015), discorda da versão oficial. Para Leda foi o irmão mais novo – o Armando – quem teria sido o autor dos crimes. Há, ainda, outra hipótese: segundo os médicos, Maria Cândida teria sido assassinada com quatro tiros, não três, como consta no laudo policial. Duas das balas seriam de uma arma de calibre diferente da pistola de Álvaro, o que indicaria a presença de uma quarta pessoa no local, e que tornaria o crime uma chacina encomendada. A polícia descobriu, também, papéis assinados pelo filho mais velho que demonstravam que sua situação financeira era delicada, mas seus credores, que poderiam estar por trás da tragédia, nunca foram localizados. O Castelinho da Rua Apa, esquina com a Avenida São João, passou por um imbróglio judicial e, abandonado, acabou passando para as mãos do Estado. A deterioração só contribuiu para reforçar as lendas sobre o lugar. Hoje, o “Castelinho” -, é administrado pela ONG Clube das Mães do Brasil - Instituição Filantrópica, sem fins lucrativos, voltada às pessoas em situação de rua e em vulnerabilidade social - e foi restaurado no período de 2015 a 2017. Mesmo assim, a lenda de mal-assombrado e misterioso permanece na boca do povo. Pessoas que frequentam o “Castelinho” dizem ouvir passos, choros e lamúrias dos espíritos dos mortos no lugar. Ficou a sina de mal-assombrado e cheio de mistérios!

João Scortecci

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ROD SERLING, ZAMIÁTIN, ORWELL E O GRANDE IRMÃO

O roteirista norte-americano Rod Serling (Rodman Edward “Rod” Serling, 1924 – 1975), criador da série “Além da Imaginação” (“The Twilight Zone”, de 1959 até 1964), quando lhe perguntaram qual a diferença entre fantasia e ficção científica, respondeu: “Fantasia é o impossível tornado provável. Ficção científica é o improvável tornado possível.”. Lendo a biografia de Rod Serling, lembrei-me do “influenciador literário” e escritor russo Eugene Zamiátin (Evgéni Ivánovitch Zamiátin, 1884 – 1937), autor do romance distópico “Nós”. Zamiatin influenciou gênios da ficção científica, como Aldous Huxley, George Orwell e Ayn Rand. Três ícones da ficção! Tenho minha lista pessoal, forjada – lentamente – desde os anos 1970: Isaac Asimov (“Eu, Robô”), Arthur C. Clarke (“2001: uma odisseia no espaço”), Ray Bradbury (“Fahrenheit 451”), Edmund Cooper (“A Humanidade Artificial”), Aldous Huxley (”Admirável Mundo Novo”) e George Orwell ("1984"). Orwell (Eric Arthur Blair, 1903 – 1950), autor do romance distópico “Nineteen Eighty-Four” (“1984”), escrito em 1949, narra a vida “sufocante” de indivíduos “aprisionados” num sistema de autoritarismo e opressão — pelo líder supremo do Partido, intitulado de o “Grande Irmão” —, com vigilância tecnológica da “teletela”, uma espécie de TV que espia os cidadãos, devassando a privacidade de todos, alegando se tratar de uma questão de segurança. E pensando em segurança, com ajuda de um adesivo, cobri a câmera do Laptop e desliguei o som. Desconfio que o “Grande Irmão” anda me espionando, acomunado com o meu celular, outro intruso, opressor distópico de “Nós” e influenciador, que tudo vê e tudo escuta. Rod diria, talvez: “Improvável tornado possível e nada mais!”. Dizem – não duvido – que agora estão também invadindo o nosso sono, os nossos sonhos, os nossos pesadelos. “Nós” está ferrado!

João Scortecci

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BOTICÁRIO FERREIRA E O MORRO DOS PECADOS

Tudo virou pó em segundos! Eu tinha pouco mais de sete meses de idade quando o teto da igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Fortaleza, desabou. Era uma sexta-feira, dia 15 de março, por volta das 13h15, do ano de 1957. Morávamos a menos de três quarteirões da igreja, no centro da cidade, na Avenida D. Manoel, 1086, quase esquina com a Av. Duque de Caxias. Mamãe Nilce, naquela época, estava grávida da Ana Cândida, irmã caçula. Estávamos de malas prontas - de mudança – para Dois Córregos, interior de São Paulo. A mudança não estava nos planos da família. Meus avós maternos - José Scortecci e Maria Aparecida - haviam sofrido um grave acidente de carro, e minha avó, precisava de cuidados especiais. Meus irmãos mais velhos, Luiz Gonzaga e José Henrique, com 7 e 6 anos de idade, respectivamente, na hora do desabamento da igreja estavam no grupo escolar, que ficava do outro lado da praça, distante 15 metros da igreja do Sagrado Coração de Jesus. O estrondo foi de tremer o chão, assustando a cidade. Minutos depois, o telefone tocou - era do grupo escolar - e papai foi buscá-los de Jeep. A exemplo de Roma, Fortaleza é uma cidade construída sobre seis colinas, assentada numa planície que varia de 15 a 20 metros acima do nível do mar. A igreja que desabou ficava na colina Alto da Pimenta - conhecida, popularmente, como Morro do Pecado -, onde antes, no mesmo lugar, existia uma capela, construída pelo Boticário Ferreira, dedicada a Nossa Senhora das Dores. A igreja que caiu havia sido construída por José Francisco da Silva Albano, o Barão de Aratanha, a pedido da baronesa, Liberalina Angélica da Silva Albano, para seu filho o Frei Xisto Albano, um frade da ordem dos capuchinhos, que, mais tarde, tornou-se bispo de Fortaleza. Nos anos 1950, para abrigar um conjunto de sinos novos, a torre-agulha da igreja foi demolida, e, no seu lugar, foi construída outra torre, dessa vez, maior e quadrada. As bases da torre não resistiram, e tudo veio abaixo. A notícia do desabamento se espalhou, e logo uma grande multidão ocupou a praça. Até o Governador Paulo Sarasate e a primeira-dama, Albanisa Rocha Sarasate, irmã da minha avó Sarah, por parte de pai, compareceram à Praça do Sagrado Coração de Jesus, solidarizando-se com o povo de Fortaleza. Meus irmãos, Luiz Gonzaga e José Henrique, lembram da tragédia, do estrondo e a poeira que cobriu o céu. Ninguém, por sorte, ficou ferido. A igreja foi reconstruída e, por coincidência ou não, foi reinaugurada em 26 de novembro de 1961, na semana em que havíamos “reocupado” a casa da Av. D. Manoel 1086, reformada, depois de quase três anos morando em Dois Córregos. Muito se fala sobre o Morro do Pecado e de o lugar ser assombrado. Já escutei de tudo: morte de padres, acidentes de carro, santas desaparecidas... Verdade ou mentira, dizem que o espírito do Boticário Ferreira (Antônio Rodrigues Ferreira de Macedo, 1800 - 1859) ainda peca por lá e que não abre mão dos prazeres do Morro do Pecado. Ferreira foi político, farmacêutico e militar. Foi prefeito da cidade de Fortaleza por dois mandatos. Em sua homenagem foi renomeada a Praça Municipal - no centro e principal praça da cidade - para Praça do Ferreira. Quando vou a Fortaleza, visito o Morro dos Pecados, a Colina do Alto da Pimenta e os mistérios do Boticário Ferreira. 

João Scortecci


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REPOLHO COZIDO: RECEITA DA MINHA FALECIDA MÃE

O repolho é um vegetal crucífero, como o brócolis, a couve-flor e a rúcula. São ricos em vitaminas, fibras e antioxidantes. Gosto deles! Um repolho inteiro, cozido com carne de panela ou lombo de bacalhau, é um prato delicioso. Ouvi dizer que o moço – refiro-me ao repolho –será a bola da vez neste ano. Dizem – não param de falar dele – que está na lista das “tendências” do ano: o repolho, a cor laranja, a franja no rosto das mulheres, as sandálias havaianas, o tênis social e uma imensa lista com mais de 80 itens. Fazia tempo –alguns anos – que não escutava alguém pronunciar a palavra “sulforafano”, composto natural encontrado nos vegetais crucíferos. Escutei no rádio e, no mesmo instante, voltei no tempo, final dos anos 1970, até o Raimundo Sulforafano, um experiente vendedor de máquinas para escritório. O Sulforafano – apelido que pegou – levava, diariamente, na sua marmita de alumínio, repolho cozido e feijão preto, temperado com cebola e alho. No final do dia, depois das 17h, quando o time de vendas se reunia no salão do departamento comercial, Raimundo, o Sulforafano, começava, então, deliberadamente, a soltar gases. Algo fora do comum! Fazia barulho e tinha um cheiro mortal. Alguém do time, inconformado, reclamou para o gerente geral, que, indignado, conversou com o Raimundo Sulforafano. Eu, na época, era chefe do comercial da empresa e fui convocado para a reunião. Raimundo escutou a reclamação e, calmamente, justificou-se: “Feijão é ferro. Bom para a saúde. E repolho fortalece o sistema imunológico, tem ação antioxidante e anti-inflamatória, protege o coração e ajuda na regulação do açúcar no sangue!”. Silêncio. Não satisfeito, resfolegou, ainda: “Eu gosto de repolho cozido. E mais: é receita da minha falecida mãe!”. Levantou-se e saiu. Quando deixei aquele emprego no ano de 1982, Sulforafano ainda estava por lá. Mudei, então, de estação. Escutei de pronto, uma médica gastroenterologista falando: “Soltar gases é sinal de que o intestino está funcionando! A eliminação de gases é um sinal normal e saudável de que seu intestino está funcionando e digerindo os alimentos. Gases é um subproduto comum da decomposição bacteriana de alimentos no cólon.” Fiquei de ladinho e pratiquei uma flatulência singular. Sou sugestivo! Grande Raimundo! Hoje o almoço em família vai ser bacalhau com repolho cozido. Coincidência? Talvez. Sou influenciável, já disse, e estou de olho nas tendências do ano. Na minha conta sobraram, apenas, o repolho cozido e o par de havaianas do Palmeiras, presente do meu filho. Não gosto da cor laranja – ruim aos olhos de um daltônico –, não tenho cabelos para uma franja e acho feio terno com tênis social, sem meias. Fiquei de ladinho – mais uma vez – e pratiquei outra flatulência. Desta vez: sonora! Tudo funcionando: pronto para as tendências do ano de 2026!

João Scortecci

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DITADOS PORTUGUESES, QUIXADÁ E OS ÍNDIOS CARIRIS

Ditado de sabedoria milenar: “Foi para Portugal, perdeu o lugar!”. Significado: se algo é abandonado, alguém irá tomar posse, com certeza. O ditado teve origem nas primeiras décadas do século XX, quando muitos portugueses emigraram para o Brasil em busca de trabalho. Hoje a história se inverteu. É grande o número de brasileiros que foram para Portugal, em busca de trabalho, segurança financeira e qualidade de vida. Com o tempo, surgiram novas variações daquele ditado: “Foi namorar, perdeu o lugar”, “Cochilou, o carimbo caiu”. Coleciono – aleatoriamente – ditados populares, em especial os portugueses, que, na sua origem, contam histórias, algumas engraçadas. Uma expressão portuguesa que julgo interessante é “meia-tigela”, da época da monarquia portuguesa. Ao povo da Corte – criados, pajens, oficiais – que não morava no palácio, servia-se comida, observando as rações previstas no “Livro da Cozinha del Rei”. O manual estipulava a porção de cada um, de acordo com a importância do serviço que prestava. Assim, alguns ganhavam tigela inteira; outros, meia tigela. Levantei a biografia do meu tataravô português – por parte de pai – chamado Monteiro, nascido em Avelar, freguesia portuguesa do Concelho de Ansião, distrito de Leiria, que veio para o Brasil depois do grande terremoto que destruiu Lisboa, no ano de 1755. Monteiro embarcou para a Capitania do Ceará, fugindo das perseguições religiosas do ministro português Marquês de Pombal, durante o reinado de D. José I (1750 – 1777), conhecido na história como “Período Pombalino”. Monteiro, cristão-novo, fixou residência no lote compreendido da foz do Rio Jaguaribe à foz do Rio Mundaú, região habitada pelos índios Cariris. Tornou-se amigo da tribo, recebendo de presente do cacique uma esposa índia. A jovem – uma menina de 13 anos – não queria se casar. Tentou fugir. Foi, então, laçada e amarrada no lombo de uma montaria e levada por Monteiro para a região onde hoje está localizada a cidade de Quixadá, no coração do Ceará. Monteiro e a índia Cariri – não consegui descobrir o seu nome – tiveram uma única filha, de nome Maria Monteiro, apelidada de “Vovó Coração”. Maria Monteiro se casou com José do Carmo Ferreira Chaves, comerciante. Tiveram cinco filhos: Maria Carminda, Maria do Carmo, José do Carmo, Enéas do Carmo e Arthur do Carmo. Maria Carminda, a filha mais velha do casal, casou-se com José Ferreira de Paula Filho, e tiveram seis filhos. O mais novo da prole, João Batista de Paula (o “Batista da Light”), meu avô paterno, nasceu na cidade de Quixadá, no dia 26 de março de 1895, e faleceu aos 71 anos de idade, em 1966, em Fortaleza/CE. Batista – era assim que gostava de ser chamado – foi o meu avô amado. Vovó Coração, filha da índia da tribo dos Cariris, é o elo que alimenta nossas almas de guerreiros. Ela sempre volta – de tempos em tempos – e o seu espírito de luz guia a família Paula através dos tempos.

João Scortecci

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O JORNALISTA OTTONI FERNANDES E OS ANOS DE CHUMBO

O jornalista jauense Ottoni Fernandes (Ottoni Guimarães Fernandes Júnior, 1946 – 2012) morreu no dia 30 de dezembro de 2012, aos 66 anos de idade. Foi vítima de um infarto em El Chaltén, na Patagônia, Argentina. Ottoni, na época, era diretor internacional da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Antes de assumir a diretoria internacional da empresa, foi diretor de Comunicação do Instituto Lula, secretário executivo da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, entre 2007 e 2010, na gestão do ex-ministro Franklin Martins, e diretor de redação da revista “Desafios do Desenvolvimento”, do Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Trabalhou por 21 anos na “Gazeta Mercantil”, onde atuou de repórter a diretor-geral. Também foi redator-chefe da revista “Isto É” e editor da revista “Exame”. Ex-guerrilheiro, Ottoni militou na ALN – Ação Libertadora Nacional durante os primeiros anos da ditadura militar, até ser preso em 1970. Em 2004, lançou o livro “O Baú do Guerrilheiro – Memórias da Luta Armada”, com memórias dos anos de prisão. Trabalhamos juntos na CBL – Câmara Brasileira do Livro, quando eu era vice-presidente da entidade, na gestão do presidente Raul Wassermann. Ficamos amigos. Quando conversávamos sobre os “anos de chumbo”, a brincadeira era sempre a mesma. Pergunta: “Ottoni, como você conseguia dirigir o fusquinha em fuga com os seus mais de 1,90 de altura?”. Risos. Certa vez, até tentou explicar, sem sucesso. Aprendi muito com ele. Uma certeza: uma moeda tem mais de duas faces! No ano de 1976, quando foi libertado da prisão, eu estava no 2º Batalhão de Guardas, Parque Pedro II, na capital paulista, prestando o Serviço Militar Obrigatório e, vez por outra, de serviço no QG do II Exército. “Ottoni, sorte que não tive que usar a minha Beretta M12 em você!”. “Sorte mesmo!”, repetia. A última vez que nos encontramos foi em Lisboa, Portugal, no restaurante Solar do Presunto, na Rua das Portas de Santo Antão, 150. Gritei: “Olá, jornalista guerrilheiro!” O restaurante inteiro nos olhou. Ottoni, timidamente, nos seus mais de 1,90 de altura, respondeu: “Poeta, você não existe!”. E assim foi: inesquecível.

João Scortecci

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BERTOLT BRECHT: O CINZA ME FAZ MAL!

O poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht, 1898 - 1956), morreu alguns dias depois do meu nascimento. Eu no Ceará e ele em Berlim. Fim das coincidências. Brecht poeta tem lá os seus encantos literários. Merece ser lido! Em mãos o livro “Bertolt Brecht: Poesia: 60” - edição bilíngue, ano 2019, editora Perspectiva, 584 páginas. Para Brecht a poesia expressa tudo que está vivo, limpo ou sujo. Ele canta até a latrina, para ele um lugar plácido em que a gente se recosta tendo em cima estrelas e debaixo merda. Muita merda! Bertolt Brecht não admite meio termo: o sujeito deve ser frio ou quente. Morno? Nem a pau! Branco ou preto. Para Bertolt Brecht “O cinza me faz mal.” Lendo Brecht lembrei-me da expressão comumente usada no meio literário: “Não li e não gostei”. Dizem que a expressão “não li e não gostei” foi pronunciada pela primeira vez por Oswald de Andrade (1890 – 1954), quando, então, perguntado sobre o livro “Riacho doce” (1939) do romancista e jornalista paraibano José Lins do Rego (1901 – 1957). Outro dia um autor “maçante” publicou numa antologia da Scortecci uma poesia em homenagem as “latrinas” e as “merdas” do mundo. Texto ruim. Fedorento. Alguém do editorial alertou-me: “Scortecci, olha isso! Vamos publicar?”. Respondi: “Sim”. Coloca os acentos, passa o revisor ortográfico e envia o material para a produção. Nunca - desde os anos 1980, do início da editora - recusei publicar um texto, um livro ou um autor. O cinza me faz bem! Diferente de Bertolt Brecht, gosto dos meios-tons, das ilusões, dos sonhos e das sombras da poesia. Sobre o canto da latrina do alemão Bertolt Brecht já vivi algo parecido, num camping selvagem, no final dos anos 1970: “um lugar plácido em que a gente se recosta tendo em cima estrelas e debaixo merda. Muita merda!” Depois da antologia pronta, o autor, no dia do lançamento, no estande da editora, na Bienal do Livro de São Paulo, procurou-me e confessou: “Pensei que você fosse cancelar minha inscrição na antologia!” Disse-lhe: Nem a pau! Ele – surpreso – fez cara de bunda. Já disse e repito: O cinza me faz bem!

João Scortecci


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PANTHÉON DE PARIS, VICTOR HUGO E A SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

Conheci o “Panthéon de Paris” no ano de 2010. Monumento estilo neoclássico localizado no monte de Santa Genoveva, no 5.º arrondissement de Paris. Os arrondissements de Paris correspondem a uma divisão administrativa que decompõe a comuna de Paris em vinte arrondissements municipais, em pleno Quartier Latin. Desejos parisienses: visitar o túmulo do poeta, Victor Hugo (Victor-Marie Hugo, 1802 - 1885), autor de “Les Misérables”, conhecer a catedral de “Notre-Dame", a Biblioteca de Santa Genoveva - com sua arquitetura interna com arcos em ferro aparente - e, por fim, conhece a “Sorbonne Université”. Impossível: tudo num mesmo dia! Optei, então: pela Sorbonne Université e a cripta de Victor Hugo, no “Panthéon de Paris". Foi o que fiz. O romancista, poeta e dramaturgo francês Victor Hugo passou a infância entre Paris, Nápoles e Madrid. Considerado um menino precoce, tendo sido, em 1817, aos 15 anos de idade, premiado pela Academia Francesa, por um de seus poemas. Em 1821 publicou seu primeiro livro de poesias, “Odes et poésies diverses” (Odes e Poesias Diversas), com o qual ganhou uma pensão, concedida por Luís XVIII - Luís, o Desejado, e em 1822, publicou o seu primeiro romance, "Han d'Islande" ("Hans da Islândia"). Em 1825, aos 23 anos, recebeu o título de “Cavaleiro da Legião de Honra” e, junto com outros escritores, ajudou a criar um “Cenáculo” literário. “Cenáculo” - que significa sala de refeições - é o termo usado para o local onde ocorreu, de acordo com os cristãos, a “Última Ceia” e onde hoje se encontra um grande templo, no Monte Sião, em Jerusalém. Um “cenáculo” de escritores! A ideia - iluminada - levou-me, então, de “corpo e alma” até o filme “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), do gênero drama, dirigido por Peter Weir, escrito por Tom Schulman e estrelado por Robin Williams. Uma sociedade secreta! Victor Hugo morreu em 22 de maio de 1885, aos 83 anos de idade. De acordo com seu último desejo, seu corpo foi enterrado no mausoléu do “Panthéon de Paris”, ao lado de Voltaire, Rousseau, Marie Curie, René Descartes e Alexandre Dumas. Visitá-los foi memorável. Na tarde daquele mesmo dia, no por do sol de Paris, sente-me defronte do Panthéon e lá fiquei, entregue, até a vida escurecer de vez e me levar, perdido.    

João Scortecci

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