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O ERRANTE DE GIBRAN E OS DESENCONTROS DA VIDA

Dos livros do poeta libanês Gibran (Gibran Khalil Gibran, 1883 – 1931), “O Profeta” (1923), foi o primeiro que li. Comprei o exemplar na Livraria Brasiliense, do editor e livreiro Caio Prado Júnior, localizada na Rua Barão de Itapetininga, próximo à Praça da República, na cidade de São Paulo. “O Errante” (1926) veio depois. Era uma sexta-feira fria, mês de agosto, talvez, do ano de 1972. Na capa, quase um subtítulo: “Parábolas sobre a insatisfação e o desencontro”. Eu tinha pouco mais de 16 anos de idade e a capital paulista era um mistério. Aprendi a amar a cidade, aos poucos, aos goles, um dia de cada vez. A ideia era devorar um talharim a cavalo, no Giovanni, restaurante de balcão, da Rua dos Timbiras, 607, quase esquina com a Av. São João. Eram ainda 11h30. cedo para almoçar e a fome da hora podia esperar mais alguns minutos. Passei reto pela Praça da República, subi a Barão de Itapetininga, até a Brasiliense. Na porta da livraria, dei de cara com Gibran Khalil Gibran, empilhado, de gravata borboleta, segurando um exemplar do “O Errante”. Desconfio que Gibran me aguardava. A loja estava cheia: livro fino, preço justo, capa estranha, feia. Paguei o exemplar e – estranhamente – perdi a fome. Sentei-me, então, num banco sujo e molhado da Praça da República, próximo ao coreto. Parábolas? Gosto delas. Almustafa veio – já nas primeiras páginas do livro – e sentou-se junto, ao lado. Ele falava – parecia uma matraca – e eu, quase um aluno, o escutava. Almustafa falou sobre Gibran, seus livros, sua sabedoria. Então, do nada, silenciou-se. Aproveitei para observar à distância um grupo de crianças que brincavam no coreto da praça. Gritavam e giravam seus corpos. Almustafa parecia distante, triste. “O que se passa?”, perguntei. Ele me olhou, sorriu levemente, juntou as mãos e começou, então, a falar, pausadamente, sobre a insatisfação, a natureza da existência humana e os desencontros da vida. Escutei. Depois, levantou-se e sozinho caminhou até o coreto – as crianças tinham ido embora – e lá desapareceu, dentro de mim. 

João Scortecci