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SÃO OS OLHOS DO MAR: CEGO ADERALDO, PEDRO II E O FAROL DO MUCURIPE

Todo cearense - de nascimento, coração ou de passagem repentina - tem paixão “arretada” pelo Farol do Mucuripe. Amor não se explica! Vive-se: desbragadamente! Erguido com alvenaria, madeira e ferro no ano de 1840, o Farol do Mucuripe funcionou por quase 100 anos. Em 1846, foi atingido por um incêndio e ficou adormecido por 45 anos, até o ano de 1871. Dizem - entre rimas e repentes - que, durante o seu silêncio e no melhor dos ventos foi o poeta “Cego Aderaldo” (Aderaldo Ferreira de Araújo, 1878 - 1967) quem conduziu a direção segura das velas na imensidão do mar. É o que dizem! Cego Aderaldo nasceu em Quixadá, terra do meu avô paterno João Batista (O “Batista da Light”) e morada espiritual da imortal escritora Rachel de Queiroz (1910 - 2003). O Farol do Mucuripe piscava a todo minuto, e sua luz “amarelada” era visível a 24 quilômetros de distância. Consolidou-se como um importante marco da cidade, e sua estampa de “cidade do sol” figura - desde o século XIX - no brasão do estado do Ceará. Em 1958, obsoleto, o farol foi desativado. Mais de 20 anos depois, ganhou uma revitalização e foi - novamente – esquecido. Em 2017, a cidade de Fortaleza ganhou um novo farol, no bairro Vicente Pinzón, (Vicente Yáñez Pinzón, 1462 - 1514), com 72 metros de altura e três vezes mais alto que o do Mucuripe. Vicente Pinzón é considerado por muitos historiadores o verdadeiro descobridor do Brasil, por ter atingido o Cabo de Santo Agostinho no litoral de Pernambuco em 26 de janeiro de 1500, cerca de três meses antes da chegada de Pedro Álvares Cabral a Porto Seguro. Segundo a Marinha Brasileira, o novo farol conserva o aparelho lenticular do farol do Mucuripe, de alto valor histórico e simbólico, por ter sido doado pelo imperador Dom Pedro II. O Farol do Mucuripe "Ele é o castelo tomado pelos meninos da praia, que, na falta de opções de lazer, fingem ser piratas e escorregam pelas muretas pedregosas", escreveu a jornalista cearense Beatriz Jucá, no "El País - Brasil". O texto de Beatriz - de passagem repentina - fez-me lembrar da abertura da obra “Capitães da Areia” do escritor baiano Jorge Amado. O Farol do Mucuripe - conhecido historicamente como Farol Velho – foi restaurado e revitalizado no ano de 2025. “São os olhos do mar” na música do Pessoal do Ceará (Amelinha, Belchior, Fagner, Fausto Nilo, Ednardo, Rodger Rogério e Téti), e ainda pisca nos versos do poeta Aderaldo e no coração distante - de quase exílio - do Eu menino. “O Farol de Mucuripe é a cidade de Fortaleza, é uma metáfora da cidade.” palavras do historiador e professor Evaldo Lima. Uma paixão arretada! 

João Scortecci

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MARIA VIANNA: ATRIZ E POETA NA “VERTICAL DOS DESCAMINHOS”

“O Menino da Porteira” é um filme brasileiro de longa-metragem de 1976, dirigido por Jeremias Moreira Filho, inspirado na canção homônima, de Teddy Vieira. O filme foi rodado nas cidades de Araraquara e Borborema, no estado de São Paulo, e de Ouro Fino, no estado de Minas Gerais. No elenco, estavam Sérgio Reis, Jofre Soares, Maria Vianna e outros. Maria Vianna (Maria Viana de Paula) nasceu em Santa Quitéria, no Ceará, em 8 de julho de 1946. Começou sua carreira de atriz com um pequeno papel no filme “Sinal vermelho, as fêmeas”, mas o sucesso chegou logo depois, ao fazer o principal papel feminino em “Paixão de um homem”, ao lado do cantor Waldick Soriano. Maria Vianna fez vários filmes nos anos 1970: “O signo do escorpião”; “O poderoso garanhão”; “O menino da porteira”; “Mágoa de boiadeiro”; “Os pastores da noite”; e “O cangaceiro do diabo”. Na Rede Tupi de Televisão, em 1972, trabalhou na novela “Vitoria Bonelli”, de Geraldo Vietri. Na mesma emissora atuou ainda em “Cinderela 77” e em “Aritana”, novela de Ivani Ribeiro, de 1978. Conheci a atriz Maria Vianna no ano de 1982, por meio do deputado e amigo mackenzista Cunha Bueno (Antônio Henrique Bittencourt da Cunha Bueno (1949 - 2024), na época Secretário de Cultura do Estado de São Paulo. O papo com Maria Vianna rolou e alguns dias depois trouxe o seu livro inédito de poesias “Vertical dos Descaminhos” para publicar na Scortecci. Nome completo? Ela respondeu: “Maria Viana de Paula, de Santa Quitéria, no Ceará!”. Sobrenome Paula? Sim. Disse-lhe, então: Somos parentes! Risos. Para quem não sabe o meu sobrenome também é “Paula”, família cearense, por parte de pai, da cidade de Quixadá. Maria Vianna, belíssima, morena, 36 anos de idade - a Greta Garbo brasileira – muito conhecida no meio cinematográfico brasileiro. Fez história! O lançamento do seu livro “Vertical dos Descaminhos” aconteceu no MIS - Museu da Imagem e do Som, na Av. Europa, 158, Jardim Europa, na capital paulista. Evento “disputadíssimo” com a presença de políticos e artistas famosos, entre eles: Regina Duarte, Tarcísio Meira, Sérgio Reis e Outros. O evento estava marcado para começar oficialmente às 19 horas. O livro “Vertical dos Descaminhos” ficou pronto na véspera e foi retirado pela autora na manhã do dia do evento. Perguntei-lhe, preocupado: “Você não quer que eu leve os livros? “Não, respondeu. Vou deixá-los no porta-malas do carro!”. Explicou: Tenho ainda que pegar o vestido novo na costureira, cabeleireiro, unhas, maquiagem e ainda uma sessão de fotos. Compreendo, respondi. Cheguei ao MIS às 18h45, quize minutos antes. Já estava lotado! Mais de 200 pessoas aguardavam a chegada da atriz. Procurei no meio do povo por Maria Vianna. Nada! As 20h30, o público começou a ir embora. Desespero. Perguntas: E o livro? Confesso: Não foi fácil explicar que os livros não estavam com o editor e sim no porta-malas do carro da Atriz. Maria Vianna chegou ao MIS por volta das 21h10, quase no horário marcado para o encerramento do lançamento. “Deus do céu, o que aconteceu?” Ela - na maior calma do mundo – explicou-me: “Já estava no taxi quando lembrei que havia esquecido os livros no porta-malas do carro. Voltei, então, para buscá-los”. Maria Viana faleceu em 1984, aos 37 anos de idade. Sua morte até hoje é um mistério. Amigos da atriz desmentem a sua morte e afirmam que Maria Vianna vive “reclusa” em Nova York, nos Estados Unidos. Pesquisando na Internet: Que ela se casou com o diretor e autor argentino Yago Blass (1908 – 1979), perambulou alguns anos pela África e, depois, mudou-se, em definitivo, para Nova York. Dizem ainda que teve uma filha, de nome Amanda. E nada mais. Sumiu. Mistério total. Nunca mais soube de Maria Vianna, a Greta Garbo de Santa Quitéria. Nosso último encontro deu-se na virada do ano novo de 1982. Foi assim: Sentamo-nos no meio fio da calçada defronte da sua casa e lá, sozinhos, na vertical dos descaminhos, bebemos champagne e poesia.

João Scortecci

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A BOLA DE ESCREVER DO DINAMARQUÊS MALLING-HANSEN

Coleciono máquinas de escrever! Em especial máquinas antigas, do tempo do onça. Importante saber de cada uma delas: origem, de onde veio, por onde andou, seu dono, seus segredos. Um detalhe significativo: precisa ter estojo. Antes de guardá-las no memorial, limpo, lubrifico, troco a fita, faço manutenção completa. Escutar a batida das teclas no papel é algo incrível. Batida inconfundível, imortal. Uma deixa: impressão funcional, basta teclar. É o dito pelo não dito! As teclas aceitam de tudo: amor, paixão, raiva, delicadeza, soberba, sonhos e até segredos. Depois: o que nos resta fazer? Continuar – só porque começamos – ou, desavisados, amassar a folha de papel e jogá-la no lixo. A minha primeira máquina de escrever foi uma portátil Hermes Baby, vermelha, novinha em folha. Tive outras marcas: Remington, Olivetti, IBM, Facit e Olympia. Hoje, guardo no memorial uma Olivetti – que tem história – uma Hermes Baby e duas Remington, modelos diferentes. O dinamarquês Malling-Hansen (Hans Rasmus Johan Malling-Hansen, 1835 – 1890), diretor do instituto dinamarquês para surdos e mudos na cidade de Copenhague, é famoso por inventar a primeira máquina de escrever produzida comercialmente: a incrível Bola de Escrita Hansen (“Hansen Writing Ball”). A máquina foi inventada em 1865, patenteada e colocada em produção em 1870. Dizem – não há registros oficiais – que dela foram fabricadas 180 unidades. Por sua invenção, Malling-Hansen recebeu vários prêmios. A máquina Hansen, desde sua invenção, já apresentava todos os refinamentos das máquinas de escrever dos anos 1940-50. São eles: barra de espaço, retorno automático de carro, espaçamento entre linhas, índice para parágrafos ou linhas recuadas, campainha para sinalizar o fim da linha, reversão de fita e – por último, mas não menos importante – escrita visível ao elevar o mecanismo de digitação. O dinamarquês Malling-Hansen foi também o primeiro a descobrir as possibilidades únicas do papel carbono azul e desenvolveu uma técnica de cópia que chamou de “xerografia”, técnica de impressão que permitia produzir – em um período curto –, até cem cópias de cartas, desenhos e documentos. Em 1938, coube a Chester Carlson (Chester Floyd Carlson, 1906 – 1968), desenvolver a tecnologia da xerografia, hoje usada nas copiadoras e impressoras a laser. É quando, então, a bola gira, punge o papel, imprime no tempo suas histórias de vida.

João Scortecci

 

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O RIO JAGUARIBE NO CEARÁ E O LOBO AMARELO

O Açude Padre Cícero, conhecido como Castanhão, foi construído no ano de 1995, no leito do Rio Jaguaribe, no Ceará. O Rio Jaguaribe é considerado o maior rio seco do mundo! Parte do ano permanece “seco” ou com pouquíssima água. Na época das chuvas ganha água de pequenos afluentes e desemboca no oceano atlântico, perto da cidade de Aracati, distante 150 km da Capital, Fortaleza. O Rio Jaguaribe tem extensão de 633 km e uma foz com mais 900 metros de largura. Quando lobinho da matilha Amarela, isso na infância dos anos 1960, acampamos nas areias do seu leito. Uma aventura inesquecível! A noite, na roda da fogueira, alguém nos contou um segredo: O Rio Jaguaribe é místico e sensível. Ganha - misteriosamente - águas do nada, no silêncio da noite. Lágrimas de dor do povo sofrido e renitente do Ceará. É o que dizem. E, silenciosamente, do nada, banha de luz e esperança os corações da terra. Na primeira noite acampados no leito seco do rio foi difícil dormir. Ouvidos atentos, coração alerta, sangue picado de medo. Tive pesadelos e visões estranhas. Eu - ilhado na boca do céu - nadando perdido sem rumo, sem direção. Tinha 8 anos de idade. Anos depois, lendo sobre o açude do “Padim”, dei de cara com os segredos místicos dos aquíferos do Rio Jaguaribe, rochas porosas e permeáveis, capazes de reter e armazenar água subterrânea. Foi quando, então, deixei-me, voltar no tempo distante. Eu lobinho, da matilha Amarela, abduzido nas águas doces e mágicas do Rio Jaguaribe. Paz, muita paz. No corpo, nos subterrâneos da carne, o infinito. Lobo na selva, ventoso, alargado e mágico, nas areias nuas do Rio Jaguaribe. Eu, menino dos aquíferos, feroz, na roda da fogueira, na distante noite da imortalidade. Padim: é você? Quis saber. Alguém sorriu e murmurou no tempo: “Assim é a vida: incerta e perigosa!” 

João Scortecci

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O MENINO JOÃO RICARDO E MAMÃE NILCE

Nome do meio – dizia minha mãe – só existe para levar bronca! Eu tenho, depois do João, um “Ricardo”. Quando a minha mãe Nilce morreu - parte do menino dos anos 1960 – foi esquecido, saiu de circulação. Desisti dele. Tornei-me, então, João Scortecci. Vez por outra alguém desavisado – quase sempre do telemarketing - me lembra de mim mesmo. Acontece. Di Ser Piero é nome do meio do polímata - indivíduo que estuda ou que conhece muitas ciências – o italiano Leonardo da Vinci (1452 – 1519), figura importante do Renascimento. Da Vinci destacou-se como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, músico e poeta. É conhecido como o precursor da aviação e da balística, descrito como o arquétipo - conceito que representa o primeiro modelo de algo - do homem Vitruviano, desenho que representa as proporções ideais do corpo humano, de acordo com o conceito do arquiteto romano Vitrúvio (Marcos Vitrúvio Polião), que viveu no século I a.C e deixou como legado a obra De Architectura. Da Vinci pintou Mona Lisa, A Última Ceia, concebeu ideias muito à frente de seu tempo, como um protótipo de um helicóptero, um tanque de guerra, o uso da energia solar, uma calculadora, o casco duplo nas embarcações e muito mais. Hoje quando alguém me chama de “João Ricardo” lembro - de pronto - dos puxões de orelha, dos castigos, da cinta comendo no couro, do menino danado que fui. Confesso: castigos merecidos! Quando conseguia escapas fugia ligeiro e trepar no alto do pé da goiabeira do quintal da casa da minha avó Sarah. "Desce daí!" Descia da goiabeira somente quando mamãe Nilce esfriava o sangue e jurava não me castigar. "Você jura?" Juro, respondia. E a Senhora promete que não vai me bater? "Prometo!" Mamãe Nilce dizia sempre: Nome do meio existe apenas para levar bronca! Quando ela gritava raivosa: "João Ricardo!" eu fugia do mundo. Trepava na goiabeira e lá ficava até o mundo esfriar a cabeça. Nasci um menino vitruviano, no Ceará, na metade do século passado, que não gosta de goiaba e odeia ser chamado de João Ricardo. 

João Scortecci


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NADICA DE NADA

Gosto de rádios. Para quem não sabe: sou um colecionador compulsivo! Ultimamente continuo apaixonado por radinhos com baterias recarregáveis, da marca Sansui. Tenho quatro deles – modelos diferentes, claro – e ainda aguardando a chegada de mais um. Listando as emissoras dos ouvidos: CBN, BandNews e Transamérica, hoje TCN. Hoje dia do voto. Lá fora chove desbragadamente. Pergunta: a chuva vai atrapalhar as eleições? Confesso: não sei! Não dormi direito. Dudu – meu cachorro com alma de caramelo – acordou-me chorando na porta do quarto, tremendo de medo da chuva. O jeito foi levá-lo para a poltrona da sala e acomodá-lo no colo. Faz parte! Liguei o radinho, o F-22, um dos meus preferidos, bem na hora que o escritor e são-carlense Deonísio da Silva, explicava a origem e o significado da palavra democracia. Interessante. Parte boa – melhor ainda – foi escutá-lo sobre o significado de “ostracismo”, ato de excluir, banir ou isolar um indivíduo de um grupo, comunidade ou atividade política. O que eu – penso que – entendi: evitar o surgimento de tiranos e conter figuras políticas cujo poder ou ambição “podem” ameaçar a liberdade pública ou a ordem democrática. Anotei. Mudei de estação. O Sansui modelo F-22 tem visor iluminado. Fácil trocar de estação. Não precisa acender a luz do quarto ou da sala. Simplicidade tecnológica, algo assim. Madrugada de sorte a minha: dei de ouvidos com o Pasquale, falando sobre uma expressão que até então não conhecia. “neca de pitibiriba”, que significa absolutamente nada, “nadica de nada” ou a ausência total de alguma coisa. “Neca” é nada. “Pitibiriba” é um termo lúdico, uma invenção popular de som rimado e jocoso para dar ênfase à palavra “neca”. A chuva – lá fora – aumentou. Dudu – aquele com alma de caramelo – continua agitado, de ouvidos na sorte. Fazer o quê? Resta esperar! Tempo para acomodá-lo carinhosamente no colo, cobri-lo com uma manta de lã, continuar na madrugada, pitibirando silêncios e vazios, no nadica do nada, na imensidão da sorte. Esperança? Talvez.

João Scortecci

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DOENÇA DE UMA SOCIEDADE DOENTE

Quem me apresentou ao filósofo e escritor indiano Jiddu Krishnamurti (1895 – 1986) foi o escritor inglês, Aldous Huxley, autor do livro “Admirável Mundo Novo”, romance distópico que marcou de sonhos a minha juventude. Li e reli a obra uma dezena de vezes. Talvez até mais! “Admirável Mundo Novo” foi livro de cabeceira durante anos, até o dia que sumiu. Escafedeu-se! Desconfio que tenha sido roubado. Até outro dia, desconhecia que havia sido Aldous Huxley o prefaciador da obra “A Primeira e Última Liberdade (1954)” do indiano Jiddu. Intimidade? Talvez. Jiddu – homenagem a Sri Krishna, uma das divindades mais importantes e veneradas do hinduísmo – é nome fácil de guardar na cabeça, apenas isso. Comprei o livro do filósofo Jiddu pelo correio. Entrega rápida! Deve chegar logo, creio. Uma frase filosófica do poeta Jiddu: “Não é sinal de boa saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”. Anotei. A expressão “sociedade doente” é o pesadelo do momento, descreve o estado atual de desgaste mental, emocional e social da humanidade. Ninguém mais se entende! Lendo sobre Jiddu na Internet: “A sociedade é uma abstração. Abstração não é realidade. Realidade é relação. A relação entre seres humanos criou o que chamamos de sociedade”. Que engodo! Interessante. Pretendo escrever sobre “A doença de uma sociedade doente”. Talvez um novo livro de poesias, algo assim. O livro “A Primeira e Última Liberdade”, do poeta Jiddu, ainda não chegou. Que demora! Passei na portaria do prédio e perguntei para o zelador: “Chegou alguma coisa pra mim?”. Não! Eu já sabia. Subi de volta para o 4º andar – onde moro – pela escadaria do prédio. Jiddu – ele mesmo – me aguardava parado na porta do elevador de serviço. Perguntou-me: “João, você já olhou para uma árvore sem uma única palavra de gosto ou desgosto, sem uma única imagem?”. Talvez, respondi. Jiddu sorriu. Disse-me: “Quando o livro chegar, comece lendo sobre o “Esvaziamento da consciência””. Anotei. Jiddu, então, entrou no elevador e escafedeu-se. Estranho! Notei que carregava consigo um exemplar do livro “Admirável Mundo Novo”, do Aldous Huxley. “Ladrão!”, gritei. Desci aos pulos pela escadaria do prédio. Não o encontrei mais. Filósofo safado! Protestei. “Sr. João, chegou a sua encomenda!”. Era o zelador do prédio, feliz e prestativo. Entregou-me o pacote e, junto, um bilhete, sem assinatura e data. Provavelmente do filósofo Jiddu, o ladrão! Estava escrito no bilhete: “Todo o seu conteúdo é ter total movimento de percepção e ação!”. Guardei o bilhete e abri a encomenda: um exemplar do livro “A Primeira e Última Liberdade, de Krishnamurti.” Estranho: tinha na página da folha de rosto uma dedicatória. “Para o impaciente e querido João Scortecci, do Jiddu.”. Saúde é estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente, algo assim.

João Scortecci

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ZIRALDO É FLICTS E MENINO MALUQUINHO DA CABEÇA

Era o ano de 1984 – Já editor de livros - quando meu irmão José Henrique, arquiteto, presenteou-me com um exemplar do livro “Flicts”, do escritor e cartunista mineiro Ziraldo (Ziraldo Alves Pinto, 1932 - 2024). Livro belíssimo! O guardo até hoje. A obra, capa dura, um relançamento pela Melhoramentos, do ano 1969.  “Flicts” foi o primeiro livro infantil de Ziraldo, autor da série histórica do “O Menino Maluquinho”, um dos maiores fenômenos da literatura infantil brasileira. Conheci Ziraldo na Bienal do Livro de São Paulo, no ano de 1994, quando o evento ainda era realizado no Pavilhão do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. “Flicts” - representado por um tom terroso de bege - é uma cor “diferente”, que não consegue se encaixar no arco-íris, nas bandeiras e em lugar nenhum, e cujo merecido valor ninguém reconhece, a princípio. Desgostoso deste mundo injusto e cruel, Flicts - que “não tinha a força do Vermelho, não tinha a imensidão do Amarelo e nem a paz que tem o Azul” – resolve, então, mudar-se para a Lua. Lá chegando percebe que ela, "de perto, de pertinho, é flicts". No endereço do instituto Ziraldo uma nota sobre Flicts: “Tudo tem cor. O mundo é feito de cores, mas nenhuma é Flicts. Uma cor rara, frágil, triste, que procurou em vão um amigo entre outras cores… Não encontrou um lugar para ficar. Abandonada, Flicts olhou para longe, para o alto, e sumiu, para finalmente se encontrar.” O menino maluquinho, não está mais entre nós, faleceu em 6 de abril de 2024, aos 91 anos de idade. Hoje, Ziraldo, vive no mundo da lua, pertinho e na distância dos nossos sonhos de criança. Quando tudo no universo parece escuro, perdido e incerto, eu olho pra lua e clamo por Flicts: a esperança das cores de tudo. 

João Scortecci
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ACONTECEU MAIS OU MENOS ASSIM

Aconteceu mais ou menos assim. Só tive um patrão na vida. De 1977 até 1982, quando, então, abri a Scortecci Editora. Um dia, do nada, o meu patrão me chamou na sua sala e comeu-me o fígado. Juro: não me deixou nem respirar! Fui devorado vivo! Saí da sala da diretoria sem saber o motivo da bronca. Perguntei-lhe: “Patrão o que eu fiz?”. Ele não me respondeu. Antes de deixar a sala – assustado e tonto, com nó nas tripas – pude observar num calendário gigante que ficava atrás da sua mesa o meu nome “João” escrito com caneta piloto vermelha, na data do dia. Ferrei-me! Fui marcado e não sei o motivo. Meses depois – já tinha até esquecido da bronca – cometi, então, um erro grave no serviço. Uma cagada das grandes! Fui chamado novamente à sua sala, esperando pela demissão. Entrei, sentei e olhei o calendário. O meu nome estava lá, na data do dia, desta vez escrito com caneta piloto na cor azul. Meu patrão olhou-me nos olhos e – docemente – começou do nada a me elogiar. Endoidou, pensei. Falou das minhas qualidades, da minha inteligência e da eficiência no trabalho e do quanto eu era querido e importante por todos. Listou virtudes e predicados, que, até então, eu não sabia. Tudo isso? Prometeu-me, ainda, um aumento de salário e uma promoção. Pensei: o cara está “maluco de pedra” ou está de “sacanagem” comigo. Deixei a sala em silêncio, assustado e confuso da cabeça. No dia seguinte – fervendo por dentro – procurei-o. Estava decidido: isso não vai ficar assim! “Patrão, tenho perguntas. E muitas! Quero saber sobre o calendário com o meu nome na parede. E mais, uma explicação: um dia você me come o fígado, injustamente, sem motivo e no outro – depois de uma tremenda cagada que fiz – você me elogia e me promove na empresa. Exijo uma explicação!”. Bati forte. Ele me olhou, sorriu, virou-se para o calendário da parede e respondeu na maior calma do mundo: “A primeira bronca já estava programada: você merecendo ou não. Nada pessoal. Isso explica o seu nome escrito no calendário na cor vermelha. Quanto à promoção e os elogios também já estavam programados. Isso explica o seu nome no calendário na cor azul”. E tudo ficou por isso mesmo. Quando pedi as contas e deixei a empresa em março de 1982 para, então, montar a Scortecci Editora, ele me disse carinhosamente: “Não dando certo o seu novo empreendimento você pode voltar, o seu lugar vai estar aqui, reservado”. Anotei. E tudo ficou por isso mesmo.

João Scortecci

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PAPAI SABE TUDO E O DR. GOOGLE

Sou doido, mas não sou louco! No máximo, um ogro enlouquecido, perdido, talvez. Pesquisa feita pelo Instituto Britânico Birmingham Science City: “Crianças preferem o Dr. Google aos pais para tirar dúvidas!” Até aí, nenhuma surpresa. Eu já desconfiava! O Dr. Google substituiu com propriedades as enciclopédias: Barsa, Britânica e Outras. O que assusta na pesquisa do Instituto Britânico é que 34% das crianças do mundo não acreditam que seus pais sejam capazes de ajudá-las a fazer o dever de casa e 14% não acham seus pais inteligentes. Confesso, sem remorso: não fui capaz de ajudar – suficientemente – meus filhos quando crianças com a lição de casa. Motivo maior: impaciência masculina! Ocupei-me - deveras – com contação de histórias e causos “mirabolantes” que escutei na infância do meu pai Luiz Gonzaga e do meu avô João Batista, o Batista da Light. Eram imperdíveis! Tentei fazer igual até o dia que minha filha Patrícia – esperta que só ela – disse-me: “Pai, você está inventando!”. Então, desisti, de vez. Hoje, tento fazer o mesmo – contar histórias – para os meus netos, sem sucesso. Digo sempre: sou doido, mas não sou louco! Perco de goleada para o Discovery e a IA. Nas festinhas de família canto parabéns, tiro fotos com o celular e devoro brigadeiros de chocolate. E nada mais! De volta à pesquisa: Fiquei cabreiro – mesmo – com o tal dos 14% que não acham seus pais inteligentes. Não ouso perguntar-lhes. Já disse: sou doido, mas não sou louco! Aqui cabe o que mamãe Nilce dizia sempre: “Santo de casa não faz milagre!”. E pensar que a pesquisa do Instituto Britânico Birmingham Science City é do ano de 2012. Doideira, né? Procurei na IA uma atualização da tal pesquisa. Encontrei uma do ano de 2023: “Um estudo do instituto britânico Birmingham Science City revelou que 54% das crianças de 6 a 15 anos preferem usar o Dr. Google para tirar dúvidas em vez de perguntar algo aos pais. Apenas 26% recorrem aos pais em primeiro lugar, enquanto só 3% buscam os professores.”. Sobre a foto do post: “Papai Sabe Tudo” (Father Knows Best), foi um seriado de televisão estadunidense de muito sucesso nos anos 1950. No Brasil, foi transmitido na década de 1960, pela TV Tupi, estrelada pelo ator Robert Young, no papel de Jim Anderson, um pai simpático e sabichão de uma família “feliz”. Conclusão: não somos infelizes, creio. Fica o dito pelo não dito: “Santo de Casa não faz milagre”. Segundo a IA a expressão vem dos Evangelhos de Marcos 6:4 e Lucas 4:24, quando Jesus retorna a Nazaré e é rejeitado por conterrâneos que o viam apenas como “o filho do carpinteiro”.

João Scortecci

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MATA HARI, A ESPIÃ DUPLA H-21

No olho do dia! E na ordem do sol. Mata Hari: uma mulher da vida? Sim, mas traidora, jamais! Foi assim que fiquei conhecendo a história da espiã e dançarina Mata Hari. Na minha infância – lá no Ceará dos anos 1960 – era uma marca de cigarro barato, sem filtro, vendido a granel. Fumávamos no paredão do Colégio Cearense ou na Praça da Igreja do Coração de Jesus. Mata Hari estourava os pulmões! Lá, no breu do paredão, namorávamos as moças e os amores sem nome. A Mata Hari – original – símbolo da ousadia feminina, chamava-se Margaretha Gertruida Zelle (1876 – 1917), uma dançarina exótica, dos Países Baixos, que, durante a Primeira Guerra Mundial, foi acusada de espionagem e condenada à morte por fuzilamento. Sua biografia é misteriosa, cheia de tramas, mistérios, amores e aventuras sexuais. Aos 16 anos de idade, foi expulsa da escola, depois de ter sido acusada de seduzir e se envolver com um diretor do estabelecimento. Em 1895, com 19 anos de idade, casou-se com o capitão Rudolf MacLeod (1856 – 1928), vinte anos mais velho que ela. O casal, durante alguns anos, morou na ilha de Java, principal ilha da Indonésia, para onde MacLeod, militar que era, havia sido enviado, e lá tiveram dois filhos. Foi em Java que Margaretha aprendeu danças folclóricas balinesas e técnicas sexuais orientais, que lhe proporcionaram – anos mais tarde – fama como cortesã de luxo. Em 1902, de volta à Europa, o casal se separou, e Margaretha foi acusada pelo marido de ter levado uma vida libertina na ilha. Em Paris, a partir de 1905, ela estreou na noite, com shows de dança e striptease. Mata Hari usava véus translúcidos e, com sua dança exótica, mexia com a imaginação dos homens. Teve romances secretos com oficiais militares, políticos e empresários da época. Em 1914 – durante sua turnê em Berlim – eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Ela era, na época, amante de Eugen Kraemer (Ernest Eugene Kramer, 1889 – 1958), chefe da Inteligência alemã, que a recrutou como espiã, tornando-se a agente H-21, na Europa. De volta a Paris, conheceu o capitão Georges Ladoux, oficial da contraespionagem francesa, tornando-se agente dupla, passando a vender informações secretas para os dois lados da guerra. Em 13 de fevereiro de 1917, foi presa pelas autoridades francesas, em seu quarto no hotel Elysèe Palace, em Paris. Antes de ser levada presa, pediu que lhe dessem tempo para tomar banho e mudar de roupa. Depois de alguns minutos, saiu do quarto, nua e, oferecendo chocolates a seus captores em um capacete prussiano. O estratagema de tentar escapar, não funcionou. Foi acusada de espionagem, de ser uma agente dupla e de ter sido a causa da morte de milhares de soldados. Foi executada por um pelotão de fuzilamento, em 15 de outubro de 1917, aos 41 anos de idade. A lenda sustenta que o esquadrão de fuzilamento teve de usar vendas nos olhos para evitar que os soldados sucumbissem ao seu charme. No entanto, os fatos comprovados são que ela se recusou a ter os olhos enfaixados e, antes de ser alvejada, lançou um beijo de despedida aos 12 soldados da guarda. Apenas quatro tiros a atingiram: dois em suas pernas e dois em seu peito, um deles atingindo o coração, causando sua morte instantânea. Seu corpo foi dissecado e usado para as aulas de anatomia – prática comum com os executados na época. Sua cabeça foi embalsamada e permaneceu no Museu de Criminosos da França até 1958, ano em que misteriosamente desapareceu. Historiadores afirmam que sua cabeça pode ter sido roubada por algum admirador ou colecionador, sem nunca ter sido recuperada. Dizem que, vez por outra, Mata Hari aparece completamente nua, nos stripteases das noites parisienses, no corpo sensual de uma dançarina balinesa, alvejando de beijos os homens da noite. O olhar de Mata Hari até hoje continua mortal!

João Scortecci
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"GATINHA" E O POETA EDGARD ALLAN POE

Todo gato doméstico tem um nome. A minha doce e sensível gata – uma ex-moradora de rua – chamava-se simplesmente “Gatinha”. Acho que gostava do nome: nunca reclamou! Era mãe do Preto Garbo, um gato grande, branco e preto, que quando saía para namorar voltava todo arrebentado. Um dia não voltou. Gatinha ficou. Foi colaboradora da editora durante muitos anos. Era manhosa e esperta. Independente: assim são os felinos! Existem cerca de 250 raças de gato-doméstico. São predadores de diversos animais, como roedores, pássaros, lagartixas e insetos. Vez por outra, Gatinha trazia de presente um pássaro morto ou uma lagartixa. Jogava a caça em cima da minha mesa de trabalho e cobrava carinho e atenção. Gatinha não aceitava desaforos. Quando ignorada, subia na minha mesa de trabalho e com a ponta do rabo jogava a papelada no chão. Segundo pesquisas, os gatos são o segundo animal de estimação mais popular do mundo, depois – numericamente – dos peixes de aquário. Isso eu não sabia. Sempre pensei que fossem os cachorros. A chegada de um filhote de rato na editora, batizado de Edgar Allan Poe, mudou tudo. O sossego acabou. Gatinha perseguiu o camundongo e o pegou enfiado no ralo do banheiro. Levou-o até a minha sala e o soltou encurralado num canto. Gatinha parecia feliz, realizada. Olhou-me e sorriu. Sorriso maroto, inesquecível. Gatinha cheirou Poe, sentou-se, cruzou as patas da frente e enamorou-se pelo poeta e seus encantos. A editora inteira olhando, admirando a trama poética. Poe balançou a cabeça, para cima e para baixo, para os lados e, docemente, aninhou-se de amor nas patas da Gatinha. Desarmei a ratoeira – a pedido da Gatinha – e montei na lavanderia dos fundos um quarto de dormir para o casal. Poe, depois de alguns meses, gordo e feliz, sumiu. Penso ter visto numa noite escura e sombria, enquanto eu escrevia, um corvo no muro do quintal. Desconfio que Edgar Allan Poe foi levado deste mundo. Gatinha – entristecida – nunca mais foi a mesma. Viveu, ainda, mais alguns meses. Morreu velhinha e letrada. Só isso e nada mais!

João Scortecci 

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DENÉBOLA E O CÉU DE LEÃO

Quando criança – de cabeça que voa –, acreditava em tudo! Nasci sob o signo de Leão, uma quinta-feira, às 4h30 da manhã. Lembro-me do dia em que avistei, pela primeira vez, a estrela Denébola. Céu limpo, sonhos de menino e imensidão. Perguntei: “É aquela ali?”. Mamãe Nilce respondeu, balançando a cabeça: “Aquela com rabo de felino!”. Protestei: “Não vejo nada!” Mamãe Nilce, então, pacientemente, provocou-me: “João, imagina primeiro o leão, depois, o rabo da fera iluminando o universo!”. Foi o que fiz. Um leão de luz, imenso, apareceu do nada, no meu céu. “Estou vendo!” – gritei – “É Denébola!” Longe, radiante, eterna, distância 35,9 a 36 anos-luz da terra. Mamãe Nilce, explicou: “Está vendo aquela outra estrela de brilho maior, ao lado?”. “Estou”, respondi. “Aquela é Regulus, uma estrela Alfa! É o coração do leão. Estrela gigante, poderosa, de cor azulada, que bate velozmente.” Sentamo-nos, então, corpo e alma, nas areias úmidas do mar do Ceará. Mãe e filho: plenos, sem pressa. Explicou-me, o que sabia: “São quatro estrelas irmãs. Formam os dentes do Leão!”. Não duvidei. Mamãe Nilce parecia feliz. Lá ficamos: imortais em tudo! Depois do clarão da noite – olhos miúdos – foi difícil dormir! Cabeça que voa. Sonhei que estava na boca de um buraco negro, no dorso de um leão, viajando leve, incerto, sem direção. Sinto saudade de Denébola, de Regulus, dos dentes de leão. Aqui onde moro – cidade grande, cosmopolita – o céu é um engodo, uma cegueira dos infernos. Pergunto-me: “Denébola: cadê você?”. Silêncio. Morremos, então. Eu e mamãe Nilce. Quando criança, acreditávamos em tudo!

João Scortecci




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FREI AMBRÓSIO E O BEIJO PROIBIDO NO MORRO DO PECADO

No ano de 1957, o céu de Fortaleza foi coberto por uma imensa nuvem de poeira. A Igreja do Sagrado Coração de Jesus, conhecida como Igreja dos Albanos, construída no Morro do Pecado, em 1848, pelo casal José Francisco da Silva Albano (o Barão de Aratanha) e Liberalina Angélica da Silva Albano, desabou. No local, antigamente, existia uma capela, dedicada a Nossa Senhora das Dores, que ficava defronte da Lagoa do Garrote, atual Cidade da Criança. A tragédia: No início da década de 1950, para poder abrigar um carrilhão de sinos e um relógio, foi construída uma nova torre, usando como base as fundações da antiga igreja. No dia 15 de março de 1957, uma sexta-feira, exatamente às 13 horas, a torre veio abaixo. “Parecia o fim do mundo!” Foi o que mamãe Nilce nos contou. Eu tinha na época sete meses de idade, e meus irmãos Luiz e José, 5 e 4 anos, respectivamente. Morávamos na Avenida D. Manuel, quase esquina com a Avenida Heráclito Graça, a três quarteirões de distância da igreja. Depois do susto e de ver a poeira cobrir o céu, mamãe Nilce, desesperada, começou a gritar para o meu Pai: “Luiz, pega o jipe e vai salvar as crianças!”. Na hora do desabamento da igreja, meus irmãos Luiz e José, estavam na escola infantil, localizada na Rua Solon Pinheiro, quase esquina com a Rua Pedro I, ruas do entorno da igreja. Felizmente, nada de grave aconteceu com eles, que chegaram em casa eufóricos e cobertos de pó. Frei Ambrósio (Manoel Andrade Soares, 1909 – 1991), da Igreja Sagrado Coração de Jesus, foi quem encabeçou o projeto de reconstrução da igreja, mobilizando empresários e políticos da cidade. Conheci-o no final dos anos 1960, no Cine Pulguinha, trabalho social, que funcionava na casa paroquial em frente à Igreja, ao lado do Colégio Cearense, dos Irmãos Maristas. Duas cenas inesquecíveis, que até hoje povoam minhas lembranças de infância: O Cine Pulguinha, sempre lotado de crianças e infestado de pulgas e, durante os filmes de amor, na hora do “beijo”, quando o operador a mando do Frei Ambrósio cobria com a mão a projeção do filme. Vaias! Gritos! “Mostra! Mostra, tira a mão!”. Em 1958, a familia mudou-se para Dois Córregos, interior de São Paulo, morar na Fazenda Nilcevia, de propriedade dos meus avós maternos, José Scortecci e Maria Aparecida. Minha irmã caçula, Ana, nasceu na fazenda. Retornamos para Fortaleza no ano de 1961, alguns meses antes da reinaugurada da igreja, em 26 de novembro de 1961. Eu tinha 5 anos de idade. Fomos na reinauguração na companhia dos meus pais e avós paternos. Inesquecível! Meus melhores pecados são daquela época, nas quermesses do Frei Ambrósio, quando comíamos milho assado, fumávamos escondido cigarros sem filtro, frequentávamos o Cine Pulguinha, namorávamos no escuro do trem fantasma e, do alto da roda gigante, cuspíamos na cabeça do povo afoito do Morro do Pecado. 

João Scortecci


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CLARICE LISPECTOR, CHATÔ E O ATENTADO CONTRA A REVISTA PAN

O empresário Assis Chateaubriand foi uma das figuras mais controversas da nossa história — temido, acusado de chantagem e focado em construir seu império a qualquer custo. Entre as tantas vidas impactadas por seus métodos, está a do meu avô materno, José Scortecci, editor da Revista PAN. Lançada na década de 1930, a PAN era um semanário de cultura mundial de vanguarda. Ela trazia análises da Segunda Guerra Mundial e abria espaço para novos talentos, incluindo Clarice Lispector, que estreou na literatura em suas páginas com o conto Triunfo, em maio de 1940. O sucesso da revista incomodou profundamente Chatô, o "Cidadão Kane brasileiro". Em 24 de setembro de 1936, a mando de Chateaubriand, as oficinas da gráfica que imprimia a PAN sofreram um incêndio criminoso que destruiu seu maquinário moderno. Como era comum na época, o poder de Chatô abafou o caso. Mesmo assim, a PAN resistiu e circulou até 1945. Hoje, a coleção completa dessa joia da nossa imprensa — que adquiri de um colecionador — está preservada no memorial da Scortecci Editora.

João Scortecci

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Futebol e Literatura: O impacto de Scarpa, Abel e Roger Machado no incentivo à leitura!

O jogador de futebol Gustavo Scarpa tornou-se um dos principais nomes do momento quando o assunto é o incentivo à leitura. Sua atuação traz esperança em um cenário desafiador para o mercado editorial, atualmente pressionado pelas práticas de descontos agressivos da gigante Amazon, que dificultam a sobrevivência das livrarias. Em meio a esse impasse econômico, onde o consumidor naturalmente prioriza o menor preço, Scarpa encontrou um caminho para aproximar as pessoas dos livros. Hoje no Atlético Mineiro, o atleta compartilha em suas redes sociais reflexões e dicas de obras que discutem vida, morte, preconceito e comportamento humano. Junto com a torcida do "Galo", ele idealizou o projeto Galeitura, um movimento que rapidamente ganhou milhares de apoiadores focados em estimular o hábito de ler. Exemplos não faltam. Roger Machado, o treinador é o mecenas do Projeto Canela Preta, criado em 2020, durante sua passagem pelo time do Bahia. Em parceria com a Hucitec Editora financia a publicação de 50 livros de autores negros e indígenas, abordando racismo, poesia e cultura afro-brasileira. Abel Ferreira, técnico de futebol do Palmeiras, autores de livros sobre futebol, é um grande incentivador da leitura e embaixador da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC), que democratiza o acesso aos livros em periferias e comunidades vulneráveis. O reflexo disso aparece no próprio Palmeiras que, em 2026, inaugurou espaços de leitura em sua Academia de Futebol para as categorias de base, limitando o uso de celulares. Iniciativas corporativas também somam forças a esse movimento. O projeto Livros para Todos, do Grupo Editorial Scortecci — em parceria com a Abigraf e a IBÁ —, atua na criação e expansão de bibliotecas públicas e comunitárias. O grupo também assina a campanha “CirculeUmLivro”, que fomenta a leitura e a economia circular por meio da troca de obras. Em entrevista recente, Gustavo Scarpa destacou o desejo de ver esse impacto multiplicado: "Que outros clubes de futebol façam o mesmo, seguindo os exemplos do Atlético Mineiro e do Palmeiras". Ele ainda revelou que muitos atletas têm o hábito de ler, mas não compartilham o gosto nas redes sociais por receio. Estranho. Receio significa um sentimento de medo moderado, apreensão ou incerteza em relação a um resultado, consequência ou situação futura. A famosa frase "A bola pune" é um bordão clássico eternizado pelo técnico de futebol Muricy Ramalho. "A burrice pune!" O ditado resume a ideia de que o futebol não perdoa quem perde muitas chances ou vacila na vida. Algo assim.

João Scortecci 


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"LACERDINHA" E OS POLÍTICOS DE ÉPOCA

No começo dos anos 1960, a “lacerdinha”, um insetozinho asiático, minúsculo, de cor negra, se tornou uma praga nacional. Uma peste! O sugestivo apelido era em referência ao jornalista, escritor, editor e político carioca Carlos Lacerda (Carlos Frederico Werneck de Lacerda, 1914 - 1977), famoso por sua radical e raivosa oposição aos presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Um pentelho! Na Fortaleza daquela época água de beber chegava às casas de carroça-pipa, puxada por jegue. O carroceiro colocava o “burro na sombra” e lá ficava no silêncio do pé de fícus-benjamim - no melhor da Avenida D. Manuel, quase esquina com a Av. Duque de Caxias. Mamãe Nilce comprava, semanalmente, três latões de água com 20 litros cada. Recomendava, sempre: “Cuidado com as lacerdinhas na água!" Os galões enchiam um imenso pote de barro, que dormia do lado de fora da casa, na porta da cozinha. Água “boa” de beber, da adutora do Acarape, só chegou à cidade no inicio dos anos 1970. A água com lacerdinha era filtrada e depois fervida. O problema não eram as lacerdinhas: “o que não mata engorda!” Ditado popular da época de criança. O problema era um gato-dourado de nome Charles Boyer (homenagem ao ator e cantor francês), de propriedade do meu irmão Luiz, que do alto do muro do vizinho, urinava dentro do pote. O pior: ninguém conseguia pegar o safado do gato. Com o tempo ficou assim: água com urina! Na biblioteca da casa, mamãe Nilce lia e acompanhava o reboliço político da época. Papai Luiz, do canto da porta, provocava: “Nilce, esse Lacerda é mesmo uma praga!”. Risos. Tudo para o meu pai Luiz era motivo de piada. Carlos Lacerda em 1968 foi cassado e preso pelo regime militar. Foi solto uma semana depois, após uma greve de fome. Lacerda nos últimos anos de vida dedicou-se ao jornalismo e a direção da editora Nova Fronteira, que fundou em 1965. Em 2006 o controle acionário da casa editorial foi adquirido pelo grupo Ediouro Publicações. Lacerda faleceu no ano de 1977, aos 63 anos de idade, vítima de um infarto cardíaco. Quanto ao gato Charles Boyer, loiro e cotó, ainda dorme majestoso nos galhos do pé de fícus, no melhor da hora, de olho na chegada da carroça-pipa, na espera do espelho de macho, no reflexo das águas do pote de barro. Reencontros de hoje: O escritor Mário Magalhães - não o conheço - escreveu "Lacerda - Coração de Tempestade" (Companhia das Letras, 2026). Comprar e ler? Hora de reencontar o gato Charles Boyer, a biblioteca de mamãe Nilce, as piadas maravilhosas de papai Luiz e até, quem sabe, reencontrar as lacerdinhas do pé de fícus-benjamim do tempo. 

João Scortecci


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MÁQUINA DE ESCREVER E A CÁPSULA DO TEMPO

Coleciono máquinas de escrever. Mais uma das minhas manias. Sou assim: vou e volto no tempo, no meu tempo. Quando da popularização dos computadores e do lançamento do Windows 98, tratei de me desfazer de todas. Sofri muito. Gostava delas. Depois de alguns anos - inesperadamente - recomecei uma nova coleção de máquinas de escrever. Sou Volúvel, mudo com facilidade de ideia, opinião, humor ou direção. Hoje tenho 4 máquinas de escrever, todas mecânicas, de marcas diferentes. Cada máquina tem a sua história. “João, você quer uma máquina de escrever?” Quero! Simples assim. Outro dia apanhei com uma delas – da marca Olivetti - para lembrar onde ficava mesmo a trava para liberar o carro. Fucei e nada. Achei a resposta num vídeo explicativo no YouTube. Acontece. Coloquei papel no carro da máquina, girei o rolo e comecei, então, a escrever uma carta, na verdade um bilhete, para colocar numa “Cápsula do tempo”, a pedido de um amigo poeta. Achei oportuno que o bilhete fosse escrito numa máquina de escrever. Limpei os tipos, lubrifiquei a máquina, troquei a fita, ajustei o espaço duplo e alinhei o papel. O som das teclas surrando o papel é algo incrível, inesquecível, que não se esquece nunca. Para quem não sabe - para dois terços da população hoje do planeta - o desenho do teclado QWERTY, desenvolvido para máquinas de escrever, continua sendo o padrão para teclados dos computadores. Um detalhe pertinente: na máquina de escrever você tecla - digita - e a engenhoca imprime na hora! Nada de perder tempo ligando a impressora, colocando papel na gaveta e tendo que digitar Ctrl P. Li o bilhete. Imbecilidades! Coloquei data e assinei o papel com caneta BIC, tinta azul. No Ceará dos anos 1960, aluno do Colégio Cearense, participei de uma “Cápsula do tempo”, que deveria ser aberta 50 anos depois. Tenho informações que foi aberta na presença de poucos. Não pude ir ao evento. Meu irmão José Henrique foi. Confesso: não me lembro o que escrevi na época. Uma poesia, talvez. Liguei para o meu amigo - um jovem e talentoso poeta - e disse-lhe: A minha “Carta do tempo” está pronta! O que faço? Ele me respondeu: “Envie pelo WhatsApp”. “Não!” Protestei. Disse-lhe “Minha carta foi maculada linha por linha numa Olivetti ano 1969”. Silêncio. Fui, então, até a sua casa, no bairro do Butantã e entreguei-lhe pessoalmente o bilhete. “E agora?” Quis saber. Ele, então, explicou-me: “Vamos abrir a cápsula do tempo daqui a 50 anos!”. “Quero ver você por lá!”. Insistiu. Fiz as contas de cabeça. Impossível. Precisaria viver - bem e lúcido - até os 120 anos. Apertei o Shift da máquina de escrever e travei o carro. A máquina foi para o estojo assim: travada! E assim vai ficar. Até quando? Não sei. Já disse: vou e volto no tempo, no meu tempo. 

João Scortecci
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QUEM ANDA BALANÇA OS BRAÇOS

Lendo sobre o assunto: “O movimento dos braços contrabalança o balanço das pernas, impedindo que o corpo gire ou perca a estabilidade a cada passo. Andar balançando os braços de forma oposta às pernas gasta aproximadamente 12% menos energia do que caminhar com os braços grudados ou parados ao corpo.” A Inteligência Artificial, então, perguntou: “Gostaria de saber mais sobre a biomecânica da caminhada?”. “Sim”, respondi. Numa feira de robótica no interior de São Paulo, isso no ano de 2015, conversando com um engenheiro robótico, ele me disse: “Os humanos, quando andam, se equilibram balançando os braços, já os robôs, não; andam com os braços colados ao corpo!”. Anotei. De lá para cá tudo mudou: os robôs hoje fazem de tudo e quando andam também balançam os braços! Na física e na biomecânica, a caminhada é descrita como um pêndulo invertido. A cada passo, o corpo se move sobre a perna de apoio, que atua como uma haste rígida. O centro de gravidade do corpo sobe e desce em uma trajetória ondulatória. Essa mecânica permite uma troca contínua entre energia cinética (movimento) e energia potencial gravitacional (altura). Graças a esse design biológico, a caminhada humana é um dos métodos de locomoção mais eficientes da natureza, reaproveitando grande parte da energia gasta a cada passo. Na Netflix, num filme B, confuso, ruim de tudo, sobre Inteligência Artificial, a história – sem pé e sem cabeça – se passa no ano de 2063, quando robôs rebeldes dominaram o mundo e destroem Los Angeles, matando milhões de pessoas. Na trama, os humanos andavam balançando os braços economizando 12% de energia e os robôs, não; andavam com os braços colados ao corpo. No final do filme, os robôs eram os mocinhos – reviravolta completa – e só queriam viver em paz. Os humanos eram os verdadeiros bandidos. Acontece. Hoje vou caminhar no Parque das Perdizes – visitar a minha neta – e depois comer pastel de alho-poró e beber água de coco. Pretendo dar voltas no parque com os braços colados ao corpo e ver o que acontece. Aviso dado. Desconfio que me tornei um robô, um humanoide do pêndulo invertido, em um futuro não muito distante, algo assim.

João Scortecci


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QUIS CUSTODIET IPSOS CUSTODES?

Nos anos 2000, logo após a virada do século, decidi contratar na editora um motorista CLT, para dirigir uma Strada da Fiat, com caçamba. Precisava! Sigo - até hoje - o conceito básico da prudência: “só comprar algo quando necessário!”. Fora isso: não! Sempre investi e acreditei na terceirização e na colaboração mutua entre empresas e profissionais do setor. Na época não existiam ainda Uber, 99, Lalamove e serviços autônomos de entregas, que hoje facilitam e muito o dia a dia de uma empresa. Na cabeça uma única certeza: não queria contratar um “motoqueiro”, ciente da responsabilidade e das consequências trabalhistas em caso de um acidente com o trabalhador. Optei, então, por contratar um motorista CLT. Perfil: Não tão jovem, com experiente no volante e que pudesse carregar pacotes e caixas de livros. Demorou, mas encontrei. Na entrevista ele me disse: Quero ter autonomia plena! Confesso: pegou-me de surpresa. Abri, então, o dicionário que, durante muitos anos, ficou na minha mesa de trabalho: “Autonomia é a capacidade de um indivíduo, grupo ou instituição de se autogovernar, tomar decisões por vontade própria e agir de maneira consciente e responsável, sem depender de imposições ou controle externo.”. Perguntei-lhe, então, já disposto a contratá-lo. Autonomia plena? Ele, então, justificou-se: “Quero ter total autonomia no serviço. Não quero ninguém pegando no meu pé, não quero usar uniforme, não quero ajudante e não quero bater cartão de ponto!”. Só isso? Perguntei-lhe. Sim, respondeu, balançando a cabeça. Começou a trabalhar no dia seguinte, uma quarta-feira. Entreguei-lhe as chaves e o carro, com tanque cheio e limpo. Ele abriu o capô do carro e examinou o motor: água, óleo, velas e freios. Depois faróis, lanternas e pneus. Conferiu os documentos do veículo, o manual do proprietário, as revisões obrigatórias e a apólice de seguro. Ligou o motor, conferiu o painel e então, finalmente, sorriu. Parecia satisfeito! Trabalhou comigo durante quase 3 anos. Sempre calado e autônomo. Um detalhe pertinente: ele mesmo fazia questão de lavar o carro uma vez por semana, dispensando o serviço pago pela empresa no posto da esquina. Durante o tempo que trabalhou na editora nunca bateu o carro, nunca faltou ao serviço, nunca recebemos uma reclamação de cliente e nunca levou uma multa de transito! Pediu as contas - não quis cumprir o aviso prévio - e foi embora, trabalhar por conta própria com um primo, algo assim. Meses depois fiquei sabendo que havia falecido tragicamente num acidente de moto, atropelado por um caminhão. Lendo sobre “Autonomia plena” lembrei-me dele: excêntrico, eficiente e autônomo! No final do artigo uma nota em latim: “Quis custodiet ipsos custodes?”, que significa "Quem vigia os próprios vigilantes?" ou "Quem guardará os guardiões?" Anotei. Na segunda feira, pretendo levar o meu carro para fazer uma revisão completa. E mais: trocar o óleo do motor, as paletas do limpador de vidro, que andam fazendo um barulho dos infernos, substituir o filtro do ar-condicionado e trocar uma lâmpada queimada da lanterna traseira. Sobre autonomia plena e pensamentos imortais em latim: "Quem guardará os guardiões?". O povo! Ele e mais niguém. 

João Scortecci

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