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ARACY, "ANJO DE HAMBURGO", E “GRANDE SERTÃO: VEREDAS”, DE ROSA

A expressão “Justos entre as Nações” é utilizada no judaísmo para se referir a gentios (não judeus), que mereceriam o Paraíso por serem fiéis às Sete Leis de Noé: “Não cometer idolatria”; “Não blasfemar”; “Não assassinar”; “Não roubar”; “Não cometer imoralidades sexuais”; “Não maltratar aos animais”; e “Estabelecer sistemas e leis de honestidade e justiça”. O Estado de Israel usa aquela expressão para designar o prêmio conferido aos “gentios” que arriscaram suas vidas durante o Holocausto para salvar judeus do extermínio pelo nazismo. Dois brasileiros – não judeus – foram agraciados com o prêmio “Justos entre as Nações”: o diplomata Souza Dantas (Luiz Martins de Souza Dantas, 1876-1954) e a poliglota Aracy de Carvalho (Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, 1908-2011), conhecida como o "Anjo de Hamburgo", por ter salvado judeus da morte, durante a Segunda Guerra Mundial. Aracy nasceu na cidade de Rio Negro, no estado do Paraná. Era filha de Sidonie Moebius de Carvalho, natural da Alta Saxônia, na Alemanha, e de Amadeu Anselmo de Carvalho, um comerciante luso-brasileiro que, mais tarde, seria dono do Grande Hotel de Guarujá. Em 1930, Aracy se casou com o alemão Johann Eduard Ludwig Tess, com quem teve o filho Eduardo Carvalho Tess, mas cinco anos depois ela se separou, indo morar com sua tia, Lucy Luttmer, na Alemanha. Por falar quatro línguas (Português, Inglês, Francês e Alemão), conseguiu uma nomeação, como chefe da Seção de Passaportes, no consulado brasileiro em Hamburgo, Alemanha. Em 1938, entrou em vigor, no Brasil, a Circular secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou o documento e continuou preparando vistos para judeus, permitindo que entrassem no Brasil. Como despachava com o cônsul-geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas. Para obter a aprovação dos vistos, Aracy simplesmente deixava de pôr neles a letra "J", que identificava um judeu. Ainda na Alemanha, Aracy casou-se com o escritor, médico e diplomata mineiro de Cordisburgo Guimarães Rosa (João Guimarães Rosa, 1908-1967), à época cônsul-adjunto naquele consulado. Os dois permaneceram na Alemanha até 1942, quando o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com aquele país e passou a apoiar os Aliados na Segunda Guerra Mundial. Seu retorno ao Brasil, porém, não foi tranquilo. Aracy e Guimarães Rosa ficaram quatro meses sob custódia do governo alemão, até serem trocados por diplomatas alemães. O livro de Guimarães Rosa "Grande Sertão: Veredas", de 1956, foi dedicado a Aracy, o "Anjo de Hamburgo".

23.06.2022

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MACHADO DE ASSIS E A ABL

O escritor, romancista, cronista e dramaturgo Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis, 1839-1908), nasceu no dia 21 de junho de 1839. É considerado um dos maiores, senão o maior nome da literatura do Brasil. Testemunhou a abolição da escravatura e a mudança política no país quando a República substituiu o Império. Aos 17 anos de idade, foi contratado como aprendiz de tipógrafo e revisor na Imprensa Nacional. Nascido no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, de uma família pobre, mal estudou em escolas públicas e nunca frequentou universidade. Em 20 de julho de 1897, foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. No discurso inaugural de fundação da Academia, aconselhou aos presentes: "Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles os transmitam também aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira." Machado, depois da morte de sua esposa Carolina Augusta Xavier de Novais, escreveu em sua homenagem um dos seus mais belos sonetos: “Querida! Ao pé do leito derradeiro,/em que descansas desta longa vida,/aqui venho e virei, pobre querida,/trazer-te o coração de companheiro.//Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro/que, a despeito de toda a humana lida,/fez a nossa existência apetecida/e num recanto pôs um mundo inteiro.//Trago-te flores - restos arrancados/da terra que nos viu passar unidos/e ora mortos nos deixa e separados;//que eu, se tenho, nos olhos malferidos,/ pensamentos de vida formulados/são pensamentos idos e vividos.” A extensa obra machadiana constitui-se de dez romances, 205 contos, dez peças teatrais, cinco coletâneas de poemas e sonetos e mais de seiscentas crônicas. Machado de Assis faleceu no dia 29 de setembro de 1908, aos 69 anos de idade.

21.06.2022


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CLARO ENIGMA: DIAULAS RIEDEL, RICARDO RAMOS, JOSÉ PAULO PAES

Conheci o poeta, tradutor, crítico literário e químico José Paulo Paes (1926-1998), no final dos anos 1970, na sede da União Brasileira de Escritores, na cidade de São Paulo, quando ele ainda era editor do selo Cultrix, do Grupo Editorial Pensamento, fundado pelo português Antônio Olívio Rodrigues, no ano de 1907, e, na época, gerido pelo seu genro, o escritor, editor e gráfico Diaulas Riedel, pai do amigo e também editor Ricardo Riedel. Diaulas foi presidente (1957-1959) e um dos fundadores da Câmara Brasileira do Livro, com Ênio Silveira e Octales Marcondes Ferreira, e publicou o “Almanaque do Pensamento”, febre editorial dos anos 1970. Diaulas Riedel faleceu em 1997, aos 76 anos de idade, e seu filho, Ricardo Riedel, assumiu o Grupo Editorial Pensamento. José Paulo Paes passou a dirigir a Editora Cultrix no ano de 1961 e marcou época. Na companhia do professor Massaud Moisés (1928-2018), foi organizador do “Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira”, publicado em 1967. Em 1982, José Paulo Paes aposentou-se como editor, dando início ao trabalho de tradução. Verteu para o português obras de Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Lawrence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J.K. Huysmans, Paul Éluard, Friedrich Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rainer M. Rilke, Giórgos Seféris, Lewis Carroll, Ovídio, Níkos Kazantzákis, entre outros tantos. Aproximamo-nos de vez, depois de 1989, quando José Paulo Paes lançou, pela coleção “Claro Enigma” (organizada por Augusto Massi), selo da Livraria e Editora Duas Cidades, o livro "A poesia está morta, mas eu juro que não fui eu", título extraído de versos de seu poema "Acima de qualquer suspeita". Em 1990, ele adoeceu. Tinha aterosclerose e graves problemas circulatórios. Teve a perna esquerda amputada. Em dezembro de 1991, ainda quando a Scortecci Editora funcionava na Galeria Pinheiros, na Rua Teodoro Sampaio, 1704, loja 13, visitou-me, amparado pelo escritor e publicitário Ricardo Ramos, que, desde então, o acompanhava, sempre. Ricardo Ramos, ao pé do meu ouvido, sussurrou: “Temos de ajudá-lo.” Ricardo Ramos faleceu de câncer no fígado três meses depois, no dia 21 de março de 1992. José Paulo Paes faleceu oito anos depois, em 9 de outubro de 1998, em tempo para publicar, no livro "Prosas seguidas de odes mínimas" – no qual reflete sobre o momento difícil de sua vida – o poema "Ode à minha perna esquerda": “(1) Pernas / para que vos quero? / Se já não tenho / por que dançar, / Se já não pretendo ir a parte alguma. / Pernas?” (...) (7) Longe / do corpo / terás / doravante / de caminhar sozinha / até o dia do Juízo. / Não há / pressa / nem o que temer: / haveremos / de oportunamente / te alcançar.”

18.06.2022


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“DECAMERÃO”, DE BOCCACCIO, E “A DIVINA COMÉDIA”, DE DANTE

“Decamerão” é uma coleção de cem novelas escritas pelo poeta e crítico literário florentino Giovanni Boccaccio (1313-1375). As histórias são contadas por um grupo de sete moças e três rapazes que se abrigam em um castelo próximo de Florença, para fugir da peste negra, que afligia a cidade. Boccaccio provavelmente iniciou “Decamerão” após a epidemia de 1348 e o concluiu em 1353. As histórias de amor vão do erótico ao trágico: histórias de sagacidade, piadas e lições de vida. Além do seu valor literário e ampla influência, o livro fornece um documento da vida na época. Escrito no vernáculo da língua florentina, é considerado uma obra-prima da prosa clássica italiana. Com subtítulo de “Príncipe Galeotto”, “Decamerão” marca com certa nitidez o período de transição vivido na Europa com o fim da Idade Média, após a epidemia da peste negra. A obra tem o senso medieval de numerologia e significados místicos. As sete moças representam as Quatro Virtudes Cardeais (Prudência, Justiça, Fortaleza, Temperança) e as Três Virtudes Teologais (Fé, Esperança e Caridade). E os três homens representam a Divisão da Alma em Três Partes (Razão, Ira e Luxúria), conforme a tradição helênica. Boccaccio, especializado na obra do florentino Dante Alighieri (1265 -1321), ao ler a "Comédia" (poema épico e teológico, dividido em três partes: “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”), ficou tão fascinado que a renomeou de "A Divina Comédia", título com o qual a obra seria imortalizada. Boccaccio foi autor de uma das primeiras biografias de Dante Alighieri, intitulada “Trattatello in laude di Dante”, também conhecida como “Vita di Dante”. Fascinado e absorvido pela obra do biografado, Boccaccio iluminou “Decamerão” com significados místicos e espirituais – conscientemente ou não –, buscando atingir, na divindade, a imortalidade da “Comédia”. Boccaccio faleceu no dia 21 de dezembro de 1375, aos 62 anos de idade. Seu corpo está sepultado na Igreja de São Jacó e São Filipe, em Certaldo, na Toscana, Itália.

14.06.2022


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MEMÓRIAS DE ESTRICNINA - CARTA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO PARA FERNANDO PESSOA

Memórias de estricnina! O poeta e contista português Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) foi um dos grandes expoentes do modernismo português e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu (Revista Literária Orpheu, 1915). Suicidou-se (no Hotel de Nice, em Paris), aos 25 anos de idade, utilizando-se de cinco frascos de arseniato de estricnina. Sua carta de despedida - onde revela suas razões - foi escrita para o amigo Fernando Pessoa, datada de 31 de março de 1916: “A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas "cartas de despedida"... “Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui... Já dera o que tinha a dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída...” Mário de Sá Carneiro escreveu ainda - versos - sobre o seu funeral: "Quando eu morrer batam em latas, Rompam aos saltos e aos pinotes, Façam estalar no ar chicotes, Chamem palhaços e acrobatas! Que o meu caixão vá sobre um burro, Ajaezado à andaluza, A um morto nada se recusa, E eu quero por força ir de burro!" Não há registro de que sua “última vontade” tenha sido atendida. 

13.06.2022


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PAPAI NOEL, CAROÇO DE UVA, TRANÇA DE CEBOLAS E O PUXA-SACO DO PESCADOR OSMAR

Nunca acreditei em Papai Noel. Mas deveria. Tinha tudo, na infância, para me deixar enganar. “Enganar” é uma palavra forte. Na falta de outra – evitando, assim, cair na armadilha da ingenuidade – fico com ela. Simples assim. Listei três das minhas “inocências” – duradouras, sim – já que elas sobreviveram ao tempo e pontuaram toda a minha meninice. Quando acordei – assim, do nada – não sofri muito. Não fiquei triste e nem me senti traído. Já era adulto. Quando Papai Noel não veio naquele ano, eu já cultivava a maturidade: lembrar, recordar e rir de mim mesmo. Deixei-me enganar que as cebolas já nasciam trançadas, que uvas eram cultivadas a partir dos caroços cuspidos e que um puxa-saco era aquela pessoa que arrastava pela vida um pesado saco de areia salgada. Nunca ninguém me contou – deveriam? – a verdade verdadeira sobre a trança de cebolas pendurada no prego atrás da porta da despensa e, muito menos, sobre os caroços de uva cuspidos na terra, na noite de Natal. Acontece. Já com o bajulador, o popularmente conhecido como “puxa-saco”, foi diferente. “Mãe, o que é puxa-saco?” Talvez tenha sido – creio – a única vez em que a minha mãe tenha me enrolado na resposta. Deve ter tido lá suas razões. Eu até que desconfio. Sou um “bocudo”, que não sabe guardar segredo. Ela, talvez, com receio que eu abrisse o bico e mais, fosse procurar saber “o porquê”, enrolou-me com amor de mãe: “É uma pessoa que vive arrastando o saco alheio.” Algo assim. “Na areia da praia?”, indaguei. “Sim”. Referia-se, então, ao Pescador Osmar, um jangadeiro que havia abandonado o mar, para ganhar a vida zelando pelas casas de veraneio, que pontilhavam a orla da “Prainha”, do município de Aquiraz, distante 32 km de Fortaleza, a capital cearense, que, até o ano de 1726, foi sede administrativa da capitania do Ceará. Pobre Osmar! Perdoe-me! Juro que, na época, sofri por ele, de imaginar vê-lo puxando o tal saco de areia do mar. Eu o ajudaria! Na primeira oportunidade, às escondidas, indaguei-lhe: “Osmar, você é um puxa-saco?” Ele riu, cuspiu – adorava cuspir na areia quente do chão – e seguiu o seu caminho. Mamãe Nilce – quando soube da minha danação – puxou-me as orelhas. Ganhei castigo? Não me lembro. Com o Pescador Osmar, eu e meu irmão José Henrique aprendemos a velejar nas águas de sal, pescar caranguejos, limpar peixes e caçar bichos no mato. Pescador Osmar tinha verdadeira adoração por esse meu irmão. Quando seu filho caçula nasceu, batizou-o com o nome de José Henrique. Confesso: nunca o vi arrastar pelas praias de Aquiraz o tal pesado saco com areia do mar. Pescador Osmar foi, na minha infância de velas e ventos, o Dragão do Mar, o Francisco José do Nascimento (1839-1914), jangadeiro, prático-mor e abolicionista. No ano de 2011, eu e meu irmão José Henrique voltamos lá. Na parede da rua onde tínhamos nossa casa, encontramos uma homenagem ao Pescador Osmar, falecido nos anos 1980. Na foto, no centro de nossas vidas de velas e ventos, o José Henrique (irmão), o José Henrique (filho caçula do Pescador Osmar) e eu, João Ricardo, que, a partir de 1972, tornou-se o João Scortecci.

12.06.2022

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GARNIER, DE BAPTISTE GARNIER, CASA GARRAUX, DE ANATOLE GARRAUX, E A LIVRARIA DE LACHAUD, DE FERDINAND BRIGUIET.

A Livraria e Editora Garnier (A B. L. Garnier, anteriormente denominada “Garnier Irmãos”) funcionou na cidade do Rio de Janeiro de 1844 a 1934, como uma das principais casas editoriais da segunda metade do século XIX. Seu presidente, editor, gráfico e livreiro, o francês Baptiste Garnier (Baptiste Louis Garnier, 1823-1893), notabilizou-se por publicar, durante cerca de 20 anos, livros de escritores que se tornaram famosos, como Machado de Assis. Foi o primeiro editor brasileiro a encarar a impressão e a edição como atividades completamente diferentes. Baptiste Garnier chegou ao Brasil em 24 de junho de 1844 e abriu uma filial da Garnier Frères, de propriedade de seus irmãos mais velhos, Auguste e Hippolyte. No início, a Livraria Garnier (na Rua do Ouvidor, no. 69; e, a partir de 1878, no no. 71), editava seus livros no Brasil e os imprimia em Paris e em Londres. No início da década de 1870, Baptiste Garnier abriu sua própria tipografia com o nome “Tipografia Franco-Americana”, que deixou o legado de 655 trabalhos de autores brasileiros publicados entre 1860 e 1890, além de várias traduções, do francês, de romances mais populares. Deve-se a Baptiste Garnier o formato francês dos livros que o Brasil adotou: “in-oitavo” (16,5 x 10,5 cm) e “in-doze” (17,5 x 11,0 cm), imitações da firma parisiense Calmann-Lévy, fundada em 1836 e até hoje influente no mercado francês de edições. Em 1891, com saúde precária, Baptiste iniciou negociações para a venda de sua empresa, sem sucesso. Faleceu três anos depois, em 1893. A Garnier passou, então, para seu irmão mais velho, Hippolyte, que residia em Paris. Em 1898, Hyppolite mandou para o Brasil o gerente de loja, o francês Julien Lansac, que nomeou Jacinto Silva como assistente-chefe, o qual teve grande autonomia para trabalhar, devido às dificuldades de Lansac por não conhecer a língua portuguesa. Em 1904, Jacinto Silva saiu da Garnier e foi trabalhar na Casa Garraux, do francês Anatole Louis Garraux, localizada na cidade de São Paulo; e, em 1920, instalou sua própria casa editorial a “Casa Editora O Livro”, que foi o centro do movimento modernista. Hippolyte Garnier morreu aos 95 anos de idade, em 1911, e Julien Lansac voltou à França, em 1913. A Garnier encerrou as atividades em 1934, quando foi vendida a Ferdinand Briguiet, proprietário da Livraria de Lachaud, passando a usar o nome “Livraria Briguiet-Garnier”, a qual permaneceu em atividade até 1951, quando foi comprada pela editora portuguesa Difel - Difusão Europeia do Livro.


11.06.2022
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TUDO VALE A PENA, SE A ALMA NÃO É PEQUENA!

“Tudo vale a pena, se a alma não é pequena!” O poeta português Fernando Pessoa (Fernando Antônio Nogueira Pessoa, 1888-1935) foi educado na África do Sul, numa escola católica irlandesa. Dominava o idioma inglês e foi nele que escreveu o seu primeiro poema. Das quatro obras que publicou em vida, três são na língua inglesa e apenas uma em língua portuguesa: “Mensagem” (44 poemas, em 1934). Como poeta, escreveu sob diversas personalidades (heterônimos): Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e outros. Traduziu do inglês para o português Shakespeare e Edgar Allan Poe (o imortal poema: “O Corvo”). Um de seus mais famosos poemas é “Mar Português”: “Ó mar salgado, quanto do teu sal, / São lágrimas de Portugal, / Por te cruzarmos, quantas mães choraram,/ Quantos filhos em vão rezaram!/ Quantas noivas ficaram por casar, /Para que fosses nosso, ó mar! / Valeu a pena? Tudo vale a pena, / Se a alma não é pequena. / Quem quer passar além do Bojador, / Tem que passar além da dor. / Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu.” E "Viajar! Perder Países" é um dos seus poemas mais belos. Quem o lê viaja: o resto é só terra e céu. 

VIAJAR! PERDER PAÍSES! 

Viajar! Perder países!

Ser outro constantemente,

Por a alma não ter raízes

De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!

Ir em frente, ir a seguir

A ausência de ter um fim,

E a ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.

Mas faço-o sem ter de meu

Mais que o sonho da passagem.

O resto é só terra e céu.

11.06.2022

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AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS DA LUSITÂNIA

Meu pai Luiz, menino de tudo, aluno do curso ginasial do Colégio Cearense, na Fortaleza dos anos 1930, recebeu o castigo – nunca nos contou o que havia aprontado – de decorar os 100 primeiros versos do poema épico “Os Lusíadas”, do poeta português Luís Vaz de Camões. “O caolho?” “Sim. Ele mesmo. Bem que ele podia ter morrido – afogado – no naufrágio em Goa!”, brincava sempre. Camões salvou-se do naufrágio, a nado, carregando numa das mãos o manuscrito de “Os Lusíadas”. É o que dizem! Antes mesmo de conhecer a obra, em si, eu conhecia a história do poeta cego do olho direito, que meu pai contava, recontava, repetia por mais de mil vezes. “Pai, você decorou mesmo os 100 primeiros versos do caolho?” “Sim.” “Ainda lembra?” “Só dos três primeiros: “As armas e os barões assinalados / Que, da ocidental praia lusitana, / Por mares nunca de antes navegados...’” Papai gostava de contar a história e de declamar – em seguida – os três primeiros versos da epopeia. Contava, também, que um dia “recitou” versos do poeta maranhense Gonçalves Dias (1823-1864), para o então Presidente da República, Getúlio Vargas. Provavelmente uma brincadeira mentirosa. O lisboeta Luís Vaz de Camões (1524-1580) é considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas da tradição ocidental. Pouco se sabe com certeza sobre a sua vida. Frequentou a corte de D. João III, iniciou sua carreira literária como poeta lírico e se envolveu, como narra a tradição, em amores com damas da nobreza e possivelmente plebeias, além de levar a vida na boemia. Por causa de um amor frustrado, autoexilou-se na África, alistou-se como militar e perdeu um olho em batalha naval no Estreito de Gibraltar. Voltou para Portugal, feriu um servo do Paço, foi preso, depois perdoado. Partiu para o Oriente, foi preso várias vezes e lá escreveu “Os Lusíadas”, publicado, em 1572, quando o poeta retornou a Portugal. Esse poema épico é composto por dez cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos. A ação central é a descoberta do caminho marítimo para a Índia, pelo navegador e explorador português Vasco da Gama (1469-1524), em torno da qual se vão evocando outros episódios da história de Portugal, glorificando o povo lusitano. Camões viveu seus anos finais num quarto de uma casa próxima da Igreja de Sant’Anna, em Lisboa, "sem um trapo para se cobrir", segundo a tradição. Morreu no dia 10 de junho de 1580, aos 56 anos de idade, e foi enterrado numa campa rasa naquela igreja. Depois do grande terremoto de 1755, que destruiu a maior parte de Lisboa, foram feitas tentativas – todas frustradas – de se reencontrarem os despojos de Camões. O sumiço de sua ossada até hoje é um mistério. A ossada que foi depositada em 1880, numa tumba no Mosteiro dos Jerônimos, segundo historiadores, não pertence a Camões. Sua obra, porém, continua sendo lida, estudada e celebrada, como um marco fundador da língua portuguesa e como patrimônio do povo português e da literatura ocidental.

09.06.2022

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PEDRO, MASSAO, VIANNA, CUNHA E VINICIUS: POSTO QUE É CHAMA!

Hoje fiquei sabendo da morte do fotógrafo Pedro de Moraes, filho do inesquecível poeta e compositor Vinicius de Moraes. Pedro faleceu no último dia 27, aos 79 anos de idade. Quando da morte do seu pai, em 1980, o editor e artista gráfico Massao Ohno (1936-2010) me ligou e deu – de sola – a triste notícia: “O Vinicius morreu!” “Não sabia”, respondi surpreso. Massao, então, emendou de pronto: “Falei agora com o Pedro, filho do Vinicius. Ele autorizou usarmos aquela foto do pai de perfil, num cartaz! Sabe qual é?” “Não”, respondi. “Faço a arte e você imprime os cartazes”, disse-me ele. Topei na hora. “Vai ter uma missa, algo assim, na igreja da Consolação, em homenagem a Vinicius. A ideia é distribuir – gratuitamente – os cartazes na cerimônia”. Terminamos a conversa com a promessa de nos falarmos novamente no final do dia. Liguei, então, para a Maria Vianna, atriz em filmes como “Menino da Porteira”, “A pequena órfã” e autora da Scortecci, com o livro de poemas “Vertical dos Descaminhos”. Prontamente, ela ligou para o deputado Cunha Bueno, amigo e também autor da Scortecci, na época Secretário de Cultura do Estado de São Paulo. O pedido era curto e irrecusável: patrocinar, em homenagem a Vinicius, a impressão dos cartazes, formato meia folha, em papel couchê! Massao Ohno e Maria Vianna trabalharam rapidamente! Dois dias depois, já com os fotolitos prontos, Cunha Bueno autorizou a impressão de 500 cartazes. Mais do que suficiente. No dia da homenagem, foram distribuídos gratuitamente. Surpresa foi encontrá-los à venda, na entrada da igreja da Consolação. Acontece. O cartaz e as provas de fotolito hoje fazem parte do memorial de 40 anos da Scortecci. Na belíssima foto original tirada por Pedro de Moraes, aparecem uma garrafa de uísque e um copo, além do perfil do poeta eternizado por Massao Ohno, no cartaz. Vinicius: “Que não seja imortal, posto que é chama,/ Mas que seja infinito enquanto dure.”

29.05.2022


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