Pesquisar

“DIA DAS LETRAS GALEGAS” EM HOMENAGEM A ROSALÍA DE CASTRO

O dia 17 de maio foi instituído em 1963 como o “Dia das Letras Galegas”, quando se comemoraram os 100 anos de edição da primeira obra escrita em língua galega (língua ibero-românica ocidental de caráter oficial da Comunidade Autônoma da Galiza), “Cantares Gallegos”, da escritora espanhola Rosalía de Castro (Maria Rosalía Rita, 1837-1885). Nascida em Santiago de Compostela, capital da Comunidade Autónoma da Galiza, noroeste de Espanha, Rosalía de Castro é considerada a fundadora da literatura galega moderna. Escreveu tanto em prosa quanto em verso, empregando o galego e o castelhano. Sua obra esteve profundamente marcada pelas circunstâncias que rodearam sua vida, como sua origem, os problemas econômicos, a morte dos seus filhos e sua frágil saúde. Em 1863, em Vigo, cidade da costa noroeste da Espanha, o seu primeiro grande livro, "Cantares Gallegos", foi publicado por seu marido, o historiador galego Manuel Murguía (1833-1923), que geriu, sem a licença da esposa, a impressão de um poemário que fixa o começo de uma nova era para a poesia galega e que foi a base do ressurgimento da literatura galega, numa época em que essa língua estava extinta como língua escrita. Em 1880, Rosalía de Castro publicou “Folhas Novas”, praticamente uma continuação de “Cantares Gallegos”. Em castelhano, publicou “La flor” (1857), “A mi madre” (1863), “En las orillas del Sar” (1884) e o romance “El caballero de las botas azules” (1867), obras marcadas pelo Romantismo literário. Rosalía de Castro passou os últimos anos da sua vida em Padrón, na província espanhola de Galiza, na "Casa da Matanza", que depois se tornaria casa-museu. A morte acidental do seu filho mais novo aos dois anos de idade e sua doença amargaram os seus derradeiros anos de vida. Morreu de câncer em 1885, aos 48 anos de idade. Antes de morrer, pediu aos filhos que queimassem os trabalhos literários que, reunidos e ordenados por ela mesma, não foram publicados. Foi enterrada no campo-santo da Adina, na Galiza. Anos mais tarde, em 1891, seus restos foram transladados para o Panteão de Galegos Ilustres, no convento de São Domingos de Bonaval, em Santiago de Compostela.

17.05.2022


Ler Mais

CHARLES PERRAULT E AS HISTÓRIAS DA “MAMÃE GANSA”

O escritor e advogado francês Charles Perrault (1628-1703) é considerado o "Pai da Literatura Infantil”. Estabeleceu as bases para um novo gênero literário, o conto de fadas, além de ter sido o primeiro a recolher, dar forma escrita e acabamento literário a esse tipo de histórias, que, até então, eram contadas e transmitidas apenas oralmente. Contos de fadas (termo do Latim “fatum”, que significa “destino”, “fatalidade”) são um tipo de história que apresenta personagens fantásticos e encantamentos. Distinguem-se de outras narrativas populares, como as lendas (que, em geral, misturam fatos reais e imaginários) e as histórias claramente morais, incluindo as fábulas. Em 1665, Perrault se tornou superintendente do Rei Luís XIV, da França, e, dois anos mais tarde, ordenou a construção do Observatório Real (o mais importante observatório astronômico da cidade de Paris), de acordo com as plantas do seu irmão Claude Perrault, arquiteto de grande prestígio na época. Em 1671, Charles Perrault foi eleito para a Academia Francesa de Letras e, um ano depois, nomeado chanceler da Academia. Em 1695, aos 67 anos de idade, resolveu registrar as histórias que ouvia da sua mãe e nos salões parisienses. Dois anos depois, publicou-as no livro “Histórias ou contos do tempo passado com moralidades”, também chamado de  "Contos da velha" ou, ainda, "Contos da cegonha", ficando, afinal, conhecido pelo subtítulo "Contos da mamãe gansa", referência à figura ficcional que se popularizou a partir do século XVII, na imagem de uma mulher idosa, contadora de histórias. A publicação rompeu os limites literários da época e alcançou público em todo o mundo, além de marcar o novo gênero literário, o conto de fadas. A maioria dos contos de fadas de Charles Perrault ainda hoje é publicada, traduzida e adaptada para várias formas de expressão artística, como o teatro, o cinema e a televisão. Entre os contos mais conhecidos estão “Chapeuzinho vermelho”, “A Bela adormecida”, “O gato de botas”, “Barba azul” e “O pequeno polegar”. “A Bela adormecida” é a história “do tempo passado” mais famosa da humanidade e – misteriosamente – continua arrepiando criancinhas de todas as idades. A figura da maléfica feiticeira ou fada maligna – como queiram – perpetua-se no sono de ogros e gnomos, na ilíada frenética e mística do beijo roubado e do verdadeiro amor, eterno enquanto dure. 

16.05.2022


Ler Mais

IMPRESSÃO RÉGIA E O LEGADO DO POETA E LIVREIRO EVARISTO DA VEIGA

O poeta, jornalista, político, acadêmico e livreiro Evaristo da Veiga (Evaristo Ferreira da Veiga e Barros, 1799-1837), patrono da Cadeira n.10 da Academia Brasileira de Letras, ficou conhecido por ser o autor da letra do "Hino à Independência", com música de D. Pedro I. Evaristo da Veiga passou a se interessar por jornalismo ao visitar as oficinas da Impressão Régia, criada na cidade do Rio de Janeiro, por decreto de 13 de maio de 1808, depois da transferência da família real portuguesa para o Brasil. A partir dessa data, tornou-se possível a compra de livros impressos no Brasil e sua importação de outros países, além de Portugal, por meio de autorização da “Mesa do Desembargo do Paço”, criada no Brasil pelo alvará de 22 de abril de 1808 e que integrava a estrutura do Tribunal da Mesa do Desembargo do Paço e da Consciência e Ordens, órgão superior da administração judiciária que se instalou no Brasil com a vinda da Corte portuguesa. As obras à venda eram anunciadas no jornal “Gazeta do Rio de Janeiro” ou numa lista impressa nas últimas páginas de algumas delas, prática editorial hoje pouco usada e apenas por algumas editoras. As primeiras máquinas gráficas das oficinas da Impressão Régia foram instaladas nos porões do palácio do diplomata, cientista, político e escritor português Antônio de Araújo e Azevedo (1754-1817), o primeiro Conde da Barca – título nobiliárquico criado por D. João, Príncipe Regente de D. Maria I de Portugal. Evaristo da Veiga era o segundo filho do português Francisco Luiz Saturnino da Veiga (1771-1841) com a brasileira Francisca Xavier de Barros. Tendo chegado ao Brasil aos 13 anos de idade, o pai de Evaristo foi professor régio de primeiras letras e, depois, livreiro na Rua da Alfândega, no centro da cidade do Rio de Janeiro, vendendo livros trazidos da Europa. Foi nessa livraria que o poeta Evaristo da Veiga se tornou um “leitor voraz”. Depois da morte da esposa, em 1823, desejoso de se casar novamente, Francisco Luiz entregou aos filhos, Evaristo e João Pedro, a parte que lhes tocava na herança materna. Os irmãos abriram uma livraria, na esquina das ruas da Quitanda e São Pedro, também no centro da cidade do Rio de Janeiro. Em 1821, no “Diário do Rio de Janeiro”, havia anúncios de oito lojas de livros. Os primeiros anúncios da livraria de Evaristo e João Pedro datam de outubro de 1823, 14 dias antes de D. Pedro I dissolver a Assembleia Constituinte. Em 1828, economicamente independente, Evaristo se separou do irmão e estabeleceu seu próprio negócio, ao comprar a livraria e tipografia do francês Jean-Baptiste Bompard, na Rua dos Pescadores, n. 49. Bompard chegou ao Brasil em 1823 e foi trabalhar como caixeiro na loja de seu primo, o livreiro e editor Paulo Agostinho Martin, filho do famoso livreiro francês Paul Martin, que vivia em Lisboa. Martin é considerado o primeiro livreiro-editor brasileiro, tendo editado livros de variados gêneros nas oficinas da Impressão Régia. Após a morte de Paulo Martin, no final de 1823, Bompard assumiu a livraria, conservando-a até 1828 e vendendo-a, em seguida, para Evaristo da Veiga. Nesse mesmo ano, Evaristo ingressou no “Aurora Fluminense” (1827-1835), jornal de matiz liberal, bimestral – fundado por José Apollinário de Moraes, José Francisco Sigaud e Francisco Chrispiniano Valdetaro – que se constituiu um importante veículo de oposição ao governo de Pedro I. A partir de 1829, Evaristo se tornou proprietário do jornal, pautando seus artigos na defesa do constitucionalismo, do sistema representativo e da liberdade de imprensa. Em 1830, foi eleito para a Câmara dos Deputados pela província de Minas Gerais, reelegendo-se em três legislaturas. Participou ativamente do movimento de 7 de abril, que levou à abdicação de Pedro I, e tornou-se uma forte liderança do Partido Liberal. Monarquista, defendeu as reformas constitucionais e a aprovação do Ato Adicional, lei n. 16, de 12 de agosto de 1834, que alterou a Constituição de 1824, modelou a formação do Estado e teve um importante papel no projeto de instituição e manutenção do Império brasileiro. Em 1832, sofreu um atentado, atribuído aos conservadores, liderados por José Bonifácio de Andrada e Silva e seu irmão, aos quais Evaristo fazia forte oposição. Em 1835, defendeu a candidatura do Padre Diogo Antônio Feijó como regente único. Desiludido com a política e com os rumos da regência que apoiara, em 30 de dezembro de 1835 encerrou o Jornal “Aurora Fluminense”, com oito anos de existência, e, no ano seguinte, retirou-se para Campanha, Minas Gerais. Evaristo da Veiga morreu livreiro, no Rio de Janeiro, em 12 de maio de 1837, jovem de tudo, aos 37 anos de idade.

15.05.2022


Ler Mais

SUASSUNA, JOSÉ FERREIRA, KARL MARX E O PERFIL IDEOLÓGICO DA ADOÇÃO

Ariano Suassuna, Eu e mais alguns poucos, gostamos – desbragadamente – dos loucos, dos doidos de pedra. Suassuna declarou: “Eu tenho muito interesse por doido, pois eles veem as coisas de um ponto de vista original. E isso é uma característica do escritor também, o escritor verdadeiro não vai atrás do lugar comum, ele procura o que há de verdade por trás da aparência. O doido é danado para revelar isso! Eu gosto muito de história de doido. Não sei se é por identificação. Mas eu gosto muito. Eu tenho um primo, Saul. Uma vez ele disse para mim: Ariano, na família da gente quem não é doido, junta pedra pra jogar no povo.” Hoje conheci o simpático Karl Marx, um filhote de cão vira-lata, do José Ferreira, pedinte que trabalha no farol da Avenida Pedroso de Moraes, no bairro Pinheiros, na cidade de São Paulo. Ferreira – vez por outra – ganha o doce da minha sobremesa e mais um agrado monetário de R$ 2,00 ou R$ 5,00 reais, dependendo do dia. Faz parte! Quando estou atravessando a rua – farol aberto ou não, isso pouco importa –, Ferreira pula na frente dos carros, abre os braços e pede passagem para o seu amigo João. José Ferreira – trinta e poucos anos - tem barraca, fogareiro, panela, faca de corte, pratos e talheres. Tudo desarrumado e espalhado na calçada. Ano passado, José Ferreira foi atropelado. Hoje anda com dificuldade e puxa da perna direita. Sempre que ele me vê, logo convida: “Sr. João, quer almoçar comigo?” “Não, obrigado”, respondo. Curioso que sou, indago: “O que tem de bom hoje?” Ferreira, então, lista o cardápio, nos detalhes de um Chefe. Perde tempo no tempero e reclama – sempre – do carvão que ganha de uma padaria do bairro. Macarrão, arroz e uma mistura. “E a arrecadação do ponto: como anda?” “Ruim. Já foi melhor. O farol anda atrapalhando o negócio. Antes demorava mais e dava tempo para cobrir duas fileiras de quatro carros. Agora, não”. “Compreendo. E o Karl Marx?” Apontei para o cão que se coçava feito maluco. “Foi presente do dono de uma cadela do Largo da Batata, que pariu um macho e duas fêmeas.” Pensei em pegar o Karl Marx no colo e lhe fazer um agrado. Adoro vira-latas! Desisti. Parecia sujo e “tomado” por pulgas. “Ferreira, uma pergunta: por que o nome Karl Marx?” José Ferreira apontou o dedo na direção do cão e me disse: “Olha o pelo dele, farto, branco e preto, lembra a barba profética do Karl Marx?” “Lembra sim”, respondi. E sugeri: “Você deveria dar um banho nele. O coitado está se coçando todo.” “Melhor não”, justificou-se. “Não?” “Não. Depois vão dizer que o Marx é cachorro de rico – egoísta – e isso não combina com o seu semblante ideológico.” “Ferreira, que doideira! Explica, por favor.” “Comunista não gosta muito de tomar banho.” “Ferreira, quem disse isso? Marx foi um filósofo e economista socialista, que escreveu ‘O Capital’ – provoquei – então: comunista toma banho, não fede a bode, mas dizem que gosta de comer criancinha!” Joguei o anzol. Ferreira olhou-me nos olhos, piscou para o Karl Marx e mudou de papo. “Ração é muito cara?” “Muito”, respondi. “Então eu proponho socializarmos o Max.” Não entendi. Fui embora pensando na oferta generosa do doido de pedra do José Ferreira. Que Suassuna não me escute! Confesso: sempre quis ter um vira-lata de rua, e Karl Marx, no melhor do ponto de vista original, seria uma nobre adoção ideológica. Segunda-feira, no mais tardar na terça – eu prometo – vou socializar o vira-lata do Karl Marx. Na dúvida: comprar-lhe ração e vê-lo cresceu - livre e solto - na Paulicéia Desvairada. 

14.05.2022


Ler Mais

MADAME BOVARY, GUSTAVE FLAUBERT E AS REDES SOCIAIS

Lendo sobre “Clausuras e as redes sociais”, encontrei a expressão “bovarismo”, que consiste em uma alteração do sentido da realidade, em que uma pessoa tem deturpada autoimagem, considerando-se outra, que não é. O “bovarismo” faz referência ao estado de insatisfação crônica de um ser humano, produzido pelo contraste entre suas ilusões e aspirações e a realidade frustrante. Essa designação de uma condição psicológica foi introduzida pelo filósofo francês Jules de Gaultier, em seu estudo “Le Bovarysme, la psychologie dans l’œuvre de Flaubert” (1892), no qual se refere ao romance “Madame Bovary”, do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880), publicado em livro em 1857 e cuja protagonista, Emma Bovary, converteu-se no protótipo da insatisfação conjugal. Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, pelo seu senso de realidade, pela sua lucidez sobre o comportamento social e pela força de seu estilo em grandes romances. “Madame Bovary”, sua mais famosa obra, foi publicada inicialmente pela revista literária francesa “Revue de Paris”, por Laurent-Pichat e Maxime Du Camp, em outubro de 1856. Resultado de cinco anos de trabalho, “Madame Bovary” é uma dura depreciação dos valores burgueses. Segundo alguns críticos conservadores, Flaubert ridiculariza sua própria condição social. A obra – considerada na época ousada e imoral – foi censurada. Em janeiro de 1857, Flaubert sentou no banco dos réus, com argumentos de acusação conduzidos pelo promotor do caso, o advogado Ernest Pinard. Em 7 de fevereiro de 1857, foi absolvido pela Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena, de Paris, graças à defesa conduzida pelo advogado Marie-Antoine-Jules Sénard, que reconstituiu a origem nobre e aristocrática do escritor e convenceu o júri de que a acusação estava julgando todo um livro a partir de apenas alguns trechos. Nos autos de defesa, Sénard procurou mostrar que há realismo na história de uma mulher que se perde em sonhos inatingíveis e morre em decorrência deles. Assim são as tragédias do amor! Perguntado sobre quem era Emma Bovary, Flaubert respondeu, apenas: “Madame Bovary sou eu”. Aqui com os meus ossos, pensando e repensando sobre as “clausuras” e os “bovarismos” das redes sociais, respondo, apenas: Gustave Flaubert e Emma Bovary somos todos nós!


08.05.022


Ler Mais

REVISTA PAN E A AUTOPSIA DE NAPOLEÃO BONAPARTE

Em 1936, a Revista PAN, ano II, número 10, página 14, do editor José Scortecci – avô materno do editor e gráfico João Scortecci – publicou matéria assinada por O. Aubry, testemunha ocular, com revelações “bombásticas” da autópsia do estadista e líder militar francês Napoleão Bonaparte (1769-1821). Contou ele na reportagem: “Preparada uma grande mesa sobre cavaletes coberta com um pano depositaram nela o cadáver. Durante a primeira parte da operação nada me pareceu chamar a atenção dos médicos da equipe do Prof. Antommarchi, médico responsável pela autópsia, a não ser a extraordinária quantidade de gordura que cobria quase todas as partes do interior, sob o peito, particularmente na região do coração. Abrindo a parte baixa do corpo, onde está situado o fígado, acharam que o estômago tinha aderido ao lado esquerdo daquele órgão e parecia muito afetado. Os médicos, imediata e unanimemente, exprimiram a convicção de que o estômago fora a causa da morte. Retiraram o estômago num estado horrível, reduzido a um terço do seu tamanho normal, coberto de substâncias cancerosas e nele uma cavidade por onde podia passar o dedo mínimo.” Napoleão Bonaparte passou os seus últimos seis anos de vida confinado pelos britânicos na ilha de Santa Helena, território britânico ultramarino, no Atlântico Sul. A autópsia oficial concluiu que Napoleão Bonaparte morreu de câncer no estômago, embora haja suspeitas de envenenamento por arsênico. Ninguém explicou até hoje – manchete da matéria – o furo de um dedo no estômago do estadista e líder militar francês. A influência de Napoleão no mundo moderno trouxe reformas liberais para os vários territórios que ele conquistou e controlou, como os Países Baixos, a Suíça e grandes partes da Itália e da Alemanha modernas. Ele implementou políticas liberais fundamentais na França e em toda a Europa Ocidental. Seu “Código Napoleônico” influenciou os sistemas legais de mais de 70 nações em todo o mundo.

03.05.2022




Ler Mais

SANTO AMARO, PAULO EIRÓ, HENRIQUE NOVAK E LUANDA - UMA BAILARINA MORTA

Santo Amaro – hoje distrito da região metropolitana da cidade de São Paulo – foi município independente de 1832 até 1935, quando foi reincorporado à capital paulista (Decreto n. 6.983). Até à promulgação da Lei Provincial n. 33, de 1877, incluía as áreas dos atuais municípios de Itapecerica da Serra, Embu das Artes, Embu-Guaçu, Taboão da Serra, São Lourenço da Serra e Juquitiba. A expansão de Santo Amaro começou no século XIX, mais precisamente em 1827, quando recebeu o primeiro grupo de imigrantes alemães que desembarcaram da Galera Holandesa "Maria", no porto de Santos; o segundo grupo desses imigrantes ali chegou no século XX, entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. A origem da região de Santo Amaro está ligada a uma aldeia indígena à margem do rio Jeribatiba, que, em 1950, foi nomeado oficialmente como “Pinheiros”. Assim como o rio, o bairro teve diferentes nomes: “Virapuera”, “Jeribatiba”, “Ibirapuera”, “Santo Amaro de Virapuera” e finalmente “Santo Amaro”. De origem cristã, esse é o nome de um santo nascido em 513 d.C., na Itália, e identificado como protetor dos carroceiros, carregadores e fabricantes de velas. A região passou a ser conhecida como “Santo Amaro” depois que o Padre José de Anchieta (1534-1597) rezou uma missa com a imagem do santo, à margem do rio Jeribatiba. Santo Amaro é também o local de nascimento do poeta e dramaturgo Paulo Eiró (Paulo Emilio de Salles Chagas Eiró, 1836-1871), que morreu jovem, desiludido e depressivo, com apenas 35 anos de idade. Assim como muitos poetas do século XIX, ele tinha uma musa inspiradora – sua prima, Cherubina Angélica de Salles, um amor escondido e impossível. Quando ela se casou com um desconhecido, o poeta entrou em depressão e adoeceu. Mudou-se, então, para a cidade de São Paulo, para estudar Direito na Faculdade do Largo do São Francisco, e morar, de favor, no Seminário Episcopal de São Paulo, no bairro da Luz. Enlouquecido – com crises de depressão cada vez mais constantes – e sem vocação religiosa, abandonou os estudos e voltou para Santo Amaro, por recomendação do diretor do Seminário, que também aconselhou seu pai, Francisco Antonio das Chagas – professor conhecido na região como “Chico Doce” – a destruir o caderno de poesias do filho, como solução e cura para sua loucura. Quando do casamento da sua musa, Paulo Eiró escreveu o soneto “Fatalidade”, um de seus poemas mais conhecidos: “Que vista! O sangue se afervora e escalda! / Por que impulso fatal fui hoje à igreja? / Quer meu destino que, ao entrar, lá veja / Noiva gentil de cândida grinalda. / Nos olhos sem iguais, cor de esmeralda,/ Lume de estrelas, plácido, lampeja:/ Seu branco seio de ventura arqueja; / Louros cabelos rolam-lhe da espalda. / Hora de perdição! Sim, adorei-a; / Não tive horror, não tive sequer medo / De cobiçar uma mulher alheia. / Unem as mãos; o órgão reboa ledo; / Em alvas espirais, o incenso ondeia.../ E eu só, longe do altar, choro em segredo!” Com a saúde cada vez mais frágil, foi internado no Hospício dos Alienados, na cidade de São Paulo. Morreu no dia 27 de junho de 1871, vítima de meningite. Em março de 1957, foi inaugurado, em sua homenagem, o Teatro Paulo Eiró, no bairro de Santo Amaro. Foi lá – nos anos 1980 – que escrevi o poema-livro “Luanda - Uma bailarina morta”, ao saber da morte – por atropelamento, numa das esquinas do teatro – de uma jovem bailarina, que carregava nos braços um par de sapatilhas. Mais recentemente, dois ou três meses antes do surto da covid-19, recebi na editora o amigo e jornalista Henrique Novak, com um livro sobre Paulo Eiró: biografia e poesias inéditas – até então “perdidas” – e salvas do fogaréu da ignorância. Quem as guardou? Para publicá-lo, dependia de autorização de alguém, possivelmente um parente do poeta ou algo assim. Aguardo – ansioso – o seu retorno e a obra para publicação, ainda em 2022. Henrique Novak – para quem não o conhece – foi, nos anos 1980, jornalista da seção “Página do Livro”, do jornal “Diário Popular” (SP), a quem nós, aqueles então jovens poetas e escritores, seremos eternamente gratos pelo espaço e apoio incondicional.

02.05.2022

Ler Mais

APOLO, HOMERO E PLATÃO: REPÚBLICA DO MITO DA CAVERNA

O deus grego Apolo era filho de Zeus e Leto e irmão gêmeo de Ártemis. Foi Homero (928 – 898 a.C.) – um aedo e personificação coletiva da memória da Grécia Antiga – quem o imortalizou na “Ilíada”, como sendo o deus da divina distância e o protetor dos céus. Foi representado vestido de nu e também com animais simbólicos: a serpente, o corvo e o grifo, criatura alada com cabeça e asas de águia e corpo de leão. Apolo é do bem e do mal – lados que se completam – e, até hoje, voa na cabeça e no destino do tempo. Na condição de protetor dos céus, Apollon pisou na Lua no ano da graça de 1969, na epopeia alada do grifo 11. Eu, menino de tudo, 13 anos de idade, colado na TV preto e branco da casa do meu tio Zanzão, sonhava, em um dia qualquer de futuro, fazer algo igual à epopeia de Neil Armstrong (1930-2012) e compor – por fim – meus últimos versos para a “Ilíada”, de Homero. Algo assim, às avessas: "Um gigantesco passo para um homem, um pequeno salto para a humanidade". A “Ilíada” é constituída por 15.693 versos em hexâmetro datílico, forma métrica tradicional da poesia épica grega. Com origem na tradição oral, os versos foram compilados posteriormente numa versão escrita, no século VI a.C., em Atenas. O poema foi então dividido em 24 cantos – divisão atribuída aos estudiosos da Biblioteca de Alexandria –, cada canto correspondendo a uma letra do alfabeto grego. Tudo isso para então virar a página, ou melhor, voltar ao início da leitura do dia e “desvendar” o que o filósofo e matemático grego Platão (428-347 a.C.) quer dizer com a alegoria do “Mito da Caverna”. É uma tentativa de explicar a condição de ignorância em que vivem os seres humanos, aprisionados pelos sentidos e pelos preconceitos que impedem o conhecimento da verdade. A alegoria faz parte do “Livro VII”, de sua obra “A República”. “Mito” e “logos” são termos que evoluíram ao longo da história desde a Grécia Antiga. Nos tempos de Homero e Hesíodo (séc. VIII a.C.), esses termos eram sinônimos, com significado de “conto” ou “história”. O livro “A República” foi escrito sob a forma de diálogo sobre o conhecimento, a linguagem e a educação, para a construção de um Estado ideal. O “Mito da Caverna” (conhecido também como “Parábola da Caverna”) é um dos textos filosóficos mais debatidos e conhecidos pela humanidade. Nele, estão as bases do pensamento platônico, o conceito de senso comum em oposição ao senso crítico e à busca pelo conhecimento verdadeiro. A vida dentro da caverna – dentro da caixinha, na percepção da web de hoje – representa o mundo sensível, aquele experimentado a partir dos sentidos, onde reside a falsa percepção da realidade, enquanto a saída da caverna representa a busca pela verdade, o chamado "mundo inteligível", alcançado apenas pelo uso da razão. Na alegoria, as pessoas estão acorrentadas, sem poderem se mover, forçadas a olhar somente a parede do fundo da caverna, sem poder ver umas às outras ou a si mesmas. Atrás dos prisioneiros há uma fogueira, separada deles por uma parede baixa, por detrás da qual passam pessoas carregando objetos que representam "homens e outras coisas viventes". O texto é longo e interessante. Oportuno. Para pensar – além da serpente, do corvo e do grifo – como o ser humano pode se libertar da condição mental da escuridão, que o aprisiona na caverna, sufoca-o nas alegorias da ignorância e o impede de ver os céus.

30.04.2022


Ler Mais

CHIQUINHA GONZAGA, NAIR DE TEFFÉ, RUY BARBOSA E O ESCÂNDALO DO “ENFIAR O PÉ NO JACÁ”

“Jaqueira” é uma árvore tropical de grande porte, pertencente à família das Moraceae, nativa da Índia e cultivada principalmente na Ásia e no Brasil. Produz o maior de todos os frutos comestíveis: a jaca. A expressão popular “enfiar o pé na jaca” nada tem a ver com a fruta e com as jaqueiras, mas com uma espécie de cesto – de nome “jacá” – feito de bambu ou cipó, usado preso ao lombo de animais para o transporte de mercadorias. Não se sabe – não encontrei na minha pesquisa, perdão – quando o acento agudo desapareceu da expressão. Escafedeu-se! Existem outros casos de adágios bastante conhecidos: “Batatinha quando nasce espalha a rama pelo chão”, “Quem não tem cão, caça como gato” e outros. “Enfiar o pé na jaca” significa cometer excessos, beber muito, exagerar na dose! Os condutores desses animais – conhecidos como “tropeiros” – ao longo de suas viagens, paravam para beber. Quando bêbados – vez por outra ou quase sempre, tanto faz –, ao tentarem subir nas montarias, acabavam enfiando o pé no jacá. É também sem acento agudo que ficou conhecido o escândalo político do “Corta-jaca”, que aconteceu no dia 26 de outubro de 1914, no palácio do Catete, no Rio de Janeiro, sede do governo federal. Na presença de diplomatas e da elite carioca, o tango “Gaúcho” – popularmente conhecido como “Corta-jaca” –, da compositora, instrumentista e maestrina Chiquinha Gonzaga (Francisca Edwiges Neves Gonzaga, 1847-1935), foi executado pela pintora, cantora, pianista e primeira-dama Nair de Teffé (1886-1981), esposa do então Presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca. O poeta, teatrólogo, músico e compositor maranhense Catulo da Paixão Cearense (1863-1946), amigo do marechal, havia observado que, nas festas palacianas, nunca se executava música nacional. Era, portanto, a primeira vez que esse tipo de música penetrava nos salões elegantes da elite, fazendo com que o fato seja considerado a alforria da música popular brasileira. E foi por sugestão de seu professor de violão, Emilio Pereira, que Nair de Teffé executou o tango “Corta-Jaca”, de Chiquinha Gonzaga. No dia seguinte, em sessão do Senado Federal, o senador Ruy Barbosa (1849-1923), adversário político do Presidente da República, comentou o acontecido: “Por que, Sr. Presidente, quem é o culpado, se os jornais, as caricaturas e os moços acadêmicos aludem ao Corta-Jaca? (...) A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque do cateretê e do samba (...)”. Até tu, Ruy! Aqui cabe o adágio – às avessas, claro: “Vale mais uma hora de tolo que a vida inteira de sábio.”

24.04.2022

Ler Mais

DAS ALAVANCAS DE BADEN-POWELL E SÃO JORGE

Lembro-me – ainda menino de tudo – do fascínio que foi improvisar, com um bastão de escoteiro, uma alavanca para mover do solo uma grande pedra. Aventura inútil. Hoje, ainda escoteiro, apenas tentaria subir ao alto da pedra e nada mais do que isso. Pela trilha mais fácil, içaria o meu dorso pesado até o melhor da noite de estrelas. Buscaria, se possível, infinitas estrelas no céu, como naquela noite de luz, acampado no leito perene do Rio Jaguaribe, no sertão do Ceará. Dormiria ali, ao léu, no abraço das alavancas e no braço das roldanas, o melhor da minha infância dos anos 1960. Fui lobinho e escoteiro. Meus irmãos Luiz e José, escoteiros, monitores e chefes. Meu pai Luiz Gonzaga, Comissário Regional do Ceará. Lembro-me do Jornalzinho KIM, informativo do Movimento Escoteiro, impresso num mimeógrafo a álcool. Meu trabalho era grampeá-lo! Folhas soltas, aparentemente perdidas, desde aquela época já me incomodavam e muito. Possivelmente um “toque” de encadernação ou outra mania qualquer. O Escotismo – movimento juvenil mundial, educacional, voluntariado, apartidário e sem fins lucrativos – foi fundado em 1907, pelo tenente-general do Exército Britânico, Baden-Powell (Robert Stephenson Smyth Baden-Powell, 1857-1941). Hoje, 23 de abril, é o Dia Mundial do Escoteiro. Foi escolhido em 1910, por Baden-Powell, por ser também o Dia de São Jorge, Patrono do Escotismo. Fui lobinho da Matilha Amarela – das aquelás Ana Maria e Gláucia de Alencar – e escoteiro da Patrulha Leão, do fraterno amigo, Antonio Mourão Cavalcante, meu primeiro chefe escoteiro. Meus irmãos Luiz e José estiveram no 1º Jamboree Pan-Americano, em 1965, na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. Quanto à pedra grande, ainda deve estar por lá –  com certeza. Equilibrada, única e em paz com a natureza, inerte, na trilha do Rio Jaguaribe – e dos bastões de Deus –, onde o caminho nos leva, sempre, aos céus.

23.04.2022


Ler Mais