Eu, então, 70 anos. Acordei, pontualmente, às 4h30, hora que nasci. Mamãe Nilce confirmou o horário. E mais: está escrito na Certidão de Nascimento, do cartório João de Deus, livro A-200, folha 398, sob número de ordem 118.997. Quem me acordou foi Homero, poeta épico da Grécia Antiga, autor - é o que dizem - dos poemas épicos Ilíada e Odisseia. Perguntei-lhe, surpreso, assim que abri os olhos: “Homero, é você ou estou possuído?”. Justifiquei-me, ainda: Muitos dizem que você nunca existiu, que não passa de um indivíduo histórico, um nome fictício, algo assim. Estudiosos são céticos sobre sua existência. Dizem que sua obra é uma IA – uma miscelânea épica – de textos de vários intelectuais.". Pergunta: O que você me diz? Já sei: deve ser um Déjà vu do filme Odisseia (2026), escrito e dirigido por Christopher Nolan, uma adaptação do poema Odisseia, estrelado por Matt Damon como Odisseu, o rei grego de Ítaca - ilha grega: berço da poesia – e sua longa e perigosa jornada de volta para casa após a Guerra de Troia. É isso? Homero riu. Confesso: ainda não tive tempo para assistir ao filme, muito recomendado. Inssiti: O que queres de mim? Homero – até surpreso – respondeu-me: “Dar-lhe parabéns!. Aniversário de 70 anos, né?" Agradeci, desconfiado. Na verdade sua resposta não me convenceu. Cutuquei, então: “Diga, meu poeta, abra o seu coração!” Homero, então, resfolegou uma profunda dor temporal: “Não gostei nada da minha foto que a IA postou na Internet. Pareço velho, sujo, com cara de pastel adormecido!” O que queres de mim? Insisti. Homero, então, respondeu-me, recitando versos da Odisseia: “Hóspede amigo, salve; o que precisas, Depois do teu repasto o saberemos”. Anotei. A palavra repasto, sugestiva, deu-me fome. Preparei, então: ovos mexidos, queijo ralado, tomatinho fresco, creme de leite, colher de sopa de azeite virgem e uma pitada de sal. Logo saberemos! Abri o Modo IA do Google e escrevi uma nota com o desabafo de Homero – um desagravo poético: "Eu, Homero, mesmo considerado um ser fictício, continuo vivo e profundo no tempo de muitos!” A IA respondeu: “Essa frase traz uma reflexão profunda sobre a individualidade dentro do coletivo e a nossa relação com a temporalidade.” Interessante. Mostrei, então, a resposta para o poeta Homero. Ele me olhou, balançando a cabeça, concordando e ao mesmo tempo discordando da temporalidade. Parecia triste, confuso. Protestou, então: “E quanto a minha cara de pastel?”. Respondi: "Coisas da IA generativa!" E como dizia o meu saudoso Pai Luiz: "Amanhã eu resolvo o seu caso!"
João Scortecci