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PETRICOR E O CHEIRO DE POESIA DA TERRA

Petricor, sangue dos deuses, aroma terroso que a chuva provoca ao cair em solo seco. O termo foi criado em 1964 por dois pesquisadores australianos, Bear e Thomas, para um artigo na Revista Nature. No artigo, os autores descrevem como o aroma deriva de um óleo produzido por certas plantas durante períodos de seca, que é então absorvido pela terra e por pedras argilosas. Durante a chuva, o óleo desprende-se no ar - juntamente com outro composto - a geosmina - composto orgânico produzido por microrganismos como bactérias e fungos - produzindo um cheiro característico. Em 2015 cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) utilizaram câmeras que gravam em alta velocidade para entender melhor como o odor é liberado quando pequenas gotículas de água colidem com a terra. O nariz humano é sensível à geosmina e aos cheiros da terra. Os humanos apreciam o cheiro da chuva, o perfume das palavras de amor, os segredos de Petricor, da deusa que sangra lá fora e chove poesia. 

João Scortecci


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QUEM MORRE DE VÉSPERA É PERU

No início dos anos 1980, o economista Eugênio Gudin (Eugênio Gudin Filho, 1886 - 1986), era, até então, o nome do diretório acadêmico da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Mackenzie e nada mais. O Google ainda não existia (criado, bem depois, no ano de 1998) e as enciclopédias da época, as disponíveis, Barsa, Delta-Larousse e outras, não gostavam muito de publicar biografias de gente viva, mesmo tratando de pessoas conhecidas, populares e famosas. Um risco! Eugênio Gudin - considerado um economista liberal - viveu 100 anos e três meses. Foi ministro da Fazenda entre setembro de 1954 e abril de 1955, durante o governo de Café Filho e diretor-geral da “Great Western of Brazil Railway”, por quase trinta anos. Em 1944, o então ministro da Educação, Gustavo Capanema Filho (1900 - 1985), designou Gudin para redigir o Projeto de Lei que institucionalizou o curso de economia no Brasil. Nesse mesmo ano - 1944 - foi escolhido delegado brasileiro na Conferência Monetária Internacional, em Bretton Woods, nos Estados Unidos, que decidiu pela criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (IBRD), instituição ligada à ONU com o objetivo de promover o desenvolvimento econômico e social. Em 1983, uma emissora de TV, em cadeia nacional, erroneamente, noticiou a sua morte. A notícia era falsa! A emissora pediu desculpas, horas depois, mas já era tarde. A notícia espalhou-se, rapidamente. Professor Gudin viveu, ainda, mais três anos e alguns meses, batendo a incrível marca dos 100 anos. Chico Anysio, Renato Aragão, Silvio Santos, José Carlos Garbuglio, Gugu Liberato, Ratinho, Vanderlei Luxemburgo e outros, também passaram pelo constrangimento de morrerem antes da hora. Comigo aconteceu uma única vez e a experiência, confesso, não foi nada agradável. No dia 22 de março de 2013, no melhor dos meus 53 anos de idade, atendi dezenas de ligações na editora perguntando sobre o local do meu velório, do quê eu havia morrido, etc. Infarto? Acidente de carro? Perguntavam. Passei o dia - ao telefone - dizendo que estava “vivíssimo da silva”. As duras penas, descobri que quem havia morrido, de fato, havia sido o escritor, jornalista e acadêmico João de Scantimburgo (João de Scantimburgo Filho, 1915 - 2013). Caos total! O que eu aprendi - de inútil - com o mal-entendido: desmentir algo, mesmo em tempos de Internet e redes sociais, dá muito trabalho. “Ué, você não morreu?” Mas, o pior, aconteceu no sábado, na manhã do dia seguinte, da minha - pseudo - morte. Uma mulher - até hoje não identificada - ligou na minha residência e disse: “Já foi tarde!” Depois, desligou o telefone. Isso, talvez, explique a minha vontade de continuar vivendo, desbragadamente. Aqui com os meus ossos: quem morre de véspera é peru!    

João Scortecci


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FIGUEIREDO PIMENTEL E A "BELLE ÉPOQUE" CARIOCA

O poeta, cronista, jornalista, tradutor e autor de literatura infantil Alberto Figueiredo Pimentel (1869 – 1914), nasceu em Macaé, conhecida como a Capital Nacional do Petróleo, município do estado do Rio de Janeiro, distante, aproximadamente, 190 quilômetros da capital. Figueiredo Pimentel manteve por muitos anos, desde 1907, uma seção chamada “Binóculo” na "Gazeta de Notícias", periódico carioca, fundado por Manuel Carneiro, José Ferreira de Araújo e Elísio Mendes, que circulou de 1875 e 1956, chegando a ser um dos principais jornais da capital federal durante a Primeira República. Estreou na literatura, em 1893, com o livro de poesias, de nome “Fototipias”, no sentido de fotografias, imagens, instantâneos, clichês, retratando, então, a “Belle Époque” carioca. É autor da máxima: “O Rio civiliza-se”, slogan que até hoje, ilustra, o espírito carioca. Figueiredo Pimentel obteve grande sucesso entre leitores e leitoras, ditando moda. É considerado o primeiro cronista social da capital. Fototipia na artes gráficas é um processo fotomecânico de impressão que utiliza uma chapa de vidro coberta de gelatina. A técnica foi bastante utilizada nas oficinas de artes gráficas, no início do século XX. Figueiredo Pimentel, publicou, ainda, os livros: “Histórias da avozinha” (conto, 1952); “Histórias da Carochinha” (1894); “Livro mau” (poesia, 1895); O aborto, estudo naturalista (romance e novela, 1893); “O terror dos maridos” (romance e novela, 1897); “Suicida” (romance e novela, 1895) e “Um canalha” (romance e novela, 1895). Morreu jovem, aos 45 anos de idade, no dia 5 de fevereiro de 1914.

João Scortecci



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AFONSO SCHMIDT, REVISTA PAN E A LITERATURA INFANTIL DOS ANOS 1930

O jornalista, contista e romancista Afonso Schmidt (1890 – 1964), um anarquista de carteirinha, nasceu na cidade de Cubatão, litoral de São Paulo, em 29 de junho. Fundou ainda jovem o jornal Vésper e fez parte da redação dos importantes periódicos libertários, A Plebe e A Lanterna, ao lado de figuras lendárias do movimento anarquista brasileiro como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori. Escreveu para os jornais Folha e O Estado de S. Paulo. Na cidade do Rio de Janeiro, fundou o jornal Voz do Povo, que veio a se tornou o órgão de imprensa da Federação Operária. Foi preso – várias vezes - por expressar o que pensava e combateu o fascismo e o clericalismo, através de panfletos ou de livros, peças teatrais e artigos de jornais. Recebeu os prêmios: Machado de Assis (1942) e Prêmio Juca Pato (1963). Sua obra mais conhecida é “São Paulo de Meus Amores”, seleta de crônicas sobre a cidade, lançada em 1954, nas comemorações dos 400 anos de São Paulo. Publicou mais de 40 livros, entre eles "O Menino Filipe" (romance), "A Vida de Paulo Eiró" e "São Paulo de meus Amores" (crônicas), "O Tesouro de Cananéia" (contos) ou "A Primeira Viagem" (autobiográfico). Afonso Schmidt, também, durante alguns anos, foi colaborador da Revista Pan (1935 - 1945), semanário, de propriedade do meu avô materno, o editor e gráfico José Scortecci, assinando a coluna “A Nossa Estante” sobre livros e tendências do mercado livreiro. Em 26 de dezembro de 1935, Ano 1 – Número 1 – página 40, de PAN, escreveu: “Estamos no período em que a literatura para crianças alcança a maior difusão. Em São Paulo, principalmente, a venda desses livros apresenta aspecto bastante animador. Há autênticas feiras de livros de histórias (...). Cada vitrina de livraria é, com certeza, um deslumbramento para os pequenos leitores. Observa-se, porém, que esse gênero literário tão delicado, tão fino, onde há mundos novos a explorar, não encontra facilmente adeptos (...). Os que produzem há vinte anos são os que ainda hoje produzem, salvando minguadas exceções. O fundo da literatura infantil ainda é constituída pelos velhos Perrault, Lebrun, Conego Schmidt e o formidável Andersen. A literatura para criança parece alheia às leis da oferta e da procura (...). Afonso Schmidt morreu no dia 3 de abril de 1964, aos 73 anos de idade. 

João Scortecci


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PAVILHÕES AURICULARES DO CAPETA

Outro dia – lendo um poema vampiresco de um vate da área da medicina – encontrei a expressão “pavilhão auricular”, parte externa e cartilaginosa da orelha. Quando criança – isso lá no Ceará dos anos 1960 – chamávamos “pavilhão auricular” de “caracol do capeta”. Algo assim. Mamãe Nilce adora puxá-las e torcê-las, sem dó ou piedade. Menino danando! Dizia sempre. Puxava e depois, docemente, ameaçava: “No banho, lava as orelhas!” Um dia puxou com tanta força as minhas orelhas que fiquei mouco e com zumbido nas ideias. Mamãe, então, zelosa e preocupada, levou-me num otorrino, da Fundação J. Macedo, onde papai Luiz trabalhava, na época. “Doutor o menino ficou surdo!” Disse. O médico – especialista em pavilhões, caracóis e música sertaneja – pegou uma pinça e puxou de dentro dos meus ouvidos chumaços de algodão. “Pronto” Disse. Aqui confesso: desde então, assustado, passei a lavar – dia sim, dia não – os meus caracóis auriculares. É dessa época, também, o uso regular, nos pavilhões do capeta, de hastes flexíveis, cotonetes Johnson & Johnson. Hoje, conferindo a lista dos aniversariantes do dia, vi que Michael Tyson, um dos maiores boxeadores peso-pesado de todos os tempos, nasceu no dia 30 de junho. Parabéns! Tyson - é o que dizem - é fissurado, apegado - em orelhas. Tarado mesmo! Lembro do dia, em 1996, que mordeu e arrancou um pedaço da orelha do também boxeador, Evander Holyfield. Alguém na arena gritou: “Engole, engole! E Tyson, em transe, cuspiu fora, frutando milhões de vampiros telespectadores que assistiam a luta. Histórias não faltam! No manual “Caracóis do Capeta”, a máxima: “Morder e puxar, depois assoprar e cuspir!”. A título de curiosidade, em termos técnicos, orelhas normais, não vandalizadas, medem de 5,5 a 6,5cm de comprimento x 3,0 x 3,5cm de largura. E com amor: pior ainda!

João Scortecci



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O ASTERÓIDE 5020 E AS LEIS DA ROBÓTICA

Gosto de ler tudo sobre robôs. Mania antiga, desde a época que li, pela primeira vez, o livro o "Eu, Robô", coletânea de contos do escritor russo Isaac Asimov (1920 – 1992), mestre da ficção cientifica. É dele as quatro Leis da Robótica: 1 - Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal; 2 - Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que entrem em conflito com a Primeira Lei. 3 - Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis e 4 - Um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal. Hoje no UOL dei de cara com uma foto de um robô sorridente, experiência japonesa, coberto com pele viva, criado a partir de células humanas, aplicada a um robô para fazê-lo sorrir de uma forma “realista”, mas assustadora. Os pesquisadores da Universidade de Tóquio usaram um "gel carregado de células formadoras de pele". Especialistas em robôs bio-híbridos - é o que diz a matéria do UOL - esperam que um dia esta tecnologia seja utilizada para criar andróides com aparência e capacidade similares aos humanos. Acho - opinião de poeta e nada mais - que os robôs deveriam ter - sempre - aparecia de robôs. Máquinas! Sinto que a “coisa” anda indo por caminhos estranhos e logo teremos robôs iguais e semelhantes a humanos. Outro dia conversei com Isaac Asimov sobre o assunto. Propus, até, uma quinta Lei da robótica. Um robô não pode ter feições humanos! Algo assim. Asimov fez cara feia, mais prometeu pensar no assunto. Quando? Perguntei. Depois que voltar de férias do espaço, do seu asteróide 5020. Aqui com as minhas inquietações: acho que Elon Musk, o bilionário dono do X, anda copiando as tentações de Asimov. Em tempo, pelo WhatsApp: Asimov esquece tudo!      

João Scortecci


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OLEGÁRIO E A DEFESA QUE NINGUÉM PASSA

Tornei-me Palmeirense em 1972, no feriado do dia 1º de maio, quando conheci numa loja de discos da Rua das Palmeiras, Santa Cecília, quase em frente ao Lord Palace Hotel, um grupo de jogadores da Sociedade Esportiva Palmeiras. Eram eles: Cesar Maluco, Edu Bala, Nei e o zagueiro Luis Pereira. Eles estavam “concentrados” no hotel, aguardando o jogo contra o time do Guarani Futebol Clube, de Campinas, pelo Campeonato Paulista. Na época, recém chegado em São Paulo, Eu, Maria Esther Mendes Perfetti (hoje editora do selo infantil Pingo de Letra da Scortecci) e seu irmão Eduardo Perfetti, já falecido, frequentávamos o grupo de jovens da paróquia da Igreja de Santa Cecília e a loja de discos, era parada obrigatória antes e depois das reuniões. "Vocês vão ao jogo?" Pergunta do centroavante César Maluco para o nosso grupo. “Vamos!” Respondi. Quem disse isso? Eu. Tinha, na época, 17 anos de idade e São Paulo era um incrível mundo de novidades e oportunidades. Naquele dia inesquecível, tornei-me Palmeirense e fui, pela primeira vez, assistir a um jogo de futebol no Parque Antártica. O Palmeiras ganhou o jogo de 1 x 0, gol de cabeça do atacante Madurga, aos 20 minutos do segundo tempo. Estádio lotado. Sentamos no lado leste do estádio, hoje Allianz Parque, entrada pela Rua Francisco Matarazzo. Coincidência ou não, no mesmo lugar, aproximadamente, onde hoje, depois de 52 anos, tenho cadeira. Em campo fiquei de olho num jogador incrível, que parecia flutuar no gramado. Mágico. Divino. Seu nome: Ademir da Guia. Ao seu lado, incansável e marcador, Dudu (Olegário Tolói de Oliveira, 1939 – 2024). A dupla marcou a história da primeira academia de futebol do Palmeiras. Hoje, sábado, 29 de junho, acordo e fico sabendo da morte, aos 85 anos de idade, do Dudu, o Olegário. Na foto Dudu e Ademir. Acho que eles nasceram assim: únicos e eternos. Juntos! 

João Scortecci


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O PÔSTER DA MODELO “ROSE DI PRIMO” DO CAMBUCI

A modelo Rose Di Primo (Rosimary Souza Primo) tem - praticamente - a minha idade. Ela nasceu em 1955 e eu, no ano de 1956. Não a conheço pessoalmente. O ator, diretor e produtor David Cardoso (1943), conhecido no cinema brasileiro como o Rei da “Pornochanchada” ficou de nos apresentar, isso durante uma filmagem de rua, no Bar Biroska, de propriedade da amiga e empresária da noite, Lilian Gonçalves, filha do inesquecível Nélson Gonçalves. Não deu certo. Era dia de uma “externa” nas esquinas das ruas Canuto do Val e D. Veridiana, em Santa Cecília. David Cardoso estava enlouquecido e pelo pouco que entendo de filmagens “nada estava dando certo”. Guardo num depósito da editora um “caminhão” de “histórias”, que venho acumulando desde criança. Vez por outro vou lá e volto no tempo. Coleciono de tudo: documentos, livros, diários, convites, selos, maços de cigarro, fotos, álbuns de figurinhas, ingressos, A epopeia do Tri (Copa de 1970, no México), revistas Status, Playboy, O Cruzeiro, recortes sobre a vida do John Kennedy (1917 – 1963), chegada do Homem à Lua, flâmulas e o pôster da inesquecível e belíssima Rose Di Primo. Ela, de biquíni, pilotando uma moto. A foto da deusa – paixão de uma geração inteira - correu o mundo e foi capa de várias revistas. Ganhei o pôster de um “borracheiro” do Largo do Cambuci. Pneus de carro, naquela época - tinha um Passat branco -, furavam “muito”. Aproveitava o tempo de espera do conserto do pneu para ficar "babando" o pôster da Rose Di Primo. Lembro-me, que ela, uma vez, sorriu e piscou o olho pra mim. Raimundo, o dono da borracharia, preocupado com a minha paixão, véspera do dia do meu aniversário, disse-me: “Leva o pôster. É seu!” Foi o que fiz.

João Scortecci


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BILINGUISMO DE ORWELL E O MAIOR LIVRO DO MUNDO

Bilinguismo: o que é isso? A definição é polêmica. Os dicionários o definem como a qualidade “daquele que fala dois idiomas”. Hoje, estudiosos, são unânimes em afirmar: bilinguismo é muito mais que isso e deve ser “entendido” como o indivíduo que - concomitante - é fluente em dois ou mais algoritmos, em todos os campos do conhecimento. Lendo sobre bilinguismo literário, encontrei a seguinte definição: Bilinguismo é a capacidade de exercer tanto a leitura rápida cobrada pelos meios digitais, quando for o caso, a leitura profunda, exigida para pensar direito e fruir de tudo aquilo que um bom texto oferece. Um ser humano - médio - recebe hoje nos vários dispositivos que acessa, aproximadamente, 34 gigabytes de informação num único dia, o equivalente a um romance de 100 mil palavras. A título de curiosidade, o livro “1984”, do escritor, jornalista e ensaísta inglês George Orwell (Eric Arthur Blair, 1903 - 1950), possui 65 mil palavras. Quase, portanto, 1,3 de 1984, por dia. 44,2 gigabytes de George Orwell, num piscar de olhos. O maior livro impresso do mundo foi publicado Alemanha, “O livro do universo mais denso” (“Das buch des dickste universum”), editado pela Zeitgeist Media GMBH, que reúne textos e desenhos feitos por crianças num concurso realizado pelo Ministério Federal dos Transportes da Alemanha. O livro mede quatro metros, tem 50.560 páginas e pesa 220 quilos. Detalhe: a obra pode ser encomendada em qualquer livraria da Alemanha, pela bagatela de 9.999 Euros. Na cotação do dia (25.06.2024): 5,78 x 9.999 = R$ 57.794,22 Reais.

João Scortecci


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PAPAI LUIZ, AS QUADRILHAS JUNINAS E O CEARÁ DOS ANOS 1960

O meu primeiro amor foi platônico. Quando a vi, pela primeira vez, meu coração subiu feito balão de São João. Tinha 11 anos de idade. Apaixonei-me, de vez, quando o cupido nos colocou de par, para dançarmos juntos, a quadrilha. “Eu?” “Você mesmo.” Foi assim. Quadrilha – na infância dos anos 1960 no Ceará – era mania e ainda é, nos meses de junho e julho, no Nordeste brasileiro. Trejeitos: Camisa xadrez, lenço no pescoço, remendos nas calças, chapéu de palha e bigodinho feito com carvão de rolha queimada. Pronto. Papai Luiz era o organizador de tudo. Comandava os ensaios, gritava a quadrilha, cuidava da fogueira, imprimia no mimeógrafo a álcool os convites e a programação da noite. Animadíssimo! Fogueira, bandeirinhas, fogos de artifício, balões e muita comida: milho verde cozido, paçoca, pé de moleque, canjica, arroz doce, batata doce, pudim de leite, pamonha e aluá de abacaxi. A quadrilha é uma dança folclórica – dançada em pares. A origem da quadrilha está relacionada à forma de dançar do “country dance” da Inglaterra, por volta do século XVIII. Com a Guerra dos Cem Anos, essa maneira de dançar foi compartilhada na França, região da Normandia. A chegada da quadrilha ao Brasil ocorreu por meio tanto da vinda da Família Real Portuguesa, em 1808, quanto por escravizados europeus, que vieram ao Brasil, após a Lei Eusébio de Queirós (lei n.º 581/1850), promulgada no Segundo Reinado e que proibia a entrada, no Brasil, de africanos escravizados. A quadrilha segue um roteiro fixo – até hoje o mesmo, com poucas modificações – e encena a realização de um casamento forçado, pela honra da moça, desonrada e grávida. Personagens da quadrilha: noivos, pais dos noivos, padrinhos, delegado de polícia, padre e convidados. Depois do casório, sempre com o sermão do padre, começa, então, a festa, com a dança e a comilança: apresentação, entrada no salão, aos pares, noivos na frente, seguidos de pais, padrinhos, casais, delegado e, no final da fila, por último, o padre. Passos: “caminho da roça”, “cumprimento”, “olha a chuva”, “damas ao centro”, “coroa de rosas”, “coroa de espinhos”, “olha o túnel”, “olha a cobra”, “caracol”, “cavalinho” e “grande roda”. Meu pai, Luiz, deixou saudade e grandes lembranças. Na família, tento substituí-lo, manter a tradição. Sou eu hoje na família quem "grita" a quadrilha e, travestido de padre, prego aos pares o “Sermão da Moita”, encruzilhada do amor onde tudo um dia começou: atrás da moita! Quanto ao meu primeiro amor: disse-lhe: Eu gosto de você! E ela, ruborizada, saiu correndo em disparada, pulou a fogueira, subiu no balão,  e nunca mais voltou. Escafedeu-se!

João Scortecci


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GALILEI E A ERUDIÇÃO DA MENTIRA

Acordei - solenemente - renegado de crenças e opiniões. Eu e o astrônomo Galileu Galilei. O que dizia mesmo o bilhete do Santo Ofício? Perguntei. Para eu descrer e abjurar das ideias, algo assim. De todas elas? Sim. De todas! E de uma em especial. De que a terra não é o centro do universo. É negar - solenemente - ou então morrer queimado na fogueira das vaidades. Galilei, você está abduzido? Possuído? O que mais você disse na audiência? Nada de mais, apenas bobagens. Disse que a Terra gira ao redor do sol e que ela não é o centro de nada, além da desgraça humana. Não acredito! Galilei, você é um exibicionista. Um incontido!  O que faço agora? Perguntou-me. Quer um conselho de poeta: vai lá e descrer tudo! Diga que estava doente, com febre. Com dengue, algo assim. Mentir está - sempre - na moda! Ou melhor: diga que é tudo culpa da sapiência dos livros. Sapiência dos livros? Sim. Pega carona na onda da vez: censurar autores e livros! Virou febre. E se o estratagema não funcionar? Você morre na fogueira, simples assim! Vira carvão! Diga que foi excesso de conhecimento inútil. Cansaço. Bebedeira de vinho ruim, qualquer coisa. Tentação do capeta! Diga-me: Quer salvar o pescoço ou não? Quero! Então vai lá e alega loucura temporária. E mais: nada de assinar delação premiada! E depois “rasga” o bilhete e some, solenemente, do mapa. Abjura! Abjura! Que horas são? 4h15. Cedo, ainda. Deita e dorme. 

João Scortecci


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CACOETES: NÃO HÁ NADA RUIM QUE NÃO POSSA PIORAR

O tique nervoso ("cacoete") é um movimento súbito, rápido, inesperado e repetitivo. Os tiques podem persistir durante toda uma vida – é o meu caso - e ser um obstáculo profissional e social para uma pessoa. O movimento decorre de contrações musculares que podem se manifestar de várias formas, tais como: piscar sem propósito, fazer careta, torcer o pescoço e fungar o nariz. Listei quatro deles – a lista é grande – apenas aqueles que me afetam até hoje, desde a adolescência. O primeiro deles – torcer o pescoço – apareceu quando eu tinha pouco mais de dez anos de idade. Mamãe, então, levou-me ao médico, um renomado especialista em cacoetes. Um curador de cacoetes! Algo assim. Quando entramos no consultório, percebi, de imediato, que o médico tinha um cacoete, deveras interessante. Para quem não sabe cacoete pega, igual vírus. Confesso: pensei em “levar” ou “compartilhar”, depois, pensando melhor: desisti. O médico abanava os braços como uma ave, batia os dois braços, mais o direito, tentando – talvez - alçar voo. Mamãe Nilce – assustadíssima – quis dar meia volta. Eu que insisti e pedi para ficarmos. Gostei dele! Mamãe, então, listou o meu histórico de cacoetes. Nem precisava: eu já havia torcido o pescoço meia dúzia de vezes, e ele – Dr. Maurílio – batido asas, três ou quatro vezes, no mínimo. Mamãe Nilce falou feito uma matraca, sem parar, nervosa. Uma pilha. Depois, cansou. Calou-se. Dr. Maurílio, então, pacientemente, examinou-me: olhos, nariz, ouvidos, boca, língua e pescoço. Disse: “Aparentemente está tudo em ordem com o moço”. Explicando: “Os cacoetes são um mistério. O tempo dirá o futuro!” Dr. Maurílio recomendou-me, então, praticar esporte, dormir 8 horas por dia, boa alimentação e manter a cuca fresca. Mamãe Nilce perguntou: “Nenhum remédio?” “Não.” Até hoje os tiques não sumiram, e mais: outros três apareceram do nada, antes de completar 20 anos de idade. Na saída do consultório mamãe Nilce protestou: “Dr. Maurílio, o cacoete do menino é muito feio: fica levantando os ombros, torcendo a cabeça, estalando o pescoço, horrível.” Dr. Maurílio, sabiamente, batendo asas, já impaciente com minha mãe, aconselhou-nos: “D. Nilce, o cacoete do menino não é dos piores.”. Um conselho de quem convive com o problema: “Livrar-se de um cacoete é sempre algo perigoso!”. “Corre-se o risco de trocar um cacoete aceitável por outro muito pior!” Sentenciou. “Veja o meu caso: eu estalava os dedos e puxava as orelhas. De tanto a minha mãe implicar, comecei,  do nada, da noite para o dia, a bater os braços, feito uma galinha pondo ovos.” Justificou. Mamãe puxou-me pelo braço – à força –, concluindo, aos céus: "Esse médico é louco!" E fomos embora, pisando forte. Lendo sobre o assunto a explicação é que os cacoetes não têm origem apenas em fatores psicológicos. Existe uma associação entre fatores genéticos e psíquicos e, na maioria das vezes, costumam surgir associados a sintomas de ansiedade, depressão, problemas de atenção, concentração e hiperatividade. Hoje, quase 60 anos depois daquela consulta, administro – carinhosamente – os meus quatro cacoetes: piscar os olhos, fazer careta, torcer o pescoço e fungar o nariz. Gosto deles! Desde então, sigo, religiosamente, os conselhos do Dr. Maurílio, um especialista entendido em cacoetes: “Não há nada tão ruim que não possa piorar.”

João Scortecci


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SHERLOCK HOLMES E O POETA INCOMPLETO

Mesa com um pé pequeno, torto ou quebrado: não se sustenta! Cai. Mesas e cadeiras são ferramentas poderosas: acomodam, amparam, acolhem, ajudam, sempre. Não gosto de mesas vazias, sem história alguma. Acho estranho: incomoda, muito. Vou lá - desavisado de tudo - e coloco algo em cima. Depois sossego! No quadro 1 da estampa temos a TV soberana, espaçosa, reinando no espaço. Gosto de TVs, nada contra. O livro - coadjuvante – aparece como peça de sustentação, de equilíbrio e serviço útil. Funciona, Nada contra, também. Já fiz isso algumas vezes. No quadro 2 da estampa a cena é outra. Inverte-se! A TV vira pé de mesa e o livro, então, passa a ser o personagem principal da trama. Aparece aberto, poderoso, único, ocupando todo o centro da mesa. Mensagem subjetiva, talvez: Desliguem a TV e leiam o livro! Algo assim. Nada contra, também. Para quem não sabe, vivo do negócio do livro: lendo, escrevendo, editando, imprimindo e comercializando. Faço isso desde 1978. Adoro livros: lidos, não lidos, renegados, salvos, recolhidos, empilhados, sujos e pedidos. Meu amor por eles é canino: por mim levaria todos para o meu mundo! O quadro 2, confesso, deixou-me inquieto, perturbado, olhando com a teimosia de um vate inconformado com tudo que vê. Nada contra a estampa. Longe disso. O coração, então, resfolegou: pena pela mesa que teve outro pedaço de sua perna amputada, dor pela TV - traída, enganada e humilhada - e, mais do que tudo: angustia pela solidão do livro. Soberba? Talvez. Lendo o livro “O incrível livro de enigmas de Sherlock Holmes”, coletânea inspirada no maior detetive do mundo, do Dr. Gareth Moore (Pé de Letra Editora), encontrei - abri o livro e li - uma possível “solução” para resolver o engodo. Usando a imaginação da cabeça: abri a caixa de ferramentas da bike, catei dentro uma extensão de 3 metros e liguei, simples assim, a TV na tomada. Relaxei, confesso. Olhando depois, um imaginário quadro 3, a cena ficou assim: Mesa funcional, acolhedora, gentil, livro aberto, convidativo, interessante, pedindo para ser lido e TV ligada, possivelmente num canal de futebol. Enigma para Sherlock Holmes: foi encarar os olhares - passivos, frios e indiferentes - do marcador de páginas, parecia uma serpente venenosa de língua no ar e da caneca de café, cuspindo fumaça. Faltou um óculos. Algo mais? Tentei argumentar explicando, inutilmente: vocês são coadjuvantes, ilustram a cena, completam o poema, intelectualizam o espaço. De nada adiantou. Então o enigma: "Watson, um experimento mental para você - disse Holmes, um dia. Quero que você use sua imaginação e imagine-se em uma ilha deserta. Uma remota, onde não há chance de alguém vir resgatá-lo. E você tem que descobrir como escapar." Solução do enigma: "Você simplesmente para de imaginar!" Foi o que fiz. 

João Scortecci              


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OS RENEGADOS DE TREVISAN

 Todos nós conhecemos um João, um Luiz, um José, um Francisco e um Joaquim. Isso eu afirmo e ainda passo recibo, se precisar. Um detalhe: Luiz com “Z”. O nome “Joaquim” tem origem hebraica e seu significado é "Deus estabeleceu" ou "aquele que Deus elevou". A primeira versão do nome em português surgiu em Portugal, por volta do século XVIII. No Brasil, hoje, existem, cerca de 8.566 pessoas registradas com esse nome. Lendo a biografia do “Vampiro de Curitiba”, o talentoso e reservadíssimo curitibano Dalton Trevisan (1925 –     ) que no dia de ontem, 14 de junho, completou 99 anos de idade, encontrei referências sobre a “Revista Joaquim”, de cunho literário publicada entre os anos de 1946 e 1948 (21 edições) por Dalton Trevisan, Erasmo Pilotto e Antônio P. Walger. A escolha do título e do subtítulo da revista – “Homenagem a Todos os Joaquins do Brasil” –, tinha dupla intenção: popularizar o veículo e fornecer ao leitor um indicativo da principal característica do periódico: esconder as autorias de determinadas ideias. A revista teve colaboradores do porte de Poty Lazzarotto, Temístocles Linhares, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Wilson Martins, Guido Viaro, Otto Maria Carpeaux, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Sergio Milliet, Lêdo Ivo e Mario Pedrosa. Também publicou inéditos em português de Louis Aragon, Tristan Tzara, T.S. Elliot, Garcia Lorca, Rainer Maria Rilke, André Gide e Jean Paul Sartre. Dalton Trevisan – não o conheço pessoalmente – é autor premiadíssimo: Prêmio Jabuti (1960, 1965, 1995 e 2011), Troféu APCA (1976), Prêmio Portugal Telecom de Literatura (2003), Prêmios Literários da Fundação Biblioteca Nacional (2008, 2015), Prêmio Camões (2012), Prêmio Machado de Assis (2012) e Prêmio do Negrinho (2013). É autor de mais de 50 livros publicados e dois outros, renegados: “Sonata ao Luar” (1945) e “Sete Anos de Pastor” (1948). Detalhe oportuno: na “Revista Joaquim”, número 21, de dezembro de 1948, o escritor, pintor, crítico de arte e tradutor Sérgio Milliet (Sérgio Milliet da Costa e Silva, 1898 – 1966) escreveu crítica sobre um dos livros renegados de Dalton Trevisan: “Sete Anos de Pastor”. Aqui com os meus nervos: talvez, também, renegue dois ou três dos meus livros. Existe um perigo: ninguém esquece de lembrar dos renegados. Para muitos, livros "esgotados" e nada mais.  

João Scortecci  

  

 

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TOUCINHO E BANHO DE BACIA, A LÁ MATUSALÉM

Meu avô paterno, João Batista de Paula, o Batista da Light, nasceu no dia 26 de março de 1895, na cidade de Quixadá, interior do Ceará. Faleceu no dia 16 de fevereiro de 1966, uma quarta-feira, três dias antes do começo do Carnaval daquele ano. A família enlutada, fugindo da folia do Carnaval, viajou para a Prainha, praia do município de Aquiraz, distante 30 km de Fortaleza. Batista, como gostava de ser chamado, tinha, então, 71 anos de idade e desde os 68 anos, sofria de demência, doença de Alzheimer. Diziam, na época: Muito toucinho e farinha! Prato diário do meu avô. Eu tinha, na época, 10 anos de idade. Sua morte "parou" a cidade. Era uma pessoa querida, respeitada e admirada. Foi, durante muitos anos, o Superintendente da Light no Nordeste. Vovô Batista foi o meu primeiro velório e vê-lo, no caixão, na mesa da sala de jantar, marcou-me profundamente. Eu o amava. Já “caduco”, nos divertíamos muito. Gostava de um "rabo de saia" e suspirava sempre que via na calçada da rua, uma mulher de bunda tanajura. Gritava: “Olha lá a Raimunda: feia de cara e boa de bunda!” Risos. Batista era craque na tabuada - mesmo esquecido do resto. Pergunta: "Vovô é verdade que você nasceu no século passado?" Verdade, respondia. "Eu nasci no final do século XIX, namorei a Princesa Isabel e joguei gamão com o jovem do Matusalém!” Risos. Matusalém? "Ele mesmo. Aquele moço que viveu 969 anos, segundo a Bíblia. Explicava. E nós, inocentes, acreditávamos em tudo. Outro dia alguém - do nada - perguntou-me: “João, você já tomou banho de bacia?”. "Sim". Respondi. Foi a “deixa” para voltar no tempo, no melhor dos anos 1960. Na água da bacia - azeda e suja - lavávamos os pés, as orelhas, as axilas, a bunda e a piroca. Lembro-me da festa que era - pelados e velozes - irmãos, irmãs, primos, primas, todos, na fila indiana para o banho de bacia. A água, suja e fedorenta, depois, era despejada, aos goles, no ralo de ferro do banheiro. Descia suspirando, gemendo, fazendo um  barulho medonho, dos infernos. Descia até o silêncio do fim e lá ficava. Não conheci Matusalém, o jovem de 969 anos de idade e não azucrinei os pecados de Isabel - de Tereza, talvez. Eu nasci na metade do século XX e isso - vez por outra - me assusta.    

João Scortecci



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FORMIGAS, GRILOS E FOGUETES DE MADEIRA-BALSA

O projeto do Instituto Militar de Engenharia do Exercito Brasileiro chamado “Felix I” ("Operação Miau”), liderado pelo Tenente-Coronel Lage (Manoel dos Santos Lage), com a colaboração dos cientistas Carlos Chagas Filho e César Lattes, que visava, em 1959, levar um gato de nome “Flamengo” ao espaço, felizmente, teve que ser cancelado, devido a pressões de grupos defensores de animais. O foguete tinha um diâmetro externo de 400 mm, 4,3 metros de comprimento e uma massa total de 350 kg, um único estágio, movido com pólvora, programado para atingir uma velocidade máxima de 1950 m/s. A idéia de enviar um gato para o espaço foi do médico, professor, acadêmico e diplomata Carlos Chagas Filho (1910 – 2000), fundador do Instituto de Biofísica da Universidade do Brasil e filho do médico sanitarista Carlos Chagas e de Íris Lobo Chagas. A idéia de “jirico” por sorte não vingou. Não sou especialista, longe disso, mas inteligente o suficiente para “imaginar” que teríamos no final da odisseia, um gato “torrado”. Na infância, isso no Ceará dos anos 1960, Eu e meus irmãos Luiz e José, construíamos foguetes com madeira balsa, replicas de modelos russos, inspirados no espírito do cosmonauta Yuri Gagarin (1934 - 1968). O foguete de madeira-balsa tinha cabine para um astronauta, quase sempre ocupada com por uma formiga tanajura ou um grilo. Lacrávamos a cabine do foguete com Band-Aid. Aqui cabe uma observação: antigamente o adesivo do Band-Aid era cheio de furinhos, o que possibilitava condições para o astronauta respirar e não morrer sufocado. As tentativas de voo foram muitas - dezenas, talvez - e quase sempre, no final, depois do resgate, o astronauta retornava morto. Era eu quem acendia o rastilho de pólvora. 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0. Fogo! Luiz, o irmão mais velho, o projetista do foguete e José, o irmão do meio, o carpinteiro. Apenas um astronauta sobreviveu: uma formiga tanajura. Quando foi retirada da cabine do foguete, parecia uma bolinha de cera. Meu irmão Luiz cutucou-a com a ponta de um lápis e ela, milagrosamente, saiu andando, inteira, perdida, na direção do tempo e da memória sideral.     

João Scortecci


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OS GATOS SEM RABO E OS PRIMÓRDIOS DA GRÁFICA SCORTECCI

Abri a Scortecci Editora em 1982. Imprimia livros desde 1978, quase todos para o Grupo Poeco (1978 – 1982), na De Sá Copiadora, pequena gráfica localizada no centro da cidade de São Paulo, na Rua Francisca Miquelina. Foi indicação do italiano Tommaso Franzese, amigo e padrinho da editora. Em 1984, a De Sá Copiadora selou um contrato com a GM – General Motors, para imprimir sua lista de preços, e eu, por tabela, dancei e perdi o fornecedor. Na época, foi um susto! De 1984 até 1986, trabalhei com uma gráfica da Avenida do Estado (que não deu certo). Depois – por indicação da De Sá Copiadora –, trabalhei com um impressor de nome Lamartine, aposentado, que tinha na sala da sua casa, na zona leste da cidade, uma impressora offset Rotaprint. Foi a minha salvação! Entregava e retirava o serviço, semanalmente, num Fiat Uno 147. Levava: 10 caixas de papel A4, uma lata de tinta da marca Cromos, chapas de papel (já gravadas) e um galão de 5 litros de solução de fonte, da Duplicopy. As capas eram impressas em offset Abdick 375, numa gráfica que ficava numa das travessas da Av. Braz Leme, no bairro de Santana. Era uma máquina comprada em sociedade: eu tinha 50% do negócio. O acabamento dos livros era feito numa loja alugada, na Rua Teodoro Sampaio, esquina com a Rua Henrique Schaumann, no bairro de Pinheiros. No espaço, operávamos: uma picotadeira de pedal, uma guilhotina manual de 50 de boca, uma vincadeira e uma copiadora UBIQUE, em que gravávamos as chapas de papel. O negócio funcionou – satisfatoriamente – durante dois anos. Certa vez, Lamartine, o impressor aposentado, pessoa que guardo até hoje no coração, pediu-me para aumentar a cota de solução de fonte, de 5 para 10 litros. Estranhei. O que estaria acontecendo? Antes de reclamar, fui até a Duplicopy, que ficava na Rua Clélia, na Lapa, e me informei sobre consumo e uso do produto. O que escutei, na lata: “O cara está te roubando!”. Procurei, então, o Lamartine e abri a conversa. Ele, timidamente, confessou: “Sr. Scortecci, eu e minha mulher criamos gatos. Os gatos estão viciados em solução de fonte. Bebem direto da bandeja da máquina.” Foi só ele falar que eu vi, com os meus próprios olhos, uma cena de bebedeira coletiva. Aqui cabe uma explicação: solução de fonte é um produto baseado em água e álcool isopropílico, que contém pH específico e é responsável por separar o grafismo e o contragrafismo da chapa. “E eles não morrem envenenados?”, perguntei. “Acho que não. A bebedeira já tem mais de mês e de lá pra cá estão espertos e até mais alegres!”, justificou. Algum tempo depois, uma das gatas pariu uma ninhada de cinco gatinhos. Três machos e duas fêmeas. Surpresa foi notar que nenhum dos gatinhos tinha rabo e todos andavam de forma estranha: pirados e desequilibrados. Passei, então, a fornecer, semanalmente, 10 litros de solução de fonte, da Duplicopy, até o ano de 1986, quando, finalmente, abri a Gráfica Scortecci, hoje uma gráfica inteira digital, funcionando desde 2023, na Av. Pedroso de Morais, no bairro de Pinheiros.

João Scortecci


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FAZER O QUÊ: MANIA É MANIA

Não existe explicação! Acho que nem o psicólogo Rossandro Klinjey é capaz de explicar a gosto a minha estranha mania. E olha que o cara é bom. Respeitadíssimo! Mestre Rossandro e a Terapeuta Sexual Ana Canosa, são imperdíveis. Adoram, vez por outra, perturbar a minha paz psicológica, o meu equilíbrio emocional, plantando na minha cabeça, minhocas, grilos e lagartos. Uma selva! Levo um bom tempo para voltar o normal. Fico pirado! Rossandro e Canosa - não os conheço pessoalmente - são profissionais lúcidos e competentes: caixinhas de espinhos, sem mercurocromo. Falam na lata, sem piedade. Não arrisco provocá-los! Vamos lá: não existe explicação, já disse. Segue - explicadinho - a minha estranha mania: Adoro tirar fotos do lado de bustos, estátuas, imagens, esculturas, monumentos, mausoléus e túmulos. Doideira, né? Consultá-los? Não. Vai que descubro tratar-se de algum tipo de tara macabra ou algo assim. Estou fora! A foto do post foi tirada em 2015, no bairro de Pinheiros, na entrada de um restaurante - que não existe mais - onde almoçava, vez por outra. A comida era boa e o ambiente agradável. Quando a casa fechou as portas senti pelo espaço gastronômico e pelo amigo fiel, incansável, que me recebia com simpatia e olhar de poeta. Na entrada do restaurante, do lado do vate, um pequeno jardim, uma mesinha e três cadeiras de ferro. Chegava cedo – alguns minutos antes do horário de abrir – e lá ficava, sentado, escrevendo com a cabeça, confidenciando "engodos" ao amigo de bigode, avental e óculos machadiano, versos da hora, sentimentos idos e vividos e, até,  sussurros do coração. Ele - cicerone que era - parecia gostar da prosa. Não reclamava, creio. Lembro-me do nosso último encontro, véspera do dia do fechamento do restaurante. "Qual o motivo?" Perguntei. Chovia forte - quase temporal - e o poeta, ensopado, triste, desolado, com olhar vencido. Isso, talvez, explique o diálogo silencioso que é a vida: nós com nós mesmos! Já disse e repito: adoro tirar fotos ao lado de bustos, estátuas, imagens, esculturas, monumentos, mausoléus e túmulos. Fazer o quê: mania é mania.      

João Scortecci


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LAERTE E O SONHO "REFEITO" DE GOLEIRO VOADOR

Amanhã, dia 10 de junho de 2024, a cartunista e chargista Laerte, completa 73 anos. Parabéns! Não me esqueço do dia, com sua arte e talento, eternizou-me goleiro de futebol. Obrigado! Quando criança, isso no Ceará dos anos 1960, sonhava ser goleiro, dos bons. Até passei numa peneira no Ceará Sporting Club, mesmo sendo torcedor do Fortaleza. Cheguei em casa - na hora do almoço - e disse: “Mamãe vou ser goleiro!” A notícia não agradou. Levei puxão de orelha e um “Não” fraterno. Sobrevivi. Na verdade tive sorte: eu seria um goleiro medíocre. Depois – não me lembro o ano - conheci o goleiro Castilho (Carlos José Castilho, 1927 – 1987), quando, na época, técnico do Fortaleza Esporte Clube. A vontade voltou, confesso. Pensei, pensei e felizmente desisti. Depois, mudei-me para São Paulo, isso em 1972, e a vontade, docemente, “acomodou-se” no coração. Numa Bienal do Livro, em São Paulo, já editor e gráfico, Laerte, quase numa releitura, realizou o meu sonho de goleiro, pegador de bola, igual Oberdan, Leão, Velloso, Sérgio, Marcos, Fernando Prass e Weverton, goleiros da Sociedade Esportiva Palmeiras, hoje meu time do coração, ou ainda, num goleiro voador, igual ao Castilho, meu ídolo. A charge do post foi um presente da incrível Laerte. Bola no ângulo, defesa voadora, ponte, imortalizada, com a mensagem: “Faça-se uma defesa!” 

João Scortecci


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NO MOVIMENTO DO AR E DAS ESTRELAS

Manhã de luz. De sol também. O clarão dos acertos me pegou na direção das vontades do coração. O segredo é outro, essencialmente melhor. No caminho da travessia angular, identifico presenças e também outras surpresas esquecidas. Multidão de elos: e seus laços! Faço releitura do meu olhar, dos meus mapas de guerra, dos destinos e das essências que habitam o corpo de espadas. Algo me diz que a minha alma - inquieta e renitente - está no movimento do céu, infinito, navegando estrelas, no balanço de passarinhos que voam gatilhos de ar, sustentação e plenitude. O eu guerreiro amanheceu maduro: igual manga no pé, relógio de sol, abelha fazendo mel e flecha no tiro ao Álvaro.

João Scortecci

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