Chegamos ao muito pelo contrário: uma situação real do dito pelo não dito, algo assim. O Brasil sofre uma polarização política, radical, que, infelizmente, engessa o país e o coloca numa sinuca de bico. A imagem do jogador de sinuca encurralado – sem saber o que fazer – diante do desafio a vencer me parece ilustrativa e oportuna. O que temos do dito pelo não dito: um ano truncado, com eleições, guerras, intervenções e incertezas. Qual a jogada certa, possível? O que fazer para sairmos do imbróglio?
Nos últimos 50 anos, a indústria brasileira vem sofrendo uma lenta e contínua desindustrialização. Perdemos “energia”, muito antes de alcançarmos eficiência, riqueza e maturidade. Diferentemente de nações ricas, o País ficou no dito pelo não dito.
No editorial anterior da Revista Abigraf apontei os perigos do fim da escala de trabalho 6 x 1 –tudo indica que será implantada a toque de caixa – em um país que ainda não está maduro e pronto para tamanhos desafios. Não somos contra. A indústria não é contra, mas não no Brasil – dividido – de hoje. O trabalhador brasileiro, infelizmente, sairá perdendo, e muito. Com a queda do poder de compra – inevitável –, risco de desemprego, informalidade e pressão inflacionária, não sairemos da sinuca de bico. Consequências: estagnação e crescimento pífio. Estima-se que a economia perderá R$ 158 bilhões por ano. Os setores mais afetados serão o de serviços, com um custo adicional estimado em R$ 76,9 bilhões, seguido pela indústria, com custo adicional de R$ 35,9 bilhões.
Com o fim da escala 6 x 1, há dois pontos a serem destacados, que considero gravíssimos. O primeiro é a perda do poder de compra do trabalhador, que terá que recorrer inevitavelmente à hora extra e ao já institucionalizado “bico”, para tentar manter o poder de compra, perdendo assim, os possíveis ganhos com a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. O segundo ponto é a indicação do desenvolvimento tecnológico como solução, num país atrasado e sem poder de investimento, onde as micro e pequenas empresas somam mais de 21,7 milhões de negócios ativos, representando 97% de todas as empresas do País. Estão confundindo “sobrevivência” com “ganho tecnológico”. Ganho tecnológico, no Brasil de hoje, é para poucos. A maioria das empresas brasileiras está com a corda no pescoço! Falar de ganho tecnológico é o dito pelo não dito.
As consequências serão catastróficas: repasse de preços, prejuízos para os mais pobres, queda na qualidade do atendimento de serviços, judicialização e fechamento de milhares de pequenas empresas, que hoje representam mais da metade dos empregos formais do País. No caso da indústria gráfica, 95% são de pequenas empresas, com até 10 trabalhadores. No Brasil, existem 15.691 empresas gráficas ativas, que empregam aproximadamente 175.509 trabalhadores, com um faturamento anual de cerca de R$ 45 a R$ 50 bilhões.
Sinuca de bico? É o dito pelo não dito, muito pelo contrário, algo assim.
João Scortecci