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ASIMOV E AS LEIS DA ROBÓTICA

Gosto de ler tudo sobre robôs. Mania antiga, desde a época que li, pela primeira vez, o livro o "Eu, Robô", coletânea de contos do escritor russo Isaac Asimov (1920 – 1992), mestre da ficção cientifica. Outro dia, li no Facebook – assim que a IA virou febre - um breve comentário de uma moça de nome Sandra sobre os robôs: “Gosto da carinha simpática e amigável dos robôs!” E logo abaixo, um comentário de um tal de Pedro, sobre a postagem da Sandra: “O que será que eles estão tramando?”. Anotei. Isaac Asimov é o autor das quatro Leis da Robótica. São elas: 1 - Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal; 2 - Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que entrem em conflito com a Primeira Lei. 3 - Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis e 4 - Um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal. Hoje dei de cara com um vídeo no Instagram de um robô japonês, sorridente, coberto com pele viva, criada a partir de células humanas. Confesso: assustador! O que dizia a matéria: Os pesquisadores da Universidade de Tóquio usaram um "gel carregado de células formadoras de pele". E mais: “Especialistas em robôs bio-híbridos esperam que um dia esta tecnologia seja utilizada para criar androides com aparência e capacidade similares aos humanos”. Anotei. Acho - opinião de poeta e nada mais - que os robôs deveriam ter - sempre - aparência de robôs, nunca de humanos. São máquinas! Sinto que a “coisa” anda indo por caminhos estranhos e logo teremos robôs iguais e semelhantes a humanos. Lembrei-me na hora do comentário do Pedro sobre a postagem da Sandra no Facebook: “O que será que eles estão tramando?”. Outro dia conversei com Isaac Asimov sobre o assunto, o que ele achava de tudo isso. Propus, no meio da conversa, uma 5ª Lei da robótica. Segue: “Um robô não pode ter feições humanos!” Algo assim. Asimov fez cara feia, resmungou, mas prometeu pensar no assunto. “Quando terei uma resposta?” Quis saber. Respondeu-me: “Depois que voltar de férias do espaço! Estou indo numa nave do Elon Musk conhecer o asteroide 5020, batizado com o meu nome!”. Perguntei-lhe, curioso: "E onde fica mesmo o 5020?". Asimov - todo cheio de si - respondeu-me: "Entre Marte e Júpiter, de volta ao redor do Sol a cada 1.160 dias e de diâmetro de aproximadamente 3,5 km.". Anotei. Aqui com as minhas inquietações: Desconfio que Elon Musk e Isaac Asimov estão tramando alguma coisa! "O quê?" Não sei. 

João Scortecci


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MACHADO DE ASSIS E OS PENSAMENTOS IDOS E VIVIDOS

O escritor, romancista, cronista e dramaturgo Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis, 1839 - 1908), nasceu no dia 21 de junho de 1839. É considerado um dos maiores, senão o maior nome da literatura do Brasil. Testemunhou a abolição da escravatura e a mudança política no país quando a República substituiu o Império. Aos 17 anos de idade, foi contratado como aprendiz de tipógrafo e revisor na Imprensa Nacional. Nascido no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, de uma família pobre, mal estudou em escolas públicas e nunca frequentou universidade. Em 20 de julho de 1897, foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. No discurso inaugural de fundação da Academia, aconselhou aos presentes: “Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles os transmitam também aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira.” Machado, depois da morte de sua esposa Carolina Augusta Xavier de Novais, escreveu em sua homenagem um dos seus mais belos sonetos: “Querida! Ao pé do leito derradeiro,/em que descansas desta longa vida,/aqui venho e virei, pobre querida,/trazer-te o coração de companheiro.//Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro/que, a despeito de toda a humana lida,/fez a nossa existência apetecida/e num recanto pôs um mundo inteiro.//Trago-te flores - restos arrancados/da terra que nos viu passar unidos/e ora mortos nos deixa e separados;//que eu, se tenho, nos olhos malferidos,/ pensamentos de vida formulados/são pensamentos idos e vividos.” A extensa obra machadiana constitui-se de dez romances, 205 contos, dez peças teatrais, cinco coletâneas de poemas e sonetos e mais de seiscentas crônicas. Machado de Assis faleceu no dia 29 de setembro de 1908, aos 69 anos de idade. 

João Scortecci


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BILINGUISMO DE ORWELL E O MAIOR LIVRO DO MUNDO

Bilinguismo é a capacidade de um indivíduo ou comunidade de se comunicar em duas línguas distintas, seja na fala, na leitura ou na escrita. Hoje, estudiosos, são unânimes em afirmar: bilinguismo é muito mais que isso e deve ser “entendido” como o indivíduo que é fluente em dois ou mais algoritmos, em todos os campos do conhecimento. Polêmico! Lendo sobre bilinguismo literário, encontrei a seguinte definição: “Bilinguismo é a capacidade de exercer tanto a leitura rápida cobrada pelos meios digitais, quando for o caso, e a leitura profunda, exigida para pensar direito e fruir de tudo aquilo que um bom texto oferece. A leitura no papel – reflexiva – melhora a absorção e a retenção de informações. Um ser humano recebe hoje nos vários dispositivos que acessa, aproximadamente, 34 gigabytes de informação num único dia, o equivalente a um romance com 100 mil palavras. A título de curiosidade, o livro “1984”, do escritor inglês George Orwell (Eric Arthur Blair, 1903 – 1950), tem 65 mil palavras. Quase, portanto, 1/3 a mais de “1984”, por dia. O equivalente a 44,2 gigabytes de George Orwell, num piscar de olhos. Assusta! O maior livro impresso do mundo foi publicado na Alemanha, “O livro do universo mais denso” (“Das buch des dickste universum”), editado pela Zeitgeist Media GMBH, que reúne textos e desenhos feitos por crianças num concurso realizado pelo Ministério Federal dos Transportes da Alemanha. O livro – a título de curiosidade – mede quatro metros, tem 50.560 páginas e pesa 220 quilos. A obra está à venda e pode ser encomendada em qualquer livraria da Alemanha, pela bagatela de 9.999 Euros. Na cotação do dia – Euro a 5,90 reais – a obra das crianças alemãs custa R$ 58.994,10!

João Scortecci

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GENGIS KHAN E CACHORRO BRAVO

Hoje de madrugada no rádio: “Não matem o mensageiro!”. Anotei. Lembrei-me, então, da história de um carteiro morto por um fazendeiro do interior de Minas Gerais – isso nos anos 1970 – que lhe entregou um telegrama com a notícia de que sua amante havia morrido, na capital, de nó nas tripas. O fazendeiro, enfurecido, sacou sua pistola e matou o carteiro pelas costas, com um tiro na cabeça. Lembro-me que, na época, alguém importante teria declarado: “Bem feito!”. O fazendeiro atirou e gritou aos céus: “Desgraçado!”. Quando criança – isso no Ceará dos anos 1960 – adorava as histórias de Gengis Khan (1162 – 1227), imperador mongol, que – depois de alguns anos, já adulto – descobri se tratar de um conquistador cruel e sanguinário. O livro, belíssimo, saiu de circulação, creio. Gengis Khan – que estabeleceu um império que se estendia do Oceano Pacífico ao Mar Cáspio e ao norte do Mar Negro – costumava cortar a língua de seus mensageiros quando eles – no dever do ofício – lhe traziam notícias ruins de desgraças e derrotas militares. Propósito, eu creio: “Lacrar o bico do mensageiro!”. Hoje, na versão moderna, a expressão “Não matem o mensageiro” é utilizada costumeiramente no ambiente corporativo e muito nas relações pessoais – serve de alerta preparatório de que o que será dito não é nada interessante e muito menos agradável. Mudei, então, de estação no rádio. Detalhe, insignificante: comprei um Sansui F-28, rádio top, chinês, recarregável. Fico das 3h às 4h30, diariamente, navegando entre as rádios CBN, Band News e Transamérica. Hoje as melhores! Uma observação pertinente: elas, as rádios, andam repetindo as mesmas matérias milhões de vezes. Cansa! Parei numa entrevista interessante da brilhante Petria Chaves, rádio CBN, com a editora e escritora Nathalia Brandão. Nathalia, inteligente e cabeça boa, contou-nos sobre a língua imensa do pica-pau, pássaro famoso por suas habilidades em perfurar troncos de árvores para se alimentar e construir ninhos. Anotei. Levantei-me e fui pesquisar. O pássaro pica-pau bate o bico numa velocidade de 20 vezes por segundo sem sofrer lesões cerebrais, devido a sua comprida língua que se enrola no próprio crânio, criando assim, uma espécie de cinto de segurança, um amortecedor natural de impacto. Pergunta: e o que isso tem a ver com a história do ‘Não matem o mensageiro’ e do cruel Gengis Khan? Nada. Nada mesmo. Procurei – quase ao mesmo tempo – na Internet, a notícia do tal fazendeiro mineiro que nos anos 1970 matou com um tiro na cabeça o seu carteiro, porque ele – desavisado de tudo – havia lhe entregado um telegrama com a notícia da morte de sua amante. Não encontrei a matéria. Escafedeu-se! Publiquei – isso nos anos 1990 – um livro de um autor-carteiro, contando suas aventuras e “aperreios” que passou na profissão, entregando cartas e telegramas. Perguntei-lhe, na época: “O que existe de pior no serviço?”. Respondeu-me, de pronto: “Escapar dos cachorros bravos!”. E de bom: “Entregar cartas de amor!”.  Anotei. 

João Scortecci

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A “ROSE DI PRIMO” DO CAMBUCI

 A modelo Rose Di Primo (Rosimary Souza Primo) tem – praticamente – a minha idade. Ela nasceu em 1955 e eu, em 1956. Não a conheço pessoalmente. O ator, diretor e produtor David Cardoso (1943), conhecido no cinema brasileiro como o “Rei da Pornochanchada” ficou de nos apresentar, isso durante uma filmagem de rua, no Bar Biroska, de propriedade da amiga e empresária da noite, Lilian Gonçalves, filha do inesquecível Nélson Gonçalves. O encontro, infelizmente, não deu certo. Era dia de uma “externa” nas esquinas das ruas Canuto do Val e D. Veridiana, no bairro de Santa Cecília, na capital paulista. David Cardoso estava enlouquecido e pelo pouco que entendo de filmagens “nada estava dando certo”. Guardo no memorial da editora um “caminhão” de “histórias”, que venho arquivando desde sempre. Acumulador? Não. Memorialista, um registrador de lembranças, um guardador do passado, algo assim. Hoje – procurando não sei o quê – reencontrei o pôster da inesquecível e belíssima Rose Di Primo. Ela, de biquíni, pilotando uma moto. A foto da deusa – paixão de uma geração inteira – correu o mundo e foi capa de várias revistas. Ganhei o pôster do Raimundo, “borracheiro” do Largo do Cambuci. Na época tinha um Passat GL branco que, perdido de amor, uma vez por semana, furava propositadamente o pneu. Enquanto Raimundo mexia no pneu, eu aproveitava e espiava o pôster da Rose Di Primo. Lembro-me que ela, uma vez, sorriu e piscou o olho pra mim. Raimundo – esperto que só ele – desconfiou do meu estratagema. Disse-me: “Leva o pôster. É seu!”. Foi o que fiz. Quanto ao Passat GL branco, eu o destruí numa batida feroz no Viaduto Pompéia. Perda total. Rose de biquíni, pilotando a moto, ficou: amor é amor!

João Scortecci

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AS DANÇAS DE QUADRILHAS E O CEARÁ DOS ANOS 1960

O meu primeiro amor foi platônico. Distante de tudo! Desconfio que ela – a amada – nunca soube. Quando a vi pela primeira vez, meu coração varonil subiu aos céus feito balão de São João. Eu tinha na época 12 anos de idade. Apaixonei-me, desbragadamente, quando o cupido – deus do amor erótico, da atração e do afeto – nos colocou de par, para dançarmos juntos, a dança da quadrilha. Quadrilha – na infância dos anos 1960 – era mania e ainda é, nos meses de junho e julho, no Nordeste brasileiro. Trejeitos: camisa xadrez, lenço no pescoço, remendos nas calças, chapéu de palha e bigodinho feito com carvão de rolha queimada. Papai Luiz era o organizador de tudo. Comandava os ensaios, gritava a dança da quadrilha, cuidava da fogueira, imprimia no mimeógrafo a álcool os convites e a programação da noite. Animadíssimo, sempre! Fogueira, bandeirinhas, fogos de artifício, balões e muita comida: milho verde assado, paçoca, pé de moleque, canjica, arroz doce, batata doce, pudim de leite, pamonha e aluá de abacaxi. A quadrilha é uma dança folclórica – dançada em pares. A origem da quadrilha está relacionada à forma de dançar do “country dance” da Inglaterra, por volta do século XVIII. Com a Guerra dos Cem Anos, essa maneira de dançar foi compartilhada na França, região da Normandia. A chegada da dança da quadrilha ao Brasil ocorreu por meio tanto da vinda da Família Real Portuguesa, em 1808, quanto por escravizados europeus, que vieram ao Brasil, após a Lei Eusébio de Queirós (lei n.º 581/1850), promulgada no Segundo Reinado e que proibia a entrada, no Brasil, de africanos escravizados. A quadrilha segue um roteiro fixo – até hoje o mesmo, com poucas modificações – e encena a realização de um casamento forçado, pela honra da moça: desonrada e grávida. Personagens da dança da quadrilha: noivos, pais dos noivos, padrinhos, delegado de polícia, padre e convidados. Depois do casório e do sermão do padre, começa, então, a festança da quadrilha e da comilança. O roteiro segue basicamente o mesmo cerimonial: apresentação dos pares, noivos na frente – dama do lado esquerdo – pais dos noivos, padrinhos, pares, delegado e, no final da fila, por último, o padre e o coroinha. Passos da dança da quadrilha: “caminho da roça”, “cumprimento”, “olha a chuva”, “damas ao centro”, “coroa de rosas”, “coroa de espinhos”, “olha o túnel”, “olha a cobra”, “caracol”, “cavalinho” e “grande roda”. Meu pai, Luiz, deixou saudade e grandes lembranças. Na família, tento substituí-lo, manter a tradição. Sou eu hoje na família quem “grita” a dança da quadrilha – quase sempre na Fazenda Rio das Flores, em Itu/SP – e, travestido de padre, prego aos pares e aos noivos o “Sermão Atrás da Moita”, encruzilhada do amor onde tudo um dia começou: atrás da moita! Quanto ao meu primeiro amor – platônico e distante de tudo – deve ter pulado a fogueira e subido – desavisada de tudo – num balão de São João. Algo assim.

João Scortecci

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O SELETOR DE CANAIS E A VOADORA DE TED BOY MARINO

Quem se lembra dos seletores de canais? Peça mecânica giratória para selecionar canais nos televisores do final do século passado. Saíram de linha no final dos anos 1990. Segundo o meu pai Luiz, peça importante de um televisor! Anotei. Girando de 1 a 13, selecionava o canal desejado, mesmo, na época, no Ceará dos anos 1960, quando existia apenas uma emissora, a TV Ceará, Canal 2, da Rede Tupi, inaugurada no ano de 1960. Nosso primeiro aparelho de TV foi um GE – da General Electric – portátil, valvulado, preto e branco. “Pai, o que é isso?” “É um seletor de canais. Você gira – delicadamente – sempre para a direita e muda de canal.” Metido que sou: “Papai, posso, então, girar e mudar de canal?”. Papai Luiz: “Não!” “Por quê?” “Você tem muita força nas mãos, vai acabar quebrando o seletor e mais, aqui no Ceará só existe um canal de televisão!”. “Que merda! Seletor inútil, não serve pra nada!”, Papai, se eu arrancar o seletor de canais da TV, ela continua funcionando?”. “Sim”, respondeu. “Posso, então, arrancá-lo?” “Não. Está maluco, menino?” Naquele mesmo dia – final de tarde, antes do banho de bacia – assistindo a uma luta do Telecatch Montilla, entre o Ted Boy Marino (1939 – 2012) e o lutador Rasputin – o terrível Barba Vermelha –, arranquei com uma voadora o seletor de canais. Aconteceu assim: Ted Boy Marino estava apanhando muito. E, do nada, reagiu e virou a luta. Deu voadoras e, por fim, nocauteou o malvado do Rasputin. Numa das voadoras – imitando o Ted Boy Marino – acabei acertando com o pé o seletor de canais da TV, que voou longe. Detalhe importante: a TV GE, preto e branco, continuou funcionando, numa boa. Joguei fora, no lixo, o imprestável do seletor. Papai chegou do trabalho e, surpreso, observou a TV sem o seletor de canais. “Foi você?”, perguntou-me. “Não. Deve ter sido o Rasputin, depois que levou uma voadora do Ted Boy Marino.” “João, cadê o seletor?” “Joguei fora, não prestava mesmo!” Fiquei o fim de semana de castigo, sem TV e sem sair de casa. Para a Copa do Mundo de Futebol de 1970, papai Luiz comprou uma moderníssima TV Sharp, de 20 polegadas, em cores. Nela assistimos ao Brasil se tornar tricampeão mundial de futebol. No final dos anos 1970, já morando na cidade de São Paulo, conheci pessoalmente o lutador Rasputin. Contei-lhe a história do seletor arrancado com uma voadora. Ele riu. Perguntei-lhe, então: “Por que você batia tanto no Ted Boy Marino?”. Respondeu, babando, irado: “Nele eu batia com vontade!”. “Qual a razão”? “Loiro, bonito e argentino!”, respondeu. Risos. Na verdade, Ted Boy Marino nasceu em Fuscaldo, comuna italiana da região da Calábria, província de Cosenza. Em 1953, aos 14 anos de idade, mudou-se para Buenos Aires, junto com seus pais e cinco irmãos, viajando no porão de um navio. Mudou-se para o Brasil em 1965, mas a fama de “argentino, loiro e bonito” ficou.

João Scortecci

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A REAL MESA CENSÓRIA E O COFRE DO SUBSÍDIO LITERÁRIO

O Cardeal da Cunha (João Cosme da Cunha, 1715 – 1783), arcebispo de Évora, Portugal, por indicação de seu protetor, o poderoso Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo, 1699 – 1782), foi nomeado – pelo Alvará de 5 de abril de 1768 –, para presidir a Real Mesa Censória, com o objetivo de transferir, na totalidade, para o Estado português, a fiscalização das obras que se pretendessem publicar ou divulgar no Reino, o que até então estava a cargo do Tribunal do Santo Ofício, do Desembargo do Paço e do Ordinário. À Real Mesa Censória coube a concessão de licenças de comercialização, impressão, reimpressão e encadernação de livros ou papéis avulsos bem como autorizações para posse e leitura de livros proibidos, obrigando-se, ainda, a manter atualizado o Index Librorum Prohibitorum (Lista dos livros proibidos). Pelo Edital de 10 de julho de 1769, a Real Mesa Censória obteve autorização para que lhe fossem enviadas – com o rigor da lei – relações de livros de bibliotecas particulares. Num edital posterior, de 24 de setembro de 1770, em que constavam 122 obras proibidas, a ordem era que fossem queimados, na Praça do Comércio, Terreiro do Paço, em Lisboa, pelo Executor de Alta Justiça, seis livros: Analyse (P. Bayle); Dictionnaire Philosophique (Voltaire); Lettres Turques (Saint-Foix); Oeuvres Philosophiques (La Mettrie); Recueil Nécessaire (Voltaire) e Recherches sur l’Origine du Despotisme Oriental (Boulanger). A pena de fogo a que foram condenados os livros foi executada em 6 de outubro de 1770, com a presença do Desembargador Manuel José de Faria e Sousa, Corregedor do Crime do Bairro Alto. Pelo Alvará de 4 de junho de 1771, foi confiada à Real Mesa Censória a administração das escolas de Estudos Menores do Reino, incluindo o Real Colégio dos Nobres, estabelecimento de educação pré-universitária voltado para a formação inicial dos jovens aristocratas portugueses, para cujas despesas foi estabelecido um imposto, designado por “subsídio literário”. Conforme o Alvará de 10 de novembro de 1772, esse imposto se destinava a custear as reformas com a instrução pública. As verbas foram – inicialmente – utilizadas pela Junta do Subsídio Literário para pagar os ordenados dos professores do Real Colégio dos Nobres. Esse imposto consistia no pagamento de: 1 real em cada canada – unidade de medida de volume para líquidos, equivalente, aproximadamente, a 1,4125 litros – de vinho; 140 réis em cada canada de aguardente; e 160 réis por cada pipa de vinagre. Em 1839, depois de quase 70 anos, o subsídio literário foi, finalmente, extinto. O Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, guarda no “Cofre do Rendimento do Subsídio Literário”, datados de 1776 a 1840, 12 exemplares proibidos, inscritos no Index Librorum Prohibitorum, apreendidos pela Real Mesa Censória e nunca devolvidos aos seus verdadeiros donos. 

João Scortecci


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CASSANDRA, A VIDENTE DA PRAÇA DA REPÚBLICA

Cassandra tinha a capacidade de interpretar os desejos dos deuses! Conhecemo-nos numa tarde de domingo, na Feira Hippie da Praça da República, na “pauliceia desvairada” dos anos 1970. Eu, comprando selos do Japão para a minha coleção, numa tenda; e ela, deslumbrante, belíssima, comendo-me com os olhos, ao lado. Resisti: fiz que não vi. A moça, uma vidente – trinta e poucos anos – lia mãos, cartas, jogava búzios, conversava com os mortos e previa o futuro. Sua tenda, localizada perto do portão principal do Colégio Caetano de Campos, estava sempre cheia de gente. Movimentadíssima! Na mitologia grega, Cassandra é uma profetisa do deus Apolo – deus do Sol, da profecia, da poesia, das artes, da música, da cura, da justiça, da lei, da ordem, do tiro ao alvo e da peste. Cassandra tinha o dom de anunciar profecias, nas quais ninguém acreditava, sendo, por isso, considerada louca e charlatã. Na tragédia “Agamemnon”, do poeta dramaturgo Ésquilo (c. 525 a.C. ou 524 a.C. – 456 a.C. ou 455 a.C.), o deus Apolo, tendo se apaixonado por Cassandra, oferecera-lhe o dom da profecia em troca do seu amor. Cassandra, a princípio, aceitou a oferta, mas acabou desistindo e não cumpriu o acordo. Apolo, enfurecido, retirou-lhe o dom e a puniu, fazendo com que ninguém mais acreditasse nas suas visões e profecias. Cassandra – na história – tornou-se uma figura importante no que diz respeito à Guerra de Tróia (entre 1300 a.C. e 1200 a.C.), pois profetizou – e acertou – o que iria acontecer, caso os troianos levassem o cavalo de madeira – construído pelos gregos – para dentro das muralhas da cidade. Apesar de seus avisos, ninguém acreditou. Num domingo chuvoso, de movimento fraco, Cassandra pegou-me pela mão e me levou de vez para a sua tenda. Impossível resistir. Disse-me, sorrindo: “Vou ler a sua sorte!”. Detalhou-me, então: “A mão esquerda fala sobre as coisas com as quais você nasceu, herdou, suas vidas passadas, caminhos da sua alma. A mão direita conta sobre as coisas que viveu, vive e vai viver nessa vida. Temos quatro linhas: a linha do coração, a da cabeça, a da vida e a do destino. Vejo que suas linhas são marcantes, profundas e se cruzam em todas as direções”. Perguntei, então: “Isso é bom ou ruim?”. Cassandra sorriu. Nada disse. Continuou, então: “Linhas que se cruzam e mudam de direção significam que você é propenso a muitas mudanças no seu caminho, devido a forças externas. Você é entusiasmado, otimista, extrovertido, individualista, criativo e muito impulsivo”. Pegou a minha mão esquerda e a esfregou com o dedo polegar, riscando linhas imaginárias no centro da palma. Arrepios. “Vejo que você tem na mão esquerda pequenas linhas, finas, leves, suaves.” “O que significam?”, perguntei. “Nada deste mundo. Heranças, talvez!”, respondeu-me. Depois, abraçou-me forte, beijou-me na boca e chorou. Permaneci ali, calado, pensativo, tentando entender o momento. Na saída da tenda, chovia forte. Corri e entrei no pátio do Colégio Caetano de Campos. Na saída, Cassandra, alertou-me: “Eu sou a amada do deus Apolo – deus do Sol, da poesia, do tiro ao alvo e da peste, mas ninguém acredita nas minhas visões e profecias. Você é o arco de prata, a lira, o ramo de louro e a palmeira renitente do jardim de Tróia”. Anotei. Li e reli sobre Tróia. Tudo que encontro sobre Tróia eu busco no tempo. O enigma continua até hoje. O “nada deste mundo” vez ou outra se ocupa de mim.

João Scortecci

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UM H2O EM TEMPOS DE TERRAS-RARAS

Fui um péssimo aluno de química. Um H2O e nada mais. A tal da tabela periódica, um pesadelo dos demônios. Matava o tempo colorindo os quadradinhos da tabela e tentando formar palavras com os símbolos químicos. Tarefa nada fácil, devido à escassez de vogais. Um escândio (símbolo Sc, número atômico 21), metal de coloração branco-prateada, classificado como “terra rara”, é crucial na indústria aeroespacial e na fabricação de ligas especiais de alumínio. Lendo sobre as terras-raras, descobri que hoje são conhecidos 15 elementos químicos – os lantanídeos – chamados de “metais de terras-raras”, essenciais na fabricação de smartphones, carros elétricos, turbinas eólicas e no refino de petróleo. Dizem que o Brasil é o segundo país do mundo em quantidade de reservas de lantanídeos: monazita, bastnasita, xenótimo e loparita e as argilas que absorvem íons, minerais especiais que retêm cargas elétricas, permitindo absorver e trocar cátions ou ânions. Ponto: parei de ler! Já estava entrando em “A guerra subterrânea”, assunto complexo, muito para a minha cabeça. Já disse: sou H2O e nada mais. Olhando a tabela periódica atualizada – isso depois de 50 anos –, notei o quanto ela mudou de cara e ganhou novos elementos. A “danada do capeta” foi inventada pelo químico russo Dmitri Mendeleev, em 1869, e aperfeiçoada pelo físico britânico Henry Moseley, em 1913. Não tenho carro elétrico, não trabalho com turbinas eólicas e não refino petróleo, mas uso três smartphones e preciso – para o meu trabalho – comprar mais um e, em breve, substituir o mais “antigo” deles, que já está pedindo mais íons de lítio. Salvei no aparelho Samsung – desconheço a razão – o PDF da nova tabela. Mais tarde, vou tentar – talvez – cometer um poema periódico, um escândio literário, algo assim. Um detalhe, insignificante: chegou nova atualização do Android, sistema operacional móvel do Google. Desconfio de todas! Já disse: sou um H2O e nada mais.

João Scortecci

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TOUCINHO NO FEIJÃO, FARINHA DE MANDIOCA E BANHO DE BACIA

Meu avô paterno, João Batista de Paula, o Batista da Light, nasceu no dia 26 de março de 1895, na cidade de Quixadá, interior do Ceará. Faleceu no dia 16 de fevereiro de 1966, uma quarta-feira, três dias antes do começo do Carnaval daquele ano. A família enlutada, fugindo da folia do Carnaval, viajou para a Prainha, no município de Aquiraz, distante 30 km de Fortaleza. Batista, como gostava de ser chamado, tinha, então, 71 anos de idade e desde os 68 anos sofria de demência, doença de Alzheimer. Diziam, na época: “Muito toucinho no feijão e farinha!”. Prato diário do meu avô. Anotei. Eu tinha, na época, dez anos de idade. Sua morte “parou” a cidade de Fortaleza. Era uma pessoa querida, respeitada e admirada. Foi, durante muitos anos, o Superintendente da Light no Nordeste. Vovô Batista foi o meu primeiro velório. E vê-lo, no caixão, sobre a mesa da sala de jantar, marcou-me profundamente. Eu o amava! Já “caduco”, nos divertíamos muito. Contávamos dinheiro de papel. Adorava contar causos e piadas sujas. Gostava de um “rabo de saia” e suspirava sempre que via uma mulher da bunda grande passar na calçada da rua: “Olha lá a Raimunda: feia de cara e boa de bunda!”. Risos. Batista era craque no jogo de gamão, mesmo esquecido. “Vovô é verdade que você nasceu no século passado?” “Verdade. Eu nasci no final do século XIX, namorei a Princesa Isabel e joguei gamão com o jovem do Matusalém!” Risos. “Matusalém?” “Ele mesmo. Aquele moço que viveu 969 anos, segundo a Bíblia, explicava. E nós, inocentes, acreditávamos em tudo. Outro dia alguém – do nada – perguntou-me: “João, você já tomou banho de bacia?”. “Sim”, respondi. Foi a “deixa” para voltar no tempo, no melhor dos anos 1960. Na água da bacia – azeda e suja – lavávamos os pés, as orelhas, as axilas, o pescoço, a bunda e a piroca. Lembro-me da festa que era – pelados e velozes – irmãos, irmãs, primos, primas, todos, na fila indiana para o banho de bacia. A água, suja e fedorenta, depois, era despejada, aos goles, no ralo de ferro do banheiro. Descia suspirando, gemendo, fazendo um barulho medonho, dos infernos. Descia até o silêncio do fim e lá ficava. Eu nasci na metade do século XX e isso – vez por outra – me assusta. Assusta e passa!

João Scortecci

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“RODA DE LIVROS”, ENGENHOCA DO CAPITÃO RAMELLI

O engenheiro e capitão italiano Agostino Ramelli (1531 – 1610), nasceu na comuna de Ponte Tresa, Itália, hoje Suíça. Foi o inventor da “Roda de livros”, uma estante rotativa que possibilita ler, consultar e pesquisar vários livros num mesmo local. Foi inventada numa época em que livros grandes apresentavam problemas práticos para os leitores. Girava como se fossem movimentos de um moinho movido a água. Para garantir que os livros permanecessem em um ângulo consistente, Ramelli incorporou ao projeto engrenagens epicíclicas. Quando a roda gira, cada prateleira gira na mesma proporção, permanecendo nivelada. Ramelli ficou conhecido por escrever e ilustrar o livro de projetos de engenharia “As várias e engenhosas máquinas do capitão Agostino Ramelli” (“Le diverse et artificiose machine del Capitano Agostino Ramelli”), que, além de seu projeto da “roda de livros”, contém 195 designs, mais de 100 dos quais são máquinas de levantamento de água, como bombas d’água, pontes, moinhos e um possível precursor do motor Wankel – motor rotativo de combustão interna, inventado pelo engenheiro alemão Felix Wankel (1902 – 1988), que utiliza rotores com formato semelhante ao de um triângulo em vez dos pistões dos motores alternativos convencionais. Durante o “Cerco de La Rochelle”, ordenado por Luís XIII, rei da França, e comandado pelo Cardeal de Richelieu (Armand Jean du Plessis, 1585 – 1642), que acabou com a capitulação da cidade, em 28 de outubro de 1628, Ramelli construiu com sucesso uma mina sob um bastião – posto avançado para a defesa de uma fortificação militar – e conseguiu violar a fortificação, até então considerada inviolável. Ramelli morreu em Paris, aos 79 anos de idade. Ficou na história do conhecimento como o mais criativo inventor de “engenhocas” movidas pelas forças da água e da natureza de Deus.

João Scortecci


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O FENEMÊ E O CAVALO CARAMELO

Quando criança – isso no Ceará dos anos 1960 – ganhei de presente um caminhão com caçamba. Naquela época andava explorando os quintais da Vila Santa Terezinha, procurando não sei bem o quê. Um tesouro, talvez. O caminhão com caçamba foi o único presente “diferente” que ganhei quando criança. “Filho, o que você vai querer de presente de Natal?” A resposta era a mesma de sempre: “Dois revólveres com cartucheiras do John Wayne e muita espoleta estrela”. O caminhão com caçamba era uma réplica perfeita de um "Fenemê", da Fábrica Nacional de Motores, fundada em 1942 pelo então Presidente Getúlio Vargas e pelo Cel. Antônio Guedes Muniz, pioneiro da indústria aeronáutica brasileira. É dessa época, também, a fundação de várias estatais brasileiras, com dinheiro americano, durante a Segunda Guerra Mundial: Companhia Siderúrgica Nacional (1941), Companhia Vale do Rio Doce (1942), Companhia Hidrelétrica do São Francisco (1945), entre outras. Com o fim dos dólares, a Fábrica Nacional de Motores, orgulho nacional, encerrou as atividades em 1977. Gosto da história da carroça e do jumento. Sempre oportuna e de autor desconhecido. Aos 30 anos de idade, carroça e jumento, são únicos: Indivisíveis! Nada fica para trás: tudo vai para a caçamba. Aos 40 anos, tornamo-nos seletivos e prudentes. Algumas coisas são simplesmente deixadas de lado e nem tudo vai, automaticamente, parar na carroça. Aos 50 anos, tornamo-nos chatos, criteriosos, detalhistas e vaidosos. Alguns: insuportáveis! Quase nada mais vai para a carroça, já lotada e pesada. E o jumento, pobre de nós, já não é o mesmo: envelheceu junto. Aos 60 anos - década do desapego - de escolhas estranhas, das tratativas e das fraquezas humanas. Hora do descarte, da reciclagem, da arrumação de papéis, de rever o arquivo de fotos, deletar o esquecido, de retirar da carroça entulhos, engodos e fantasmas. Hora, também, de aliviar o jumento do peso cruel e poupá-lo do pior. Aos 70 anos – ainda estou aqui – o “Fenemê”, vez por outra, engasga e solta pelas narinas enxofre e chiados. Confesso: não esperava viver tanto. Sorte? Talvez. A história da carroça e do jumento termina, para muitos, por volta dos 80 anos, década da morte, já que poucos chegam aos 90 anos ou mais. É quando surge, então, o dilema da vida: abandonar a carroça ou salvar o jumento? Acompanhei, pela TV, o resgate do Cavalo Caramelo, ilhado no telhado de uma casa submersa, na tragédia que assolou o estado do Rio Grande do Sul, em maio de 2024. Caramelo, carinhosamente assim apelidado, permaneceu firme, ali, imóvel, de pé, faminto, aguardando ser resgatado. Foi corajoso, paciente e confiante. Exemplo? Sim. Outro dia soube que foi adotado e ganhou vida nova. Soube superar as adversidades da vida. Quanto ao Fenemê, ficou esquecido no tempo, nos silêncios da infância. Procurei fotos do Fenemê, sem sucesso. Até acho que elas não existem. Gostava de brincar sozinho, igual hoje. Solitude poética, algo assim.  

João Scortecci

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JOHN WAYNE, OS TREJEITOS E AS ARMAS DE GUERRA

Fui, na infância, o “Duke” dos trejeitos. Trejeitos: movimentos corporais, faciais ou expressões comportamentais peculiares, muitas vezes automáticos e involuntários. Confesso: curti todos, cada um no seu tempo. Um em especial: ajustar e afivelar na cintura o cinto de couro dos dois revólveres. Fazia assim – sempre – antes de sacá-los, num piscar de olhos, e pistolar os inimigos do reino. Um sinal involuntário – um tique nervoso – um aviso: balas vão voar! Mamãe Nilce perguntando: “Filho, o que você quer de presente no Natal?”. Resposta de sempre: “Quero dois revólveres e duas cartucheiras do John Wayne e muita espoleta!”. “De novo? Pede outro presente.” “Não!” “Você está precisando de meias!” “Não! Meia é castigo!” “E uma boa sova de cinto: você quer?” “Também não.” Diálogo sem fim, inútil. Mamãe Nilce já perdendo a paciência: “O seu quarto está parecendo um paiol de guerra, entupido de espoletas, chilenas, rojões e bombas rasga-lata! Quer explodir tudo?”. “Talvez”. “Menino, o que você disse?” “Nada”. E provocando: “Mãe, se o quarto explodir e tudo pegar fogo?”. Resposta direta: “Você morre queimado!”. “Posso, então, dizer o meu último desejo?”. “Pode”. “Quero no Natal ganhar de presente dois revólveres e duas cartucheiras do John Wayne”. Mentindo, com os dedos cruzados: “Eu juro que no ano que vem peço outro presente”. “Você jura?”. “Juro”. O quarto explodiu no ano de 1968. Fogo e gritos. Fiquei três meses de molho e acabei perdendo o ano escolar. Tive que fazer enxerto de pele e até hoje carrego na barriga o mapa da tragédia. John Wayne, o Duke (Marion Robert Morrison, 1907 – 1979), faleceu em 11 de junho de 1979, aos 72 anos de idade. Wayne foi, na minha infância de “balas e espoletas”, o meu cowboy. Quanto aos muitos trejeitos – os de hoje – são outros. O trejeito de ajustar na cintura o cinto de couro desapareceu, sumiu de vez. Um dia – quem sabe – listo todos os trejeitos conquistados nos meus 70 anos de vida. Eu até juro – cruzando os dedos, claro.

João Scortecci

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NIETZSCHE, O BODE E AS DIONISÍACAS DA VIDA

Das tragédias. Durante as representações teatrais dedicadas ao deus Dionísio, conhecido como o deus da libido e da fertilidade, um bode era sacrificado ao canto de uma “oda” - poema lírico que expressa um forte sentimento - por aqueles que formavam o coro. Dionísio - na mitologia romana, chamado de Baco - é um dos mais importantes deuses da religião e mitologia grega e o mais humano de todos. Foi o último deus a ser aceito no Olimpo e também o único filho de um simples mortal. Os gregos antigos eram apaixonados por teatro. Foram eles que criaram os gêneros clássicos da dramaturgia: comédia, drama e tragédia. Esta última em sua origem era uma representação marcada por dor e sofrimento. Os atores nas apresentações usavam máscaras enfeitadas com chifres de bodes. O poeta e filósofo prussiano Nietzsche (Friedrich Wilhelm Nietzsche, 1844 - 1900), no ano de 1871, publicou a obra "O nascimento da tragédia no espírito da música". Para Nietzsche, a arte - e somente ela - propiciava enfrentar a dor da existência. Sua filosofia central é a ideia de "afirmação da vida", que envolve questionamento de qualquer doutrina que drene uma expansiva de energias. Para Nietzsche, o homem ocidental tem seguido na direção do deus Apolo - deus que personifica a harmonia, a beleza e a juventude -, mas tem se esquecido da paixão e da energia representada pelo deus Dionísio. As reflexões de Nietzsche - mais recentemente - foram recebidas em novas abordagens filosóficas e se movem ao encontro do “transumanismo” - movimento filosófico que visa transformar a condição humana, com o uso das novas tecnologias - às máximas potencialidades em termos de evolução humana, deixando em segundo plano a evolução biológica, alcançando o patamar de pós-humano, condição que vai além do ser humano tradicional. Vontade de poder, a liberdade individual e a coragem de enfrentar a própria existência. O “bode” e as “odes” estão novamente no teatro das tragédias. Na verdade sempre estiveram. Nunca se ausentaram da dramaturgia da vida. O bode de Dionísio até então dormia o silêncio do Olimpo, e os poetas em suas odes - apenas eles - resfolegavam libidos poéticos, perdidos no espírito da dor e do sofrimento. Nietzsche, sempre ele. 

João Scortecci
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DAS MUITAS MARIAS, MAIS QUE AS ESTRELAS DO CÉU!

Foi o poeta pernambucano Manuel Bandeira (1886 – 1968) quem declamou os versos, os mistérios e os segredos da “Canção de Muitas Marias”, isso em 1940. Na época da aparição, eu ainda não era nascido. Nasci depois, no ano de 1956. Diz o poema: “(...) Há mais Marias na terra. / Tantas que é um não acabar, / Mais que as estrelas no céu, / Mais que as folhas na floresta, / Mais que as areias no mar! (...)”. Guardei na alma, desde então, o amor pelas Marias, ricas e pobres, santas e pecadoras, mulheres, todas inesquecíveis e eternas. Digo com a boca do coração: as mulheres – todas, sem exceção – deveriam ter uma Maria qualquer no nome! No poema de Manuel Bandeira gosto mais que tudo deste verso: “Mais que as estrelas do céu!”. Céu de Marias das Graças! Desde menino coleciono santinhos de Marias. Eu os guardo num quadro de feltro, na parede da minha sala na editora. Quando tudo isso começou? Não sei. Aconteceu, simplesmente. Foi na aparição da “Canção de Muitas Marias” que me vi devoto de Nossa Senhora das Graças. Então, olhamo-nos! Ela, Maria das Graças, conhecida como a “Maria da Medalha Milagrosa”, associada às aparições de Maria, em 1830, à noviça Santa Catarina Labouré, em Paris, França. No ano de 1966, meu irmão José Henrique, na época com 15 anos de idade, brincando de pega-pega com um amigo de classe – no Colégio Cearense, da Congregação Marista, na cidade de Fortaleza, Ceará – trombou, inesperadamente, com Maria das Graças, derrubando-a no chão. A santa se espatifou! Surpreso, perguntou-se: “O que Maria das Graças fazia ali, perdida, no meio da classe?”. O que descobriu, depois: Maria peregrinava, cada dia numa classe, orando e protegendo todos. Quando a santa caiu no chão, o mundo do meu irmão José se esvaziou. Ele perdeu o fôlego e tombou de dor. O irmão Marista Armando (Armando Vasconcelos Reis, 1943 – 2023), responsável pela peregrinação da santa, castigou-o, obrigando-o a repor a imagem de outra Maria, Nossa Senhora das Graças. Foi o que aconteceu, prontamente. Irmão Armando lecionava Ciências e Francês no Colégio Cearense e lá ficou de 1963 até 1967, quando se mudou para Recife/PE. Antes de partir nos procurou e devolveu a imagem de Maria, de Nossa Senhora das Graças. Disse-nos: “Sempre que rezo para a Maria, lembro-me do José Henrique! Nada mais justo que a imagem fique com ele”. Foi o que aconteceu. Maria ganhou na casa meu irmão um lugar especial, um pequeno oratório, no corredor central, ligação da sala de jantar com os quartos. No ano de 1970, José Henrique se mudou para a cidade de São Paulo e Maria das Graças ficou em Fortaleza. Em 1982, meus pais, Luiz e Nilce, deixaram o Ceará, mudaram-se para Pouso Alegre/MG e depois, por fim, para a capital paulista. A santa foi empacotada e despachada para o endereço do José Henrique, onde permanece até hoje. Deu-lhe um oratório de madeira e desde então a venera e protege. José Henrique, espírito do navegador e explorador italiano florentino Américo Vespúcio (1454 – 1512), nasceu no ano de 1951, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Sua história de muitas aventuras é incrível. Pintor, escultor, velejador, navegador e aviador. Esteve na Antártica e cruzou oceanos. Para onde vai, carrega junto Maria das Graças. Numa de suas aventuras, voando no seu Bravo 700, um monomotor de dois lugares, junto com o amigo Antônio Formiga, tiveram que fazer um pouso de emergência na Serra de Biritiba Mirim, nas proximidades de Mogi das Cruzes, município paulista, na região do Alto Tietê, a cerca de 70 km da capital do estado. Pilotavam com visão zero. O avião bateu no topo de uma árvore e a hélice se quebrou. Foram socorridos por um morador da região que os levou para a sua casa. Lá chegando, encontraram uma pequena capela com a imagem de Nossa Senhora das Graças, que os acolheu são e salvos. Outro dia meu irmão José Henrique me pediu para escrever e contar a história das Marias das Graças, sobre as muitas vezes que ela o salvou da morte. “Sim”, respondi. Sentei-me e abri o poema “Canção de Muitas Marias”, de Manuel Bandeira. No momento, José Henrique se recupera de um acidente de bike em que quebrou a clavícula. Na conversa, eu, ele, Bandeira e Vespúcio bebemos e celebramos o encontro. Depois, mais que as estrelas no céu, mais que as areias no mar, rezamos os versos das Marias das Graças, de Nossa Senhora: “Ó imaculada Mãe de Deus e nossa Mãe, ao contemplar-vos de braços abertos derramando graças sobre os que vos pedem... “.

João Scortecci

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CLARO ENIGMA: DIAULAS RIEDEL, RICARDO RAMOS, JOSÉ PAULO PAES E O UNIVERSO MÁGICO DOS LIVROS

Conheci o poeta, tradutor, crítico literário e químico José Paulo Paes (1926 – 1998), no final dos anos 1970, na sede da União Brasileira de Escritores (UBE), na cidade de São Paulo, quando ele ainda era editor do selo Cultrix, do Grupo Editorial Pensamento, fundado pelo português Antônio Olívio Rodrigues, no ano de 1907, e, na época, gerido pelo seu genro, o escritor, editor e gráfico Diaulas Riedel, pai do editor Ricardo Riedel e avô da Carolina Riedel, hoje Diretora de Marketing e Vendas do Grupo Pensamento. Diaulas foi presidente e um dos fundadores da Câmara Brasileira do Livro (CBL), junto com Ênio Silveira e Octales Marcondes Ferreira, e responsável pela publicação do “Almanaque do Pensamento”, febre editorial dos anos 1970. Diaulas Riedel faleceu em 1997, aos 76 anos de idade, quando, então, Ricardo Riedel, seu filho, assumiu o Grupo Editorial Pensamento. Eu e Ricardo Riedel durante várias gestões fomos diretores da CBL e nos últimos 30 anos fizemos parte do Grupo da Tripa, formado pelos editores, gráficos e escritores Raul Wassermann (“in memoriam”), José Henrique Grossi, João Scortecci, Felipe Lindoso, Ivo Camargo, Ricardo Riedel, Ricardo Pamplona Vaz e Vitor Tavares. José Paulo Paes, na companhia do professor Massaud Moisés (1928 – 2018), foi organizador do “Pequeno dicionário de literatura brasileira”, publicado em 1967. Em 1982, José Paulo Paes aposentou-se como editor da Cultrix, dando início, então, ao trabalho de tradução. Verteu para o português obras de Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Lawrence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Friedrich Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rainer M. Rilke, Giórgos Seféris, Lewis Carroll, Ovídio, Níkos Kazantzákis, entre outros tantos. Aproximamo-nos de vez, depois de 1989, quando José Paulo Paes lançou, pela coleção Claro Enigma – organizada pelo jornalista e professor Augusto Massi, selo da Livraria e Editora Duas Cidades – o livro “A poesia está morta, mas eu juro que não fui eu”, título extraído de versos de seu poema “Acima de qualquer suspeita”. A coleção, composta de 12 volumes, foi um tremendo sucesso e marcou época na poesia brasileira. Em 1990, José Paulo Paes adoeceu. Teve a perna esquerda amputada. Em dezembro de 1991, ainda quando a Scortecci Editora funcionava na Galeria Pinheiros, na Rua Teodoro Sampaio, n. 1.704, Loja 13, José Paulo Paes me visitou, amparado pelo escritor e publicitário Ricardo Ramos, que, desde então, o acompanhava, sempre. Ricardo Ramos, ao pé do meu ouvido, sussurrou: “Scortecci, precisamos ajudá-lo!” Quis o destino que, alguns meses depois, no dia 21 de março de 1992, Ricardo Ramos viesse a falecer de câncer no fígado. José Paulo Paes sobreviveu, vindo a falecer oito anos depois, em 9 de outubro de 1998, em tempo para publicar, no livro “Prosas seguidas de odes mínimas” – no qual reflete sobre o momento difícil de sua vida – o poema “Ode à minha perna esquerda”: “(1) Pernas/ para que vos quero?/ Se já não tenho/por que dançar,/ Se já não pretendo ir a parte alguma./ Pernas?” (...) (7) Longe/ do corpo/terás/ doravante/ de caminhar sozinha/ até o dia do Juízo./ Não há/ pressa/ nem o que temer:/ haveremos/de oportunamente/ te alcançar.” Ricardo Ramos e José Paulo Paes foram pessoas queridas e influentes na minha vida. Até hoje sinto falta deles e de tudo que vivemos juntos, no universo mágico dos livros.

João Scortecci

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MUITO PELO CONTRÁRIO / Editorial para a Revista Abigraf

Chegamos ao muito pelo contrário: uma situação real do dito pelo não dito, algo assim. O Brasil sofre uma polarização política, radical, que, infelizmente, engessa o país e o coloca numa sinuca de bico. A imagem do jogador de sinuca encurralado – sem saber o que fazer – diante do desafio a vencer me parece ilustrativa e oportuna. O que temos do dito pelo não dito: um ano truncado, com eleições, guerras, intervenções e incertezas. Qual a jogada certa, possível? O que fazer para sairmos do imbróglio?

Nos últimos 50 anos, a indústria brasileira vem sofrendo uma lenta e contínua desindustrialização. Perdemos “energia”, muito antes de alcançarmos eficiência, riqueza e maturidade. Diferentemente de nações ricas, o País ficou no dito pelo não dito.

No editorial anterior da Revista Abigraf apontei os perigos do fim da escala de trabalho 6 x 1 –tudo indica que será implantada a toque de caixa – em um país que ainda não está maduro e pronto para tamanhos desafios. Não somos contra. A indústria não é contra, mas não no Brasil – dividido – de hoje. O trabalhador brasileiro, infelizmente, sairá perdendo, e muito. Com a queda do poder de compra – inevitável –, risco de desemprego, informalidade e pressão inflacionária, não sairemos da sinuca de bico. Consequências: estagnação e crescimento pífio. Estima-se que a economia perderá R$ 158 bilhões por ano. Os setores mais afetados serão o de serviços, com um custo adicional estimado em R$ 76,9 bilhões, seguido pela indústria, com custo adicional de R$ 35,9 bilhões.

Com o fim da escala 6 x 1, há dois pontos a serem destacados, que considero gravíssimos. O primeiro é a perda do poder de compra do trabalhador, que terá que recorrer inevitavelmente à hora extra e ao já institucionalizado “bico”, para tentar manter o poder de compra, perdendo assim, os possíveis ganhos com a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. O segundo ponto é a indicação do desenvolvimento tecnológico como solução, num país atrasado e sem poder de investimento, onde as micro e pequenas empresas somam mais de 21,7 milhões de negócios ativos, representando 97% de todas as empresas do País. Estão confundindo “sobrevivência” com “ganho tecnológico”. Ganho tecnológico, no Brasil de hoje, é para poucos. A maioria das empresas brasileiras está com a corda no pescoço! Falar de ganho tecnológico é o dito pelo não dito.

As consequências serão catastróficas: repasse de preços, prejuízos para os mais pobres, queda na qualidade do atendimento de serviços, judicialização e fechamento de milhares de pequenas empresas, que hoje representam mais da metade dos empregos formais do País. No caso da indústria gráfica, 95% são de pequenas empresas, com até 10 trabalhadores. No Brasil, existem 15.691 empresas gráficas ativas, que empregam aproximadamente 175.509 trabalhadores, com um faturamento anual de cerca de R$ 45 a R$ 50 bilhões.

Sinuca de bico? É o dito pelo não dito, muito pelo contrário, algo assim.

João Scortecci

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POEMA DO GARFO ESTRÁBICO

Sardônico é o escárnio do poema. Um irrisório do riso! Vive carregado de desdéns e falácias! Seus rizotônicos são risíveis de sorriso! Um garfo estrábico. Risório e Risota – amigos de versos e prosas – desaprovam seus ditos de zomba. Sardônico é um sádico: largo, imprevisível e perigoso. Muito perigoso. Mesmo assim o toleram. Todos – e mais ninguém – nasceram irmãos no caminho do abismo. São filhos do precipício, da queda, lá do morro do sangue ruim. Nasceram da cunha do espinho e do prego sujo, enferrujado. Dormem juntos – aos tombos do gozo – no assoalho do chão, na desordem das palavras perdidas. É Sardônico quem – sempre – puxa a ladainha do poema. Assunto? Uma angústia maluca que o persegue dia e noite na cabeça. Pesadelo frenético, que o incomoda. Risório e Risota não reclamam. Aceitam o mote e o seguem de pronto. O poema começa assim: “Porta que se arrebenta e arde: cristais!/ Olha longe e perto: nada vê de novo./ No rasgo dos olhos/ caleidoscópios, cunhas e sangue./ Muito sangue./ Pano sujo esconde o sol ferido./ Dói esperar...” Então, é a vez de Risório alinhar mais versos ao poema. Pergunta: “Até quando?/ A morte dorme no ventre do passeio./ As horas nos chamam de longe./ Tudo em algum lugar nos quer./ Nos abraça!” E Risota – a caçula tristonha – resfolega, então, um provável final para o poema: “A hora tarda de horas./ Tarda de vida,/ tarda de sonhos e esperanças. Simplesmente tarda...” E Sardônico, o escárnio do poema, o perigoso, o da zomba, carrega o rifle de caça, aponta para os cristais e atira. Mata Risota no coração, que cai no assoalho do chão, e fere Risório – de raspão – no pescoço. Risório, enfurecido, arma-se com o garfo estrábico e cega Sardônico, apunhalando-o no rosto, ferozmente. Sardônico, então, brada uma glória de dor: “Até que enfim, feito o derradeiro poema!”. Sardônico respira e morre – amorosamente – tombando sobre o corpo da irmã Risota. Risório, enciumado, traído, pelo tombo do gozo, carrega o rifle e se mata, com um tiro na boca. Escárnios do poema. Leio o poema e o guardo no prelo. Talvez o publique. Talvez.

João Scortecci

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ANO DE 1989: JOÃO DO PULO, QUIRINO CARNEIRO RENNÓ E O GUIA DE ARBITRAGEM DE ATLETISMO

Conheci o coronel Quirino Carneiro Rennó no ano de 1976, quando soldado 1.148, da CCS-PT, do 2º Batalhão de Guardas, Parque Pedro II, na cidade de São Paulo. Rennó era, na época, o subcomandante do batalhão. Além de militar, trabalhava com arbitragem na Federação Paulista de Atletismo. Foi o “descobridor” do atleta recordista mundial do salto triplo, João do Pulo (João Carlos de Oliveira, 1954 – 1999). Foi Rennó, no ano de 1972, quem o levou para o 2º Batalhão de Guardas, como soldado, depois, cabo, acreditando estar diante de um futuro campeão. João do Pulo treinou no São Paulo Futebol Clube e depois foi para o Clube Pinheiros, onde encontrou o treinador Pedrão (Pedro Henrique de Toledo) que o transformou num atleta competitivo e vencedor. Em 5 de outubro de 1975, aos 21 anos de idade, nos Jogos Pan-Americanos da Cidade do México, deu o salto triplo que o consagrou, batendo o recorde mundial da categoria: pulou 17,89 m. O recorde de João do Pulo só viria a ser superado 10 anos depois, pelo americano Willie Banks, com a marca de 17,97 m. Em 1982, aos 27 anos de idade, João do Pulo – apelido dado pelo atleta Benedito Rosa Preta –, sofreu um terrível acidente de carro na Rodovia Anhanguera, onde acabou, infelizmente, tendo a perna direita amputada. Impossibilitado de competir, candidatou-se a deputado estadual por São Paulo, tendo sido eleito, em 1986, e reeleito, em 1990. Desistiu de ser político e foi ser empresário, sem sucesso. Tentou, ainda, voltar para a política, em 1998, mas não conseguiu. João do Pulo morreu no ano seguinte, no dia 29 de maio de 1999, um dia depois de completar 45 anos de idade. Em 1989, já editor de livros, no endereço da Rua Teodoro Sampaio, 1.704, loja 13, recebi – inesperadamente – a visita surpresa do Coronel Quirino Carneiro Rennó. “É você, soldado?” Trocamos continências e – durante uma tarde inteira – papo sobre o João do Pulo, o acidente de carro, o 2º Batalhão de Guardas e, por fim, a publicação do “Guia de Arbitragem de Atletismo” (Q. C. Rennó, 1989, 112 páginas). Hoje – procurando um livro de outro autor, também do ano de 1989 –, encontrei um exemplar do “Guia”. Sentei-me no tempo e lá fiquei no ano de 1976, o ano que não terminou.

João Scortecci


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