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PERDER PAÍSES E A ÂNSIA DE TER UM FIM

O poeta, filósofo, dramaturgo e tradutor português Fernando Pessoa (Fernando Antônio Nogueira Pessoa, 1888-1935) nasceu em Lisboa, e é considerado o mais universal poeta português. Pessoa foi educado na África do Sul, numa escola católica irlandesa. Dominava o idioma inglês e foi nele que escreveu o seu primeiro poema. Das quatro obras que publicou em vida, três são na língua inglesa e apenas uma em língua portuguesa: “Mensagem” (44 poemas, em 1934). Como poeta, escreveu sob diversas personalidades (heterônimos): Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e outros. “Viajar! Perder países é" um dos seus mais belos poemas. Quem o lê viaja! Quem parte não fica. E por “não pertencer nem a mim” eu sou muitos. -

- VIAJAR! PERDER PAÍSES! -

Viajar! Perder países! 

Ser outro constantemente, 

Por a alma não ter raízes 

De viver de ver somente! 

Não pertencer nem a mim! 

Ir em frente, ir a seguir 

A ausência de ter um fim, 

E a ânsia de o conseguir! 

Viajar assim é viagem. 

Mas faço-o sem ter de meu 

Mais que o sonho da passagem. 

O resto é só terra e céu. 

Fernando Pessoa

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BERTOLT BRECHT – OS IMPRESCINDÍVEIS

Releitura do poema “Os que lutam” do dramaturgo e poeta alemão, Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht, 1898-1956), sem ironia, sem deboche e nada parecido com o original. Paródia? Tragicomédia? Talvez. Há homens que lutam vez por outra, e são ruins. São mutáveis frente ao bem. E, também, deltas, variantes, abismos. Alguns navegam sem rumo ou qualquer direção. São mutantes do incerto. Há homens que são oportunistas e egoístas. É o que são. Não conhecem o norte e não usam bússolas. Não pensam. Acham que são imortais. Há homens do exército dos que lutam e não são soldados. São traços, rabiscos da paisagem morta! Há homens que são bondosos. Apenas isso. Há outros que travam “moinhos de vento”, e são os piores. Há aqueles que escrevem histórias, leis e valores, e são indiferentes ao julgar o verbo. Poetas? Poucos. Há homens que são guerreiros da luz. Iluminados! Há homens covardes de coragem, traidores, contraditórios e pífios: no olhar. São sombras e testemunhas. Veem e não enxergam. Neles não há o fogaréu. Não há a brasa dos infernos e nem o mantra do carvão. Há homens que não são nada, e outros, tudo! Há homens que lutam toda a vida da sorte. Aventureiros? Há homens que são imprescindíveis à dor. Estes são homens e gritam por justiça. Há homens que cortam o fio da própria carne. E, pálidos, sangram. Há homens de Brecht em todo o infinito do Céu: do bem e do mal. E no mar, também. Profundo e acolhedor. E também no ar da Terra. Desigual, perene e bela. Texto, contexto e (sem)fim.

21.11.2021

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GUERRA E PAZ E “GESTÃO DEMOCRÁTICA” NAS ESCOLAS

“Guerra e Paz”, do russo Liev Tolstói (Lev Nikolaevitch Tolstoi, 1828-1910) - publicado inicialmente entre 1865 e 1869, no periódico “Russkii Vestnik”, e depois em livro - é uma das obras mais volumosas da literatura universal. O romance narra a história da Rússia no período das guerras napoleônicas - série de conflitos liderados por Napoleão Bonaparte contra nações europeias, de 1792 a 1814. A riqueza e o realismo dos detalhes e das numerosas descrições psicológicas fazem com que seja considerado um dos mais importantes romances da história da literatura. Em 1851, aos 23 anos de idade, após ser considerado pelos seus professores "incapaz e sem interesse pelo aprendizado", abandonou o curso de Direito e Línguas Orientais na Universidade de Cazã e juntou-se ao exército russo. Foi a partir dessa experiência militar e várias viagens à Europa que começou a escrever e a se tornar um anarquista pacifista. Numa carta enviada ao seu amigo Vasily Botkin, ele escreveu: "A verdade é que o Estado é uma conspiração desenhada não somente para explorar, mas acima de tudo para corromper seus cidadãos...”. Durante sua segunda viagem pela Europa, Tolstói foi influenciado política e literariamente pelo poeta, escritor, dramaturgo e ativista pelos direitos humanos, Victor Hugo (Victor-Marie Hugo, 1802-1885). Em “Guerra e Paz”, Tolstói descreve as batalhas de maneira semelhante à de “Os Miseráveis”, obra-prima de Hugo, publicada em 1862 e em que descreve a vida das pessoas pobres em Paris e na França provincial do século XIX. Tolstói é considerado o precursor da liberdade na educação escolar, tendo influenciado na formulação do que atualmente se nomeia como “gestão democrática” nas escolas. Lev (Leão, Leon, Leo) Tolstoi faleceu aos 82 anos de idade, em Astapovo - localidade rural e centro administrativo do distrito de Lev-Tolstovsky de Lipetsk Oblast, na Rússia - em 20 de novembro de 1910.

20.11.2021

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EU SOU ANTIGO: DO TEMPO DO PESTAPE E DA COLA DE BENZINA

Abri oficialmente a Scortecci Editora no ano de 1982. Já trabalhava com edição e impressão de livros, desde 1978. Computadores, nem pensar. O primeiro PC da empresa chegou em 1992, e a Internet, discada e barulhenta, somente em 1998. Costumo dizer que sou antigo: do tempo do pestape, da cola de benzina e da IBM Composer. A partir dos anos 1990, a Scortecci aderiu às novas tecnologias - principalmente na parte da impressão gráfica. Com a lei nº 11.788/2008, Lei do “estudante estagiário”, o quadro de colaboradores cresceu e novos setores foram criados na empresa: os departamentos de Marketing, de Arte e Criação, de Comunicação e, também, a nossa primeira loja na Web, a Livraria Asabeça, em dezembro de 1999. O time foi montado com estudantes estagiários - doze no total - e a Internet discada, a grande vedete da época. Trabalhar num PC 286 e conectado era o máximo. Privilégio para poucos, principalmente estagiários. É dessa época o dia que, de volta de uma viagem a Piracicaba, interior do estado de São Paulo, para o lançamento de uma antologia poética de novos escritores, encontrei a estagiária Maria Luiza, do Marketing, chorando e arrancando os cabelos. Estava transtornada e - na verdade - já enlouquecida. “Maria Luiza, o que aconteceu?” Ela, aos prantos, respondeu: “Sr. Scortecci, estou perdida, desconectada do mundo. Não consigo falar com o meu cliente. A Internet caiu, e agora não sei o que fazer!” “Calma! Calma! Deixa ver a ficha de atendimento do cliente.” Ela me entregou. A ficha estava completa, letra bem feita, redondinha, legível, melhor impossível. Os campos reservados para os números de telefone - comercial e residencial - estavam preenchidos. Melhor impossível. “Maria Luiza, quantos anos você tem?” “Tenho 18'', respondeu. “Você sabe o que é um telefone?” “Sei. Claro. Por quê?”. Aborreceu-se. “Você notou que tem um aparelho na sua mesa de trabalho?” “Eu vi. É para usar?”. “Claro! É pra isto que eles servem: para falar com as pessoas! Que tal você ligar para o cliente?” Foi o que ela fez. Naquele mesmo dia, no final da tarde, reuni todos os doze estudantes estagiários da Scortecci, para contar-lhes como trabalhávamos - e bem - antes das invenções dos computadores, da Web, dos aparelhos de fax, das impressoras, dos scanners, da banda larga, do Wi-Fi, das copiadoras e, mais recentemente, dos aplicativos, do Dropbox e outros, do ZOOM e muitos outros, dos aparelhos celulares, dos smartphones, das redes sociais, do WhatsApp e outros e mais outros... Tudo mudou desde então e continua mudando - na raiz do pensamento - e nós, escritores, editores, gráficos e livreiros - e tantos - continuamos “cometendo” livros e mais livros, desde sempre.

19.11.2021


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LEON FEFFER, O HOMEM QUE CALCULAVA PAPEL PARA LIVROS

Conheci o ucraniano Leon Feffer (1902-1999), fundador do Grupo Suzano Papéis, no ano de 1996, quando da edição e impressão, para a associação “A Hebraica”, da antologia do I Concurso Literário Consulesa Antonietta Feffer, em homenagem a sua esposa, então recentemente falecida. Leon Feffer dedicou-se ao trabalho comunitário em instituições como a Casa de Cultura de Israel, a Federação Israelita do Estado de São Paulo, o Hospital Albert Einstein e o Colégio Renascença. Foi um dos fundadores de “A Hebraica” e cônsul de Israel no Brasil. Empresário respeitadíssimo e bom de conta “de cabeça”. Para muitos, um adorado “pão-duro”. Veio para o Brasil em 1920, com 18 anos de idade, com a mãe, um irmão e duas irmãs. Seu pai já estava no País desde 1910. Durante os anos de 1920 e 1930, fundou, na capital paulista, a empresa “Leon Feffer”, voltada ao comércio de papéis, uma tipografia e uma pequena fábrica de envelopes. Morava na Rua Bresser, no bairro do Brás, e usava o porão da casa para armazenar papéis. Para visitar os clientes, usava o bonde. Em 1941, inaugurou sua primeira fábrica de papel, no bairro do Ipiranga, também na cidade de São Paulo. Em cinco décadas construiu um império. Foi Leon Feffer quem me ensinou a calcular a quantidade de papel para impressão de livros. Tudo aconteceu mais ou menos assim: diagramamos a obra, definimos a tiragem e solicitamos por fax, para a Suzano Papéis - patrocinadora da obra literária -, oito resmas, com 500 folhas cada, no formato 87 x 114 cm, para impressão da antologia. Trinta minutos depois, não mais do que isso, o telefone tocou. Atendi, de pronto. Era o Sr. Leon Feffer. O coração disparou. “Em que posso lhe atender, Sr. Leon?” “Meu jovem, sei que estou conversando com um editor respeitado, inteligente, de prestígio no mercado de livros.” “Obrigado”, respondi. “Posso lhe fazer uma pergunta?” Gelei. “Claro, Sr. Leon. Faça, por favor.” “Onde o jovem editor aprendeu a calcular a quantidade de papel para a impressão de um livro?” Silêncio. Refiz os cálculos - na velocidade da luz - conferi o pedido enviado por fax e respondi. “Sr. Leon, o meu cálculo está correto.” “Não está. Não está. Não está!” Repetiu três vezes. “Onde eu errei, Sr. Leon?” Ele então me ordenou, de pronto: “Pegue papel e lápis e vamos calcular juntos”. E assim foi. Na ponta do lápis, chegamos a sete resmas e mais 150 folhas. “Certo?” “Certo”, respondi. Ele então me perguntou: “Qual então a razão do seu pedido de oito resmas com 500 folhas cada?” “Sr. Leon, coloquei 10% de quebra e arredondei o número de resmas. É o padrão.” Sr. Leon explodiu: “Padrão? Isso é um absurdo! Desperdício de papel! 10% de sobra? Sua máquina gráfica deve estar desregulada, deve estar precisando de uma boa manutenção. Faça isso! Outra coisa: você não sabe que fabricamos meia resma, com 250 folhas?” “Sim. Sei”, respondi. “Sete resmas com 500 folhas cada e mais uma meia resma, com 250 folhas, são mais do que suficientes." E assim foi feito. No fígado. Devo ter publicado e impresso duas ou três antologias do Concurso Literário Consulesa Antonietta Feffer. Com o passar do tempo, o Sr. Leon, madrugador que era, passou a telefonar pela manhã, para papear e jogar conversa fora, uma ou duas vezes por semana. Ficamos amigos ou quase isso. Ele falava e eu respondia. Em 1998, o Sr. Leon adoeceu e veio a falecer no dia 7 de fevereiro de 1999. O queridíssimo Sr. Leon Feffer foi o meu Malba Tahan, o homem que calculava papel para livros.

17.11.2021

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FORTALEZA É LUZ DO FAROL DO MUCURIPE

Fortaleza é luz. Iracema - a filha de Araquém - dorme suas águas aos olhos do mar. Velas e vento. Martin e Caubi partiram cedo com a jangada dos peixes, nos primeiros ventos da manhã. Eu, filho dos Tabajaras, espero o reencontro de Alencar, Rachel, Aderaldo e outros. Quero saber dos peixes, das lagostas, dos camarões, da água de coco e das tapiocas de mel. Minha terra é isso - e quase tudo - no coração das lembranças e do tempo veloz.

25.11.2021

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A TRUPE PLURIAPTA DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA E OUTROS

Hoje, na FOLHA, sobre a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o jornalista especial, Naief Haddad, escreveu: “Deodoro (Marechal Deodoro da Fonseca, 1827-1892) não tinha o perfil mais adequado, os demais líderes menos ainda. Também militar Floriano Peixoto era considerado 'radical'. Benjamin Constant, outro militar, era um homem dos livros, menos apto para insurreições. O fato de ser civil era um ponto negativo para Ruy Barbosa.” Aqui com os meus ossos: sobre Benjamin Constant, “homem dos livros, menos apto para insurreições”, e sobre Ruy Barbosa, “o fato de ser civil era um ponto negativo”, deixou-me perplexo e com “perplexitude”. O militar, engenheiro e escritor, Benjamin Constant (Benjamin Constant Botelho de Magalhães, 1836-1891), participou da Guerra do Paraguai (1865 -1870), de onde voltou, em setembro de 1867, por motivo de doença. As suas cartas escritas, sobretudo, para a esposa (Maria Joaquina Botelho de Magalhães) e o sogro (Cláudio Luís da Costa), nas quais critica duramente a direção da guerra em geral e, em especial, o Duque de Caxias, foram publicadas por Renato Lemos, no livro “Cartas da guerra: Benjamin Constant na Campanha do Paraguai” (IPHAN e Museu Casa de Benjamin Constant), em 1999. Constant, adepto do Positivismo, cujas ideias difundiu entre a jovem oficialidade do Exército brasileiro, foi um dos principais articuladores do levante republicano de 1889. Foi Ministro da Guerra e, depois, Ministro da Instrução Pública. Quanto ao polímata Ruy Barbosa (Ruy Barbosa de Oliveira, 1849-1923), foi designado por Deodoro da Fonseca como representante do governo republicano e coautor - com Prudente de Morais - da Constituição da Primeira República. Ruy Barbosa atuou na defesa do federalismo, do abolicionismo e na promoção dos direitos e garantias individuais. Sobre o que escreveu o jornalista Naief Haddad, confesso que discordo e não deixo de concordar, muito pelo contrário. Tenho, agora, dois outros textos na pauta do dia: sobre “Cartas da guerra: Benjamin Constant na Campanha do Paraguai” e outro para saciar minha “perplexidez” sobre a quem pertence, de fato e de direito, a prática revolucionária ou golpista, do ato da “insurreição”, ou efeito de insurgir(-se), de sublevar(-se) contra a ordem estabelecida. Feito isso - talvez - escreva sobre o carniceiro ou “radical” Floriano Peixoto e o “Manifesto dos 13 generais”, que tinha por finalidade contestar a legitimidade do seu governo, após a renúncia de Deodoro e o início da “República da Espada”.

15.11.2021


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“RECEITA PARA FAZER UM HERÓI” NA GLÓRIA DO RIBATEJO

A série “Glória”, no Netflix, é um suspense histórico de espionagem, que tem como pano de fundo as instalações da RARET (RAdio RETransmissão), o centro de retransmissão da Rádio Europa Livre. A série se passa em Portugal, nos anos 1960, e mostra como a pequena vila de “Glória do Ribatejo”, na freguesia de Salvaterra de Magos, no Santarém, extinta em 2013, acabou se tornando palco da Guerra Fria, quando exércitos americanos e soviéticos recorreram a manobras arriscadas de sabotagem para obter o controle da Europa. O enredo gira em torno de João Vidal (interpretado pelo ator português Miguel Nunes), jovem pertencente a uma família apoiadora do regime fascista em Portugal (1933 até 1974), que é recrutado pela KGB após seu posicionamento político na Guerra Colonial Portuguesa. No meio da trama, no episódio 2, o jovem João Vidal declama o belíssimo poema “Receita para fazer um herói”, do poeta Reinaldo Ferreira (Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, 1922-1959). Filho do famoso jornalista com o mesmo nome, que nos anos 1920 se celebrizou por assinar as suas peças sob o pseudônimo “Repórter X”. Reinaldo Ferreira teve uma vida breve. Morreu de câncer do pulmão, aos 37 anos de idade. Não editou nenhum livro em vida. O poema faz parte da minha seleção de imortais. Reencontrá-lo na série “Glória” foi uma surpresa e um presente do dia. 

- RECEITA PARA FAZER UM HERÓI -

Tome-se um homem,

Feito de nada, como nós,

E em tamanho natural.

Embeba-se-lhe a carne,

Lentamente,

Duma certeza aguda, irracional,

Intensa como o ódio ou como a fome.

Depois, perto do fim,

Agite-se um pendão

E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

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TESAUROS E MUITO CUSPE NA CARA DO PAI DOS BURROS

“João, você é um tesauro!” “Eu?” “Sim, você.” Antes de sorrir - de aceitar o agrado do amigo poeta, da cidade de Varginha, Minas Gerais - ou de fazer cara feia, negar, repelir e partir para o “pau”, optei por consultar o dicionário - no “pai dos burros” - o significado da palavra “tesauro”. Tesauro? “Sim. Você é um ‘tesauro’ do mundo dos livros”. Justificou. A palavra “tesauro” - depois de lá espiar - é derivada do neolatim - versão de latim estabelecida por estudiosos do fim da Idade Média, utilizado para fins científicos -, que, por sua vez, é derivada do latim “thesaurus”, que é a latinização do grego “tesouro”, “tesouraria”, “armazém,” também conhecido como “dicionário de ideias afins”. Uma lista de palavras com significados “semelhantes”, em um domínio específico de conhecimento. Por definição, “tesauro” não deve ser encarado simplesmente como uma lista de sinônimos. Mais do que isso e longe disso. O objetivo de um tesauro - dicionário de ideias - é mostrar as diferenças mínimas - os detalhes - entre as palavras e ajudar o escritor a escolher a palavra exata. Interessante. Feito isso - depois de consultar o “pai dos burros” e de saber o significado da palavra “tesauro” - de ser ou não ser, eis a questão, e de “me-abduzir-me” com o elogio do vate, abri um tímido e leve sorriso. Acontece! Ninguém é de ferro - sempre! Até os poetas sangram. Conheço uma história - verdadeira, eu estava lá - de um político, metido a intelectual, que cuspia ao falar, daqueles que adoram fazer citações e pronunciar palavras difíceis, metido a erudito, que - num fervoroso discurso de lançamento de livro – chamou um advogado-poeta, autor da Scortecci, de lúcido, inteligente e um verdadeiro “biblioclasta”. Dois ou três presentes na plateia - minoria absoluta – balançaram a cabeça. A maioria o aplaudiu, fervorosamente. “Biblioclasta” significa aquele que destrói ou não respeita os livros. Depois do fervoroso discurso - e de duas ou três cusparadas na cara -, o nobre político perguntou-me: “E aí, gostou das justas palavras ao nobre vate, filho ilustre desta amada terra?” “Sim, muito. Acho que você até foi ‘simplório’, nos seus eloquentes elogios.” “Fui?” “Foi. Faltou também chamá-lo de um verdadeiro ‘bibliocleptomaníaco". “Posso anotar?” foi o que ele me pediu, tirando do bolso papel e caneta. “Pode”, respondi. “O que significa mesmo ‘bibliocleptomaníaco’?” No ser ou não ser e até no talvez da hora, expliquei: “Um maníaco por livros”, o que não deixa de ser uma “clasta” verdade. Ser um “tesauro” do mundo dos livros não é fácil. Até os poetas - insensíveis - vez por outra - sangram.

07.11.2021

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HORA DE RESPIRAR FUNDO E MANTER A CALMA NO ESPAÇO DO NEOCÓRTEX

Eu e as minhas “amígdalas cerebrais”. Até então, “amígdalas” eram gânglios linfáticos localizados no pescoço, nas axilas e nas virilhas e - é o que eu sabia - são a primeira “linha de defesa” do nosso sistema imunológico. Amígdalas cerebrais? Novidade! Devem existir outras, provavelmente. Tenho fobia por sangue, principalmente dos outros. O que descobri em buscas pelo Google é que são pares e trabalham em equilíbrio e harmonia. Lendo um poeta – quando fui jurado de um concurso literário, isso nos anos 1990 - ele poetava, mais ou menos assim: “Temos de tudo, em dois mundos: pés, mãos, braços, pernas, rins, pulmões... E apenas um ingrato coração bandido!” Um dia - eu prometo – vou escrever sobre o que já vivi como jurado de concursos literários. Perdi as minhas duas amígdalas do pescoço em 1967, depois de uma infecção - terrível - na garganta. A operação, às pressas, aconteceu na Santa Casa de Misericórdia da cidade de São Carlos, interior do estado de São Paulo, durante uma viagem de férias, visitando avós maternos e tios. Fiquei alguns dias tomando sorvete, e é tudo de que me lembro. Um detalhe, pertinente, registrado no meu território de lembranças: um dia depois que me operou, o médico cometeu suicídio. Aqui com o raciocínio do meu neocórtex: a vida é trágica! Lendo sobre “medo”, “instinto de sobrevivência” e “território das emoções”, deparei com a descoberta das tais “amígdalas cerebrais”. Curioso que sou - e um volátil sensível, com fobia por sangue alheio - mudei o foco e passei a buscar na web histórias cabeludas, tragédias e barbaridades, cometidas por médicos, hospitais e laboratórios, mundo afora. A lista é infinita. Depois de inflar o meu sistema imunológico e de castigar - com malfeitos médicos - os meus gânglios linfáticos, provoquei-me, com um questionamento oportuno e linfático, que agora, 54 anos depois, não me sai da cabeça dura. Pergunto a mim mesmo: Teria o Doutor – o que arrancou as minhas duas amígdalas e depois cometeu suicídio - retirado as amígdalas erradas? Trocado as bolas na hora do prelo? Arrancado as duas amígdalas cerebrais, em vez das duas amígdalas do pescoço? Erros acontecem. A distância da possibilidade não é muito grande - não mais do que 12 cm. Ou não? Volátil que sou e dono de um único coração - ou devo duvidar disso também? - vou procurar, desbragadamente, o paradeiro racional das minhas duas amígdalas cerebrais. Acho que as perdi e não sabia. Certeza que sim. Isso - na linguagem dos poetas - explicaria tudo de mim e mais: tudo em mim. E pensar que - até hoje cedo - eu, pobre infante dos versos, nem desconfiava que elas, as amígdalas cerebrais, existiam. Já sinto falta delas, das duas, confesso! Aqui com os meus ossos e valendo-me do instinto de sobrevivência: “morrendo e aprendendo!” Na dúvida, fobia por sangue alheio e chute nos gânglios do saco.

06.11.2021

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