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LU XUN E AS “FLORES MATINAIS COLHIDAS AO ENTARDECER”

O escritor chinês, Lu Xun (Zhou Zhangshou, 1881-1936), é considerado o pai da literatura moderna na China. É o representante máximo do “Movimento Quatro de Maio” - de 4 de maio de 1919 -, movimento anti-imperialista, cultural e político, em protesto contra a resposta do governo chinês ao Tratado de Versalhes (tratado de paz assinado pelas potências europeias, que encerrou oficialmente a Primeira Guerra Mundial) e, em especial, contra a permissão dada ao Japão para manter territórios em Shandong (província da República Popular da China e centro cultural e religioso fundamental para o taoísmo, o budismo chinês e o confucionismo), que tinham sido devolvidos pela Alemanha, após o cerco de Tsingtao (encontro entre as forças japonesas e alemãs, de 31 de outubro a 7 de novembro de 1914). Lu Xun fez parte da “Liga de Escritores de Esquerda” e se destacou por seus ataques à cultura chinesa tradicional e pela defesa da necessidade de reformas profundas na cultura e na sociedade chinesas. Entre 1902 e 1909, viveu no Japão e começou os estudos na Faculdade de Medicina da Universidade de Tohoku. Anos mais tarde, contou o motivo de não ter concluído o curso: “O que a China realmente precisava era de uma reforma da sua cultura e sua sociedade.” Em 1909, voltou a seu país. Em 1918, na revista reformista “Nova Juventude”, publicou "Diário de um Louco", obra pioneira no seu gênero escrita em língua vernácula. Defendia a abolição do uso dos caracteres chineses e se mostrava partidário da adoção do “latinxua”, um dos múltiplos sistemas de escrita do idioma chinês com alfabeto latino usados naquela época. Sua obra inclui contos, novelas, crônicas e ensaios. Em 1926, escreveu “Flores matinais colhidas ao entardecer”, a única obra publicada no Brasil, em edição bilíngue, com tradução de Yu Pin Fang, pela Editora da Unicamp. Lu Xun morreu de tuberculose, em Shanghai, no ano de 1936, com 55 anos de idade.

22.09.2021


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D. DINIS - O REI TROVADOR E O CANCIONEIRO COLOCCI-BRANCUTI

O poeta, filólogo românico e humanista da Renascença, Angelo Colocci (1467-1549), foi secretário do Papa Leão X e responsável pela coletânea “Cancioneiro Colocci-Brancuti”, onde estão reunidos poemas do lirismo trovadoresco galaico-português, constituído de cantigas de amigo, cantigas de amor, cantigas de escárnio e maldizer. A obra foi compilada na Itália, por volta de 1525-1526, reunindo 1664 composições, de 150 menestréis e trovadores, de um arco cronológico que vai do fim do século XII até meados do século XIV. O manuscrito circulou - durante séculos - nas mãos do conde Brancuti (Paolo Brancuti di Cagli), de Ancona, Itália, e do filólogo italiano, Ernesto Monaci (1844-1918). Em 1924, foi adquirido pelo Estado Português e depositado na Biblioteca Nacional de Lisboa, tendo recebido o nome pelo qual é hoje conhecido: “Cancioneiro da Biblioteca Nacional”. Nele, está reunido quase todo o material recolhido no “Cancioneiro da Vaticana” (coletânea medieval de 1200 cantigas) e muitos outros. O “Cancioneiro da Biblioteca Nacional” foi escrito em seis diferentes estilos caligráficos, com predominância da letra itálica chanceleresca e letra bastarda cursiva. Das 1664 composições originais, apenas 1560 chegaram aos dias atuais. Entre os trovadores presentes, destacam-se Sancho I, Pedro Conde de Barcelos, Pay Soares de Taveirós, Joham Garcia de Guylhade, Ayras Nunes, Martim Codax e D. Dinis (1261-1325), Rei de Portugal e do Algarve, de 1279 até à sua morte. D. Dinis foi grande amante das artes e letras. Tendo sido um famoso trovador, cultivou as cantigas de amigo e a sátira, contribuindo para o desenvolvimento da poesia trovadoresca na Península Ibérica. “O que vos nunca cuidei a dizer” é uma das mais apreciadas cantigas de D. Dinis: “Os diré, con tristeza, lo que nunca pensé / que os diría, señora, / porque veo que por vos muero, / porque sabéis que nunca os hablé / de cómo me mataba vuestro amor: porque sabéis bien que de otra señora / yo no sentía ni siento temor (...)"

21.09.2021


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VLAD, O DRÁCULA EMPALADOR

O Voivoda (“Príncipe”) Vlad III (1431-1476) nasceu na cidade medieval de Sighișoara, hoje município de Mureș, região histórica da Transilvânia. Foi príncipe de Valáquia, um dos três principados romenos, com Moldávia e Transilvânia, que hoje formam a Romênia, uma república semipresidencialista, localizada no centro-sudeste da Europa, ao norte da península dos Bálcãs e na costa ocidental do mar Negro. A história de Vlad III, “o Empalador”, deu origem ao personagem do livro “Drácula” (1897), criado pelo poeta, contista e romancista irlandês, Bram Stoker (Abraham Bram Stoker, 1847-1912). Valáquia, principado de guerreiros, resistiu, por diversas vezes, contra o avanço do Império Otomano, impedindo-o de chegar à Europa. Vlad e seu irmão mais novo, Radu, foram reféns do Império Otomano, como garantia da lealdade de Vlad II, seu pai. Em 1447, Valáquia foi invadida por João Corvino (1387-1456), o “Cavaleiro Branco”, regente-governador da Hungria. Após a invasão, João Corvino nomeou, como novo Voivoda de Valáquia, Ladislau II, primo de Vlad. Com ajuda e apoio de Maomé II, Sultão do Império Otomano, Vlad reconquistou Valáquia. Ladislau II, o traidor, foi castigado e executado brutalmente. Depois de torturado, foi empalado. O rito macabro começava pelo ânus e seguia corpo adentro, rasgando as entranhas da vítima, até a ponta da estaca sair pela boca. Estima-se que Vlad tenha matado aproximadamente 300 mil pessoas, enfiando estacas em seus inimigos. Maomé II ordenou que Vlad lhe pagasse tributos, em troca do apoio financeiro e militar na reconquista de Valáquia. Vlad recusou-se. O sultão otomano, então, enviou a Valáquia cobradores que foram presos e também empalados. A história de Vlad III, o Drácula da Transilvânia, não termina aqui. Em fevereiro de 1462, ele invadiu o território otomano, tendo massacrado milhares de turcos e búlgaros. Maomé II ficou enfurecido e iniciou uma caçada ao Voivoda de Valáquia. Encurralado, Vlad buscou auxílio na Transilvânia, com Matias Corvino, rei da Hungria, que o aprisionou pela morte de João Corvino, o “Cavaleiro Branco”. De 1463 a 1475, Vlad foi mantido em cativeiro em Visegrado, vilarejo localizado ao norte de Budapeste, na chamada “Curva do Danúbio”. Em 1475, foi libertado a pedido de Estêvão III, Voivoda da Moldávia. Vlad, o Drácula da Transilvânia, morreu em 1476, tentando reconquistar, sem sucesso, o trono da Valáquia. É considerado, na Romênia, um herói nacional.

19.09.2021


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FARDA, FARDÃO, BILAC E PATROCÍNIO, EM TEMPOS “VAPOROSOS”

O inventor e industrial francês, Léon Serpollet (1858-1907), foi o pioneiro dos automóveis e bondes movidos a vapor, da marca Gardner-Serpollet. Em 1896, inventou e aperfeiçoou o “flash boiler”, um tipo especial de caldeira, muito mais compacta e controlável, ideal para o uso em veículos. Em abril de 1902, na capital da França, dirigindo seu potente Serpollet, obteve o recorde de velocidade no solo: 120,8 km/h. O primeiro carro da cidade do Rio de Janeiro - um Serpollet a vapor - foi adquirido pelo farmacêutico, jornalista e abolicionista, José do Patrocínio (José Carlos do Patrocínio, 1853-1905), que, no ano de 1897, retornando de Paris, trouxe a novidade. A “máquina” teve vida curta. Na história das “trombadas” literárias, foi o primeiro "arauto" de acidente automobilístico da cidade do Rio de Janeiro, na época, Capital Federal. No volante - na condição de piloto - estava o poeta, inspetor de ensino e membro da Academia Brasileira de Letras, Olavo Bilac (Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac, 1865-1918); e, de copiloto e orientador, o próprio José do Patrocínio. A “máquina” abalroou à velocidade de 4 km/h, na estrada velha da Tijuca. A vítima teria sido uma “árvore” que, bravamente, resistiu ao impacto. A mesma sorte não teve o “vaporoso” Serpollet, que acabou no ferro-velho. É o que dizem. Dizem, ainda, que Olavo Bilac se gabava de ter sido o precursor dos acidentes de automóvel no Brasil. Em crônica publicada no jornal "A Notícia", em 1905, Bilac assim descreve o primeiro automóvel da cidade do Rio de Janeiro: feio, pequenino, amarelo e que deixava um cheiro "insuportável" de petróleo no ar. "Quando havia pane, a garotada, formando círculos em torno do veículo, rompia em vaias." Sinopse dos fatos: poeta, inspetor de ensino, acadêmico, parnasiano, desabilitado, abalroou máquina alheia, no tronco de uma árvore, na Tijuca, “com o afeto que se encerra em nosso peito juvenil”. O resto é fofoca e - de passagem - não faz parte da obra “Farda, Fardão, Camisola de Dormir”, nem das desavenças ideológicas de Amado, o Jorge.

18.09.2021


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CASSINI, HUYGENS E A LUZ ZODIACAL DO COMETA

“Cassini-Huygens” foi uma missão espacial não tripulada enviada ao planeta Saturno e seu sistema de luas, em 1º. de julho de 2004, e continuou em operação, até 15 de setembro de 2017. Foi um projeto conjunto da NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço - USA), ESA (Agência Espacial Europeia) e ASI (Agência Espacial Italiana). Entre as muitas descobertas da missão, estão ambientes potencialmente habitáveis nas luas de Saturno, incluindo um oceano de subsuperfície de água na lua “Enceladus”. A espaçonave de duas partes, “Cassini” e “Huygens”, foi assim batizada em homenagem aos astrônomos Giovanni Domenico Cassini (1625-1712) e Christiaan Huygens (1629-1695). Cassini nasceu em Gênova, Itália. Era astrônomo e matemático. Desde cedo, demonstrou interesse em estudar os cometas, corpos menores (segundo a resolução B5, de 24 de agosto de 2006, da União Astronômica Internacional) do Sistema Solar, que, quando se aproximam do Sol, passam a exibir uma atmosfera difusa, denominada “coma”, e, em alguns casos, apresentam também uma cauda, ambas causadas pelos efeitos da radiação solar e dos ventos solares sobre o núcleo cometário. Na imaginação dos “poetas do céu”, é a mulher-deusa, no cio do amor. Um cometa tem uma estrutura física dividida em três partes: núcleo - coração e vida -; cabeleira - alma e espírito de luz -; e cauda - corpo e presença divina. Em 1683, Giovanni Cassini apresentou a explicação correta do fenômeno da luz zodiacal: feixe de luz fraca, quase triangular, visto no céu noturno e que se estende ao longo do plano da eclíptica, onde estão as constelações do Zodíaco. É causada pela dispersão da luz solar nas partículas de poeira que são encontradas em todo o Sistema Solar. Para poetas imortais - guardiões do amor zodiacal –, um acasalamento de cometas e estrelas do sol.

15.09.2021


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CARTA AOS CAVALEIROS DE GUTENBERG / Revista Abigraf 308

 Assumo a presidência da Abigraf Regional São Paulo em meio a uma crise econômica sem precedentes, em meio a uma crise de saúde pública -- com quase meio milhão de mortos -- e em meio a um acelerado e insano processo de desindustrialização do setor gráfico, com desemprego em massa, inflação estrutural, desabastecimento de insumos e incertezas. Assumo com espírito de paz!
Desde menino, deixei-me levar pelo trabalho coletivo e pelo pensamento justo e democrático de que juntos somos mais fortes.
Lendo o sociólogo e filósofo alemão Ralf Gustav Dahrendorf, formatei minhas ideias, valores, diversidade e conceitos da importância do papel solidário e social.
Erra-se menos. Aprende-se muito!
Sou o menino “lobo” do escotismo; o jogador de futebol do time da rua, das figurinhas de craques, dos jogos de botões, da comunidade de jovens; o ativista político dos “anos de chumbo”; o soldado do serviço militar; o escritor marginal dos movimentos literários dos anos 1970; o diretor do centro acadêmico; o redator de jornais; o corredor da São Silvestre; o pedaleiro da bike; o leitor voraz; o escritor de muitos livros; o editor; o gráfico de tipos móveis; o livreiro; o diretor de entidades do mercado editorial e gráfico. Tornei-me gráfico em 1986. Uma paixão antiga. Sou neto do gráfico José Scortecci, editor da Revista PAN, um semanário dos anos 1930 e 1940, que marcou a história da indústria gráfica.
Tentando justificar o destino e a razão do meu inquieto legado, sou um “curioso pluriapto” da história das ideias. Esse inquieto legado me levou, em 2008, ao Gedigi, Grupo Empresarial de Impressão Digital da Abigraf Regional São Paulo.
Na Abigraf encontrei amigos, espaço e muitos desafios. Jamais imaginei chegar à presidência da casa paulista do empresário gráfico, cavaleiros de Johannes Gutenberg, pai da multiplicidade do conhecimento impresso.
Assumo com espírito de paz!
Pretendo, junto à diretoria da regional -- time vencedor escalado pelo presidente Sidney Anversa Victor, hoje na presidência da Abigraf Nacional --, dar continuidade ao bom trabalho dos “grupos empresariais” e aperfeiçoar, se possível, a comunicação da entidade com os associados, colaboradores e indústria gráfica.
Na atual gestão, criamos o Conselho Consultivo que, devido à pandemia e ao isolamento social, não pôde contribuir e ser participativo, conforme o planejado. Pretendo também “acioná-lo”, como um conselho “ombudsman“ da gestão.
Assumo com o coração de poeta, com o desafio incansável de pedaleiro, com o espírito lúcido e participativo de Dahrendorf, com o equilíbrio de Maat, deusa egípcia que personifica a força que move o trabalho, e com a vontade guerreira de Ares, deus grego da paciência, da razão e das possibilidades.
Na sorte, ao trabalho, com alma de Gutenberg!

João Scortecci

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Os cem primeiros dias na Presidência da Abigraf / Revista Abigraf 309

O período conhecido como “cem primeiros dias” é o termômetro de um gestor à frente de um governo, empresa ou entidade associativa.
A maioria das pessoas talvez desconheça o motivo e o significado histórico do ato, representativo ou não, de se cobrar de um gestor o “balanço” dos seus cem primeiros dias de trabalho. A tradição remete ao período de cem dias de governo de Napoleão Bonaparte, quando de seu retorno a Paris, em 20 de março de 1815, após sua fuga do exílio em Elba, uma simpática ilhota localizada no Mar Mediterrâneo. O retorno de Bonaparte ao poder desagradou às potências europeias, representando uma ameaça ao equilíbrio político da região. Determinados a removê-lo do trono, liderados pelo Duque de Wellington e pelo general Gebhard Leberecht von Blücher, muitos dos países que tinham se oposto ao imperador francês - como Inglaterra, Rússia, Prússia e Áustria - formaram a chamada “Sétima Coligação”, que declarou guerra a Bonaparte - considerado, então, oficialmente, um “fora da lei” -, levando-o à derrota, em 18 de junho de 1815, na histórica Batalha de Waterloo. Esse confronto marcou o fim do período dos cem dias de seu governo e a restauração de Luís XVIII ao trono francês. Bonaparte foi, então, novamente exilado, dessa vez na ilha de Santa Helena, onde morreu em 1821, aos 52 anos de idade.
Por analogia, tem sido assim: nos cem primeiros dias de trabalho, o gestor precisa, incondicionalmente, mostrar e justificar a que veio. Encerra-se, também, oficialmente, o chamado “período de trégua”, da paciência, do “tudo é perdoado”.
Na carta que escrevi aos “Cavaleiros de Gutenberg”, quando de minha posse, em 1º. de junho de 2021, na Presidência da Abigraf, Regional São Paulo, registrei, oportunamente, o meu plano de trabalho: dar continuidade aos grupos empresariais, melhorar e aperfeiçoar a comunicação da entidade com o mercado e seus associados e relançar, com glamour, o 3º Prêmio Paulista de Excelência Gráfica - Luiz Metzler, que, devido à epidemia de Covid-19, ficou dois anos fora do ar.
Os cem primeiros dias na direção da entidade foram intensos, de muito trabalho, de resultados e, mais do que tudo, gratificantes! Agradeço a colaboração dos diretores e, principalmente, o apoio do time da casa que, com inteligência, adaptou-se prontamente ao meu estilo prático e veloz. Relendo o sociólogo e filósofo alemão Ralf Gustav Dahrendorf, renovo minhas apostas de gestão no trabalho coletivo e plural. Gosto da máxima: “Erra-se menos. Aprende-se muito!”
As ameaças estruturais ao setor e à indústria gráfica continuam - graves ou gravíssimas - e assustam o mercado. A desindustrialização do setor, o desemprego exponencial, a inflação de dois dígitos, a falta de insumos básicos e, se não fosse pouco, estamos diante de uma iminente crise energética. Gosto do significado da palavra “esperança”. Para muitos, algo passivo e frágil. Esperança - uma das três virtudes teologais, como a fé e a caridade - é uma ferramenta essencial para quem vê como possível a realização daquilo que deseja e, sobretudo, confia em coisas boas e possíveis.

Na sorte, à continuidade do trabalho, com alma de Gutenberg!

João Scortecci

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“À ESPERA DOS BÁRBAROS”, DE KAVÁFIS - POEMA ATUAL E OPORTUNO

A cidade de Alexandria, no Egito, é a segunda mais populosa do país, com cerca de 5,2 milhões de habitantes. É o maior porto do país e um dos principais pontos turísticos egípcios. Estende-se por 32 quilômetros na costa mediterrânica do centro-norte do Egito. É o local onde fica a famosa Biblioteca de Alexandria. O poeta grego-otomano Konstantinos Kaváfis (1863-1933) nasceu e morreu em Alexandria. É considerado o maior nome da poesia em idioma grego moderno. Dois anos depois da morte do pai, e durante sete anos, de 1872 a 1879, o poeta morou em Londres, Inglaterra, com sua mãe e seus irmãos. O período em que viveu em Londres foi importante na formação da sua sensibilidade poética. A vida na Inglaterra não foi o que a família esperava. Não progrediram. Na verdade, perderam o pouco de recursos que tinham e retornaram para Alexandria, em 1879. Kaváfis trabalhou durante 30 anos na Bolsa de Valores Egípcia. Era um cético, um descrente. Questionava a cristandade, o patriotismo e a heterossexualidade. Em vida, não publicou nenhum livro. Seus poemas eram distribuídos em folhas soltas ou publicados em revistas literárias. Em 1935 - dois anos depois de sua morte - publicou-se o livro póstumo com seus 154 poemas mais conhecidos. À Espera dos Bárbaros” é um de seus poemas mais conhecido e - para muitos - sempre atual e oportuno. Segue: “O que esperamos nós em multidão no Forum? / Os Bárbaros, que chegam hoje. / Dentro do Senado, porque tanta inação? / Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores? / É que os Bárbaros chegam hoje. / Que leis haveriam de fazer agora os senadores? / Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis. / Por que é que o Imperador se levantou de manhã cedo? / E às portas da cidade está sentado, / no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça? / Porque os Bárbaros chegam hoje. / E o Imperador está à espera do seu Chefe para recebê-lo. / E até já preparou um discurso de boas-vindas, / em que pôs, dirigidos a ele, toda a casta de títulos. / E por que saíram os dois Cônsules, e os Pretores, / hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas? / E por que levavam braceletes, e tantas ametistas, / e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas? / E porque levavam hoje os preciosos bastões, / com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana? / Porque os Bárbaros chegam hoje, / e coisas dessas maravilham os Bárbaros. / E por que não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores / para discursar, para dizer o que eles sabem dizer? / Porque os Bárbaros é hoje que aparecem, / e aborrecem-se com eloquências e retóricas. / Por que, subitamente, começa um mal-estar, / e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios! / E por que se esvaziam tão depressa as ruas e as praças, / e todos voltam para casa tão apreensivos? / Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram. / E umas pessoas que chegaram da fronteira / dizem que não há lá sinal de Bárbaros. / E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros? / Essa gente era uma espécie de solução”.

13.09.2021


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O “DIPLOMATA DAS ARTES GRÁFICAS”, LUIZ METZLER

O gaúcho, da cidade de Novo Hamburgo, Luiz Metzler (Luiz Bertram Metzler, 1941-2020), era conhecido no mundo da indústria gráfica como o “Diplomata das Artes Gráficas”. Sua relação com o papel e a tinta começou aos 15 anos de idade, na Typographia do Centro, em Porto Alegre/RS. Com 23 anos, decidiu exilar-se na Alemanha, onde cursou a faculdade de Economia e foi aluno-aprendiz em uma editora. Em 1969, Metzler voltou para o Brasil, instalando-se na cidade de São Paulo - capital. Trabalhou na Gráfica Gutenberg e, em 1998, transferiu-se para a empresa alemã Heidelberg, quando de sua instalação no Brasil. Nessa empresa, construiu uma carreira de sucesso. Por muitos anos, foi uma espécie de diplomata e relações públicas, levando e trazendo profissionais e empresários do setor gráfico, estabelecendo, assim, um intercâmbio de conhecimento e oportunidades, entre o Brasil e a Alemanha. Foi um líder, um profissional respeitadíssimo e mais do que tudo: amigo e leal. Fernando Pini, professor e também líder na indústria gráfica, destacou o trabalho ímpar de Metzler: “Sempre tive imenso respeito e gratidão, ele foi um dos maiores incentivadores da Indústria Gráfica”. Metzler adorava fotografia. Sua máquina registrou parte significativa da história da indústria gráfica em São Paulo e no Brasil. Quando da criação do Prêmio Paulista de Excelência Gráfica, a Abigraf - Associação Brasileira da Indústria Gráfica, Regional São Paulo, na pessoa do seu presidente, Sidney Anversa Victor, sugeriu atribuir ao prêmio o nome do gráfico. Com aprovação unânime da entidade e aprovação institucional da Heidelberg, de pronto foi acolhida essa merecida homenagem a Luiz Metzler, o “Diplomata das Artes Gráficas”.

12.09.2021


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“GALÁXIA DE GUTENBERG” EM EXPANSÃO

O canadense Marshall McLuhan (Herbert Marshall McLuhan, 1911-1980) foi educador, filósofo e teórico da comunicação, conhecido por vislumbrar a Internet, quase 30 anos antes de ser inventada. Ficou também famoso por sua máxima “O meio é a mensagem” e por ter cunhado o termo “aldeia global”. McLuhan foi um pioneiro dos estudos culturais e filosóficos sobre as transformações sociais provocadas pela revolução tecnológica do computador e das telecomunicações. Desenvolveu uma série de conceitos que alcançaram grande fama, foram amplamente divulgados e têm sido revisitados por pesquisadores da comunicação, na atualidade. Em 1962, publicou “A Galáxia de Gutenberg”, um estudo dos caminhos desde a cultura manuscrita até à impressa. Nesse livro polêmico, afirma que, até ao advento da televisão, vivíamos na "Galáxia de Gutenberg", em que o conhecimento era entendido apenas em sua dimensão visual. Esse redimensionamento, por um lado, possibilitou a difusão do conhecimento, mas, por outro, reduziu a comunicação a um único aspecto, o escrito. Foi a partir de "Galáxia de Gutenberg” que se difundiu o termo “aldeia global”. Nesse livro, McLuhan explica como a tecnologia da informação - principalmente a mídia impressa - afeta a organização cognitiva dos indivíduos e como isso afeta a totalidade da organização social. Afirma, ainda, que as tecnologias não são simplesmente invenções que as pessoas utilizam no dia a dia, mas são os meios pelos quais as pessoas são “reinventadas”. Discordo. Acho a proposição artificial, robótica, desumana, catastrófica, sem saída e infeliz. “Aperte o botão de reiniciar - ganhe uma vida nova - e seja feliz!” E as nossas experiências, nossos desejos, nossos sonhos, nossas heranças espirituais e legados? “Deletar” a vida? Não quero “reinventar-me”. Não precisamos nos reinventar! Juntos, podemos escolher melhor, mudar destinos, compartilhar ideias, criar opções, melhorar a vida, justificar fatos, aprender e ensinar, amar, compartilhar vontades, perdoar e sonhar um mundo melhor. Nossa natureza depende também do meio. E a mensagem é a esperança.

11.09.2021

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