MÁRQUEZ, KUNDERA, DRUMMOND E OUTROS

Títulos de livros de que gosto muito: Vidas Secas (Graciliano Ramos), A insustentável leveza do Ser (Milan Kundera), Capitães da areia (Jorge Amado), Claro enigma (Carlos Drummond de Andrade), O Amor nos Tempos do Cólera (Gabriel José García Márquez), Os Homens Que não amavam as mulheres (Stieg Larsson), Ensaio sobre a cegueira (José Saramago), O apanhador no campo de centeio (J. D. Salinger), Vale das bonecas (Jacqueline Susann) e Cem anos de solidão (Gabriel José García Márquez). Existem outros. Hoje o escritor e jornalista colombiano Gabriel José García Márquez (1927-2014) estaria completando 94 anos de idade. Considerado um dos autores mais importantes do século XX, foi um dos escritores mais admirados e traduzidos no mundo, com mais de 40 milhões de livros vendidos em 36 idiomas. Foi laureado com o Prêmio Internacional Neustadt de Literatura em 1972, e o Nobel de Literatura de 1982, pelo conjunto de sua obra que, entre outros livros, inclui o aclamado “Cien Años de Soledad”, o mais belo título de obra da humanidade. 06.03.2021

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VINGATIVO: A TRAGÉDIA DE NÃO AGIR

“Ser ou não ser, eis a questão.” O escritor e dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616), autor de "Hamlet", "Macbeth", "Romeu e Julieta", também foi poeta e dos bons. Versos enxutos: “Conhecendo melhor meus próprios erros, / A te apoiar te ponho a par da história / De ocultas faltas, onde estou enfermo; / Então, ao me perder, tens toda a glória.” Para quem não tem o hábito de ler poesia uma dica que aprendi com um professor de literatura, já falecido. Ler o poema de trás pra frente! Seguem, então, os versos de Shakespeare, de trás pra frente: “Então, ao me perder, tens toda a glória / De ocultas faltas, onde estou enfermo / A te apoiar te ponho a par da história / Conhecendo melhor meus próprios erros.” Que tal a dica? William Shakespeare morreu no dia do seu aniversário de 52 anos de idade. “Será mais nobre sofrer na alma - pedradas e flechadas - de um destino feroz ou pegar em armas contra o mar de angústias?” Na dúvida: Hamlet e o mito do capitão das trevas!

05.03.2021


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PANELAÇO IMPERIAL E O GRITO “FORA BOLSONARO!”

O Reinado de Pedro II (Pedro de Alcântara, 1825-1891) durou 49 anos. Terminou em 15 de novembro de 1889, com o fim da monarquia constitucional parlamentarista e a Proclamação da República do Brasil. Durante o reinado de Pedro II, em 4 de setembro de 1875, ocorreu o “Motim das Mulheres” ou “Revolta das Mulheres” na cidade de Mossoró, no Rio Grande de Norte. Conta a história que cerca de 300 mulheres saíram às ruas da cidade em passeata com o objetivo de protestar contra a obrigatoriedade do alistamento militar. Armadas com utensílios domésticos, invadiram repartições públicas e delegacias e rasgaram os papéis e documentos que convocavam seus filhos e maridos para o Exército ou para a Marinha. Entre as líderes da revolta, estavam Joaquina de Souza, Maria Filgueira e Anna Rodrigues Braga. O Serviço militar é a formação e treinamento militar obrigatórios de cidadãos designados pelo Estado, ou os alistados voluntariamente. No Brasil, todos os homens, aos completarem 18 anos, são obrigados ao alistamento militar. A primeira lei que previa o alistamento data de 1874, ainda no Império do Brasil. Em 17 de agosto de 1964 foi sancionada a lei que regulamenta, nos dias de hoje, o serviço militar no Brasil. Ontem às 20h30, pontualmente - tem sido assim há vários dias - mais um “panelaço” pelas ruas do bairro de Higienópolis, em São Paulo. Gritavam: “Fora Bolsonaro! Fora Bolsonaro!” Dei uma espiada pela janela e desconfio - que os gritos ecoados - eram das líderes Joaquina, Maria e Anna. Hoje tem mais!

04.03.2021

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SEU FRIAS, TORTO ARADO, DONANA E O LEÃO 63

Hoje - lendo o Caderno Especial de 100 anos da FOLHA - descobri que o leonino Octavio Frias (1912-2007) não gostava de ser chamado de “Jornalista” e muito menos de “Publisher”. Gostei de saber que não sou o único. Não sou jornalista, portanto, a birra vai para o sentido egoísta e prepotente da palavra - Publisher – indivíduo que torna uma obra disponível para o público. Algo assim. Prefiro “Editor”. Menos complicado, simples, coisa de equipe, mais participativo, coletivo, mais time, menos egoísta e que - deixando de lado a minha implicância e frescurite aguda - significa a mesma coisa. Pronto, falei! Aqui cabe a desavisada máxima: “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!”. O texto do Colunista Hélio Schwartsman (Folha de S. Paulo 100, página 18) merece leitura. Interessante saber sobre o incrível “Seu Frias”. Não o conheci pessoalmente, pena. Foi uma época que “babava” o Jornal da Tarde (1966-2012) e o devorava de “cabo a rabo”. Fui assinante de Veja, Quatro rodas, Super interessante e Placar. Restou - ainda persiste - assinar somente a Folha. Até quando? Não sei. Ando pensando nas irmãs “Bibiana” e “Belonísia” e a faca de sangue de Donana. Esse “Itamar Vieira Junior” é mesmo um grude. Dos bons, claro. “Torto Arado” veio e ficou nos olhos. Encontrei o “assombro” me provocando e, chamando para briga, na mesinha da sala. E agora? Devorei “vinte-e-nove-páginas” num único suspiro. Cativante! Já cancelei o pedal de domingo - acho que vai chover - e de assistir ao resto de um filme - meia boca - na Netflix. Acontece. A história se passa no sertão baiano, numa comunidade “Quilombola” de muitas deste Brasil covarde e bandido com seu povo. Alguns trechos de “Torto Arado” me “roubaram” até o sertão vazio do Ceará. Lá fiquei um tempo justo. Depois - do nada - voltei para os braços de “Donana” e a faca de cortar línguas. Itamar Vieira Junior também é leonino. Coincidências: Frias, Itamar e Eu. Segunda-feira - no melhor do sol - jogo na dezena do leão 63. Sorte do bicho.

28.02.2021


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A REVOLTA DA VACINA E OS "SONHOS TROPICAIS" DE MOACYR SCLIAR

A Revolta da Vacina foi um motim popular ocorrido entre 10 e 16 de novembro de 1904 na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Seu pretexto imediato foi uma lei que determinava a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola e as campanhas de saneamento lideradas pelo médico Oswaldo Cruz. O estopim da revolta foi a publicação da notícia no jornal "A Notícia", de 9 de janeiro de 1904. O projeto exigia comprovantes de vacinação para a realização de matrículas nas escolas, para obtenção de empregos, viagens, hospedagens e até casamentos. Quando a proposta vazou, o povo indignado e contrariado iniciou uma série de conflitos e manifestações que se estenderam por cerca de uma semana. No dia 16 de novembro, foi decretado o Estado de Sítio e a suspensão da vacinação obrigatória. O saldo foi trágico: 30 mortos, 945 pessoas detidas, 461 deportados para o Acre e uma tentativa de golpe militar, sem sucesso. O médico e escritor Moacyr Scliar (Moacyr Jaime Scliar, 1937-2011), no seu romance “Sonhos Tropicais” (Companhia das Letras, 1992), conta a história de uma jovem judia polonesa, que imigra para o Brasil em busca de uma vida melhor, mas acaba por se prostituir. A narrativa acontece no cenário trágico de combate à febre amarela e a resistência da população à vacinação obrigatória, que resultou na chamada Revolta da Vacina. Estive com Scliar em feiras e bienais do livro. Disse-me um dia: “Para viver de literatura dependo da minha presença em eventos literários!” Ficou na cabeça. Nunca esqueci. Em 2010, nosso último encontro, no Flipoços - Festival Literário de Poços de Caldas, a convite de Gisele Corrêa Ferreira, empresária coordenadora do grandioso e tradicional evento literário. Moacyr Scliar faleceu um ano depois, no dia 27 de fevereiro de 2011. Exatos 10 anos!

27.02.2021


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“ENSEBADOS” DO MESSIAS, DEUSA DAS PALAVRAS: ETHYMON E A BIENAL DO LIVRO

Dos ensebados! Eu, Ézio Grassi Peludo e Luiz Caldas Tibiriçá - no início dos anos 80 - fomos visitar o Sebo do Messias, na Praça João Mendes, no centro de São Paulo. “Professor Ézio, o que estamos procurando?” Perguntei. “Algo mais antigo do que nós!” Sei. Olha o que encontrei: Uma edição do “Quintanares” do alegretense Mário Quintana. “Qual o ano da publicação?” Indagou. Ano de 1976, 1ª edição, Editora do Globo, respondi. “Não serve! Ensebado - raro e de valor - tem que ser mais velho do que nós!” Tibiriçá - que nos observava, justificou: “Scortecci, edições de 1920 pra baixo!” Certo, respondi. Ézio nos olhou, sorriu e foi conversar com “Camões” que nos chamava no aglomerado português. “Camões?” Tibiriçá, sorriu. Passamos o resto do dia no “ensebado” do Messias. “Quero morrer aqui!” Palavras de Tibiriçá. “Nós também!” Comprei no sebo do Messias duas raridades, ambas mais velhas do que eu: Quintana e Guilherme de Almeida. Tibiriça, um livro sobre “Bartira” índia tupiniquim paulista do século XVI, filha do cacique Tibiriçá (seu tataravô) e Ézio, um livro sobre Ethymon, deusa grega, mãe de todas as palavras. Conheci Ethymon - a deusa grega - no ano da graça de 1982, quando inaugurei a Scortecci, na Galeria Pinheiros. Quem nos apresentou foi o Ézio. Perguntou: “você quer conhecer Ethymon, a Deusa da Etimologia, mãe da origem das palavras?” Quero. Respondi. Ethymon - já na sua quinta reencarnação - vivia no corpo de uma belíssima jovem índia, na cidade de Cananéia, no litoral paulista. Veio me visitar “enlaçada de amor” com o indianista Luiz Caldas Tibiriçá, autor do célebre dicionário Tupi-Português. Passamos “alguns séculos” conversando sobre a origem das palavras. Depois veio um silêncio e o adeus. Voltou para Cananéia. Ethymon morreu jovem, no ano de 2006, no mesmo dia do passamento do Mestre Tibiriçá. Em 1994, ano da última bienal do livro no Ibirapuera, um grupo de moças - sabendo que éramos escritores - pediu-nos autógrafos. Professor Ézio, que sempre carregava no bolso da camisa duas esferográficas sacou uma e gentilmente perguntou: “Moça, onde você quer o autógrafo?” Esperávamos que ela nos apresentasse um livro, um caderno escolar ou mesmo uma folha avulsa de papel. Que nada! A moça - morena, 15 anos de idade, talvez 16 - desabotoou sua blusa - não usava sutiã - e nos disse: “Aqui!” Apontando com o indicador para o seu peito esquerdo. Ézio tentou - delicadamente - escrever um verso “caracol” no peito da moça tocando-o, apenas, com a ponta da esferográfica. Não conseguiu. Outra moça do grupo, então, sugeriu: “Segura no bico que vai!” Ézio - prontamente - segurou o bico excitado do peito da moça e poetou um poema concreto. Assinou e pontuou versos crassos, do seu único e melhor poema carnal. Perguntei, então: “Ézio, você está gostando da Bienal do Livro?” “Muito! Muito!” Respondeu. Quintana, que nos acompanhava - desde o Sebo do Messias – profetizou o derradeiro verso: “Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo!”

27.02.2021


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NA LINHA DO CEROL: REMINISCÊNCIAS POÉTICAS, DE JOÃO SCORTECCI / “UM LIVRO-ARRAIA”, POR MARIA MORTATTI

1.

Na linha do cerol [2], de João Scortecci, é um livro de “reminiscências”, mas “poéticas”; de “memórias autobiográficas”, mas também de “poesia brasileira”. Essas classificações no subtítulo e na ficha catalográfica sintetizam, em certa medida, o entrecruzamento das principais características desse livro-arraia[3], que se empina com o “vento de reminiscências” e convida o leitor a acompanhar o “sonho de ir além do destino” no “voo da alma” do menino-poeta. Mas sem temer a “linha do cerol”[4], metáfora central que sustenta a unidade temática do livro, como eixo em torno do qual se vão tecendo, no movimento em vórtice ascendente, as várias camadas de sentido da configuração textual. 

Habilmente manejada pelo poeta — à semelhança do menino que lanceia a arraia para uma disputa no céu —, essa figura de linguagem opera no nível do enunciado e da enunciação, com sentidos e funções complementares entre si e apenas aparentemente opostos. Em vez de lancear/cortar, enlaça/costura o leitor pelo “fio da memória” de vivências de infância elevadas à condição de experiência humana e transfiguradas em poesia. Ao mesmo tempo, enlaça/costura a singularidade do livro no conjunto da obra literária do autor e na tradição literária/memorialística brasileira — especialmente a partir do século XIX — sobre o tema da infância. 

2.

Os 62 poemas numerados que compõem o livro podem ser lidos isoladamente ou como unidades de um extenso poema lírico que contém uma narrativa memorialística-autobiográfica, cujo enredo está estruturado em ao menos três partes: nos poemas 1-7: apresentação de eu-poético/protagonista/narrador e outros personagens — amigos, meninas/mulheres, familiares —, tempo e espaço das reminiscências; nos poemas 8-59: sequência dos episódios rememorados; nos poemas 60-62: clímax, com o brusco rompimento da sequência narrativa, a explicitação do conflito da “hora de partir” (61) [5] e o desfecho, com a “anistia” do passado e o “resgate do poema” (62).

As reminiscências se iniciam com o protagonista aos oito anos de idade, em março do “ano verde oliva de 1964” (1), na cidade de Fortaleza/CE, até o “exílio voluntário”, após se despedir da infância, com um “cerol de março de mil novecentos e setenta e dois” (60). A sequência cronológica linear dos episódios rememorados e as referências diretas ao contexto histórico e geográfico propiciam apreender, no transcurso dos também oito anos do tempo da narração, o tempo psicológico/subjetivo do processo de iniciação/aprendizagem sexual e de formação de identidade.

A unidade temática sustentada pela metáfora da “linha do cerol” se desdobra em metáforas correlatas: rio Pajeú “canal polonês que corta a cidade/e o mundo em córregos”(4), “caminho de passagem e de chegada durante o ano inteiro” (36), em cujo vale se encontra a  “a toca do muçum preto[6]” (4,61,62...) e se deu a despedida da infância (60). No entrelaçamento com o conteúdo das reminiscências e com as escolhas formais e estilísticas, podem-se visualizar os engenhosos movimentos ondulatórios em vórtice, por meio dos quais se vão tecendo as várias camadas ascendentes — das mais aparentes às mais íntimas — de sentido da configuração textual. 

Aos que viveram a infância nos anos de 1960 no Brasil, a imagem da capa, o conteúdo das reminiscências e as belas gravuras que ilustram 17 poemas podem ter o efeito quase imediato —  como poderosas madeleines proustianas — de despertar lembranças factuais e afetivas, dialogando com as do autor ou complementando-as. Brinquedos, brincadeiras, jogos, costumes, alimentação, vestuário, escola, professores, modos de socialização, fatos políticos, referências culturais, literárias e religiosas se perfilam nos poemas, remetendo ao contexto histórico e social de formação de geração de brasileiros e brasileiras, despertando, ainda, interesse de novas gerações em conhecer aspectos do passado recente do país e a obra poética do autor. 

Há, também, passagens de mais intenso e lancinante lirismo, concentradamente nos poemas 60-62 e em tantos outros, como nestes: 3 - Papai Noel “Apagou-se no escuro do silêncio/e nunca mais foi achado”; 20 - a voz de Sara cantando “... o mar também tem amante/o mar também tem mulher./É casado com areia/Dá-lhe beijos quando quer...”; 30 - Vovó Chiquinha, que “... existia e não existia/no livro da vida. [...] Subiu aos céus em noite de lua cheia/ na primeira batida do mar/Deixou uma digital de polegar no coração”; 34 – Margarida, que “Um dia fugiu de casa/com mala e olho roxo./Voltou carioca no andar e falar/e logo foi embora novamente”; 55 – “O anjinho que professora Rosa me deu/foi devorado por cobras e lagartos/ainda no purgatório./Chorei no eucalipto/uma coqueluche de arquibancada.”; 60 – “No alfenim da memória/o gosto amargo da fervura em movimento/ebulição de inquietude e renitência”; 61 – “Antes de entrar no Túnel do Tempo/recolhi do cenário o par de sandálias havaianas./Dei a última espiada no vazio dos olhos/e não me vi na raiz do coqueiro”.

Talvez, porém, sejam as lembranças da iniciação/aprendizagem sexual do universo masculino que se destaquem, convidando leitores a se colocarem na posição de voyeurs – como os meninos que, a pretexto de resgatarem a arraia lanceada, espiam “Na brecha da telha sem forro/o corpo aveia da moça no banho das seis” (28) –, frente à explicitude poeticamente trabalhada, seja por meio das muitas palavras e expressões com a força imagética de sentidos sugestivamente ambíguos a pulular nas páginas do livro — como “muçum preto”, “gavião afoito”, “fios de ovos”, “vômito no prato”, “moita do pau-de-arara”, “goiaba bichada”, “reserva na palma da mão” —, seja nos poemas dedicados a personagens femininas, em que se descrevem desejos e rituais de sedução erótico-sexual, a despeito de possíveis ressalvas que leitores atuais possam apresentar a essa representação da mulher. 

O entrelaçamento é tecido também na relação do conteúdo das reminiscências com as opções formais e estilísticas: a disposição em versos breves, livres e soltos, cada um deles em apenas uma página, e o predomínio de substantivação e frases nominais, característicos da “concisão expressiva”, expressão utilizada por Fábio Lucas[7] para  se referir à marca do estilo do poeta. 

Essas características se encontram em todos os poemas, de modo menos ou mais visível. Em alguns estão de tal modo condensadas, que, ao lê-los, tem-se a impressão de ter encontrado o “cabograma secreto” que o menino “depositou no esconderijo da toca do muçum preto” (61). Um exemplo de “lancear arrepios” é o poema 7, onde se podem visualizar e sentir os movimentos ondulatórios que entrelaçam diferentes camadas de sentido entre a denotação e a conotação, entre o factual-empírico e o simbólico-onírico.  

- 7 –

Basta – quase nada – de simpatia e vento

para se fazer uma arraia-pipa

voar feito pássaro em liberdade

 

Receita do Nelsinho

 

linha 24 de carretel de madeira

três palitos compridos de palha de coqueiro

2 folhas de papel de seda

uma mão generosa de grude de maisena

pano velho de algodão para rabo-de-escama

poder-de-puxar-e-rasgar

uma gilete para a ponteira

cerol de néon de vidro bem picado

peneirado em meia de nylon

de mulher honesta e água 

 

Água espraiada do rio Pajeú.

 

No poema estão representadas duas faces de mesmo desejo, movido por “simpatia e vento”: o do menino, no símbolo fálico do voo da arraia-pipa; e o do poeta, na metáfora do livro-arraia. Nessa sofisticada representação, condensando camadas de sentido, ressalta-se o caráter substancialmente lírico das reminiscências, em um jogo incessante entre explicitação e despiste, semelhante às brincadeiras de esconde-esconde ou cabra-cega.  

3.

Como se penetrando na intimidade do poeta, arrisco formular uma hipótese interpretativa com base nas pistas e despistes sintetizados nos poemas do desfecho. A origem do livro é o poema-diário-cabograma secreto, depositado no “esconderijo da toca do muçum preto” (61) — com Encontro marcado, de Fernando Sabino, e Diário de Dany, de Michel Quoist (62) —  que, “no dia da hora certa” (61), “vinte e quatro anos depois” (62), o poeta resgata “na linha do cerol”(62). Anistia, então, o passado, para o qual “não há respostas”, “além de reminiscências.” (62)

Se assim for, é possível acrescentar: aquela “concisão expressiva” remete à característica de estilo esboçada desde as primeiras anotações — talvez como linguagem “criptografada” no código secreto do registro de confidências — no diário (real ou fictício?) daquele que via o mundo através de “óculos fundo de garrafa” (4) e vivia como poeta em construção “lá fora, no pátio de ser menino inocente/no golpe revolucionário dos fatos” (2). Com a despedida da infância e seu posterior resgate como poema, o cerol que corta laços com o passado – “impossível ficar” (60) —, também enlaça/costura com a linha da poesia — “Impossível morrer” (60) — as reminiscências do vivido “em ebulição”. 

Nesse livro, portanto, a concisão pode ser interpretada como resultado do esforço de preenchimento, por meio de reapresentação e transfiguração poética da travessia em busca do acesso ao que está ausente – o passado —, e não se podia mostrar, quando era presente. Porque a memória é lacunar e coordenativa – como o ambiente onírico; e o que passou não pode ser reconstituído como de fato foi, apenas pelo que a memória afetiva reteve dos fatos vividos: sensações tácteis, auditivas, visuais, olfativas, gustativas.

E, ainda que de modo não consciente, o menino-poeta tenha talvez ensaiado nos registros do diário o estilo que o homem-poeta resgatou, foi consolidando em seus livros de poemas e também está presente em sua prosa ficcional e memorialística [8]. Desse ponto de vista, ao mesmo tempo em que se destaca por suas características específicas — poema lírico com narrativa memorialística-autobiográfica em que se enfatiza a iniciação/aprendizagem sexual —, Na linha do cerol... representa uma espécie de marco de opção poética[9] e estilística do autor, que se firma nos livros posteriores e enlaça o conjunto de sua obra literária desde as primeiras publicações.  

É também pelo “fio da memória” que o livro se enlaça na tradição literária/memorialística brasileira — especialmente a partir do século XIX — sobre o tema da infância. Além da remissão indireta, no poema 1, a “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu (poema gestado no contexto de seu “exílio voluntário” temporário em Portugal), os episódios rememorados ao longo dos poemas de Na linha do cerol... evocam outros textos em verso ou prosa. Para citar os que de mais imediato me vêm à lembrança, apenas entre os de autoria masculina e brasileiros: na poesia - “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade, e “Infância”, de Manuel Bandeira; na prosa - Infância, de Graciliano Ramos, Menino de engenho, de José Lins do Rego, A idade do serrote, de Murilo Mendes. 

Embora recorrente como matéria poética-ficcional-memorialística, são obviamente diversificados os tratamentos dados ao tema, conforme singularidades de vivências e experiências dos sujeitos que rememoram. No entrelaçamento do encontro marcado com o passado e o resgate do poema — no presente da narração — como memória do futuro, configura-se a singularidade de Na linha do cerol..., livro-arraia que eleva as reminiscências das vivências do menino-poeta à condição de experiência humana transfigurada em poesia, possibilitando identificação e provocando nos leitores o desejo ir além das margens do rio da infância.  

4.

Trata-se, portanto, de um livro-arraia-com-linha-de-cerol que convida os leitores a se deixarem enlaçar — pelo conteúdo das reminiscências e pela forma literária — para se lançarem no desafiante jogo memorialístico-poético de que não se pode sair ileso, mas em que todos vencem. Porque, em vez de disputas de interpretações e para além da visão do universo masculino, o convite é para rememorar, complementar, questionar, explorando pistas e despistes das inúmeras camadas de sentido apenas comentadas, mencionadas ou sugeridas neste texto. Porque esse é o desafio que nos propõe a leitura de um bom livro: lá onde buscamos respostas, encontramos perguntas que nos instigam a continuar em busca dos sonhos “de ir além do destino” e “voar feito pássaro em liberdade”.

21.02.2021

Maria Mortatti

[1] Escritora e Professora Titular na Universidade Estadual Paulista – campus de Marília.

[2] Analiso exemplar da 9ª. edição, de 2008, com capa de Heber F. Alvares, ilustrações com 17 gravuras por Luiz Carlos Checcia, nota introdutória, 62 poemas e nove comentários críticos anexados ao final do livro. A partir da edição de 2003, foi acrescentado o adjetivo “poéticas” ao subtítulo. 

[3] “Arraia”, “pipa” ou “papagaio” são algumas das variantes de denominação do brinquedo feito por uma armação com varetas de madeira ou outro material adequado, como palha de coqueiro, encapadas normalmente com papel de seda. Preso por uma linha, o brinquedo é manejado por uma pessoa e elevado e sustentado no ar pelo vento. A denominação “arraia”, que predomina em Na linha do cerol..., decorre da semelhança do brinquedo com o peixe de mesmo nome, que tem corpo achatado e cauda com agudo e ferino esporão na ponta.

[4] “Cerol” é a denominação da massa de cera e sebo com que os sapateiros enceram as linhas usadas para costurar. Em outra acepção, refere-se à mistura cortante de vidro moído e cola que se passa na linha com que se empina o brinquedo voador, com objetivo de cortar a linha de outro em “batalhas” no céu. 

[5] Entre parênteses estão indicados os números dos poemas de onde extraí os trechos citados.

[6] “Muçum”, conhecido popularmente como “enguia-do-pântano” ou “cobra-d´água”, é um peixe de água doce, carnívoro, com hábitos noturnos, que habita rios, lagos, córregos, brejos, pântanos, podendo sobreviver a longos períodos de seca, enterrado em tocas. É também utilizado como isca para pesca. Essa metáfora e a do rio Pajeú, recorrentes em Na linha do cerol..., merecem estudo detalhado, em outro momento.

[7] Encontra-se no comentário crítico “O passado que não passou”, de Fábio Lucas, anexado ao final do livro, a partir da edição de 2003. 

[8] Além de editor, gráfico e livreiro, o escritor publicou, pela Scortecci Editora: um livro técnico, em coautoria, Guia do Profissional do Livro; quatro livros de prosa de ficção para público infantil e juvenil: O touro de ouro e sua neta Mimosa (1994); A história do peixe voador (199-); As aventuras de Olga Wap: a pulga elétrica e a realidade virtual (2015); dois livros de poemas em coautoria e sete como autor: Plurais: a tentação do plural (1992); Luanda, a bailarina morta (1994); Poema do deus que cria versos (1994); Na linha do cerol (1997)/Na linha do cerol: reminiscências poéticas (2003); Quase tudo – antologia poética (2002); A maçã que guardo na boca (2014); Dos cheiros de tudo – memórias do olfato (2019). É também autor de crônicas memorialísticas publicadas em seu Blog Blitz Literária: https://www.blitzliteraria.com.br/. Em sua obra poética e memorialística, ao menos dois aspectos que destaco neste comentário também merecem posteriores estudos mais detalhados: o tratamento ao mesmo tempo lírico e realista dado às personagens femininas retratadas e a função do exímio e experiente narrador na transfiguração poética dos fatos rememorados.  

[9] Nessa afirmação ecoam — talvez como indicação de chave de sentido para o estudo de sua obra — as palavras do autor na apresentação de sua antologia Quase tudo (2002): “Preparo a minha alma em ser poeta até a morte.” 

 


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NELSINHO NA LINHA DO CEROL

Hoje fiquei sabendo da morte do amigo de infância Nelsinho (Nelson Holanda Sampaio, 1951-2021) pela Covid-19. Era o primogênito da “Turma da Dóris”, uma mulher incrível: bandeirante, pintora, produtora cultural e servidora da Universidade Federal do Ceará.  Seus filhos: Nelsinho, Leda Maria, Alexandre, Guilherme, Raul e Paulinho. Sem eles - Alexandre e Guilherme, em especial - a minha infância, no Ceará dos anos 60, não teria sido incrível, vibrante e inesquecível. Obrigado! O livro “Na Linha do Cerol - Reminiscências Poéticas”, reescrito em 2003, já no exílio voluntário, foi dedicado a “Turma da Dóris”. Guilherme, Raul, Paulinho e agora Nelsinho, já faleceram. Foi doído perdê-los. Com cada um deles uma vida - mágica - dentro de mim. Nelsinho era o “habilidoso” e “criativo” da rua. Inteligente e comerciante.  Sabia administrar seus projetos com eficiência, precisão e zelo. O pouco de capital - justo e contado - sempre foi moeda de troca. Fabricava e vendia - moto-contínuo - a brincadeira da vez. Nelsinho era o relógio e nós o seu tempo. Um pluriapto: consertava bicicleta, fazia arraia de lancear, balangandã, passava cerol na linha, cortava sandália de pneu, pião, riscava balão, bucha de parafina, fogos de artifício, abafava figurinha, carrinho de rolimã e baladeira de caçar calango. Isso tudo e mais o que - infelizmente - não me lembro. Deixei o Ceará em 1972. Em 2022, completo 50 anos de São Paulo. História da história de um único tempo: infância. 

05.01.2021

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CEARÁ LIGHT, GAGUINHA E AS “PICAS” DE IRENE

A cidade de Fortaleza começou a ser iluminada com gás hidrogenado da “Ceará Gas Company” no ano de 1867. Fornecia iluminação para casas, comércios e ruas da cidade, por meio de contrato de concessão até o ano de 1958. Luz elétrica somente em 1934, da Companhia inglesa “Ceará Tramway Light and Power”, que, desde 1914, explorava o serviço de bondes e oferecia eletricidade para iluminação residencial. Com o golpe de 1930 - por imposição do governo de Getúlio Vargas - todos os contratos dos serviços públicos foram revisados, ajustados e muitos, cancelados. Foi o que aconteceu. A iluminação a gás - baseada em tubos e combustores - tinha alto custo de manutenção e de tecnologia ultrapassada. Valendo-se disso e, em nome dos novos tempos, a inglesa “Ceará Tramway Light and Power” ficou com o negócio. Meu avô João Batista de Paula (o Batista da Light) estava lá, participou das negociações e comandou a implantação dos serviços. Tempos de muito trabalho!
Batista começou na “Ceará Light” no ano de 1914, no Almoxarife. Dizia sempre: “Na verdade era um bom varredor de chão.” Foi caixa durante seis anos. Depois chefe do tráfego, chefe do escritório, assistente do gerente e, finalmente, em 26 de setembro de 1934, gerente. Foi gerente-superintendente durante vinte anos. Depois da Segunda Guerra Mundial, a empresa enfrentou dificuldades operacionais e foi estatizada. No dia 1° de junho de 1946, por solicitação de Batista, foi decretada, pelo governo Federal, a intervenção na "Ceará Light", sendo nomeado interventor o capitão Josias Ferreira Gomes. Virou Serviluz, depois Conefor. Em 1971, se juntou a outras três companhias cearenses originando a Coelce.
“Gaguinha” (Irene Alves Cabral) era dona de um hilário e divertido “puteiro” na Fortaleza dos anos 40. Organizava festas “extravagantes” e oferecia moças belíssimas, bebida à vontade e música ao vivo, com o que tinha de melhor na época. “Batista não dá para fazer festa no escuro”. Reclamava. Gaguinha sofria de gagueira crônica. Uma metralhadora engasgada. Batista adorava provocá-la além da conta, com palavras exóticas e perguntas difíceis. Vê-la nervosa, com a gagueira “acelerada” era sua diversão. Um provocador! “Gaguinha” era gente boa - vestia-se com classe - e vez por outra, visitava meus avós. Comiam suspiros, marmelada Colombo, chupavam laranja-lima, seriguela do pé, romã e graviola, sempre na companhia da minha avó Sarah. “Batista deixa de maldade com a dama do amor”. Era vovó Sarah protestando das “aporrinhações” do vovô Batista. “Não vê que ela está aflita!”. Batista era impiedoso. Perguntava sobre fetiches de seus clientes, sobre amores secretos e do número de “picas” que já havia levado na vida de puta. “E a minha luz para a festa?" Insistia. Não desistia. Devido ao racionamento - tempos de guerra - a cidade ficava às escuras às oito da noite. Virava um breu. Exceções - raríssimas - somente com autorização do governador ou do Batista da Light. “Gaguinha, vou lhe fazer uma pergunta de fazer conta. Acertando, eu autorizo luz até meia-noite. Combinado?” “Combinado.” Gaguinha, mesmo desconfiada, aceitou o desafio. “Gaguinha se alinhar todas as picas que você já levou na vida, colocar uma juntinha da outra, na linha do trem, chega até a cidade de Baturité?” Baturité fica a 95 km da capital. “Duro ou mole?” “Duro” “Nos dois trilhos do trem?” “Sim. Nos dois trilhos do trem”. “Ida e volta?” “Sim. Ida e volta.” Gaguinha pensou - fez cara de fazer conta - terminou o café preto no gole grande - olhou para a avó Sarah - e disse: “É possível!” “Baturité não é longe.” Vovó Sarah resfolegou: “Santo Deus, Irene. É muita pica!” Irene Alves Cabral ganhou - merecidamente - iluminação extra. Junto - ida e volta - o serviço da linha do bonde puteiro-centro. Detalhes, pertinentes: Irene cantava maravilhosamente bem. Não gaguejava, guardava os "cobres" no sutiã e sabia fazer contas de cabeça. Outros tempos!  

21.02.2021


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ABRIGO CENTRAL, TRAJANO - O ANJO DE BRANCO E O TAURUS 32 DE SEIS TIROS

Trajano - gordo e imenso - era matador de aluguel. Habitava a região do Abrigo Central Três de Setembro (1949-1967), centro de convivência localizado na Praça do Ferreira, na Fortaleza dos anos 50 e 60. Trajano - vestia-se de branco - fazia ponto na Livraria Alaor e no tamborete do Café Presidente. Era no café - no melhor da tarde - que tratava do serviço das “encomendas”. Não era “careiro” mas cobrava preço justo. Trajano era respeitado - e até querido - pelos comerciantes e frequentadores do Abrigo Central. Ninguém - de juízo apurado - mexia com o anjo de branco. Um desafeto seu - irmão de uma vítima em busca de vingança - o emboscou nas escadarias da Praça dos Leões. Trajano levou 12 facadas e caiu. Meu pai Luiz Gonzaga e um amigo do Grupo J. Macedo o socorreram. Trajano foi colocado na “caçamba” de um Jeep Willys e levado para a Santa Casa de Misericórdia. Diziam - na época - que havia sido salvo pelas “banhas”. Papai, de pronto, retrucava: “O capeta sabe o que faz”. Papai cuidou do anjo, comprou remédios e o visitou no hospital. Trajano, quando ainda hospitalizado, foi contador de segredos, histórias de sangue e confessor de almas penadas. Papai Luiz escutava tudo e depois, na hora do jantar, proseava causos de vida e morte. “Luiz, você tem visita no portão!” Era o Trajano. Fui eu que abri o portão para o anjo entrar e o conduzi até a sala de visitas. “Filho - papai falando - aqui é conversa séria, de gente grande. Vai brincar no quintal.” Eu não fui. Fiquei de “escuta” enfiado debaixo da mesa da sala de jantar. “Dr. Luiz - Trajano falando - vim aqui agradecer o Senhor ter salvado a minha vida”. “Sou um homem endividado com a sua graça.” Trajano havia tirado sua arma - um 32 Taurus de seis tiros - e colocado na mesa de centro. Mamãe veio do terraço e sentou junto. Olhos arregalados. Tétrica! “Trajano, você não me deve nada.” Insistiu. “Teria feito o mesmo por qualquer outra pessoa”, respondeu. “Dr. Luiz, preciso pagar a minha dívida. É questão de honra!” Trajano tirou do bolso da camisa um bloquinho de papel e disse: “Dr. Luiz, escreva ai o nome do encomendado.” Papai argumentou, explicou, insistiu e não conseguiu convencer o anjo a desistir do pedido de morte. Trajano - já impaciente - começou a mexer no revólver girando-o feito um peão. Repetiu o giro - duas ou três vezes - até o revólver Taurus 32 parar com o cano apontado para o meu pai. Papai Luiz - inteligente, calmo e sábio: foi professor a vida inteira. Olhou para o cano do revólver - que o olhava nos olhos da boca - e disse: “Quero o revólver de presente!” Trajano surpreso, sorriu e disse: “É seu. Já está amaciado de dedo. O danado já levou 15 cabras ruins para o inferno! Estamos acertados?” “Sim.” Papai Luiz o desarmou! Trajano - o anjo de branco - pediu um copo de água gelada e foi embora. Morreu de um infarto em 1967, no mesmo ano que o Abrigo Central Três de Setembro foi demolido do coração de Fortaleza. O revolver 32 de seis tiros hoje é guarda de coleção na família. Não mata, não se farta de balas e nem queima pólvora. Quando gira o tambor é roleta de memória. Apenas isso.

20.02.2021

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