Eu e a - quase - liberdade. A que nos resta, ainda! Lendo sobre o vício viciante das coisas da vida perene e mortal. Nasci passarinho: voador, cabeludo e veloz. Ainda consigo voar, mesmo com pouco ou nenhum cabelo e mais lento, pouco ligeiro. Dizem: é a idade! Ainda agitado, inquieto, como um colibri maduro. Iridescente de palavras e secretado - ainda - de algum néctar. Joana - minha babá de banho e açúcar no Ceará dos anos 1960 - sabe de tudo da história. Ensinou-me o que sabia, depois desapareceu. Ficaram as lições. Joana está florida de amor nas páginas do livro Na Linha do Cerol – Reminiscências Poéticas. E os meus incomuns? Todos: incertos. Excêntricos. Mortais. Meu coração bate veloz e febril, nas agitações da pele. Vejo rugas, algumas manchas e ressecamentos. Procurei saber: diminuição de colágeno, sol, secura natural. Corpo de abelha! Li no Guia das Abelhas que eles morrem fora da colmeia por exaustão ou para não sobrecarregarem a colônia. Interessante. Sangue Tipo B. Polinizado de mel e cera de carnaúba. Zangão, ainda. Sensível e inquieto. Um marujo do Mucuripe. Biruta de agulhas, mapas, rotas e bússolas. Um cosedor de palavras. Existe isso? Sei não. Um andarilho de palavras? Talvez. Meu voo é de borboleta 13, nas manhãs do sol. Sou ovo, larva, coice e abraço. Uma ventania abrasadora: queimo e incendeio fácil. Sou cabresto de arraia - pipa, papagaio - que envia telegramas e bilhetes na linha do cerol. Grito: Avisos da terra! Infância de pitombas, cajás, goiabas, seriguelas, graviolas e atas. Foi assim na adolescência das danações do corpo e da alma. Acabei sobrevivendo, acontece. Foi assim no adulto das coisas, das manias, dos trejeitos e no doloroso das fatalidades. Hoje: papel, páginas, lombadas, orelhas e sonhos. Nas madrugadas escuto o canto do sabiá do abacateiro da minha janela. Eu acordo e ele canta. Ou melhor: Ele canta e eu acordo. Um morcego silvestre. Um pica-pau teimoso. Sou “bicho” vaga-lume. Um pirilampo no relógio escuro da noite. Horas, tempo e imensidão. Um cosedor de palavras. Poeta, talvez.
João Scortecci