O pintor, desenhista e tapeceiro japonês, naturalizado brasileiro, Manabu Mabe (1924 – 1997), teve 53 de suas obras, avaliadas em mais de 1,2 milhão de dólares, perdidas no mar, no dia 30 de janeiro de 1979, quando o Boeing 707-323, cargueiro da companhia aérea brasileira Varig, desapareceu sobre o oceano cerca de 30 minutos após a decolagem do aeroporto de Narita, em Tóquio, com destino ao Rio de Janeiro. O acidente é conhecido por ser o maior mistério da história da aviação até os dias de hoje. Manabu nasceu em 1924, em Kumamoto, no Japão. Chegou ao Brasil em 1934, com a família a bordo do navio La Plata Maru, para trabalhar nas lavouras de café de Lins, no interior de São Paulo. Conheci Manabu Mabe no ano de 1978, um ano antes do misterioso acidente aéreo. Na época, eu trabalhava no Comercial da FK Equipamentos para Escritório, empresa de Yujiro Furusho, no bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo. Eu tinha 22 anos de idade e sonhava em ser escritor, tornar-me editor de livros e abrir minha gráfica de impressão de livros, sob demanda e em pequenas tiragens. Não sabia quem era Manabu Mabe e o quanto era famoso, respeitadíssimo, principalmente na comunidade japonesa. Yujiro Furusho – filho de japoneses que nasceu na China – procurou-me no final do expediente e fez o convite: “Você já comeu sushi?”. “Não”, respondi. Entramos num táxi e fomos até um restaurante japonês, no bairro da Liberdade. Eu era o único “estrangeiro” na casa. Um senhor oriental, cinquenta e poucos anos, nos aguardava numa mesa de canto, bebendo saquê, bebida alcoólica fermentada tradicional do Japão. Provei e gostei. Disse-me: beba devagar! Foi o que fiz. O garçom trouxe tenugu – toalha de mão de algodão – pegando fogo. Desconfiado, aguardei a vez. Yujiro e Mabe esfregaram a toalha no rosto, no pescoço e nas mãos. Educadamente esperaram por mim. Exagerado que sou, esfreguei a tenugu no rosto, no pescoço e nos braços. Sensação maravilhosa. Banho completo! Do nada, começaram a chegar pequenos pratos, com três porções cada. Foi a minha primeira vez num restaurante japonês. Gostei da brincadeira. Até hoje - uma vez por semana – almoço sushi. Yujiro e Mabe misturavam na fala, português e japonês. O que eu não entendia passava batido. Coisas do saquê. Já tarde da noite, bêbados, Mabe perguntou-me o que eu queria fazer da vida. Disse-lhe: “Quero escrever e publicar livros”. Manabu Mabe, então, começou a falar da paixão pelo seu trabalho de pintor, desenhista e tapeceiro. Abriu o coração. Seus pequenos olhos brilhavam. Um Iluminado! No dia seguinte fui procurar saber quem era Manabu Mabe. Levei um susto. Quase morri do coração! “Patrão, o cara é famoso!” Yujiro, então, me disse: “Eu sabia que você ia gostar dele”. Manabu Mabe morreu em 22 de setembro de 1997, em São Paulo, aos 73 anos de idade. Manabu significa "aprender" ou "estudar" em japonês, termo comum em contextos acadêmicos, profissionais e filosóficos, indicando um aprendizado ativo. Vez por outra, lembro-me do Mestre Manabu Mabe, do porre de saquê, das toalhas de tenugu e dos seus olhos pequenos e iluminados, aconselhando-me: beba devagar! Desconfiado, aguardo a minha vez.
João Scortecci