“O Combate” foi um jornal anarquista - ideologia política que se opõe a todo tipo de hierarquia e dominação - e operário, da cidade de São Paulo, de propriedade do jornalista Nereu Rangel Pestana, que circulou de 1915 até meados de 1929. Lendo matéria a "Paixão Fatal. O Dr. Moacyr Piza”, de 26 de outubro de 1923, sobre o assassinato da prostituta Nenê Romano (Romilda Machiaverni, 1898 - 1923) e o suicídio do escritor e advogado de família ilustre paulistana Moacyr Piza (Moacyr de Toledo Piza, 1891 – 1923), uma palavra chamou-me atenção, além da tragédia: mulíebre. Não conhecia a palavra. No dicionário: Mulíebre significa relativo a mulher ou próprio de mulher. Segue texto do Jornal o Combate: “Dr. Piza, num momento irrefletido, assassina a tiros de revólver - três tiros, nas proximidades da Rua Sergipe com a Praça Buenos Aires, em Higienópolis - a conhecida mundana Nenê Romano e suicida-se em seguida. Matou-se Moacyr Piza, o brilhante, o audaz, o valoroso escritor que todo São Paulo admirava. Matou-se depois de ter matado Nenê Romano, a mulher fatal, que tinha um rosto de anjo e uma alma perversa. Nenê Romano, flor de rua e da lama, mulher do povo e contra o povo, que possuía o sorriso que acendia os mais perigosos fogos da paixão torturante e louca; o mais completo símbolo da leviandade e da perversidade mulíebre conseguiu, com a sugestão da mulher que faz sofrer e ri, armar o braço de Moacyr Piza e desafiar a morte." Que doideira! Sobre o texto do Jornal O Combate, que se opõe a todo tipo de hierarquia e dominação, uma cena que jamais vou esquecer: “com a sugestão da mulher que faz sofrer e ri, armar o braço de Moacyr Piza e desafiar a morte." Romilda Machiaverni nasceu no ano de 1898, filha de imigrantes italianos, residentes no bairro operário do Brás, que na época, concentrava parte da comunidade italiana. Belíssima, em pouco tempo tornou-se a prostituta principal do Tabaris Dancing, no centro da cidade - imóvel hoje incorporado como parte do Shopping Light -, o cabaré mais luxuoso da cidade. Entre seus clientes ilustres, estavam empresários, fazendeiros, intelectuais e políticos renomados: o senador Rodrigues Alves, o deputado Rodolfo Miranda e Washington Luís, futuro presidente do Brasil. O início da tragédia: No corso do carnaval de 1918, na Avenida Paulista, Nenê Romano foi cortejada por um jovem pretendente de “Sinhazinha Junqueira” (Maria Eugenia Junqueira), filha de Luiz Antônio da Cunha Junqueira e Iria Alves Ferreira Junqueira, poderosa baronesa do café. Maria Eugenia, enfurecida, resolveu, deliberadamente, vingar-se de Nenê, contratando capangas que retalharam com uma navalha o seu rosto, deixando uma grande cicatriz. Nenê buscou, então, indenização na justiça. Os capangas foram presos, confessaram o crime, alegaram que agiram a mando de Maria Eugenia. Mesmo com todas as provas e confissões o processo não andou, devido o enorme poder político da família Junqueira. Decidida a buscar justiça, Nenê Romano contratou Moacyr de Toledo Piza, escritor e um dos advogados mais renomados da cidade. Nenê e Moacyr Piza se tornaram próximos e iniciaram um namoro. O relacionamento, entretanto, logo se desgastou e chegou ao fim. Moacyr, ciumento, controlador e agressivo, não aceitou o fim do relacionamento. Em 25 de outubro de 1923, Nenê – na esquina da Rua Sergipe com a Praça Buenos Aires, em Higienópolis - foi abordada por Moacyr que a matou com três tiros e em seguida suicidou-se com um tiro no peito. O crime chocou a cidade. A imprensa manipulada e machista culpou Nenê Romano como a única responsável pela tragédia: “Mulher mundana que conduziu Moacyr à insanidade e o levou a cometer tal crime.” Moacyr de Toledo Piza – antes do crime, publicou o livro "Roupa Suja", onde atacava Washington Luís, principal cliente de Nenê e motivo dos ciúmes doentio. Na obra, Moacyr expõe abertamente as relações extraconjugais de Washington Luís, na época, governador de São Paulo, referindo-se a Nenê Romano (Romilda Machiaverni), como a “dama alegre”. O livro Roupa Suja - Polêmica Alegre, do escritor e advogado Moacyr Piza, editora Chão, com posfácio de Boris Fausto, está no mercado com a seguinte nota: “Onde se faz o panegírico - apologia, elogio - de alguns homens honrados da política republicana! No livro nada sobre “Mulíebre” – característico de mulheres, próprio ao sexo, programadas para causar confusão. A navalha da violência contra as mulheres continua afiada e voraz, mutilando almas e as flores do tempo.
João Scortecci