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TEMPO ACONTECIDO

Quando vi, fiquei abduzido. Diante dos olhos: uma engenhoca do deus do sol. Minhas sombras, meus rastros, meus caminhos, ali, inteiros, pungidos no laço do tempo. Horas do meu antigo mundo! Assim: preciosos e imortais. Uma haste vertical marcando as horas, calculando a latitude, apontando os pontos cardeais e as estações do ano. Perguntei: O que temos de novo? Um gnômon secular. Lâmina triangular - um portal de vento - registrando o destino. Lembro-me do dia que li num almanaque antigo, esquecido na sala de espera do consultório de um dentista cruel, uma mensagem, assim: “As gnômon existem e explicam a presença da luz”. Anotei. Relógio de Sol é um instrumento que mede a passagem do tempo pela observação da posição do astro-rei. Egípcios e babilônicos gostavam de brincar com as sombras moventes. Eram donos dos céus! Uma vareta na vertical, espetada no chão. O que ela, então, queria nos dizer sobre a vida: Ao amanhecer a sombra estará bem longa, ao meio-dia estará no seu tamanho mínimo e ao entardecer volta a alongar-se novamente. Anotei, também. Segredos de luz. Explicação: o gnômon dos ponteiros deverá estar posicionado de forma a ficar paralelo ao eixo de rotação da terra e na declinação magnética. Meu norte? Talvez. Na equação da dor - das águas nuas da boca - o dentista cruel resmungava feliz: a terra é plana! Tempo acontecido! Haste vertical da meia noite. Logo o dia amanhece, novamente.   

João Scortecci