As clepsidras adoram água. Bebem com boca grande e “gravidam” gotas de sal, pungindo assim – no tempo – as horas da vida. Confesso que nunca vi uma clepsidra em ação, trabalhando, gravidando. Somente em vídeos. São engenhocas engraçadas, de cintura fina, tronco largo e depositório farto. As clepsidras nasceram em 600 a.C. na Judeia, parte montanhosa do sul de Israel, entre a margem oeste do Mar Morto e o Mar Mediterrâneo. Depois delas surgiram as ampulhetas de areia, mais eficientes e menos temperamentais. Costumavam engripar no calor e, às vezes, também no frio. Tinham cintura fina e duas cabeças iguais, uma de cada lado. Parte do dia, marcavam olhando o tempo de cabeça para baixo. Doideira! Por volta de 1.500, o relojoeiro Peter Henlein (1479 – 1542), na cidade de Nuremberg, Alemanha, fabricou o primeiro relógio de bolso, todo de ferro, com corda para 40 horas. Em 1595, o italiano Galileu Galilei (1564 – 1642) descobriu o “isocronismo” dos pêndulos e as inesquecíveis casinhas de cuco, entre outras descobertas criativas. O século XVI foi das descobertas e, também, das perseguições religiosas. Relojoeiros protestantes saíram da França e se alocaram na Suíça. Território livre e neutro, quase sempre. Lá, na Suíça, nasceram as marcas de relógios: Omega, Swatch, Rolex, Tissot, Zenith, Patek Philippe e Breguet. Tudo isso para dizer que, mexendo no baú de coisas antigas, dos anos de menino, encontrei o craque Mané Garrincha (1933 – 1983), do meu jogo de botão e uma capa de relógio Patek Philippe, do meu glorioso Botafogo. O Botafogo, time da estrela solitária, era o meu time de criança, isso no Ceará dos anos 1960. As clepsidras ou relógios de águas, como queiram, foram um dos primeiros sistemas criados pelo homem para medir o tempo, assim como o relógio de sol e a ampulheta. Mediam a vida! As clepsidras – dos gols e dos dribles – marcaram no futebol a gravidade de Garrincha, o moço das pernas tortas. Eu o vi jogar uma única vez, no eterno da história da bola. Assim são as engenhocas do tempo e as genialidades da vida!
João Scortecci