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BOULEVARD DA CONCEIÇÃO E O PINTOR CHICO DA SILVA

Descendo a Avenida D. Manuel, batizada em homenagem a Dom Manoel da Silva Gomes, o primeiro arcebispo da cidade de Fortaleza/CE, conhecida como o Boulevard da Conceição, devido à proximidade com a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Prainha, via histórica do século XIX, projetada em 1893, pelo engenheiro e arquiteto Adolfo Herbster (João Adolfo Herbster, 1826 – 1893), na direção do mar, logo depois da Igreja da Prainha (nome popular), virando a esquerda, fica a Favela do Pirambu, maior favela do Ceará e uma das sete maiores do Brasil, com 20 mil moradores, com um histórico de luta e resistência contra a exclusão social e a remoção forçada. Morávamos no número 1.086, do Boulevard da Conceição, na Vila Santa Terezinha, conjunto de quatro casas, entre a Avenida Duque de Caxias e a Rua Pero Coelho, que ocupava quase o quarteirão inteiro. A Vila Santa Terezinha não existe mais, foi vendida para o Banco do Nordeste, no final dos anos 1980. A Favela do Pirambu – nome de peixe da região, o sargo de beiço, que emite um ruído conhecido popularmente como “peixe que ronca” – cresceu na orla da praia a partir dos anos 1930, ocupada, inicialmente, por retirantes das secas e pescadores. No início dos anos 1980, o Pirambu passou por uma grande urbanização, após a construção da Avenida Leste-Oeste, em 1973. Deixei Fortaleza um ano antes, em 1972. Visitei a Avenida Leste-Oeste numa das férias na capital cearense, em 1974 ou 1975. Fomos de Jeep Barbarella até a Barra do Ceará, foz do Rio Ceará. No jeep estavam meu irmão José, minha irmã Ana, minhas primas Neca, Branca e Lolo e mais uma pessoa, de que, infelizmente, não consigo me lembrar agora. No meio da aventura, paramos para conhecer pessoalmente o pintor Chico da Silva (Francisco Domingos da Silva, 1910 – 1985), de Cruzeiro do Sul – Alto Tejo, estado do Acre, descendente de mãe cearense e pai índio da Amazônia peruana. Radicado no Ceará desde 1934, o pintor vendia seus quadros de dragões, peixes voadores, galos e sereias, no canteiro central da Avenida Leste-Oeste. Foi descoberto pelo cartazista, publicitário e músico suíço, radicado em Fortaleza, Jean-Pierre Chabloz (1910 – 1984), que, em meados da década de 1950, notou um de seus grafites em uma parede na praia do Pirambu, onde Chico da Silva costumava desenhar. Chabloz lhe ensinou as técnicas do guache e do óleo e logo passou a expor seus trabalhos em Fortaleza, no Rio de Janeiro, França, Suíça, Itália e Rússia. Em 1966, recebeu Menção Honrosa na XXXIII Bienal de Veneza. A fama de Chico da Silva correu o mundo, recebendo pedidos de toda parte. Como não conseguia pintar tantas telas, montou um time de aprendizes para a produção em série de quadros. Chico só assinava os quadros. Com o tempo ninguém mais sabia distinguir o que era original do que era imitação. Escutei uma vez de uma famosa colecionadora de quadros: “O que vale é a assinatura!”. Quando era ainda um pintor desconhecido, Chico da Silva era chamado no Pirambu de “indiozinho débil mental”. Afundado na bebida e levando uma vida desregrada, faleceu no dia 6 de dezembro de 1985, aos 75 anos de idade.

João Scortecci