Pesquisar

ANOTEM NO BLOCO DE NOTAS: DIGAMA VEM AÍ!

Digama me ligou logo cedo no celular. No visor: número desconhecido. Depois, do nada, apareceu a letra F e o número 6. Pensei: novo golpe! No Chrome – navegador que uso – o F6 serve de atalho para digitar um novo URL. F6? Fiquei curioso, confesso. Atendi, então, a ligação com um indiferente: “Hã.”. Não falo mais “Alô, quem fala”. Agora digo simplesmente: “Hã”, sem entonação interrogativa alguma. Dizem – não sei se é verdade – que a IA anda clonando sua voz a partir de um simples “Alô”. “Hã”, repeti. Do outro lado da linha: “Aqui quem fala é o Digama, letra do alfabeto grego, irmão do Alfa, do Gama, do Beta.”. Você disse Digama?” “Sim.” Digitando no Google, encontrei: “Digama: Letra arcaica do alfabeto grego, com valor numérico 6.”. Perguntou-me, na lata: “O que você pode fazer por mim?”. Não conhecia a letra grega Digama. Conhecia as letras: Alfa, Beta, Gama, Capa, Zeta, Psi, Pi, Ýpsilon e Ômega. Digama insistiu: “O que você pode fazer por mim?”. Silêncio. Depois, abriu de vez, a matraca: “O mundo se esqueceu de mim. Li na Internet que sou uma letra arcaica. Fui abandonada no século V a.C. e ninguém, até hoje, explicou-me o motivo. Fui cancelado! Eu e os meus irmãos gregos: Qoppa, Sampi e San.”. Na hora, lembrei-me do cachorro Sampi, um caramelo esperto, adotado, de uma amiga dos anos 1990, que morava no bairro da Penha. Contei-lhe, então, a história triste de Sampi, que morreu atropelado correndo atrás de um caminhão de gás. Sampi, quando escutava a música “Für Elise”, de Beethoven, entrava em transe. Digama escutou a história, mas não gostou dela. Digama insistiu: “O que você pode fazer por mim?”. Respondi, então: “Tenho amigos na mídia eletrônica, jornalistas, políticos, cientistas, ativistas culturais e influenciadores: vou conversar com eles! E como falo com você?”. Digama explicou: “Digita jogo da velha, número 6 e depois asterisco.”. Anotei. Depois desligou. Liguei, então, para o William Blauvelt, velho conhecido, responsável pela ideia de incluir letras nos discadores e teclados dos aparelhos de telefone para facilitar a memorização de números. Hoje as senhas e códigos considerados “difíceis” são todos alfanuméricos, usam letras e números. Sequência clássica nos discos: 2(ABC), 3(DEF), 4(GHI), 5(JKL), 6(MNO), 7(PQRS), 8(TUV), 9(WXYZ). Anotei. Pensei: que tal MNO6D, em memória da letra grega Digama? William Blauvelt estava de mau humor. Acontece. Expliquei, então, a problemática do Digama e sua frustração pelo cancelamento injusto. Blauvelt resmungou. Bateu pino. Resfolegou: “Agora você também?”. “Eu também? Você e o tal do Elon Musk!”, exclamei e perguntei, surpreso: “O que o maluco do Musk quer?” Blauvelt não respondeu. Limitou-se a dizer: “Liga outro dia!”. Hã? E desligou. Mistério. Aqui com os meus enigmas: o que Musk quer com o cancelado do Digama?. Nova marca de carro? Novo satélite espião? Nova rede social de mensagens curtas? Acordei do pesadelo. Exausto e molhado de suor. Eu explico: depois que Digama desligou o telefone, dormi novamente. Tarde demais: no WhatsApp uma mensagem do inventor William Blauvelt: “Digama vem aí”. Hã?

João Scortecci