Astrolábio – antigo instrumento astronômico e de navegação usado para medir a altura dos astros em relação ao horizonte – e seus estigmas. Marcas, sinais, exclusões: assim tropeça a humanidade. Chico Astrolábio já faleceu. Morreu jovem, menos de 50 anos de idade. Não lembro o ano. Uma certeza: antes da virada do século. Tropeçou num buraco na rua – uma cratera – e caiu de boca no chão. Piada da época: culpa do astrolábio! Risos. Na verdade, Chico andava com a cabeça nas nuvens, distante, perdido, com a razão acima do horizonte. Tudo – tudo mesmo – que Chico observava – um prédio, uma montanha, um poste, uma roda gigante, um monumento, um trapézio – conferia, sempre, com o seu astrolábio de bolso, presente do seu avô. Dizia: “Tudo que está acima dos olhos pode ser medido!”. Perguntávamos, curiosos: “E abaixo dos olhos?”. Chico Astrolábio, ríspido e agressivo, respondia, de pronto: “Não interessa!”. É dessa época o poema que escrevi: “Olha-se pouco para o céu!”. Época, também, da passagem do Cometa Hale-Bopp, da compra de uma luneta e do interesse pelas constelações de Leão e Escorpião. O GPS – Global Positioning System (Sistema de Posicionamento Global) – foi desenvolvido para uso militar, na década de 1960, tornando-se operacional a partir de 1995 e liberado para uso civil em 1983. Veio e ficou. Tenho um amigo editor e gráfico, fã cativo de Freud, que, mesmo sabendo o caminho do destino, entra no carro e liga o GPS. Perguntei-lhe, então: “Qual a razão?”. Confidenciou-me: “Quando casei, vivia errando o caminho de casa. Quando dava conta, estava entrando com o carro na garagem da casa da minha mamãe! Contei o acontecido para a minha mulher e ela não gostou nada da história. Até hoje, quando brigamos, ela me espeta o ego: ’Vai fugir para a casa da mamãe?’”. Hoje reencontrei um texto antigo, dos anos 1990, que escrevi na época das estrelas no céu. Segue o texto, com alguns ajustes: “Dos estigmas. Das cicatrizes. Dos traços e das marcas no corpo. Tatuagens ou mapas? Nós, engordados e flácidos; nós, envelhecidos e antigos; nós, adoentados disso, daquilo e sempre, agora marginalizados, agora desaprovados, cancelados, negados! É o que “estamos”. O navio dos clãs – aquele que na existência leva e traz filhos, netos, bisnetos – está à deriva nas águas, ilhado no mar revolto das tormentas, incerto nas direções do Norte, perdido de bússolas, perdido dos astrolábios e das estrelas do céu. Estigmas das sombras? Talvez. Lembro-me dos rabiscos do menino mercador e explorador veneziano Marco Polo (c.1254 – 1324) e das linhas – de leitura – da palma da mão. Vovó Chiquinha sabia das coisas. Ela dizia, na leitura da sorte: ’Cuide das mãos’. Quiromancia? Algo assim. Adiante, ainda falando das cicatrizes, da razão e suas provações, uma mensagem de Chico Xavier: “Isso também passa. Todas as coisas na Terra passam. Os dias de dificuldades passarão. Passarão também os dias de amargura e solidão. As dores e as lágrimas passarão...”. Saber esperar – pacientemente – é virtude. Eu sei, eu sinto, eu quero. Guardo, então, no segredo das memórias antigas, o astrolábio do Chico. Suas asas de voar, sua mania ímpar de olhar – sempre – acima dos olhos, além do horizonte, mesmo correndo o perigo mortal de tropeçar e cair nas crateras da vida e morrer de boca no chão. Destino: tudo muito além da sorte!” O texto acima tem mais de 30 anos. Saudade espacial do Chico Astrolábio, das mãos sábias de vovó Chiquinha e do momento mágico que foi avistar no céu azul de estrelas o cometa Hale-Bopp, amor infinito, nas águas escuras do mar, no dorso veloz da constelação de Leão e seus estigmas: de luz e paixão. Assim tropeça a humanidade. Já disse: olha-se pouco para o céu!
João Scortecci