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MARCA D’ÁGUA EM IA? CURIOSIDADE MATA!

Pulei o muro do quintal do vizinho, de olho gordo na goiaba madura do pé. Antes que pudesse agir, senti no suor da nuca um cano frio de espingarda. Ferrei-me! Tinha 11 anos de idade, talvez 12. Segredo para quem for pego surrupiando: dizer, sempre, a verdade! Resfoleguei: “Vim comer uma goiaba!”. O homem – idoso e magro – baixou a espingarda e me disse, calmamente: “Sobe lá, pega uma goiaba e depois some do mapa!”. Foi o que fiz. Na saída, aconselhou-me: “Você sabia que curiosidade mata?”. Silêncio. Subi no muro e pulei de volta, carregando no bolso a goiaba madura. Lavei a presa na torneira de água do quintal e ali mesmo, no sol quente da tarde, matei o leão. Confesso: o cano frio do ferrolho, até hoje, dói e incomoda as rugas do couro. Marca de nascença? Talvez. E mais, o alerta de que “curiosidade mata!” me contaminou o sangue, sem cura. Isso, talvez, explique o eu: uma danação exagerada! Escrevendo sobre papel imune, linha d’água ou marca d’água, registrei no texto: “O termo marca d’água refere-se a uma característica intrínseca do papel, não a uma marca comercial. A técnica de incorporar uma linha d’água no papel é antiga, mas, no contexto editorial brasileiro, ganhou destaque em 1926, quando foi adotada como um requisito para o papel de imprensa importado, visando garantir que ele fosse usado exclusivamente para jornais e periódicos e não desviado para outros fins, devido a um regime especial de tributação.”. Continuando: “A Marca d’água em papel é um padrão em relevo, incorporado durante a fabricação, que confere autenticidade e exclusividade a documentos e papéis especiais, visível contra a luz e sem uso de tinta.”. Foi no ano de 1978, no início da Scortecci Editora, conversando com o gerente comercial da KSR - Distribuidora de Papéis, na época pertencente ao Grupo Papel Simão, que pude, pela primeira vez, observar numa folha de papel a tal marca d’água. Ele me mostrou, apontando com o dedo: “Olha o papel contra a luz!”. Foi o que fiz. Hoje, o controle do papel editorial se chama “papel imune”, uso legalmente isento de IPI, PIS, Cofins e ICMS, pelo artigo 150, inciso VI, alínea “d” da Constituição Federal do Brasil. Agora a novidade que desconhecia: marca d’água em IA – Inteligência Artificial? Escutei no rádio. É uma técnica para inserir sinais invisíveis – em texto, imagem, áudio – criados por IA, permitindo que computadores detectem sua origem, combatendo desinformação e “deepfakes”, como a tecnologia SynthID do Google, que adiciona marcas digitais aos dados sintéticos, mantendo a qualidade do conteúdo e robustez contra modificações. Funciona assim: com padrões sutis ou desvios linguísticos, que humanos não percebem, mas detectores de IA identificam. Objetivos: identificar a origem de conteúdo gerado por IA, lutar contra “fake news” e “deepfakes”, validar a veracidade de informações e proteger direitos autorais. Curiosidade mata! Abri os olhos, desliguei o radinho, bebi água, lavei uma banana madura – ali mesmo, na torneira da pia – e matei, então, outro leão. Escutei, então: “Não se matam mais leões!”. Verdade. Politicamente incorreto. Perguntei, então, aos céus: “Mata-se, diariamente, o quê?”. Resposta do além: “Neurônios!”. Sobre IA não sei nada. Nada mesmo. Ontem recebi de um amigo gráfico um link sobre uma pesquisa realizada pelo Instituto Stanford de Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano – Stanford University, com números sobre IA. Interessante. Desconfio que ando matando – além da conta – os meus derradeiros neurônios. Os últimos! Marca de nascença, castigo dos muitos leões que matei na vida. Perdão: curiosidade mata!

João Scortecci