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ARACY, "ANJO DE HAMBURGO", E “GRANDE SERTÃO: VEREDAS”, DE ROSA

A expressão “Justos entre as Nações” é utilizada no judaísmo para se referir a gentios (não judeus), que mereceriam o Paraíso por serem fiéis às Sete Leis de Noé: “Não cometer idolatria”; “Não blasfemar”; “Não assassinar”; “Não roubar”; “Não cometer imoralidades sexuais”; “Não maltratar aos animais”; e “Estabelecer sistemas e leis de honestidade e justiça”. O Estado de Israel usa aquela expressão para designar o prêmio conferido aos “gentios” que arriscaram suas vidas durante o Holocausto para salvar judeus do extermínio pelo nazismo. Dois brasileiros – não judeus – foram agraciados com o prêmio “Justos entre as Nações”: o diplomata Souza Dantas (Luiz Martins de Souza Dantas, 1876-1954) e a poliglota Aracy de Carvalho (Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, 1908-2011), conhecida como o "Anjo de Hamburgo", por ter salvado judeus da morte, durante a Segunda Guerra Mundial. Aracy nasceu na cidade de Rio Negro, no estado do Paraná. Era filha de Sidonie Moebius de Carvalho, natural da Alta Saxônia, na Alemanha, e de Amadeu Anselmo de Carvalho, um comerciante luso-brasileiro que, mais tarde, seria dono do Grande Hotel de Guarujá. Em 1930, Aracy se casou com o alemão Johann Eduard Ludwig Tess, com quem teve o filho Eduardo Carvalho Tess, mas cinco anos depois ela se separou, indo morar com sua tia, Lucy Luttmer, na Alemanha. Por falar quatro línguas (Português, Inglês, Francês e Alemão), conseguiu uma nomeação, como chefe da Seção de Passaportes, no consulado brasileiro em Hamburgo, Alemanha. Em 1938, entrou em vigor, no Brasil, a Circular secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou o documento e continuou preparando vistos para judeus, permitindo que entrassem no Brasil. Como despachava com o cônsul-geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas. Para obter a aprovação dos vistos, Aracy simplesmente deixava de pôr neles a letra "J", que identificava um judeu. Ainda na Alemanha, Aracy casou-se com o escritor, médico e diplomata mineiro de Cordisburgo Guimarães Rosa (João Guimarães Rosa, 1908-1967), à época cônsul-adjunto naquele consulado. Os dois permaneceram na Alemanha até 1942, quando o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com aquele país e passou a apoiar os Aliados na Segunda Guerra Mundial. Seu retorno ao Brasil, porém, não foi tranquilo. Aracy e Guimarães Rosa ficaram quatro meses sob custódia do governo alemão, até serem trocados por diplomatas alemães. O livro de Guimarães Rosa "Grande Sertão: Veredas", de 1956, foi dedicado a Aracy, o "Anjo de Hamburgo".

23.06.2022