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BALÃO BOMBA NIPÔNICO E A CHUVA DE PEIXES, NO CEARÁ DE 1945

Quando menino - isso no Ceará dos anos 1960 -, ganhei de presente uma coleção de livros - capa dura, três volumes - sobre a Segunda Guerra Mundial. Nem preciso dizer: li e reli sobre a epopeia, uma dúzia de vezes. Sobre a Operação Overlord e a invasão da Normandia, uma centena de vezes, talvez. Sou mesmo exagerado! Para quem não sabe - eu conto - tenho um fascínio especial pelo Império do Japão, seu povo e sua história. Acho que já vivi por lá - em outra “encadernação”. Um capítulo especial - que mereceu estudo minucioso - foi sobre os balões bomba (Fusen Bakudan) de hidrogênio, levados pelo vento e lançados pelos japoneses durante a segunda grande guerra. Estima-se que cerca de 9.000 desses balões tenham sido lançados pelo Japão, em retaliação ao bombardeamento de Tóquio e Nagoya, pelos Estados Unidos da América do Norte. Carregavam bombas de 12,80 m de diâmetro e 548m³ de volume, detonador de 19,50 m, com tempo de queima de 1hora e 22 minutos. Quando completamente cheios, continham aproximadamente 540 m3 de hidrogênio. Verdadeiras bombas voadoras! A ideia fracassou - em parte: poucos balões conseguiram chegar à costa dos Estados Unidos e explodir. O resultado final foi ínfimo e inexpressivo, para o todo de uma guerra. A maioria dos balões perdeu-se na imensidão do oceano Pacífico. Os norte-americanos - estrategicamente - não noticiaram nos jornais os ataques com balões bomba, e os japoneses desistiram do projeto. Contei a história dos balões bomba para o meu pai Luiz, que, durante a Segunda Guerra Mundial, pertenceu ao “Regimento Sampaio” e por pouco - chegou até a embarcar num navio da marinha - não foi combatente na Itália. Foi surpresa, a minha, claro - ele saber da história dos balões bomba e contar, com sangue nos olhos, que um desses balões japoneses acabou caindo na cidade de Fortaleza. Quase perdi o fôlego! “Pai, é verdade?”. Meu papai Luiz adorava contar “causos” e o fazia como ninguém. A mesma história - a cada contação - aumentava ou diminuía de extensão ou mudava de rumo ao gosto do freguês e, principalmente, ao sabor da curiosidade alheia. “E tem mais. Você sabia que, naquele mesmo ano, alguns dias depois, choveu peixe na Praça do Ferreira, no centro da cidade?”. “Mentira! Isso é impossível”, insisti. “Verdade, eu juro.”. Deu-me, então, a explicação científica para o fenômeno, que envolve “trombas marinhas” e “fortes ventos”, graças a uma combinação de depressão na tromba e da força exercida pelos ventos, numa única direção. Contou-me, também, registros na história de chuva de rosas, sapos e pequenos animais. “E os peixes? O que foi feito deles?”, insisti. “O prefeito - é o que disseram, na época - mandou recolher tudo e incinerar.”. “Jura?”. “Juro. Não saiu nada nos jornais, e o incidente foi abafado. Falavam de uma operação secreta do “Eixo” - Alemanha Nazista, Reino da Itália e o Império do Japão - com o objetivo de então “envenenar” o povo do Ceará, como vingança ou algo assim. O Ceará foi o estado brasileiro que mais enviou soldados para lutarem na guerra. Tudo cabra macho!”. “E o balão bomba: onde está?”. “Não sei.”. “Não?”. “Tiraram fotos da chuva de peixes na Praça do Ferreira?”. “Não sei.”. “Que merda, pai!”. Minha mãe Nilce, que até então - de olho curto - escutava o embate, resmungou: “João Ricardo, não diga palavrões. É feio. Vai lavar a boca com sabão!”. “Não.”. “Então não diga mais palavrões.”, recomendou ela. “Pai, e o balão bomba de hidrogênio?”. “Já disse, não sei.”. “Porra, pai. Que merda! Santa Maria de Deus, que merda!”.

26.12.2021