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DAS PRAGAS DA INFÂNCIA: CHARLES BOYER, LACERDINHA E O QUE NÃO MATA ENGORDA!

Das pragas da infância. No começo dos anos 1960, a “lacerdinha”, um insetozinho asiático, minúsculo, de cor negra, se tornou uma praga nacional. O sugestivo apelido era em referência ao político carioca Carlos Lacerda, famoso por sua radical e raivosa oposição aos presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubistcheck. Água de beber naquela época - na cidade de Fortaleza - chegava de carroça-pipa, puxada por jegue. O animal colocava o “burro na sombra” embaixo do fícus-benjamim e lá ficava o resto do dia. Mamãe Nilce comprava - sempre - três latões de 20 litros de água. Recomendava, sempre: “Cuidado com as "lacerdinhas" na água. Os galões enchiam um imenso pote de barro, que dormia do lado de fora da casa, na porta da cozinha. Água “boa” de beber, da adutora do Acarape, só chegou na capital cearense no inicio dos anos 1970. A água era fervida - com lacerdinha e tudo - e depois filtrada no barro. O problema não eram as “lacerdinhas” na água: “o que não mata engorda!” Ditado da época de criança. O problema era um gato-dourado de nome Charles Boyer, que do alto do muro do vizinho, mijava dentro do pote. O pior: ninguém conseguia pegar o safado do gato. Com o tempo ficou por isso mesmo. Água com mijo. Na biblioteca mamãe Nilce lia e espiava o reboliço da época: "Memórias de Carlos Lacerda", em quatro volumes, encadernação de luxo. Papai Luiz espiava e gritava de longe: “Nilce, esse Lacerda é uma praga!” Tudo era motivo de piadas e acreditávamos que tínhamos 7 vidas - igual o gato Charles Boyer - e também muita sorte.  

17.02.2021