DESPEJO NO DIA DO SILÊNCIO

Ainda sobre o despejo da UBE (União Brasileira de Escritores), ocorrido no dia 7 de maio de 1994, madrugada de um sábado, ironicamente Dia do Silêncio. Mesas, cadeiras, armários, quadros, fichários, documentos e livros - muitos livros - foram “jogados” no meio do calçadão da Rua 24 de maio, 250, centro de São Paulo. O poeta e contista Caio Porfírio Carneiro, secretário executivo da entidade, foi avisado por um amigo, dono de um bar, que ficava em frente. O calçadão naquela hora do dia ainda estava vazio. Ocupado somente por moradores de rua e comerciantes que chegavam para o trabalho. O “desmonte solidário” veio e trabalhou rápido. Caio Porfírio Carneiro chegou por volta das 10 horas da manhã e o caminhão da mudança e alguns funcionários da Gráfica Scortecci, pouco mais do meio dia. Foram moradores de rua que vigiaram e evitaram a pilhagem. Dia triste para a história do livro no Brasil. Infelizmente não tenho fotos. Tudo foi feito para evitar o despejo. Sou testemunho disso. As negociações começaram ainda no governo Fernando Collor e terminaram com o despejo no governo Itamar Franco. Sarney e Marco Maciel - amigos do livro - nada puderam fazer. Para os que criticam Sarney, autor de “Maribondos de Fogo” e não conhecem a história: o livro no Brasil deve muito a ele! A UBE - depois do despejo - funcionou durante alguns anos em uma pequena sala em um prédio da Rua Barão de Itapetininga. Acho - tenho dúvidas - indicação e esforço pessoal do escritor Luz e Silva, proprietário da Editora do Escritor. As reuniões de diretoria - realizadas as quartas-feiras - foram transferidas para a Casa Mário de Andrade, na Barra Funda. Durante a gestão do Professor Fábio Lucas (presidente na época do despejo), fui o fiador do aluguel do imóvel. A UBE - fundada em 1958 - mais viva do que nunca - resiste pela sua importância, história e pelo trabalho de muitos. Luta em defesa da liberdade de expressão, dos direitos do autor, da cadeia produtiva do livro e da democratização de acesso à informação. 

10.10.2020