Andar São Paulo dos anos 70

 Andar São Paulo! Foi o que fiz nos anos 70. Tinha um mapa e nenhuma direção. Nunca havia subido em um ônibus urbano na vida. Porta da frente ou porta de trás? Até hoje esqueço o que nunca de fato aprendi. Na lista de vontades: conhecer o Museu do Ipiranga, o Instituto Butantã, o Shopping Iguatemi, o Aeroporto de Congonhas e a Praça da República e sua famosa Feira Hippie, aos domingos. Minha mãe Nilce havia estudado no Colégio Caetano de Campos, no coração da praça. Era o seu sonho - quando falava da cidade - e eu o adotei em sua memória. Andar São Paulo e cruzar na Rua dos Timbiras com o Gracindo! Madrugava - quase sempre antes do nascer do sol - e lá ia eu no cobreiro do mapa. Morava na Rua Frederico Abranches, no bairro de Santa Cecília, próximo da igreja e da belíssima Loja Clipper. Assisti ao início da construção do Metrô e o fim da Rua das Palmeiras e da Avenida São João. Um dia andando pela Rua dos Timbiras, saindo da Praça da República em direção à São João, cruzei com o prefeito Odorico Paraguaçu. Alinhadíssimo, terno branco e chapéu. Prefeito! Prefeito! Ele parou e me esperou. Posso olhar um “pouquinho” para o Senhor Prefeito? Ele sorriu. Cumprimentou-me levantando o chapéu e seguiu o seu caminho. Estava acompanhado - de braço dado - com uma jovem moça. Odorico - personagem cômico do incrível escritor Dias Gomes - era dono de uma fazenda de azeite de dendê e prefeito de Sucupira. Corrupto, demagogo e maravilhoso. Elegeu-se com a promessa de construir o cemitério da cidade e de encontrar “um defunto” para inaugurá-lo. Nunca o encontrou! Paulo Gracindo morreu no dia 4 de setembro de 1995, deixando órfã Sucupira e o melhor da cidade de São Paulo.

04.09.2020