Je t’aime mon amour!

Je t’aime mon amour! Laércio era um “querido” exagerado. Bebia além da conta. Cardíaco. Enfartou e morreu antes dos sessenta anos. Morava na casa da frente, do outro lado da rua. Sua mulher - tia Lurdinha - era funcionária de carreira da Aviação Cruzeiro do Sul. Na virada do ano de 62, meu pai Luiz, convidou para o réveillon um casal de franceses. Amigos do trabalho. Algo assim. Quando os relógios marcaram meia-noite, depois do estouro do champanhe, o casal - raffiné - trançou os braços, bebeu um da taça do outro e resmungou: Je t’aime mon amour! Depois da epopeia très chic, atiraram pela janela, no meio da rua, as taças de cristal do enxoval de casamento da minha mãe. Papai gelou. Ele e todos da festa. Silêncio. Papai, a mamãe está morta? Não, filho. Mamãe perdeu o fôlego. Ela está fria! Foi o choque. Ela volta! Do nada, mamãe Nilce saiu do transe. Sorrindo! Pegou uma garrafa de champanhe, fartou-se no gargalo e gritou: Je t’aime mon amour. Papai - surpreso - e meus tios Mário e Lenira, motivados, fizeram o mesmo. Je t’aime mon amour. Em minutos - chiquérrimos - quebraram todas as taças e copos da casa. Não satisfeitos - e possuídos pelo cupido do álcool - quebram também pratos, louças e o que encontraram pela frente. A rua ficou um chão de estrelas. Papai, a mamãe ficou maluca? Não, filho. Sua mãe está de pileque. Isso passa. Laércio, que espiava tudo do outro lado da rua, nada contente, resolveu aderir ao quebra-quebra. Em minutos atirou pela janela pratos, copos e louças da casa. Não contente - exagerado que era - arrastou um pote de água e o papocou na quina da calçada. Satisfeito - mais do que satisfeito - gritou em cearense tesudo: geme meu amor, geme!

13.06.2020