Eu e Galilei: Bilhete do Santo Ofício

Hoje acordei - solenemente - renegado de crenças e opiniões. Eu e Galilei. O que dizia mesmo o bilhete do Santo Ofício? Para descrer e abjurar das ideias. Todas elas? Sim. Uma em especial: a gota que faltava no copo. Qual das crenças? De que a terra não é o centro do perigo maior. É negar - solenemente - ou morrer na fogueira das vaidades. Você exagerou! Eu? Sim. O que mais você disse: que a terra gira ao redor do sol. Galilei, você é um exibicionista. Um incontido. Deveria cortas a sua língua. E o que eu faço agora? Descrer. Dizer que estava doente, com febre. Ou melhor: dizer que foi enganado pela sapiência. Sapiência? Sim. Vai funcionar. Espero. E se não funcionar? Você morre! Diga que foi excesso de conhecimento inútil. Falta de - um algo - de ignorância no coração. Não seria na cabeça? Não diga isso. Diga que foi por causa da gota extra de vinho que caiu - voluntariamente - do copo. Um capricho involuntário da natureza divina! Teria sido um aviso de deus? Talvez. Nada de milagre! Bruxaria anda em baixa. Não quer salvar o pescoço? Quero. Vai lá e alega loucura temporária. Abjura! Abjura! E depois rasga o bilhete. As palavras são perigosas.

22.06.2020