Réstias de Uva ou Cachos de Cebola?

Das inocências de menino. Uva era raridade na infância. Isso no Ceará dos anos 60. Um dia provei. Papai ganhou um cacho. Presente de um amigo do trabalho que trouxe de São Paulo, de Caravelle, pela Cruzeiro do Sul, escondido em uma sacola de mão. Menino, tem caroço. Cuidado! Não engole que dá apendicite. Mãe, que maldade é essa? Inflamação do apêndice. Nó nas tripas! Risadas. Quero não. Prova e depois cospe. Provei. Tem gosto de pitomba. Deixa de frescura. Uva é fruta fina e custa o olho da cara. Guardei os caroços. Deixei secar e plantei no fundo do quintal junto do pé de graviola. Todos os dias regava o chão. Arranquei tiriricas e matei formigas da bunda grande. Nada de uva. Pai, sabia que eu plantei uva no quintal. Uva? Isso. Ele me olhou e riu. Quando nascer você me avisa. Aviso sim. Vou vender e ganhar dinheiro. Filho, como vai a sua plantação de uva? Nada ainda. Demora mesmo. Vai tentando que uma hora você enxerga. Mãe, na fazenda em Dois Córregos o vovô Scortecci plantava uva? Não. Plantava café. Mãe, sabia que plantei uva no quintal? Filho! Pé de uva não nasce do caroço. Você precisa de mudas ou de sementes especiais. Nasce sim. Nasce não. Papai ficou até de comprar - toda - a produção do ano. Teu pai está “zoando” você. Está não. É serio. Encomendou também meia dúzia de cachos de cebola. Cachos de cebola? Não seriam réstias? Isso. Nome complicado. Mãe, você quer ser meu sócio no negócio? Eu preciso de três cebolas das grandes. Posso pegar? Filho, você já viu um pé de cebola? Não. Teu pai está “zoando” você. Luiz, você está “cultivando” minhoca na cabeça do teu filho. Vai virar cobra criada! Não vê que o menino tem jeito para agricultura. Filho, quer um conselho de pai? Quero. Você vai morrer de fome!