Eu e a liberdade de passarinho

Eu e a liberdade. Nasci passarinho. Agitado e inquieto como um colibri. Iridescente de palavras e secretado de néctar. Joana (minha babá de banho e açúcar) sabe de tudo. Até dos meus incomuns. Meu coração bate veloz e vive - inteiro e febril - nas agitações da pele. No toque bruto, frontal e delicado da vida. Tenho sangue de abelha. Tipo B. Vertente polinizada de mel e cera de carnaúba. Sou zangão. Sensível e inquieto. Sou marujo das velas do Mucuripe. Sou biruta de agulhas, mapas, rotas e bússolas. Um cosedor de comeias.  Andarilho de enxames? Meu voo é de borboleta. Número 13. Das manhãs do sol vertente. Sou ovo, larva, pupa e imago. Sou vento abrasador: queimo e incendeio. Sou cabresto de arraia (pipa, papagaio) que envia telegramas e bilhetes na linha do cerol. Avisos da terra. Foi assim na infância de pitombas, cajás, graviolas e atas. Foi assim na adolescência das danações do corpo e da alma. Foi assim no adulto das coisas, das manias, dos trejeitos e das fatalidades. E agora - é assim - sabiá do desapego. Quase morcego vampiro. Um pica-pau? Sou “bicho” vaga-lume. Pirilampo no relógio da noite escura. Sou horas, tempo e liberdade.

02.05.2020