Volta do Exílio de Milton Nascimento

Minha ligação com a FAU/USP, no início dos anos 70, deve-se ao irmão José Henrique (cinco anos mais velho do que eu) então aluno de arquitetura. Foi na revista POETAÇÃO, editada por alunos da casa, que fiz minha estreia literária com a publicação da poesia Mulher de Rua, em 1973. Foi lá que conheci o escritor Milton Hatoum, um dos editores da revista de arte literária e resistência. Hatoum era membro atuante do DCE e foi perseguido pelo DOPS e algumas vezes convidado a xilindrar, para averiguação. É dessa época “Milagre dos Peixes” e a volta do exílio - depois de 13 anos - do cantor e compositor carioca, o mais mineiro de todos, Milton Nascimento. Nascimento em 1964 foi preso pelo regime militar e classificado como subversivo. Na prisão teve um inicio de derrame. É o que dizem. Foi levado ao hospital e depois solto. Cumpriu seis meses de prisão domiciliar. Sem condições de trabalhar no Brasil exilou-se em Paris. Passou pelo Canadá, Estados Unidos e por fim Venezuela. Voltou em 1973, certo que agora a “travessia” seria diferente. Engano. Suas canções censuradas eram apenas entoadas, apenas a melodia, sem letra. Sem poder trabalhar passou a fazer shows promovidos por DCEs de faculdades. Em 1973, no Campus da FAU/USP, aconteceu o histórico e lendário show a céu aberto promovido pelo DCE. O público ocupou literalmente o “morro” área que fica de frente à faculdade. Eram milhares de estudantes. Eu estava lá. Eu, meu irmão José Henrique Scortecci de Paula, Ruth Cassab Brolio, Roberto Brolio (irmão de Ruth) e Eliana Scortecci Petrilli (minha prima por parte de mãe). Depois do mega evento Milton Nascimento tornou-se “um procurado” pelo então secretário de Segurança Pública de São Paulo Cel. Erasmo Dias, figura de dar arrepios até em pinguins. Em a vida é bela, anos depois da invasão da PUC/SP e do grito do Coronel Dias: “É proibido falar. Só quem fala aqui sou eu”, o recebo doce e simpático na Scortecci Editora para então publicar sua obra de nome “Segurança dos Cidadãos”.  Assim é a memória da vida, agora mais do que bela.