Olivetti Lettera 32

No último dia 12 de março de 2019 a web completou 30 anos. Timothy John Berners-Lee (físico britânico, cientista da computação e professor do MIT, hoje com 63 anos) abriu mão da patente de sua invenção. Foi também o criador do primeiro site com apenas alguns parágrafos sobre o seu projeto: “Dar acesso universal a um grande universo de documentos”. Ainda está lá igual no seu formato original: http://info.cern.ch. Isso me fez lembrar o dia que compramos o nosso primeiro computador para a Scortecci. Ele durou exatos cinco dias. Eu “brutalmente” o joguei pela janela de um sobrado que tínhamos na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros. Junto com a máquina e um manual em inglês, veio os serviços de uma moça nerd. Eficiente, em pouco tempo formatou e salvou em um disque bolacha o modelo de contrato da editora para publicação de livros. O grande desafio seria usá-lo no dia seguinte, para então fecharmos o nosso primeiro contrato da nova era. O autor “escolhido” para o grande dia (José de Carvalho, português, já falecido) acabou se atrasando. A reunião estava marcada para as 16h30 e o vate deu o ar da graça somente às 17h45. Naquela época não existia fax, whatsapp e nem celular. E vivíamos bem! O telefone fixo da editora era um LP, linha particular puxada de um vizinho. Foi o José de Carvalho entrar na editora que a moça desligou o computador. Eu gritei: Não! Calma. Temos um contrato para assinar, lembra? Ela sorriu e me disse: está na minha hora. Tenho que ir. E o contrato? Você não pode fazer isso agora comigo me abandonando assim... Posso e vou, respondeu. E disse mais: vocês empresários agora precisam de nós pra tudo. Os tempos são outros! Pegou a bolsa e saiu. Eu gritei e disse: você está enganada. Você está muito enganada! Vou lhe mostrar que não preciso de você. Abri a janela do sobrado e joguei do alto no meio da rua o computador e a impressora. Você é louco! Você é louco! Saiu escada abaixo gritando: Você é louco! Olhei pela janela e vi lá embaixo o estrago e o povo todo olhando pra cima. José de Carvalho, que havia presenciado tudo em profundo silêncio me olhou, sorriu e disse: Pois, pois. Vamos lá meu jovem? Saquei do armário minha Olivetti Lettera 32 (antes lhe pedi perdão!) e fechei o contrato de edição do livro. Eu não era até então um louco. Hoje tenho certeza que sim.