Mestre Antônio Houaiss

Antônio Houaiss (filólogo, crítico literário, tradutor, diplomata e enciclopedista) morreu em março de 1999 e não viveu pra ver a virada do século. Adorava gastronomia e sempre que viajava fazia questão de provar - por mais exótica que fosse - a comida típica do lugar. Em uma noite de frio em São Paulo Eu, Houaiss e Enio Squeff (escritor e artista plástico) fomos comer uma pasta na Cantina do Gigetto, na Avanhandava. A presença do filólogo no restaurante foi motivo de alvoroço. Pedimos capeletti de carne e vinho tinto. Ficamos horas no pão com manteiga e no papo sobre suas andanças mundo afora provando comidas exóticas. Houaiss fascinava. Usava as palavras com precisão e equilíbrio. Tudo no seu devido lugar. A plateia - vinda de outras mesas - cresceu e o restaurante parou, literalmente. Foi quando o mestre subiu o tom da voz e começou a contar do sufoco que passou em um país da África cujo prato típico era cérebro vivo de macaquinho. Era uma mesa enorme com buracos do tamanho de um fundo de copo americano. Detalhava. Nos olhava nos olhos. Na mesa apenas colheres de pau e potes com temperos da casa. O silêncio era absoluto. Alguém do restaurante fechou as portas da cantina e se junto a nós. Não podia dizer não! Eu havia provocado e até insistido em provar do prato. Justificava. Os macaquinhos chegaram dentro de uma sacola de couro e gritavam, desesperadamente. Foram presos à mesa pela cabeça por uma barra de ferro. Lembro que uma moça saiu da escuta e foi para o banheiro. Na mesa o capeletti esfriava e não me lembro de ter sido tocado por mim e nem pelo Enio. Houaiss comia, bebia e falava com propriedade. Veio então um homem imenso, negro, com um facão e com a precisão cirúrgica foi cortando rente o tampo das cabeças dos macaquinhos. Pude ver o cérebro das presas pulando na caixa do crânio e o grito de alerta do chefe: peguem a colher de pau e comam. Comam! Foi o que fiz, justificou. Lembro de ter derrubado sal na mesa. Isso é ruim. Dá azar. Pegou o saleiro e jogou sal atrás das costas. Eu e Enio fizemos o mesmo. Três vezes! Não dá brincar com a sorte e nem com as palavras.