A CRISE NÃO É DO LIVRO

Gosto de saber que livro é algo “transportável”, não importando muito em qual plataforma aconteça: papel ou eletrônico.
Aquilo que é “passível de ser transportado” costuma ter vida própria e as suas pedras no meio do caminho. Sei de gente que conversa com bichos, com árvores e até com livros, aqueles de toda uma vida. Basta o voo de uma borboleta “desavisada de tudo” para o universo paralelo se transformar em um outro futuro qualquer.
Tenho ouvido muita gente dizer que o livro está em crise no Brasil, mas isso não corresponde à realidade. Não existe crise no produto livro nem na leitura, já que ambos também são passíveis de serem transportados e fomentados através da educação, da formação de bibliotecas e do próprio hábito da leitura. Não existe crise para tudo aquilo que se movimenta!
Vejo duas crises no negócio do livro. Uma sistêmica e outra pontual, já esperada e anunciada por muitos do setor. Ambas trouxeram o caos e o desequilíbrio na cadeia produtiva. A primeira crise, todo brasileiro sente na pele: assola o país desde 2013 e nos levou à recessão e ao desemprego. Em dez anos, o negócio do livro encolheu 20%, segundo números da Fipe. Isso significa menos investimento, redução drástica na oferta de novos títulos no mercado e perda de mão de obra qualificada. Para crises sistêmicas não bastam ajustes, medidas paliativas nem e reza brava. É preciso, mais do que tudo, que o país volte a crescer e sua economia encontre novamente o caminho do círculo virtuoso. A economia precisa se movimentar!
A segunda crise, pontual e previsível, veio com os pedidos de recuperação judicial das duas maiores redes de livrarias do país: Saraiva e Cultura. Além dos efeitos da crise Brasil, as razões do colapso das duas foram várias: dimensionamento equivocado do potencial de crescimento e expansão do próprio negócio, abertura de superlojas, as chamadas “megas” (com custos estratosféricos e insanos), má gestão, guerra de preços com a oferta de descontos surreais e a fragilidade do modelo de negócio conhecido como “consignação” – hoje ultrapassado.
Para essa crise – a de número dois – existe o hoje e o momento que me parece oportuno. A indústria do livro mudou mais na última década do que nos últimos 100 anos e vai continuar nesse processo. O setor está em ebulição e – usando palavra do editor Marcos Pereira, presidente do SNEL – sendo refundado.
O mercado anda agitadíssimo. Entidades do livro “se falam” e o que antes era comodismo e inércia do próprio setor ganha novas posturas, com ações, atitudes, coragem e amor ao livro. O setor começa a se movimentar.
O surgimento de novas livrarias, pequenas e segmentadas, e o diálogo franco e aberto de soluções e ideias para o negócio do livro têm sido observados e registrados no dia a dia de quem trabalha com livros.
O produto livro precisa – urgentemente – recuperar o seu preço justo. Não existe como remunerar todos os agentes da cadeia produtiva (autores, editores, gráficos, distribuidores, livreiros, fornecedores de insumos e profissionais do livro) sem o equilíbrio e o lucro. O preço médio de capa do livro no Brasil vem caindo desde 2004, apesar dos custos de serviços e insumos crescentes e indexados.
O livro não está em crise. Ele é movimento de cabeças e sonhos. O mercado, sim. Somos frágeis! Nela – falo da fragilidade – depositamos o trabalho e a força da refundação. Já disse: julgo que o momento é oportuno. As pessoas continuam lendo e mais do que nunca continuam apaixonadas por uma das mais incríveis invenções da humanidade: o livro.

João Scortecci