No ano de 1957, o céu de Fortaleza foi coberto por uma imensa nuvem de poeira. A Igreja do Sagrado Coração de Jesus, conhecida como Igreja dos Albanos, construída no Morro do Pecado, em 1848, pelo casal José Francisco da Silva Albano (o Barão de Aratanha) e Liberalina Angélica da Silva Albano, desabou. No local, antigamente, existia uma capela, dedicada a Nossa Senhora das Dores, que ficava defronte da Lagoa do Garrote, atual Cidade da Criança. A tragédia: No início da década de 1950, para poder abrigar um carrilhão de sinos e um relógio, foi construída uma nova torre, usando como base as fundações da antiga igreja. No dia 15 de março de 1957, uma sexta-feira, exatamente às 13 horas, a torre veio abaixo. “Parecia o fim do mundo!” Foi o que mamãe Nilce nos contou. Eu tinha na época sete meses de idade, e meus irmãos Luiz e José, 5 e 4 anos, respectivamente. Morávamos na Avenida D. Manuel, quase esquina com a Avenida Heráclito Graça, a três quarteirões de distância da igreja. Depois do susto e de ver a poeira cobrir o céu, mamãe Nilce, desesperada, começou a gritar para o meu Pai: “Luiz, pega o jipe e vai salvar as crianças!”. Na hora do desabamento da igreja, meus irmãos Luiz e José, estavam na escola infantil, localizada na Rua Solon Pinheiro, quase esquina com a Rua Pedro I, ruas do entorno da igreja. Felizmente, nada de grave aconteceu com eles, que chegaram em casa eufóricos e cobertos de pó. Frei Ambrósio (Manoel Andrade Soares, 1909 – 1991), da Igreja Sagrado Coração de Jesus, foi quem encabeçou o projeto de reconstrução da igreja, mobilizando empresários e políticos da cidade. Conheci-o no final dos anos 1960, no Cine Pulguinha, trabalho social, que funcionava na casa paroquial em frente à Igreja, ao lado do Colégio Cearense, dos Irmãos Maristas. Duas cenas inesquecíveis, que até hoje povoam minhas lembranças de infância: O Cine Pulguinha, sempre lotado de crianças e infestado de pulgas e, durante os filmes de amor, na hora do “beijo”, quando o operador a mando do Frei Ambrósio cobria com a mão a projeção do filme. Vaias! Gritos! “Mostra! Mostra, tira a mão!”. Em 1958, a familia mudou-se para Dois Córregos, interior de São Paulo, morar na Fazenda Nilcevia, de propriedade dos meus avós maternos, José Scortecci e Maria Aparecida. Minha irmã caçula, Ana, nasceu na fazenda. Retornamos para Fortaleza no ano de 1961, alguns meses antes da reinaugurada da igreja, em 26 de novembro de 1961. Eu tinha 5 anos de idade. Fomos na reinauguração na companhia dos meus pais e avós paternos. Inesquecível! Meus melhores pecados são daquela época, nas quermesses do Frei Ambrósio, quando comíamos milho assado, fumávamos escondido cigarros sem filtro, frequentávamos o Cine Pulguinha, namorávamos no escuro do trem fantasma e, do alto da roda gigante, cuspíamos na cabeça do povo afoito do Morro do Pecado.
João Scortecci