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CLARICE LISPECTOR, CHATÔ E O ATENTADO CONTRA A REVISTA PAN

O empresário Assis Chateaubriand foi uma das figuras mais controversas da nossa história — temido, acusado de chantagem e focado em construir seu império a qualquer custo. Entre as tantas vidas impactadas por seus métodos, está a do meu avô materno, José Scortecci, editor da Revista PAN. Lançada na década de 1930, a PAN era um semanário de cultura mundial de vanguarda. Ela trazia análises da Segunda Guerra Mundial e abria espaço para novos talentos, incluindo Clarice Lispector, que estreou na literatura em suas páginas com o conto Triunfo, em maio de 1940. O sucesso da revista incomodou profundamente Chatô, o "Cidadão Kane brasileiro". Em 24 de setembro de 1936, a mando de Chateaubriand, as oficinas da gráfica que imprimia a PAN sofreram um incêndio criminoso que destruiu seu maquinário moderno. Como era comum na época, o poder de Chatô abafou o caso. Mesmo assim, a PAN resistiu e circulou até 1945. Hoje, a coleção completa dessa joia da nossa imprensa — que adquiri de um colecionador — está preservada no memorial da Scortecci Editora.

João Scortecci