Já fumei cachimbo, isso nos anos 1980. O que aprendi na época: quem fuma vira, queira ou não, um colecionador de cachimbos. Cheguei a ter perto de 30 cachimbos, alguns importados, comprados a peso de ouro. Eu, sempre, exagerado. Guardava-os na editora, num sobrado alugado que ficava na Rua Teodoro Sampaio, na cidade de São Paulo, em frente à Galeria Pinheiros, sede da Scortecci Editora até 1992. O sobrado foi invadido num fim de semana e minha coleção se escafedeu. Junto com a coleção levaram, também, minha coleção de canetas. Uma tragédia! Duas de ouro, uma delas com mais de 80 anos, que pertenceu ao meu avô José Scortecci. No ano de 1984, ainda na época da Galeria Pinheiros, contratei como ajudante geral um jovem de nome Edvaldo, engraxate, que trabalhava na barbearia em frente, loja 8, de propriedade de Adelson Gravena e seus irmãos Orestes e Nelson, referências no bairro de Pinheiros. Edvaldo sonhava um dia se tornar barbeiro. Ajudei-o a pagar um curso noturno sobre a arte de cortar cabelos e, na sua formatura, presenteei-o com um kit profissional de barbearia. Ele chorou de alegria! Edvaldo era engraçado, imitava as pessoas, trejeitos e voz. Um artista! Entrei na editora – tinha avisado que não voltaria mais naquele dia – e o encontrei na minha sala, sentado na minha poltrona, fumando o meu cachimbo preferido, um Savinelli, italiano. Na editora, uma pequena sala de 30 metros quadrados, estavam Edvaldo e minha secretária. Ela me viu, mas ele não. Puxei uma cadeira de canto e fiquei ali, do lado, assistindo o seu desempenho. Edivaldo fumava – jogava a fumaça no ar – e imitava a minha voz. Os cachimbos nasceram nas Américas no período pré-colombiano. Povos indígenas usavam o instrumento com tabaco em rituais sagrados para ligar a Terra ao Céu, rezar e selar a paz. Os europeus levaram o hábito para o Velho Mundo no século XVI, e a palavra veio de termos africanos passados ao português. Nos anos 1990 publiquei o livro “Tabacos e Cachimbos: de Cristóvão Colombo até Hoje”, do Alfredo Antonio Maia, um especialista no assunto. Edvaldo, quando me viu, engasgou-se. Colocou o cachimbo no cinzeiro da mesa, mas permaneceu imóvel, sentado na minha poltrona. Eu, abduzido, olhava-o, em silêncio, sem saber o que dizer. Minha secretária entrou na sala e me ofereceu um café. Aceitei. Edvaldo, então, ameaçou se levantar. Fiz sinal para que continuasse sentado. Disse-lhe, com cara de bravo: “Pega o cachimbo e repete o desempenho!”. Ele, desinibido e cheio de graça, repetiu a cena. Não satisfeito, retirou o telefone do gancho e fingiu conversar com um autor sobre edição de livro. Perfeição! Confesso: era eu e mais ninguém! Edvaldo trabalhou na editora ainda mais alguns meses. Depois pediu as contas e partiu: feliz da vida! Foi trabalhar de barbeiro num salão de beleza no centro da cidade. Nunca mais soube dele. Uma pena!
João Scortecci