No ano de 1969, visitando meus tios maternos na cidade de São Carlos, no interior de São Paulo, assisti na TV, em preto e branco, ao programa humorístico, “Família Trapo”. Tratava-se de uma reprise de uma gravação do ano de 1967, em que o comediante Bronco (José Ronald Golias, 1929 – 2005) tentava ensinar ao Rei Pelé (Edson Arantes do Nascimento, 1940 – 2022), como bater um pênalti. Cena hilária! Inesquecível. No gol – travestido de goleiro – o incrível Jô Soares (José Eugênio Soares, 1938 – 2022). No intervalo, meu tio Alfredo Petrilli, cunhado da minha mãe, Nilce, todo cheio de si, declarou: “Vocês sabiam que o Golias é carlopolitano?”. Não sabia. Anotei. Família Trapo – exibido pela TV Record – é um marco na história da TV brasileira. Ronald Golias era o incrível e inesquecível Carlos Bronco Dinossauro. Faziam parte da trama: Jô Soares, Ricardo Corte-Real, Cidinha Campos, Renata Fronzi, Otelo Zeloni e mais um convidado especial, por episódio. Conheci o “Bronco” na cidade de São Paulo – isso nos anos 1980 –dentro da agência 0444 do Banco Itaú, na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, nos primórdios da editora. Tínhamos a mesma gerente de conta e, vez por outra, ocupávamos a mesma salinha do café e do cofre, no mezanino. Lá – cheios de segredos e chaves – batíamos longos papos. Um doido de pedra e um poeta, juntos, trancados num cofre de banco! “Bom dia, Golias!” “Bom dia, Poeta!”. Um dia, arrisquei lhe perguntar algo pessoal. “Golias, quem passa as suas roupas?”. Nem preciso dizer aqui que o carlopolitano andava – sempre – todo amarrotado! Golias me olhou sério, da cabeça aos pés. “Ninguém!”, respondeu. Mudamos de assunto. Golias cheirava azedo e andava irresistivelmente “esculachado”. Desconfio que nem banho tomava. Uma figura! Prometeu um dia visitar a editora, na Galeria Pinheiros, mas nunca apareceu. No início dos anos 2000, sumiu de vez. Em abril de 2004, soube que havia feito uma cirurgia para implante de um marcapasso. Em maio do mesmo ano, foi internado por causa de um coágulo no cérebro. Carlos Bronco Dinossauro – o carlopolitano – faleceu no dia 27 de setembro de 2005, aos 76 anos de idade. Tive o privilégio de ver Pelé jogar uma única vez, num jogo no Estádio do Pacaembu, no dia 4 de novembro de 1973, entre o time do Santos e o da Portuguesa. O Rei Pelé marcou dois gols, na vitória santista por 3 a 2. Daquele memorável jogo de futebol ficou uma lição: o jogo só termina quando o árbitro apita o final!
João Scortecci