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O ZERO E O NADA: MUITO ALÉM DO VAZIO

O número zero figura, provavelmente, na lista das grandes invenções da humanidade, como a roda, a bússola, a pólvora, a eletricidade, a penicilina, a prensa móvel, o papel, o vidro, a fotografia, o motor, o telefone, a Internet e tantas outras igualmente grandes. Não tenho como dimensionar – desconheço – o quanto o zero é importante. Sei que é: isso me basta! Para nós, poetas, o zero é um vazio intermitente, espaço a ser ocupado, algo assim. O zero incomoda, é muito. Quando menino escutava, sempre: “O zero do lado esquerdo não vale um tostão!” Hoje – no mundo dos bilhões e dos trilhões - não importa onde ele apareça – o zero, sempre, causa estragos. O danado, amasiado, sem vínculo legal ou formal com ponto, vírgula, barra, traço, asterisco ou arroba, tem valor magnânimo. Um aparte, apenas: quando tirávamos um zero na prova na escola da infância, a professora riscava um traço embaixo do algarismo. Desconheço a razão. Confesso: nunca gostei do traço! No meu entendimento: um aviso mortal, uma sentença, que macula  e agride o papel. O sistema numérico hindu-arábico ou indo-árabe é um sistema numeral decimal (0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9), o mais popular no mundo, para a representação simbólica de números. Foi inventado entre os séculos I e IV, por matemáticos indianos. Especialistas acreditam que o zero tenha sido introduzido apenas como um “espaço reservado”, algo assim. O matemático e astrônomo indiano Brahmagupta (598 – 668), provavelmente tenha sido um poeta marginal, um vate maldito, ao conceituar, com propriedade, que, quando o zero é adicionado a um número ou subtraído de um número, o número permanece inalterado e que um número multiplicado por zero se torna zero. A figura oca e oval – que identificamos como o zero – foi introduzida no mundo ocidental, no século XIII, pelo matemático italiano Leonardo Fibonacci (1170 – 1250), no seu “Liber Abaci” ("Livro do Cálculo"), sobre Aritmética, publicado em 1202. Fibonacci, outro poeta, desavisado de tudo, ficou conhecido pela divulgação da “Sequência de Fibonacci” – sequência de números inteiros, começando normalmente por 0 e 1, na qual cada termo subsequente corresponde à soma dos dois anteriores – e pela sua participação na introdução dos algarismos arábicos na Europa. Os romanos - na Antiguidade - não tinham um número para representar o nada. Digo sempre: o zero não é importante na minha poesia, na contagem das palavras! É impossível contar o nada, uma vez que ele não existe. Enquanto espero o poema ocupar-se de mim, converso com a poeta Acádia Enheduanna, (c. 2285–2250 a.C.), princesa da Mesopotâmia, autora do poema “Exaltação de Inanna” e seus 42 hinos para a deusa suméria Inanna. Acádia, "Rainha do Poesia", governa o paradoxo do amor, da fertilidade e da paixão, mas também da guerra, da justiça e do poder político. Acádia, então, me provoca: “O que fazer com o paradigma do traço embaixo do zero?" Respondo-lhe, comumente: Nada! Ele não existe na minha poesia!

João Scortecci