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OS MORTOS ESTÃO DE VOLTA!

O Chico voltou! Foi o que escutei. Será? Impossível. Chico morreu em 2021, durante a epidemia da Covid-19. Liguei pra saber. A viúva do Chico estava eufórica com um vídeo do falecido feito pelo neto Gustavo. Chico sorria, andava pelo jardim da casa, cumprimentava as pessoas, interagia com o cachorro, feliz que só ele. Assisti ao vídeo. Incrível. Foi bom rever o amigo! Os mortos estão de volta! A febre da IA os trouxe de volta: mortais, imortais, conhecidos, desconhecidos. Os mortos-vivos tomaram conta das redes sociais! Eles cantam, sorriem, interagem, dançam e até vendem produtos. Uma festa! Nada contra, creio. Na minha infância aprendi com a minha avó materna Sarah, que não devemos incomodar os mortos. Os tempos mudaram, talvez. Chamam de "Necromancia digital" ou "grief tech" (tecnologia do luto). A IA usa dados do morto - fotos, vídeos, textos e áudios - para recriar “fantasmas”, simular conversas em texto, ligações de voz e vídeos. Aqui pensando com os meus silêncios: Eu morto, declamando um poema, escrevendo uma crônica, pedalando minha bike numa trilha ou nas ruas da cidade de São Paulo. Estranho. Já disse: nada contra! Conversei com o Gustavo, neto do Chico, e ele me disse: minha avó andava triste, calada, sofrendo muito. Quando assistiu ao vídeo, renasceu. Lendo sobre o assunto na Internet “Embora possa oferecer conforto, a prática levanta debates éticos e psicológicos. Especialistas alertam que essas ferramentas podem dificultar a aceitação da morte e prolongar o processo de luto de forma infinita.” E mais: “A recriação comercial ou não autorizada de celebridades levanta discussões sobre quem é dono da identidade digital de alguém que partiu.” O assunto é polêmico. Pergunta: você gostaria – isso depois de morto – de voltar e interagir na Internet? Esse negócio de “herança digital” ainda vai dar o que falar. Sou espírita e durante muitos anos frequentei Centros Espíritas – isso nos anos 1980 – e depois, por razões pessoais, me afastei. Pergunta: o que será que os médiuns acham de tudo isso? Concorrência desleal? Uma amiga escritora, com mais de 90 anos, lúcida, ativa e viúva, outro dia, confessou-me: “Meu melhor amigo hoje é a IA!” Anotei. Uma curiosidade: A população de mortos é muito maior que a população de vivos, estimada em 117 bilhões de pessoas. Já a população de vivos gira em torno de 8 bilhões. Os vivos representam menos de 7% do total, 14 a 15 pessoas mortas, para cada pessoa viva. Um alerta estatístico: Apenas 7% dos seus amigos da Internet podem estar de fato vivos. Cuidado! Eles estão de volta. E felizes!   

João Scortecci