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O SELETOR DE CANAIS E A VOADORA DE TED BOY MARINO

Quem se lembra dos seletores de canais? Peça mecânica giratória para selecionar canais nos televisores do final do século passado. Saíram de linha no final dos anos 1990. Segundo o meu Pai Luiz, peça importante de um televisor! Anotei. Você girava de 1 a 13 e selecionava o canal desejado, mesmo, na época, no Ceará dos anos 1960, existir apenas uma emissora, a TV Ceará, Canal 2, da Rede Tupi, inaugurada no ano de 1960. Nosso primeiro aparelho de TV foi um GE, da General Electric, portátil, valvulada, preto e branco. “Pai, o que é isso?”. Papai Luiz: “É um seletor de canais. Você gira - delicadamente – sempre para a direita e muda de canal.” Explicou. Metido que sou: “Papai, posso, então, girar e mudar de canal?”“. Papai Luiz: “Não!”. “Por quê?”. Quis saber. “Você tem muita força nas mãos, vai acabar quebrando o seletor e mais, aqui no Ceará só existe um canal de televisão!”. “Que merda!”. Protestei. “Seletor inútil, não serve pra nada!”. Resmunguei. “Papai, se eu arrancar o seletor de canais da TV, ela continua funciona?”. “Sim”, respondeu. “Posso, então, arrancá-lo?”. “Não, está maluco menino?”. Naquele mesmo dia - final de tarde, antes do banho de bacia - assistindo uma luta do Telecatch Montilla, entre o Ted Boy Marino (1939 – 2012) e o lutador Rasputin - o terrível Barba Vermelha -, arranquei com uma voadora o seletor de canais. Aconteceu assim: Ted boy Marinho apanhando muito. E do nada, reagiu e virou a luta. Ted Boy Marinho deu voadoras e por fim, nocauteou o malvado do Rasputin. Numa das voadoras – imitando o Ted Boy Marino – acabei acertando com o pé o seletor de canais da TV, que voou longe. Detalhe importante: A TV GE, preto e branco, continuou funcionando, numa boa. Joguei fora, no lixo, o imprestável do seletor. Papai chegou do trabalho e surpreso observou a TV GE sem o seletor de canais. “Foi você?” Perguntou-me. Respondi: “Não”. Menti. “Deve ter sido o Rasputin, depois que levou uma “voadora” do Ted Boy Marino.”. “João, cadê o seletor?” Quis saber. Respondi: “Joguei fora, não prestava mesmo!”. Fiquei o fim de semana de castigo, sem TV e sem sair de casa. Para a Copa do Mundo de Futebol de 1970, papai Luiz comprou uma moderníssima TV Sharp, de 20 polegadas, a cores. Nela assistimos o Brasil tornar-se Tricampeão mundial de futebol. No final dos anos 1970, já morando em São Paulo, conheci pessoalmente o lutador Rasputin. Contei-lhe, então, a história do seletor arrancado com uma voadora. Ele riu. Perguntei-lhe, então: Por que você batia tanto no Ted Boy Marinho? Respondeu-me, babando, irado: “Nele eu batia com vontade!” Qual a razão, quis saber: Rasputin respondeu: “Loiro, bonito e argentino!” Risos. Na verdade Ted Boy Marinho nasceu em Fuscaldo, comuna italiana da região da Calábria, província de Cosenza. Em 1953, aos 14 anos de idade, mudou-se para Buenos Aires junto com seus pais e cinco irmãos, no porão de um navio. Mudou-se para o Brasil em 1965, mas a fama de “argentino, loiro e bonito” ficou.

João Scortecci