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PINICO “MARIA-SEM-VERGONHA” E O PENHOAR COR DE ROSA

Mamãe Nilce casou-se em 1949, morou em Uberaba e Ribeirão Preto. Chegou no Ceará em 1955. Nasci em 1956, em Fortaleza, no mês de agosto. Sou o único cearense dos filhos, além do meu pai Luiz. Meu irmão Luiz, o filho mais velho, nasceu em Uberaba, José Henrique, o irmão do meio, em Ribeirão Preto e Ana Cândida, a caçula, em Dois Córregos, interior de São Paulo. No dia 23 de maio de 1957, José Scortecci e Maria Aparecida, pais da minha mãe, sofreram um grave acidente de carro. A notícia chegou como uma bomba! Largamos tudo e nos mudamos - com mala e cuia - para Dois Córregos. Fomos morar na Nilcevia, fazenda dos meus avós, com cafeicultura e avicultura. Papai Luiz assumiu a administração da fazenda, junto com meu avô José Scortecci e mamãe Nilce, junto com sua irmã, Nilvia, dos cuidados da vovó Maria Aparecida, que ficou 2 anos acamada e quase perdeu uma das pernas. Moramos na fazenda Nilcevia até 1961, quando voltamos para o Ceará, para recomeçar a vida.  Ficamos 1 ano morando numa linda casinha amarela na Av. Barão de Studart, na descida da praia, até nossa a casa, na Vila Santa Teresinha, da Família Paula, ser reformada, no número 1086, da Av. D. Manoel, região central de Fortaleza. Não esqueço do dia da mudança: fiz questão de ir na cabine do caminhão. Foi emocionante! A partir de 1962 a vida estruturou-se novamente. Papai Luiz, engenheiro civil e elétrico, foi trabalhar para o Grupo J. Macedo e nós, Luiz, José e Eu, estudar no Colégio Cearense, dos Irmãos Maristas, depois de uma rápida passagem pelo Colégio Cristo Rei. Ana Cândida foi estudar no Colégio Nossa Senhora da Assunção, cuja edificação havia sido construída pelo meu pai. O colégio não existe mais. Foi demolido e no lugar construído duas torres de apartamentos. No Colégio Cearense entramos para o escotismo e para a vida estudantil. Fiz parte dos grêmios Bob Kennedy, Getúlio Vargas e José de Alencar. Meu pai Luiz, também aderiu ao escotismo, e nos anos 1960, tornou-se Comissário Regional do Ceará. Mamãe Nilce – menos ocupada com a educação dos filhos – voltou a estudar – e resolveu “arborizar” a casa, de meio quarteirão. No quintal papai construiu uma pista de dança, com luz negra, som ambiente, churrasqueira, copa, bancos e jardins, cobrindo uma cisterna, do tamanho de uma piscina, para armazenar água em tempos de seca. Meu pai Luiz sofria de toque, lavava as mãos a cada hora e sempre que cumprimentava alguém. Ficar sem água, pra ele, seria a morte. Nossa casa, depois de reformas e ampliações, passou a ser ponto de encontros de amigos, primos e primas, amigos do Colégio Cearense e escoteiros. Era um tal de entra e sai, sem fim. O portão ficava aberto, bastava colocar a mão por cima e puxar o trinco. Certa vez, um escoteiro, amigo do Luiz e do José, tocou a campainha e entrou. Mamãe o atendeu na porta da sala. “O que você quer?” Perguntou-lhe. O escoteiro trazia um pacote. “É para entregar para o Luizinho!”. Explicou. Mamãe Nilce, da porta, justificou-se: “Coloca o pacote na cadeira. Estou de peignoir!” O escoteiro, sempre alerta - escafedeu-se -, assustadíssimo. Algumas horas depois o telefone de casa tocou. Era a mãe do escoteiro, preocupada, querendo saber da grave doença que assolava minha mãe. “Nilce, essa doença tem cura?” Quis saber. É contagiosa? Insistiu. “Que doença?” Indagou. “Essa tal de penhoar?” Mamãe riu. Contou essa história à vida toda, até falecer, em 2003. Essa história e a do “vaso de barro”, que no Ceará quer dizer pinico. Chegou ao Mercado Central de Fortaleza e pediu um vaso de barro, para plantar espadas de São Jorge. Demorou, mas depois de muita espera, encontraram um vaso de barro. Na verdade: um penico de barro! Mamãe, sem jeito, levou o penico e o colocou no jardim, onde nele plantou Maria-sem vergonha. Penhoar (“Peignoir”) é um robe feminino leve e elegante, aberto na frente. O Penhoar da mamãe Nilce era cor de rosa e faz parte das muitas histórias de “aperreio” de uma paulista, no Ceará dos anos 1960. 


João Scortecci