Menino de tudo, não esqueço o dia em que vi, pela primeira vez, um exemplar da revista O Cruzeiro. Maravilhosa! 1962, talvez. A cidade de Fortaleza, era – ainda – uma imensa novidade, depois de dois anos e alguns meses, morando no principado de Dois Córregos, interior de São Paulo, na Fazenda Nilcevia dos meus avós maternos, José Scortecci e Maria Aparecida. Não tinha ainda amigos de rua, e o começo no Jardim de infância do Colégio Cristo Rei não havia sido nada fácil. Quebrei um copo, tive de trazer outro de casa, veio o castigo de ter que ficar com a cara enfiada no canto da parede, isso depois de tentar, em vão, estrangular a professora, de ter comido escondido as hóstias da sacristia da capela do colégio e de fugir da escola e ser achado na rua, perdido e aos berros, por um conhecido do meu pai. Tinha, na época, seis anos de idade e a curiosidade nas alturas. Nada era impossível! Papai Luiz trouxe, então, o legado, que me marcou profundamente: um exemplar da revista O Cruzeiro que circulou, na família, de mão em mão. Fui o último. A revista O Cruzeiro – lançada em 10 de novembro de 1928 – era semanal, ilustrada e de propriedade de Carlos Dias, que a vendeu depois para o empresário Assis Chateaubriand, dos Diários Associados. O Cruzeiro foi dirigido pelo jornalista, romancista e historiador português Carlos Malheiro Dias (1875 – 1941), no período de 1928 a 1933, sendo sucedido por Antônio Accioly Neto e, mais tarde, pelo jornalista José Amádio (José Falkenbach Amádio (1923 - 1992). O Cruzeiro foi a principal revista ilustrada brasileira da primeira metade do século XX e deixou de circular – infelizmente – em julho de 1975. Lembro-me da tristeza que foi saber do seu fim. As revistas Manchete e Fatos e Fotos – que vieram depois - não tinham o mesmo “glamour”. Depois, já morando em São Paulo, a paixão por revistas ilustradas, então, passou. Gostava das reportagens do jornalista David Nasser (1917 – 1980) e do cartunista Péricles (Péricles de Andrade Maranhão, 1924 – 1961) e as histórias do Amigo da Onça, que circulou com sucesso popular de 1943 até 1962, quando – no domingo de 31 de dezembro de 1962 – Péricles abriu o bico do gás e cometendo suicídio. Antes, fixou na porta do seu apartamento na cidade do Rio de Janeiro um cartaz, onde se lia: "não risquem fósforos!". Após a morte do autor, com apenas 38 anos de idade, o personagem continuou sendo publicado, desenhado pelo ilustrador Getulio Delphim – amigo e parceiro de Péricles na produção de outros personagens (Oliveira, o Trapalhão, e Laurindo Capoeira) e, depois, pelo cartunista Carlos Estevão até 1972, quando a criatura encontrou o seu criador, descansou e, finalmente, riscou o fósforo.
João Scortecci