O mundo anda estranho. Muito estranho. Aconteceu mais ou menos assim: O sol ainda acordando, lentamente, saindo por detrás de um prédio estranho – torto e de dar medo – construído no terreno da antiga Cooperativa Agrícola de Cotia, em Pinheiros, ao lado da estação do Metrô Faria Lima, já estacionando na garagem da editora, quando passei com o carro por cima de alguma coisa estranha, na calçada. Fez barulho. Olhei e não vi nada. Abri o portão automático da garagem e entrei com o carro. Ao entrar, observei, à esquerda, a poucos metros de distância, um rapaz, jovem, estranho, com um bebê no “canguru”. Provavelmente aguardando um Uber, uma perua escolar, ou um carona. Estou há mais de 10 anos nesse endereço. Confesso: foi a primeira vez que os vi, no pedaço. Desci do carro para ver o que havia atropelado: sacos de lixo, que se rasgaram e sujaram a calçada. Merda! Lixo do vizinho – casal de idosos estranhos – que adoram o meu poste. Chamo de “meu”, porque o danado está grudado estranhamente na entrada da minha garagem. O lixo da editora – na sua totalidade composto de papel – é recolhido diariamente por uma empresa de reciclagem terceirizada, que atende, também, a livraria e a gráfica. Examinei o lixo esparramado na calçada: restos de comida, cascas de frutas, embalagens de leite, macarrão e pão velho. Que desastre! A ideia era entrar no prédio, pegar vassoura, pazinha, saco de lixo e recolher tudo. Mais tarde, depois das 8 da manhã, quando a faxineira da empresa chegasse, pediria que, então, lavasse a calçada. Quando estava abrindo a porta do escritório, o jovem estranho, com o bebê no “canguru”, apareceu no portão e gritou: “O Senhor atropelou o lixo!”. Abri o portão e o encarei. Ele me ignorou. Dar uns “tabefes”, às 6 horas da manhã, num jovem com um bebê no canguru, não é nada prático e muito menos recomendado. Mesmo que, vez por outra – estranhamente – tenha saudade do tempo de menino onde resolvíamos tudo no braço. Respondi: “Não vi.” Recolhi o lixo e pedi para que, então, lavassem a calçada. O mundo anda estranho, muito estranho. O lixo do vizinho continua lá, diariamente. Pobre do meu poste! Atropelar sacos de lixo é algo estranho. Muito estranho.
João Scortecci