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A MULHER DE BRANCO COM ALGODÃO NA BOCA

No ano de 1976, servi como soldado motorista (SD 1148) na CCS-PT, do 2º Batalhão de Guardas (BG), no Parque Pedro II, em São Paulo – Batalhão de Elite do II Exército. Meu primeiro “trampo” foi no P4, guarita que ficava no pátio do Pelotão de Transportes. Depois fui escalado – algumas vezes – para o P5, portão de entrada e saída das viaturas militares do BG. Duas ou três vezes, puxei serviço na 3ª CIA, na Rua da Independência, no bairro do Cambuci, onde também funcionava o Hospital Militar. Meses depois, virei “peixe” (soldado protegido) do Sargento Leandro, responsável pela escala de serviço, que passou, então, a me escalar para QG do II Exército, no Parque do Ibirapuera. A história do fantasma da mulher de branco com algodão na boca aconteceu na 3ª CIA, numa noite escura, fria e misteriosa. Alguém deu o alerta: “Cuidado com o fantasma da mulher de branco com algodão na boca!”. Risos. Eram 2h30 da madrugada, quando a mulher apareceu. Susto! Meu coração quase saiu pela boca. Veio do morro do Cambuci – não andava, flutuava –, passou pelo portão da guarda, parou na calçada em frente, espiou o vazio da Rua da Independência, e me encarou. Gelei. Cabelos longos, loiros, pálida, camisola branca, descalça, com uma mecha de algodão na boca. Engatilhei o FAL – Fuzil Automático Leve – e mirei na cabeça. “O que foi, soldado?” Era o oficial da guarda fazendo a ronda da noite. Disse-lhe: “A mulher do algodão!” Apontei. Nada. Ela havia sumido. O oficial, calmamente, explicou-me: “Já vi uma vez. Fica calmo. Ela é do bem. Filha de um Coronel da reserva que morreu no hospital militar!”. Virou-se foi embora. Mantive o FAL engatilhado, até ser rendido, às 4h, pontualmente. Puxei serviço na 3ª CIA do BG mais duas ou três vezes. Numa delas levei para a cadeia um soldado armeiro, que havia roubado uma pistola do Exército. Segundo soube, desmontou a pistola e a levou, peça por peça. Um dia descobriram e, antes de ser expulso, pegou “cana” de alguns meses. Cumpriu sua pena na cadeia da 3ª CIA, no Cambuci. A cadeia – num porão escuro, sem janelas – tinha a altura de 1,20 m. Um buraco, literalmente. O preso não podia ficar de pé. Era obrigado a ficar de cócoras ou deitado no chão frio. A cena, até hoje, 50 anos depois, ainda, às vezes, mexe com meus miolos. Quanto ao fantasma da mulher de branco com algodão na boca, descobri que não fui o único a vê-la. A moça era popular no quartel. Sua presença volátil, nos anos de chumbo, ajudou-me a escrever o incrível ano de 1976, o ano que não terminou.

João Scortecci