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D. DELFINA: A DEUSA DO ORÁCULO

O que você faz na vida? Perguntei. Puxando conversa. A senhora, na época com pouco mais de 70 anos de idade, respondeu-me: Sou uma intermediária! Escutei a resposta e aguardei que ela se explicasse. Silêncio. Olhou-me acima dos olhos, creio que para a minha testa ou minha cabeça careca. Insisti, então: intermediária do quê? Ela sorriu, chamando-me de idiota, imbecil, qualquer coisa assim. Em silêncio, claro. Li nos seus olhos escondidos atrás de óculos de lentes grossas, com uma das hastes quebrada, amarrada com fita crepe. Resfolegou, então: Sou uma ponte, meu trabalho é conectar pessoas com o divino! Perguntei-lhe, surpreso: Oráculo? Não me respondeu. Disse-me, com as mãos postadas: "Eu converso com o divino através das cartas!" Explicou-se. Continuou, então: "Estou vendo na sua testa que você tem perguntas em aberto na sua alma". Respondi, de pronto: Certeza que sim. Sou um abecedário de perguntas e respostas. Brinquei. Estávamos sentados na recepção da agência do Banco do Brasil, na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros. Eu número de chamada P2015 e ela P2011. Provoquei, então: O que a senhora está vendo na minha testa? Ela não perdeu tempo, bateu direto no bolso: "Eu cobro R$ 150,00 a consulta." Antes que eu pudesse responder-lhe qualquer coisa, um não, talvez, o seu número de atendimento apareceu no painel da recepção. Guichê 4. Levantou-se, cumprimentou a atendente e saiu pela porta giratória da agência. Estranho. Minha vez chegou. Demorou, mas chegou. Fui fazer prova de vida, dizer que ainda estou aqui, vivíssimo e feliz. Na saída da agência a senhora me aguardava. Perguntou-me: "Vamos lá?". Onde? Quis saber. Ela explicou: "Moro perto, num prédio ao lado do supermercado Pão de Açúcar, na Teodoro Sampaio. Aceito PIX. Disse-lhe: Não, obrigado! Tenho outro compromisso. Até logo! Andei 10 metros, não mais do que isso. Olhei, então, para trás, na direção da agência. Tempo de vê-la entrando novamente na agência. Não resisti. Voltei. Fiquei espiando de longe. Ela imprimiu no totem outra senha de atendimento e sentou-se ao lado de uma senhora. Fiquei no saguão, de tocaia. Trinta minutos depois as duas senhoras saíram da agência e foram na direção do supermercado Pão de Açúcar. Estranho. Voltei para a editora e liguei para a minha gerente de conta, pessoa física. Contei-lhe, então, a história toda. Ela riu. Disse-me: "D. Delfina é conhecida na agência. Gente boa, simpática. É assim que ela conecta novos clientes, aposentados do Banco do Brasil.". Explicou, ainda: "Não podemos fazer nada. Ela tem conta na agência e conhece todo mundo pelo nome, até os seguranças da agência." Desliguei. Hoje, quando tenho que ir ao Banco do Brasil, digo aos interessados: Vou até o oráculo, conversar com o divino e, se possível, bater um papo - fazer uma ponte - com D. Delfina, deusa do oráculo e das perguntas intermediárias da vida. 

João Scortecci