Carta autobiográfica de 1880, intitulada “Lances doridos” do poeta e jornalista Luiz Gama (Luiz Gonzaga Pinto da Gama, 1830 - 1882) para o advogado, jornalista, magistrado e escritor Lúcio de Mendonça (1854 - 1909), um dos idealizadores da Academia Brasileira de Letras, sobre sua mãe Luísa Mahin, ex-escrava de origem africana, radicada no Brasil, que teria tomado parte na articulação dos levantes de escravos que sacudiram a Província da Bahia nas primeiras décadas do século XIX): “Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina - Nagô de Nação - de nome Luísa Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, insofrida e vingativa. Dava-se ao comércio – era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito. Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do dr. Sabino, na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856 e em 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar. Em 1862, soube, por uns pretos minas que conheciam-na e que deram-me sinais certos, que ela, acompanhada de malungos desordeiros, em uma “casa de dar fortuna”, em 1838, fora posta em prisão; e que tanto ela como os seus companheiros desapareceram. Era opinião dos meus informantes que esses ‘amotinados’ fossem mandados pôr fora pelo governo, que, nesse tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores. Nada mais pude alcançar a respeito dela.”. Luiz Gama nasceu livre. Filho de mãe "negra, africana livre" e pai "fidalgo português", quando o próprio pai o vendeu como escravo a fim de sanar dívidas de jogo, aos 9 anos de idade. Permaneceu analfabeto até os 17 anos. Conquistou judicialmente a própria liberdade e passou a atuar na advocacia em prol dos cativos, sendo já aos 29 anos autor consagrado e considerado "o maior abolicionista do Brasil". Em 1850 frequentou o Curso de Direito do Largo de São Francisco. Por ser negro, enfrentou a hostilidade de professores e alunos, mas persistiu como ouvinte das aulas. Embora não tenha concluído o curso, o conhecimento adquirido permitiu que atuasse na defesa jurídica de negros escravizados. Em 2015 a Ordem dos Advogados do Brasil reconheceu oficialmente Luiz Gama como advogado. Luiz Gama faleceu em 24 de agosto de 1882, aos 52 anos de idade. Em 2018 seu nome foi inscrito no Livro de Aço dos heróis nacionais depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves. Luiz Gama é o Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil.
João Scortecci