Já tive um nome toponímico: João do Ceará! Sobreviveu durante dois ou três anos, logo que cheguei a São Paulo, no ano de 1972. Depois, tornei-me o João Scortecci, sobrenome materno. Tenho - poucos sabem disso - por parte de pai, o sobrenome Paula. Somos de Quixadá, interior do Ceará. Sou neto do João Batista de Paula, o toponímico "Batista da Light". Para a minha avó Sarah, esposa do Batista da Light, isso no Ceará dos anos 1960, nome de pessoa qualquer, sempre, deveria ser anunciado junto com o seu sobrenome. É obrigatório! Dizia, sempre. A pergunta, na época, irritava. Perguntava: “Nome da sua família?” Julgávamos, na época, preconceituoso, algo assim. Na verdade: não gostávamos! De birra, durante muitos anos evitei perguntar e anotar o sobrenome de qualquer pessoa. Mesmo profissionalmente. Um erro terrível, confesso. Com a chegada da idade, da Internet e das Redes Sociais tentei, em vão, localizar pessoas e amigos de infância, sem sucesso. Sem um sobrenome ou alguma outra referência, fica impossível localizar alguém. Vovó Sarah tinha razão! Hoje, aos 70 anos de idade, anoto o sobrenome da pessoa e mais: sua profissão, o nome da empresa onde trabalha e o que ela faz. Assim: Raimundo do pastel, Elaine: Unha encravada, Chico mecânico, Clóvis da Informática, Teresa do cartório etc. A lista é grande. Posso esquecer o primeiro nome da pessoa – acontece - mas nunca o seu toponímico. Funciona! Tenho uma amiga do mundo gráfico, que nos últimos anos trocou de emprego oito vezes. Não é mentira. Posso provar: guardo no arquivo da editora todos os seus oito cartões de visita. Doideira. No final de 2025 ela me procurou na editora e trouxe um novo cartão, de uma nova empresa. No celular, então, cadastrei: S. Nômade. Ontem, dia 27 de fevereiro de 2026, aconteceu algo incrível, que me deixou emocionado e feliz. Lara - até então não sabia o seu sobrenome -, profissional da área gráfica, no grupo do WhatsApp “Queridinhos do PrintCast” escreveu comentando uma postagem que fiz “2026, o ano do conhecimento”, editorial da próxima edição da Revista Abigraf, que será lançada na ExpoPrint 2026. Escreveu: “João Scortecci, ontem minha mãe me lembrou que você ou o seu pai estiveram no lançamento do livro do meu avô na UBE – União Brasileira de Escritores, onde ele trabalhou por muitos anos. Isso tem mais de 30 anos, provavelmente você ainda não era nascido.”. Eu mesmo: presente! Frequentei a UBE desde o final dos anos 1970, no endereço da Rua 24 de Maio, 250, 13º andar, no centro de São Paulo. Perguntei-lhe, então: “Lara, boa tarde. Qual o nome do seu avô? Sou sócio da UBE desde o final dos anos 1970.”. Ela, então, respondeu: “Lauro Vargas, em 1970, eu ainda não tinha nascido!”. Que emoção! A neta do amigo Lauro Vargas, escritor e ex-funcionário da entidade. “Sim. Fui amigo do seu avô. Vou te enviar uma foto, daquela época!”. Localizei, então, a foto e a enviei. Foto histórica que faz parte do memorial da UBE. Na foto, da esquerda para a direita: Lauro Vargas, Luís Avelima, Ana Arruda, João Scortecci, Antônio Callado, Caio Porfírio Carneiro e Ézio Grassi Peluso. A foto foi tirada no dia da entrega do Troféu de Intelectual do ano - Prêmio Juca Pato - ao escritor Antônio Callado, em 1986. Lara Vargas, despediu-se, assim: “Obrigada pela foto e oportunidade de recordar do meu avô, uma figura ímpar! Muito otimista e festeiro, até hoje a meta dos netos é seguir o seu legado. Meu irmão Fernando Vargas também agradeceu a foto, disse que estava sempre no seu escritório, em Pinheiros, em frente as Pernambucanas. Sua história é fantástica! Meu avô sempre dizia que acreditava que a poesia nunca acabaria porque um jovem chamado João ainda se interessava por isso. Meu filho se chama João Vargas, espero que tenha a sua determinação e o otimismo do Lauro Vargas. Festeiro como a mãe ele já é.” Emocionante! Pensei em chorar de felicidade. Não o fiz. Lauro Vargas teria dito, algo assim: João, a poesia salva! Nós de nome João somos assim: festeiros nas palavras e eternos de coração.
João Scortecci