Desconfio da palavra: declinar! Palavrinha danada de esperta. Perigosa! Declinar faz parte do vocabulário das pessoas cultas, inteligentes e lisas como quiabo. Detalhe, insignificante: não gosto de quiabo. No dicionário “declinar” significa: “Desviar-se, afastar-se de um ponto fixo ou de uma linha determinada. Diminuir em forças, decair.” Em nenhum momento “declinar” significa um NÃO definitivo, radical, inegociável. Uma subordinação. Ou, ainda, uma dependência possível! Uma porta entreaberta, talvez. Quando alguém diz que prefere, então, “declinar”, entendo como uma deixa, um sinal, um aviso, tipo: “me convença”, “melhore a sua proposta”, “talvez eu mude de ideia”, algo assim. Quando criança – isso no Ceará dos anos 1960 – conheci um motorista de caminhão chamado Benê, 24 anos, solteiro, aventureiro, que carregava pendurado no passador da calça um chaveiro com sete chaves. Perguntei-lhe, uma vez: “Pra que tantas chaves?” Ele respondeu: “Para abrir portas! E, também, para fechá-las.” Você usa todas elas?”. Perguntei, curioso. “Não”. “Quatro delas eu as uso diariamente, no meu dia-a-dia.”. Insisti: “E as outras três chaves?”. Respondeu: “São para as portas do caminho!”. Benê, então, entrou na cabine do caminhão, ligou o motor, beijou a santa pendurada no retrovisor da cabine e engatou uma marcha. Perguntei-lhe: “Você volta logo?” Respondeu-me, pensativo: "Talvez." E completou: "Vou para a cidade do Crato, no sertão do Cariri, no coração do Ceará”. “O que você vai fazer no Crato?”, quis saber. “Vou abrir portas, usar as três outras chaves do meu chaveiro.” Bebê partiu e nunca mais voltou. Deve ter ficado por lá. Declinou-se.
João Scortecci