Gosto de pacovas! Foi o professor Ézio Grassi Peluso, personagem histórica do bairro de Pinheiros, quem me apresentou o geólogo e lexicógrafo Luiz Caldas Tibiriçá (1913 - 2006), considerado um dos maiores especialistas em línguas indígenas da América do Sul. Tibiriçá e Ézio, nos anos 1980, frequentaram, quase que diariamente, a Scortecci Editora, no endereço da Galeria Pinheiros, Rua Teodoro Sampaio, 1704, loja 13. Ficamos amigos. O pouco que conheço de tupi-guarani devo a ele. Em dado momento da vida, Tibiriçá pirou da cabeça e tentou o suicídio. Para curar-se – foi o que ele me disse - largou tudo e foi morar em uma vila de pescadores na cidade de Cananéia, litoral paulista. Ficou por lá um par de anos. “Fui curar-me da civilização”, disse-me, quando voltou. Certa vez - no final dos anos 1980 - o levei para um evento literário – lançamento de uma antologia poética - na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo. Na estrada, pediu-me para comprar pacovas. “Um cacho, por favor!". Foi o que fiz. Encostei o carro na primeira banca de frutas e fiz a compra. Coloquei o cacho de pacovas no banco traseiro do Fiat 147. “Quer uma pacova?” Ofereceu-me. Não, obrigado, respondi. Durante a viagem – aproximadamente 158 km – de São Paulo até a cidade de Piracicaba – Tibiriçá comeu 32 pacovas. Guardou as cascas num saco plástico. Adubo para as minhas roseiras! Explicou. Perguntei-lhe, então: “Tudo bem com você?”. “Sim, tudo”. “Eu gosto de pacovas!”. Estou vendo, comentei. Justificou-se: “Durante os anos em que vivi com os índios Guarani, na cidade de Cananéia, comia pacovas o dia todo.”. Depois da barrigada, Tibiriçá reclinou o banco do passageiro do Fiat 147 e ali, dormiu, profundamente. Parecia feliz. Tibiriçá, desde muito cedo, tomou contato com os índios Guarani-Nhandeva, de Itanhaém, no litoral paulista, e, aos 21 anos de idade, com tribos do Pantanal: Guaicuru, Andauê, Chiriguano, Terena e outras. Estudou cerca de 200 dialetos indígenas e elaborou 83 monografias, das quais foram editadas apenas quatro. É autor de sete obras de referência: “Dicionário Tupi-Português”; “Dicionário Guarani-Português”; “Dicionário de Topônimos Brasileiros de Origem Tupi”; “Dicionário da Mitologia Universal”; “Vocabulário Tupi Comparado”; “Dicionário de Termos Asiáticos e Ameríndios”; “Estudos comparativos do japonês com línguas ameríndias: evidências de contatos pré-colombianos”. Foi Diretor do Museu Particular de Jundiaí "Francisco de Matheo" e membro do “Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo”. No retorno da viagem à Piracicaba, contou-me sobre sua depressão e como conseguiu curar-se da doença da civilização. Perguntei-lhe: “Você ainda pensa em suicídio?”. “No momento, não!”, respondeu-me. Olhou-me nos olhos e sorriu. Parecia feliz e imortal. Viveu até os 93 anos de idade – segundo ele – graças às pacovas. O que ficou no tempo, além da saudade, foram versos de um poema: "Até Piracicaba: um cacho com 12 pencas. Num Fiat 147 uma penca com 36 pacovas! Cananéia: mar, peixes, farinha e pacovas. Adubo literário: roseiras no jardim!".
João Scortecci