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MANUEL BANDEIRA E O TÚMULO DE CIRO, O GRANDE

O poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor pernambucano Manuel Bandeira (Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, 1886 – 1968), é um dos principais integrantes da “geração de 1922”, na primeira fase do movimento modernista no Brasil. Seu poema “Os sapos” foi o abre-alas da Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, de 13 a 17 de fevereiro de 1922. O poema de Bandeira foi lido pelo poeta carioca Ronald de Carvalho (1893 – 1935), entre vaias, gritos da plateia, patadas e interrupções, tendo se convertido em um clássico da poesia modernista brasileira. O poema “Os sapos” contém ironia corrosiva aos parnasianos, cuja influência – assim como a dos simbolistas – encontra-se nos primeiros poemas de Bandeira: “Enfunando os papos,/ Saem da penumbra,/ Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra.// (...) O sapo-tanoeiro,/ Parnasiano aguado,/ Diz: — ‘Meu cancioneiro/É bem martelado.// (...) Vede como primo/ Em comer os hiatos!/ Que arte! E nunca rimo/Os termos cognatos!’// (...). O poema – hoje – não me diz muito. Não passa de uma provocação de época, algo assim. Nos anos 1970, li a obra de Bandeira, e o poema “Vou-me embora pra Pasárgada” se eternizou dentro de mim. Os quatro primeiros versos são imortais e habitam o coração de quase todos os poetas. Eu os trago – sempre – na ponta da língua: “Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei.” Voltando ao poema, lendo-o inteiro, chego aos versos que mexem comigo: “E como farei ginástica/ Andarei de bicicleta/ Montarei em burro brabo/ Subirei no pau-de-sebo/ Tomarei banhos de mar!” Cinco desejos pontuais, sempre, nas minhas resoluções de todo ano-novo. Realizá-los, todos e juntos, somente me mudando, de vez, para o imaginário refúgio de Pasárgada, cidade da antiga Pérsia, atualmente um sítio arqueológico na província de Fars, na região de Persépolis, no Irã. No lugar dos sonhos do poeta Bandeira, encontra-se a tumba do imperador Ciro, o Grande, com os dizeres: “Ó forasteiro, quem quer que sejas, de onde quer que venhas, porque sei que virás, sou Ciro, que fundou o Império dos Persas. Não tenha rancor de mim por causa dessa pequena terra que cobre meu corpo.” Dizeres que, talvez, expliquem os últimos versos do poema de Bandeira: “E quando eu estiver mais triste/ Mas triste de não ter jeito/ Quando de noite me der/ Vontade de me matar/ – Lá sou amigo do rei – / Terei a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei/ Vou-me embora pra Pasárgada”.

João Scortecci