Na casa onde morávamos – na Avenida D. Manoel, 1086, centro, na cidade de Fortaleza/CE dos anos 1960 – havia uma biblioteca belíssima, de tirar o fôlego. Um santuário! Papai Luiz e mamãe Nilce cuidavam dela com carinho e amor aos livros. Vez por outra, recebíamos novidades. Livros vindos de São Paulo! Lembro-me da festa que era abrir caixas abarrotadas de livros e do fascínio de arrumá-los nas estantes de jacarandá. A biblioteca ficava na entrada da casa, com acesso pela sala principal, a chamada “sala de visitas”. No centro, uma pequena mesa com cadeira de palhinha, luminária, porta-canetas, furador de papel, grampeador e um risque-rabisque. Nas estantes, a coleção do Prêmio Nobel de Literatura, enciclopédias Tesouro da Juventude, Barsa, Larousse, coleção Memórias de Carlos Lacerda, Monteiro Lobato e dos “queridos” da minha mãe Nilce: Agatha Christie, Júlio Verne e Stefan Zweig. O poeta, romancista, dramaturgo, jornalista e biógrafo judeu-austríaco Stefan Zweig (1881 – 1942), dos anos 1920 até a sua morte, foi um dos escritores mais famosos do mundo. Em 1934, fugindo do nazismo, deixou a Áustria, passou a viver na Inglaterra e se naturalizou cidadão britânico. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e o avanço das tropas de Hitler na Europa Ocidental, em 1940 se estabeleceu em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Entre 1940 e 1941, Zweig e Lotte (Charlotte Elizabeth Altmann), sua secretária e segunda esposa, estiveram três vezes no Brasil. É dessa época o ensaio “Brasil, país do futuro”, cujo título se converteu em “epíteto nacional” – nas palavras de seu biógrafo Alberto Dines (1932 – 2018) e, com o tempo, tornou-se um “carma”, motivo de piada, como se o Brasil fosse um “eterno país do futuro”. Em 1942, Zweig e Charlotte se estabeleceram na cidade de Petrópolis, na região serrana do estado Rio de Janeiro, onde ele finalizou a autobiografia “O mundo que eu vi”, escreveu a novela “Schachnovelle: conto de xadrez” e deu início à obra “O mundo de ontem”, um trabalho autobiográfico, com uma descrição da Europa em período anterior a 1914. Em 22 de fevereiro de 1942, deprimido com o crescimento da intolerância, da perseguição aos judeus, do nazismo e do autoritarismo na Europa e sem esperanças no futuro da humanidade, Zweig escreveu uma carta de despedida e, com uma dose fatal de barbitúricos, ele e a esposa cometeram suicídio. Zweig escreveu: “Cada dia eu aprendi a amar mais este país e não gostaria de ter que reconstruir minha vida em outro lugar depois que o mundo da minha própria língua se afundou e se perdeu para mim e minha pátria espiritual, a Europa, destruiu a si própria. Mas, para começar tudo de novo, um homem de 60 anos precisa de poderes especiais e meu próprio poder desgastou-se após anos vagando sem um assento. Por isso, prefiro terminar a minha vida no momento certo, como um homem cuja obra cultural foi sempre a mais pura de suas alegrias e, também, a sua liberdade pessoal – a mais preciosa fruição neste mundo. Deixo saudações a todos os meus amigos: talvez vivam para ver o nascer do sol depois desta longa noite. Eu, mais impaciente, vou embora antes deles. – Stefan Zweig, 1942.” A versão de suicídio do casal é contestada até hoje. Existe farta documentação apontando para assassinatos. Creio que o mistério ficará para sempre. A casa em Petrópolis, onde o casal viveu por alguns meses e morreu, é hoje um centro cultural dedicado à vida e à obra de Zweig. Quando lembro da minha mãe Nilce na biblioteca lendo um livro, pergunto-lhe: “Stefan Zweig?”. Ela sorri. “Sim!”, responde, sem tirar os olhos do livro. Mamãe Nilce e sua voz inconfundível: “João, aqui é mamãe!” Foi o que ficou no coração, além do amor e da eterna saudade.
João Scortecci