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ÓSTRACOS DE TELHA DE BARRO E AS BALADEIRAS NO RIACHO PAJEÚ

Quebrar telhas! Quando criança - isso no Ceará dos anos 1960 - quebrávamos telhas de barro e dos cacos fazíamos “óstracos” para caçar calangos, tijubinas, ratos do mato, sabiás e rolinhas de papo gordo, no vale do riacho Pajeú. Lembro-me que, nos cacos, desenhávamos números da sorte, estrelas do céu com cinco pontas, letras com as iniciais do nome e flechas agudas, com as inquietudes, dores e pecados do coração. Tempestades? Talvez. Éramos caçadores, predadores da morte! Pendurávamos no pescoço um pente de óstracos. Munição para as baladeiras — os estilingues — feitas de forquilhas de goiabeira, câmaras de pneu, cortadas na grossura de um dedo, amarradas e presas, num pequeno retângulo de couro cru, que abraçavam os projéteis do dia. Os óstracos com cinco pontas eram balas de prata. Eu - mesmo míope e afobado - era caçador bom de pontaria! A caça do dia ia direto para o bornal de pano, feito de saco de farinha. No final da tarde, antes do banho de bacia, contávamos - numa roda de feitos - o melhor da safra. Mentíamos muito: do preá que fugiu ligeiro, da rolinha que escapou, do calango que, mesmo alvejado, escapuliu pelo buraco do muro. Na Grécia Antiga, em Atenas, os óstracos eram usados como cédulas de votação para determinar se uma pessoa deveria ou não ser punida com o ostracismo, o desterro social e político. As “Cartas de Laquis” que compreendem 21 óstracos, encontradas no sítio de Tel Duveir, na Palestina, entre 1932 e 1938, são peças que datam do fim do período de ocupação judaíta, em Laquis — cidade do Antigo Oriente Próximo, agora um sítio arqueológico e um parque nacional israelense — antes de sua destruição, em 586 a.C., pelas mãos de Nabucodonosor II, o Grande, rei do Império Neobabilônico. Os “Óstracos de Samaria”, conjunto de 64 fragmentos de cerâmica, com inscrições em caracteres hebreus, encontrados na sala do tesouro do palácio de Acabe, em Samaria — região montanhosa do Oriente Médio, constituída pelo antigo reino de Israel, entre os territórios da Cisjordânia e de Israel — registram carregamentos de óleo e vinho levados de vários lugares vizinhos para Samaria. Na época da escrita dos óstracos, os israelitas associavam a adoração de Jeová com a do deus cananeu, Baal. Alguns nomes de pessoas encontrados nos óstracos de Samaria significam “Baal é meu pai”, “Baal canta”, “Baal é forte”, “Baal se lembra”. E eu me lembro, ainda, de — no tempo em que enterrávamos tesouros no quintal de casa — ter guardado na lancheira do Zorro um caco de telha no formato da cabeça de leão. Não me recordo de tê-lo resgatado, nem a lancheira. Nesse pote do tesouro, além do óstraco cabeça de leão, guardei, também, um pente de osso, um anel de bambu, um lápis de carpinteiro, um engodo de barbante, uma tampinha de refrigerante Grapette, um anzol de pescar mussum preto e um carretel de linha 24 — com cerol — para lancear arraia no vale do riacho Pajeú. “Pajeu é meu lar”, “Pajeu canta”, “Pajeu é forte”, “Pajeu se lembra”. Sempre que a dor da cólera aperta a alma: quebro telhas, pinto o corpo com sangue de guerra, costuro na pele novo bornal de saco de farinha e, feroz, quebro-me inteiro: óstracos do barro, retratos de Samaria, balas de prata no coração do tempo. Tempestades? Talvez. 

João Scortecci