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O MONSTRO DO AÇUDE BOTIJA DA FAZENDA ÁGUA VERDE NO CEARÁ

Em 1966, eu tinha pouco mais de 10 anos de idade e morava em Fortaleza/CE, quando soube da história do Monstro da Fazenda Água Verde, na região da cidade de Palmácia, distante 72 km da capital, no Circuito Turístico da Serra de Guaramiranga, no maciço de Baturité. O bicho virou manchete nos jornais e na TV, depois dos misteriosos “avistamentos” de uma estranha criatura – rasgando o vento – nas águas do Açude Botija. Testemunhas oculares descreviam a presença do monstro de várias formas: uma tartaruga com chifres, um dinossauro, uma cobra gigante e até um ser medonho, mistura de boi e lagarto gigante, com chifres, pele escura, coberta de pelos pretos, um olho só e sem orelhas. O Açude Botija – desconhecido, até então – passou a ser um grande perigo, e ninguém de boa-fé arriscava frequentá-lo. Tornou-se local de visitação pública, e pessoas chegavam de todos os cantos do Ceará. Uma atração turística! Moradores da região montavam barracas ao redor do açude e vendiam de tudo: cafezinho, tapioca, laranja, cigarro e lembranças, com a estampa do monstro. Até uma cachaça – na época – foi batizada com o nome de “Bicho da Água Verde”. Mas o medonho sempre escapava dos tiros de quem o avistava e da lente das câmeras, de quem tentava – em vão – fotografá-lo. O então prefeito da cidade de Palmácia, Francisco Damasceno Filho, chegou a oferecer um prêmio de 10 mil cruzeiros a quem conseguisse matar a fera. Encomendou – é o que diziam na época – um barril de álcool para preservar o bicho, quando a fera fosse abatida. Muita doideira! A captura do animal se deu – finalmente – no mês de setembro daquele mesmo ano. O DNOCS – Departamento Nacional de Obras Contra as Secas do Ceará se apropriou do direito de caçar a fera, convocando o biologista Raymundo Adhemar Braga (1924 – 1974), exímio exterminador de piranhas, com o objetivo de capturar o “perigoso e fantasmagórico animal”. Foi criada, então, a Força Expedicionária do DNOCS, equipada de material bélico, solicitado ao Exército, como fuzis, barracas, lança-chamas, granadas e holofotes, segundo consta no livro “Nossas Histórias”, de Jarbas Gurgel. Raymundo Adhemar Braga, o caçador de piranhas, rumou para o lugar das aparições, liderando um agrupamento de dez homens, armados e equipados. Do alto de uma árvore próxima ao acampamento, munido de binóculo e um rifle, montou um posto avançado. Era noite enluarada, quando a vegetação aquática – perto da margem do açude – agitou-se, fortemente. Era o monstro! Dada a ordem, mais de 20 tiros foram disparados. Uma semana depois, foi encontrado morto, boiando, nas margens do Açude Botija, um jacaré pesando 32 quilos e 1,6 metros de comprimento. O jacaré ficou exposto à visitação pública como um meio de acalmar a população. Foi, então, enviado para a Universidade Estadual do Ceará, onde foi empalhado e, posteriormente, levado para o Museu do DNOCS. Em 2002, o historiador Parcélio Campos descobriu o paradeiro do animal – esquecido, num canto – e o levou de volta para a cidade de Palmácia. Hoje, o Monstro da Fazenda Água Verde se encontra exposto na biblioteca municipal da cidade. A explicação dada, na época, sobre o medonho é que teria acontecido, provavelmente, a coincidência de o jacaré ter abocanhado um bode inteiro, daqueles de chifres grandes, que ficaram expostos, por um longo tempo, até caírem. Na minha próxima viagem ao Ceará – não sei quando – pretendo visitar a cidade de Palmácia, no maciço de Baturité, e a Biblioteca Municipal, para fotografar o Monstro da Fazenda Água Verde. E, quem sabe, beber – no tempo – uma cachaça, da boa.

João Scortecci