Nunca fiz terapia. Deveria, eu sei. Nunca fumei um cigarro de maconha: deveria, talvez. Nessa vida de quase 70 anos de idade muitas coisas ficaram perdidas no caminho do tempo. As razões? Muitas. Quando completei 60 anos de idade, no ano de 2016, dei uma tremenda festa no restaurante Rubaiyat, em São Paulo. Na época, lembro bem, listei numa planilha - depois apaguei - o que, então, iria ficar pendente para outras vidas, outras encadernações. Frustrante! Precisaria de mil anos para realizar todos os meus sonhos primitivos e selvagens. Para quem não sabe, desconfio do futuro: insignificante, cruel, chato, sem cheiro, sem toque, sem gosto na boca, igual chiclete vencido. Dessa vida, muitas verdades: “Queria ter aceitado / As pessoas como elas são / Cada um sabe a alegria / E a dor que traz no coração.” (Epitáfio, Titãs, 2001). Na verdade - todos nós - somos sofás boiando em enchente, perdidos, sem direção, cachorros que caem do caminhão de mudança - tristes e abandonados - e títulos de livros de autoajuda, que prometem o céu, com pouco ou nenhum esforço, mas não nos salvam do inferno de Dante. Acordei no horário de sempre: cutuquei o galo da hora - ele não gostou - e comecei, então, ler um artigo interessante sobre Pensamentos Intrusivos. Na chamada, um alerta: “Somos o reflexo do que pensamos!”. No dicionário "Intrusivo" refere-se a algo ou alguém que se intromete de maneira indesejada ou inadequada, geralmente em assuntos ou espaços alheios. Tipo que está na moda e atende pelo codinome de influenciador, algo assim. No contexto psicológico, pensamentos intrusivos são aqueles que surgem involuntariamente na mente, muitas vezes de forma perturbadora ou indesejada. Salvei o texto no bloco de notas. Ontem instalei no meu celular o ChatGPT. “Faça uma pergunta!” Quase uma ordem. Resolvi, então, praticar um pensamento intrusivo. Escrevi “Quero um crônica no estilo do escritor cearense João Scortecci!”. Não demorou. Foi rápido. Claro, respondeu. Escreveu: “No calor que insiste em não ceder, Ceará revela seu espírito num gole de Brahma. O velho bar na esquina, testemunha silenciosa de tantas histórias, recebe os frequentadores como um abrigo, um refúgio de rotina e poesia (...)” E no final, algo melancólico. Transformou o meu Ceará num breu. Pensei: encontrei, finalmente, um exemplo de pensamento intrusivo. Perturbador e indesejado. Obrigado! ChatGPT, você é o máximo! Um detalhe, insignificante, talvez: não bebo cerveja Brahma. Nunca fiz terapia. Deveria, eu sei. No final do texto sobre Pensamentos Intrusivos, uma nota explicativa: “Pensamentos intrusivos podem aparecer em qualquer um, mas a forma como lidamos com eles determina se há algum transtorno...”. Entendi o recado. O problema sou eu. Isso explica - talvez - guardar no coração um olhar distorcido da vida. Uma poesia qualquer: do presente, do passado, nunca do futuro.
João Scortecci
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