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CACOETES: NÃO HÁ NADA RUIM QUE NÃO POSSA PIORAR

O tique nervoso ("cacoete") é um movimento súbito, rápido, inesperado e repetitivo. Os tiques podem persistir durante toda uma vida – é o meu caso - e ser um obstáculo profissional e social para uma pessoa. O movimento decorre de contrações musculares que podem se manifestar de várias formas, tais como: piscar sem propósito, fazer careta, torcer o pescoço e fungar o nariz. Listei quatro deles – a lista é grande – apenas aqueles que me afetam até hoje, desde a adolescência. O primeiro deles – torcer o pescoço – apareceu quando eu tinha pouco mais de dez anos de idade. Mamãe, então, levou-me ao médico, um renomado especialista em cacoetes. Um curador de cacoetes! Algo assim. Quando entramos no consultório, percebi, de imediato, que o médico tinha um cacoete, deveras interessante. Para quem não sabe cacoete pega, igual vírus. Confesso: pensei em “levar” ou “compartilhar”, depois, pensando melhor: desisti. O médico abanava os braços como uma ave, batia os dois braços, mais o direito, tentando – talvez - alçar voo. Mamãe Nilce – assustadíssima – quis dar meia volta. Eu que insisti e pedi para ficarmos. Gostei dele! Mamãe, então, listou o meu histórico de cacoetes. Nem precisava: eu já havia torcido o pescoço meia dúzia de vezes, e ele – Dr. Maurílio – batido asas, três ou quatro vezes, no mínimo. Mamãe Nilce falou feito uma matraca, sem parar, nervosa. Uma pilha. Depois, cansou. Calou-se. Dr. Maurílio, então, pacientemente, examinou-me: olhos, nariz, ouvidos, boca, língua e pescoço. Disse: “Aparentemente está tudo em ordem com o moço”. Explicando: “Os cacoetes são um mistério. O tempo dirá o futuro!” Dr. Maurílio recomendou-me, então, praticar esporte, dormir 8 horas por dia, boa alimentação e manter a cuca fresca. Mamãe Nilce perguntou: “Nenhum remédio?” “Não.” Até hoje os tiques não sumiram, e mais: outros três apareceram do nada, antes de completar 20 anos de idade. Na saída do consultório mamãe Nilce protestou: “Dr. Maurílio, o cacoete do menino é muito feio: fica levantando os ombros, torcendo a cabeça, estalando o pescoço, horrível.” Dr. Maurílio, sabiamente, batendo asas, já impaciente com minha mãe, aconselhou-nos: “D. Nilce, o cacoete do menino não é dos piores.”. Um conselho de quem convive com o problema: “Livrar-se de um cacoete é sempre algo perigoso!”. “Corre-se o risco de trocar um cacoete aceitável por outro muito pior!” Sentenciou. “Veja o meu caso: eu estalava os dedos e puxava as orelhas. De tanto a minha mãe implicar, comecei,  do nada, da noite para o dia, a bater os braços, feito uma galinha pondo ovos.” Justificou. Mamãe puxou-me pelo braço – à força –, concluindo, aos céus: "Esse médico é louco!" E fomos embora, pisando forte. Lendo sobre o assunto a explicação é que os cacoetes não têm origem apenas em fatores psicológicos. Existe uma associação entre fatores genéticos e psíquicos e, na maioria das vezes, costumam surgir associados a sintomas de ansiedade, depressão, problemas de atenção, concentração e hiperatividade. Hoje, quase 60 anos depois daquela consulta, administro – carinhosamente – os meus quatro cacoetes: piscar os olhos, fazer careta, torcer o pescoço e fungar o nariz. Gosto deles! Desde então, sigo, religiosamente, os conselhos do Dr. Maurílio, um especialista entendido em cacoetes: “Não há nada tão ruim que não possa piorar.”

João Scortecci