No Ceará, “potoca” significa mentira, lorota, história mal contada. Um mentiroso é um potoqueiro. No início do século XX, de 1904 a 1920, a Praça do Ferreira – localizada no centro de Fortaleza, capital do estado – era o ponto de encontro preferido de todo fortalezense. Numa área de 7.603 metros quadrados, comerciantes, empresários, intelectuais e desocupados, reuniam-se à sombra de um imenso cajueiro botador, que dava frutos o ano inteiro. A folia começou no ano de 1904, no dia 1º. de abril – data conhecida mundialmente como o Dia da Mentira – quando o povo da cidade escolhia, pelo voto, o maior mentiroso do ano. O pobre do cajueiro era quem levava a pior: no seu tronco e galhos era pregado um cartaz com a mentira - nua e crua - e o nome do potoqueiro. A maior mentira, lorota ou história mal contada, depois da apuração dos votos, ganhava destaque nos cafés e bares do centro e até nos jornais da cidade. A figura do “Cajueiro da Mentira” ganhou fama e passou a ser um pesadelo para os enganadores, trapaceiros, desonestos e principalmente para os políticos mentirosos. O Cajueiro da Mentira ficava ao lado da hoje “Coluna da Hora”, torre com relógio no coração da praça. A folia acabou quando o prefeito Godofredo Maciel, anunciando uma remodelagem da praça, demoliu os cafés e, na calada da noite, mandou cortar o cajueiro botador. Hoje quem visita a Praça do Ferreira encontra, defronte ao prédio da Caixa Econômica Federal, uma placa com a história do cajueiro botador. O nome Praça do Ferreira – oficialmente declarada Marco Histórico e Patrimonial de Fortaleza, pela lei municipal n. 8.605, de 20 de dezembro de 2001 – foi dado em homenagem ao Boticário Ferreira (Antônio Rodrigues Ferreira de Macedo, 1800 – 1859), político, farmacêutico e militar fluminense, que, em 1871, quando era presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, promoveu uma reforma na área e urbanizou o espaço. No Ceará, quando uma pessoa conta uma mentira cabeluda, a outra logo diz: “Essa potoca eu vou pregar no cajueiro botador!”.
João Scortecci