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VARGAS E A POLÍTICA LINGUÍSTICA – PROIBIDO FALAR ALEMÃO, ITALIANO E JAPONÊS

Durante a ditadura do Estado Novo (1937 a 1945), o Brasil passou por um processo de supervalorização do nacionalismo, movimento liderado pelo então Presidente da República, Getúlio Vargas (Getúlio Dornelles Vargas, 1882-1954), como forma de fortalecimento do centralismo de poder político do Estado brasileiro. Nesse processo, “nasceu” a noção varguista de “crime idiomático”, cujos alvos principais foram os idiomas Italiano, Alemão e Japonês. Esse movimento de nacionalização linguística intensificou-se no campo educacional a partir de 1938, por meio de reforma do ensino que obrigou todas as escolas do país a ensinarem o Português como único idioma. As instituições de ensino foram obrigadas a contratar somente professores brasileiros e a adotar e propagar apenas nomes de figuras brasileiras. Foi vetado qualquer curso de língua estrangeira para menores de 14 anos e instituiu-se o ensino de educação moral e cívica. Coube ao Exército brasileiro a “humilhante” obrigação de fiscalizar e punir os infratores com o rigor da lei. Há registros de revolta e indignação na tropa. A censura instituída por Vargas passou a restringir a presença da imprensa estrangeira no país. As editoras e gráficas brasileiras foram proibidas de ter colaboradores estrangeiros em seus quadros e, também, impedidas de publicar material bilíngue, incentivando-se o nacionalismo ufanista. Nomes de ruas, clubes de futebol (Palmeiras, Cruzeiro e outros), lojas, gráficas e jornais (como a Revista PAN, do meu avô materno, José Scortecci) foram pressionados a mudar de nome. (Aqui, um parêntese oportuno: foi o editor José Scortecci, quem, em maio de 1940, publicou “Triunfo”, conto de estreia da escritora de origem ucraniana, Clarice Lispector.) Muitos sofreram perseguição e ameaças. Muitos crimes foram cometidos. Meu avô materno – italiano de Arezzo, Toscana – depois que sua gráfica “Novidades”, que imprimia a Revista PAN, foi alvo de incêndio criminoso, mudou-se para a cidade de Dois Córregos, interior de São Paulo, e adotou o codinome de “Nem”. A perseguição política – no início e discretamente – focou os judeus, mas, a partir de 1942, quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, italianos, alemães e japoneses passaram a ser o principal alvo do Estado brasileiro. Os estrangeiros tiveram seus direitos restringidos, passando a necessitar de uma série de documentos para transitar pelo país. Jornais, revistas e livros, que mantinham a memória da imigração, foram apreendidos e fechados. Há registros de gráficas e editoras que foram fechadas ou obrigadas a ser vendidas. Poucas resistiram. O Estado brasileiro passou a incentivar a violência contra teuto-brasileiros e imigrantes da Alemanha, Itália e Japão. Igrejas estrangeiras foram atacadas e incendiadas. Grupos tradicionais italianos foram obrigados a trocar de identidades, e bairros de imigrantes japoneses tiveram sua memória apagada com a destruição de livros, arquivos e fotos. Bibliotecas inteiras – nos estados de São Paulo e Paraná – foram “enterradas”, e muitos de seus acervos acabaram, infelizmente, perdidos. Em 1942, um submarino alemão realizou seis ataques a navios brasileiros, matando 877 brasileiros, entre civis e militares. A comoção nacional gerada pela agressão abalou a neutralidade do governo de Getúlio Vargas – nitidamente simpatizante do nazismo de Hitler – e, em 22 de agosto de 1942, o Brasil declarou guerra contra a Alemanha e a Itália.

01.03.2022