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IPUEIRAS, GERARDO E A “HERMANDAD DE LA ORQUÍDEA”

O poeta, ficcionista, político, tradutor, ensaísta e biógrafo, Gerardo Mello Mourão (Gerardo Majella Mello Mourão, 1917-2007), nasceu em Ipueiras (Microrregião de Ipu), no estado do Ceará. O topônimo “Ipueiras”, de origem tupi-guarani, é formado por “y”(“água”), “puera” (“que já foi e não é mais”) e significa “lugar raso onde se acumula água”, “rio que corria e já não corre”. Gerardo Mello Mourão – escritor premiado – é considerado figura-chave da literatura nacional e também da lusófona. Suas obras mais famosas são “Invenção do Mar” (Record, 1998), com a qual recebeu o Prêmio Jabuti, e a trilogia “Os Peãs” (Record), formada pelos livros “O País dos Mourões” (1963), “Peripécias de Gerardo” (1972) e “Rastro de Apolo” (1977). Sua vida foi marcada por inúmeras prisões, dado seu envolvimento com movimentos ideológicos do século XX. Em sua juventude, aderiu ao integralismo e, mais tarde, foi acusado de colaborar com o comunismo. Durante a ditadura de Getúlio Vargas, foi preso 18 vezes. Em 1942, acusado de colaborar com nazistas, foi condenado à morte, depois à prisão perpétua, pena reduzida a 30 anos, dos quais cumpriu menos de seis, de 1942 até 1948. Foi por duas vezes deputado federal, eleito pelo estado de Alagoas, e teve seus direitos políticos cassados em 1969 (Ato Institucional nº 5), pelo Regime Militar. Com Abdias do Nascimento, Godofredo Iommi, Efrain Bó, Raul Young e Napoleón López, Gerardo Mourão formou uma aliança poética chamada “La Santa Hermandad de la Orquídea”. Tinham como maior inspiração o escritor italiano Dante Alighieri (1265-1321) e, por isso, adotaram o lema: “Ou Dante ou nada”.

Trecho do discurso de Gerardo Mello Mourão ao receber o título de “Doutor Honoris Causa” pela Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, no dia 25 de maio de 1993:

“Pois, éramos seis. Fomos armados cavaleiros quando aquele grupo de adolescentes, numa praça de Buenos Aires, resolveu queimar em praça pública tudo quanto até então escrevera, num pacto que se chamou ‘Pacto del Victoria’, do nome do local em que nascera. Todo o compromisso do pacto foi escrito numa única linha: - ‘Ou Dante ou nada’. Por isso, queimaram-se todos os versos da ‘juvenilia’. Não teríamos o direito de escrever o já escrito, de dizer o já dito. A rompante legenda adolescente nos sagrou cavaleiros da Senhora Poesia, da Senhora Musa. Passamos a chamar-nos por um nome secreto. Éramos a ‘Santa Hermandad de la Orquídea’. A guilda órfica navegou todos os continentes e tentou lavrar todas as glebas do saber e do fazer poético (...). Aqui estou também eu: ‘ego poeta’. Pois, ‘poeta sum’."

09.03.2022